quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Agni Parthene



Olá amigos!

Abaixo, compartilho com vocês o belíssimo hino "Agni Parthene" em honra da Mãe de Deus, segundo tradução que fiz. Podem acompanhá-lo com legendas neste link:
http://www.overstream.net/view.php?oid=s1apacm3n3r8


Ó Virgem Pura e Rainha,
Imaculada, Theotokos!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Mãe Virgem e Rainha,
Manto Orvalhado cobre-nos!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Ó Altíssima, mais que os céus,
ó Luminosa, mais que o sol!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Ó deleite dos santos virginais,
maior que os celestiais!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Ó luz dos céus mais brilhante,
mais pura e radiante!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Ó mais Santa e angelical,
ó Santíssimo altar celestial!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Maria Sempre Virgem,
Senhora da Criação!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Ó Imaculada Noiva Virgem,
ó Puríssima Nossa Senhora!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Maria, Noiva e Rainha,
Fonte da nossa alegria!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Venerável Virgem Donzela,
Santíssima Mãe e Rainha!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
És mais alta em plena glória,
Mais venerável que os Querubins,
Alegra-te, Noiva Inesposada!
que toda a hoste incorpórea!
mais gloriosa que os Serafins!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Alegra-te hino dos arcanjos,
Alegra-te música dos anjos!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Alegra-te, canto dos Querubins,
Alegra-te canto dos Serafins!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Alegra-te, paz e alegria, alegra-te,
Alegra-te, porto da salvação!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Do Verbo santo, quarto nupcial;
Flor, fragrância da Incorrupção!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Alegra-te, deleite do Paraíso,
Alegra-te, Vida Imortal!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Alegra-te, Árvore da Vida,
e Fonte da Imortalidade!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Imploro-te, ó Rainha,
eu te suplico!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Peço-te ó Rainha da Criação,
imploro tua benção!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Ó Virgem Pura Venerável,
ó Santíssima Senhora
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Com fervor eu te suplico,
ó Templo Sagrado!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Percebe-me, ajudai-me,
livra-me do inimigo!
Alegra-te, Noiva Inesposada!
Intercede por mim
para que eu tenha a Vida Eterna!
Alegra-te, Noiva Inesposada!

Princípios Básicos da Atitude com os Não-Ortodoxos


Um documento de orientação do Patriarcado de Moscou
Original em russo no site oficial do Patriarcado Russo: http://www.mospat.ru
Tradução para o português: Fabio Lins (da versão em inglês publicada no site da Igreja Ortodoxa Russa nos EUA: http://www.russianchurchusa.org
  1. A unidade da Igreja e o pecado das divisões humanas
  2. A busca pela restauração da unidade
  3. Testemunho ortodoxo perante o mundo não-ortodoxo
  4. Diálogo com os não-ortodoxos
  5. Diálogo multilateral e participação no trabalho de organização inter-cristãs.
  6. Relações da Igreja Ortodoxa Russa com os não-ortodoxos em seu território canônico
  7. Tarefas internas em relação ao diálogo com as confissões não-ortodoxas
  8. Conclusão

1. A unidade da Igreja e o pecado das divisões humanas

1.1 - A Igreja Ortodoxa é a verdadeira Igreja de Cristo estabelecida pelo próprio Nosso Senhor e Salvador; é a Igreja confirmada e sustentada pelo Espírito Santo, a Igreja sobre a qual o próprio Salvador disse: "Eu vou construir minha igreja; e as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mt. 16:18). Ela é a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, a guardiã e provedora dos Santos Sacramentos por todo o mundo, "o pilar e a base da verdade" (1 Tim 3:15). Ela porta a total responsabilidade das proclamações das verdades do evangelho de Cristo, assim como todo o poder de testemunhar "a fé que um dia foi entregue aos santos" (Judas 3)
 
1.2 - A Igreja de Cristo é uma e única (S. Cipriano de Cartago, Sobre a Unidade da Igreja). A Unidade da Igreja, o Corpo de Cristo, é baseada no fato de que ela possui uma só cabeça, Nosso Senhor Jesus Cristo (Ef. 5:23). Também que atua nela um só Espírito doador da vida ao corpo desta mesma Igreja e que este Espírito une todos os membros desta Igreja com sua cabeça, o Cristo.
 
1.3 - A Igreja é a unidade de uma "nova humanidade em Cristo". Por Sua Encarnação, o Filho de Deus "reiniciou como nova a longa linha de seres humanos" (St. Irineus de Lyon, Adversus Haereses, 3,18), criando um novo povo portador da graça, a posteridade espiritual do Segundo Adão. A unidade da Igreja está acima de qualquer união humana ou deste mundo, pois foi dada de cima como um dom divino e perfeito. Os membros da Igreja estão unidos em Cristo como vinhas, enraizados Nele e unidos em uma só vida eterna e espiritual.
 
1.4 - A unidade da Igreja supera todas as barreiras e fronteiras, incluindo diferenças sociais, lingüísticas e raciais. A mensagem da salvação deve ser proclamada para todas as nações de modo a trazê-las a um só aprisco, uni-las pelo poder da fé e da Graça do Espírito Santo (Mt. 28:19-20; Mc 16:15; Ats. 1:8).
 
1.5 - Na Igreja, a inimizade e a alienação são superadas, e a humanidade, dividida pelo pecado, une-se em amor como imagem da Trindade consubstancial.
 
1.6 - A Igreja é a unidade do Espírito nos laços da paz (Ef. 4:3), a plenitude de ininterruptas experiências espirituais e vida cheia de graça. "Onde está a Igreja, lá está o Espírito de Deus; e onde o Espírito de Deus está, ali está a Igreja, e todos os tipos de graça" (St. Irineus de Lyons, Adversus Haereses, 3,24). Esta unidade da vida cheia de graça é o fundamento da unidade e imutabilidade da fé da Igreja. Sempre e sem mudar "o Espírito Santo ensina através dos Santos Pais e Doutores. A Igreja Católica não transgride nem mesmo erra ou pronuncia falsidades ao invés da verdade: pois o Espírito Santo, que sempre age através dos fiéis e servos Pais e Doutores da Igreja, a guarda contra todo erro." (A Carta dos Patriarcas Orientais).
 
1.7 - A Igreja é universal, mas ela existe no mundo na forma de várias Igrejas Locais. Isto não diminui a unidade da Igreja de modo algum. "A Igreja, iluminada com a luz do Senhor, ilumina todo o mundo com seus raios, ainda assim é uma luz que difundida por toda parte e a unidade do corpo não é quebrada. Ela estende seus galhos, carregados de frutos, sobre todo o mundo. Seus afluentes chegam livremente às regiões mais distantes, e ainda assim, através de tudo isto, seu Cabeça é um, sua origem é uma e ela é uma só mãe, rica na abundância de seus frutos" (S. Cipriano de Cartago, Da Unidade da Igreja).
 
1.8 - A Igreja está inseparavelmente unida com o Sacramento da Eucaristia, no qual os fiéis, partilhando o uno Corpo de Cristo, tornam-se em verdade e realidade unidos com o Corpo uno e católico, no mistério do amor de Cristo, na força transformadora do espírito. "De fato, se todos compartilhamos um pão, então somos um corpo" ( 1 Cor. 10:17), pois Cristo não pode ser dividido e é por isto que a Igreja é chamada o Corpo de Cristo e cada um de nós é um "membro em particular", de acordo com o entendimento do Apóstolo Paulo (1 Cor. 12:27)" (S. Cirilo de Alexandria).
1.9 - A Igreja una, santa e católica é a Igreja Apostólica. Através do sacerdócio divinamente instituído, os dons do Espírito Santo são comunicados aos fiéis. A sucessão apostólica da hierarquia, começando nos Santos Apóstolos, é a base da comunhão e da unidade da vida cheia de graça. Todo desvio da legítima autoridade da Igreja é um desvio do Espírito Santo, do próprio Cristo. "Tenham certeza que todos seguem o Bispo, assim como Jesus Cristo seguia o Pai, e sigam o presbitério como seguiriam os apóstolos; e reverenciem os diáconos, como sendo instituídos por Deus.Que nenhum homem faça algo relacionado com a Igreja sem o bispo. Onde quer que esteja o bispo, que lá esteja também a multidão de pessoas, assim como onde Jesus Cristo está, lá está a Igreja Católica." (S. Inácio de Antioquia, Aos Esmírnios, 8).
 
1.10 - É apenas através da relação com uma comunidade em particular que cada membro da igreja realiza sua comunhão com toda a Igreja. Ao quebrar relações canônicas com sua igreja local, o cristão fere sua unidade plena de graça com todo o corpo da Igreja, cortando-se para fora dela. Todo pecado afasta a pessoa da Igreja em maior ou menor grau, mas não a separa dela completamente. Na compreensão da Igreja nos primeiros séculos, a excomunhão era a exclusão da assembléia eucarística. Os excomungados, porém, nunca eram readmitidos à comunhão da Igreja através de re-batismo. A fé na natureza indelével do batismo é confessada no Credo Niceno-Constantinopolitano: "Creio em um só batismo para a remissão dos pecados." O Cânone Apostólico 47 diz: "que o bispo ou presbítero que batizar novamente alguém que recebeu corretamente o batismo seja deposto."
 
1.11 - Deste modo a Igreja dá testemunho de que aqueles que foram excomungados retêm um certo "selo" de pertencimento ao povo de Deus. Ao aceitá-los de volta, a Igreja traz de volta à vida aqueles que já haviam sido batizados pelo Espírito para ser um só corpo. Mesmo enquanto excomungando um de seus membros, selado por ela no dia de seu batismo, a Igreja tem esperança de seu retorno. Ela considera a própria excomunhão como um meio de renascimento espiritual de tal pessoa.
 
1.12 - Ao longo dos séculos, o mandamento de Cristo da unidade tem sido repetidamente violado. Contrariamente à unicidade católica desfrutada por Deus, diferenças e divisões surgiram na Cristandade. A Igreja sempre demonstrou uma atitude firme e embasada em relação àqueles que desafiaram a pureza de sua fé salvadora e àqueles que provocaram divisões e confusões na Igreja: "Por que há lutas e tumultos e divisões e cismas e guerra entre vocês? Não temos todos um Deus e um Cristo? Não é um só Espírito de graça vertido sobre nós? E não é um só chamado para o Cristo? Por que dividimos e rasgamos em pedaços os membros de Cristo, e criamos luta contra nosso próprio corpo, e alcançamos um tal nível de loucura que esquecemos que somos membros uns dos outros?" (S. Clemente de Roma, 1a. Epístola aos Coríntios, 46).
 
1.13 - Durante toda a história Cristã, não apenas cristãos individuais mas comunidades cristãs inteiras saíram da unidade com a Igreja Ortodoxa. Algumas destas pereceram no curso da história, enquanto outras sobreviveram aos séculos. As divisões do primeiro milênio mais fundamentais, que sobreviveram até hoje, se deram depois dos 3o e 4º Concílios Ecumênicos, quando algumas comunidades cristãs se recusaram a aceitar as decisões destes concílios. Como resultado, a Igreja Assíria do Oriente e as igrejas não-calcedonianas, incluindo as igrejas copta, armênia, síria-jacobita, etíope e de Malabar, continuam separadas até hoje. No segundo milênio, a separação da igreja de Roma foi seguida por divisões internas da Cristandade ocidental, realizadas pela Reforma, que resultou na contínua formação de diferentes denominações cristãs fora da comunhão com a sé romana. Houve também rupturas com unidades locais da Igreja Ortodoxa, incluindo com a Igreja Russa.
 
1.14 - Ilusões e heresias são resultado do desejo das pessoas de afirmarem-se, colocarem-se a parte. Toda divisão e cisma implica uma certa medida de afastamento da plenitude da Igreja. Uma divisão, mesmo que não aconteça por motivos doutrinários, é uma violação do ensino ortodoxo sobre a natureza da Igreja e leva finalmente a distorções da fé.
 
1.15 - A Igreja Ortodoxa, através das bocas dos santos pais, afirma que a salvação pode ser obtida apenas na Igreja de Cristo. Ao mesmo tempo, entretanto, as comunidades que se separaram da Ortodoxia nunca foram vistas como completamente desprovidas da graça de Deus. Qualquer quebra de comunhão com a Igreja inevitavelmente leva a uma erosão de sua vida plena em graça, mas nem sempre a sua perda completa nessas comunidades separadas. É por isto que a Igreja Ortodoxa não recebe os que vêm até ela de comunidades não-ortodoxas apenas através do sacramento do batismo. A despeito da ruptura da unidade, permanece uma fraternidade incompleta que serve de apelo ao retorno à unidade na Igreja, a unicidade e plenitude católicas.
 
1.16 - O status eclesiástico dos que se separaram da Igreja não se entrega a definições fáceis. Em uma Cristandade dividida, ainda existem algumas características que a fazem ser uma: a palavra de Deus, a fé em Cristo como Deus e Salvador vindo em carne (I Jô 1:1-2; 4:2,9) e a devoção sincera.
 
1.17 - A existência de vários ritos de recepção (através de batismo ou crisma ou arrependimento) demonstra que a Igreja Ortodoxa se relaciona com as diferentes confissões não-ortodoxas de modos diferentes. O critério é o grau de preservação da fé e ordem da Igreja, assim como as normas da vida espiritual cristã, em uma dada confissão. Ao estabelecer vários ritos de recepção, porém, a Igreja Ortodoxa não avalia a extensão com a qual a vida plena em graça foi preservada ou distorcida em uma confissão não-cristã, considerando isto um mistério da providência e julgamento de Deus.
 
1.18 - A Igreja Ortodoxa é a verdadeira Igreja na qual a Santa Tradição e plenitude da graça salvadora de Deus foram preservadas intactas. Ela preservou integralmente e com pureza a herança dos Apóstolos e dos Santos Padres. Ela está consciente que seus ensinamentos, estruturas litúrgicas e práticas espirituais são as mesmas das proclamações apostólicas e da Tradição da Igreja inicial.
 
1.19 - A Ortodoxia não é um atributo nacional ou cultural da Igreja Oriental. A Ortodoxia é uma qualidade interior da Igreja. É a preservação da verdade doutrinal, da ordem hierárquica e litúrgica e dos princípios da vida espiritual os quais, imutável e ininterruptamente, tem sido apresentados pela Igreja desde a Era Apostólica. Não se deve ceder à tentação de idealizar o passado ou ignorar seus problemas e falhas que marcaram sua história. Acima de tudo, os grandes Pais da Igreja mesmo dão o exemplo de auto-crítica espiritual. A história da Igreja nos séculos IV-VIII conheceu vários casos nos quais uma significativa proporção de fiéis caíram em heresia. Mas a história também revela que a Igreja lutou dentro de limites morais contra as heresias que estavam infestando seus filhos.
Também revela que houve casos em que os que haviam se afastado foram curados da heresia, experimentaram o arrependimento e retornaram ao seio da Igreja. A trágica experiência de mal-entendidos emergindo da própria Igreja e da luta com eles durante a época dos concílios ecumênicos ensinou aos filhos da Igreja Ortodoxa a serem vigilantes. A Igreja Ortodoxa, ao mesmo tempo que humildemente testemunha que preservou a Verdade, relembra todas as tentações que se elevaram durante sua história.
 
1.20 - Devido à violação do mandamento para a unidade que levou à tragédia histórica do cisma, os cristãos divididos, ao invés de serem um exemplo de unidade no amor em imagem da Santíssima Trindade, se tornaram fonte de escândalo. As divisões cristãs se tornaram uma ferida aberta e sangrando no Corpo de Cristo. A tragédia das divisões se tornou uma séria e visível distorção da universalidade cristã, um obstáculo para o testemunho de Cristo por parte da Igreja no mundo.
Pois a realidade deste testemunho da Igreja de Cristo depende de um considerável grau de sua habilidade em estar à altura das verdades por ela pregadas na vida e prática das comunidades cristãs.

2. A Busca pela restauração da unidade

2.1 - O objetivo essencial das relações entre a Igreja Ortodoxa e as outras confissões cristãs é a restauração da unidade entre os cristãos e que é exigida de nós por Deus (S.Jo. 17:21). A unidade é parte do plano de Deus e pertence a própria essência da cristandade. É uma tarefa da mais alta prioridade para a Igreja Ortodoxa em todos os níveis de sua vida.
 
2.2 - A indiferença para com esta tarefa ou sua rejeição é um pecado contra o mandamento de Deus pela unidade. De acordo com S. Basílio, o Grande, "todos os que estão realmente e verdadeiramente servindo ao Senhor devem ter este objetivo – trazer de volta à união as igrejas que foram separadas umas das outras" (Cartas, 114).
 
2.3 - Ainda assim, embora reconhecendo a necessidade de restaurar nossa unidade cristã quebrada, a Igreja Ortodoxa assevera que a unidade genuína só é possível no seio da Igreja Uma, Santa, Católica e Apostólica. Todos os outros "modelos" de unidade, se nos afiguram inaceitáveis.
 
2.4 - A Igreja Ortodoxa não pode aceitar a pressuposição de que a despeito das divisões históricas, não teria sido quebrada a unidade profunda e fundamental entre os cristãos e que a Igreja deveria ser entendida como co-extensiva com todo o "mundo cristão". Também não pode aceitar que a unidade cristã existiria através das barreiras denominacionais e que a desunião das igrejas pertenceria apenas ao nível imperfeito das relações humanas. De acordo com tal concepção, a Igreja permaneceria uma, mas tal unicidade não estaria, hoje, suficientemente manifesta em um forma visível. Neste modelo de unidade, a tarefa dos cristãos é entendida não como uma restauração de uma unidade perdida, mas como a manifestação de uma unidade existente. Este modelo repete o ensino da "Igreja invisível" que surgiu durante a Reforma.
 
2.5 - É também totalmente inaceitável a assim chamada "Teoria de Galhos", que está relacionada com a concepção mencionada anteriormente e afirma como normal e mesmo providencial a existência da Cristandade na forma de "galhos" ou "ramos" distintos.
 
2.6 - A Ortodoxia não pode aceitar que as divisões cristãs são causadas pelas imperfeições inevitáveis da história cristã e que tais divisões existem apenas na superfície histórica e podem ser curadas ou superadas através de comprometimentos entre denominações.
 
2.7 - A Igreja Ortodoxa não pode reconhecer "a igualdade das denominações". Aqueles que decaíram da Igreja não podem reunir-se com ela em seu presente estado. As diferenças dogmáticas existentes devem ser superadas, e não apenas contornadas, e isto significa que o caminho da unidade se encontra no arrependimento, conversão e renovação.
 
2.8 - É também inaceitável a idéia de que todas as divisões são essencialmente trágicos mal-entendidos, que as discordâncias parecem irreconciliáveis apenas por causa de uma falta de amor mútuo e de uma relutância em se dar conta de que, a despeito de todas as diferenças e dessemelhanças, existe suficiente harmonia e unidade no "que é mais importante". Nossas divisões não podem ser reduzidas a paixões humanas, egoísmos e muito menos a circunstâncias culturais, sociais e políticas que são secundárias do ponto de vista da Igreja. Também é inaceitável o argumento de que a Igreja Ortodoxa difere de outras comunidades cristãs com as quais não tem comunhão apenas em questões secundárias. As divisões e diferenças não podem ser reduzidas a variados fatores não-teológicos.
 
2.9 - A Igreja Ortodoxa também rejeita a pressuposição de que a unidade da Cristandade só pode ser restaurada através do serviço cristão em comum com o mundo. A unidade cristã não pode ser restaurada através de concordâncias em questões terrenas, pois neste caso os cristãos estariam unidos no que é secundário mas ainda iriam diferir no que é fundamental.
 
2.10 - É inadmissível introduzir o relativismo no âmbito da fé, limitar a unidade na fé a um conjunto estreito de verdades necessárias de modo que além delas seja permitido "liberdade no que for duvidoso". Mesmo uma posição de tolerância com relação às diferenças na fé é inaceitável. Ao mesmo tempo, entretanto, não se deve confundir unidade na fé e a forma de sua expressão.
 
2.11 - A divisão da Cristandade é uma divisão na experiência da própria fé, e não apenas nas formulações doutrinais. Unidade doutrinária formal não exaure o que se quer dizer por unidade da Igreja, embora seja uma de suas condições essenciais.
 
2.12 - A unidade da Igreja é, primeiramente, uma unidade e comunhão nos Sacramentos. Uma verdadeira comunhão nos sacramentos, entretanto, não tem nada a ver com a prática assim chamada da "inter-comunhão". A unidade pode ser realizada apenas em uma vida e experiência plenas de graça e idênticas, na fé da Igreja, na plenitude de sua vida sacramental no Espírito Santo.
 
2.13 - A restauração da unidade cristã em fé e amor só poderá vir de cima, como um dom do Deus Todo-Poderoso. A fonte da unidade está em Deus, e, portanto, meros esforços humanos para restaurá-la serão em vão, pois "Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam" (Sl. 127:1). Apenas nosso Senhor Jesus Cristo, O Qual nos deu o mandamento de sermos um, tem como nos dar o poder de realizarmos este mandamento, pois Ele é "o Caminho, a Verdade e a Vida" (S. Jo. 14:6). A tarefa dos cristãos ortodoxos é de sermos co-trabalhadores com Deus na obra de salvação em Cristo. Como os santos pais disseram: Deus nos salva, mas não sem nós.

3. Testemunho Ortodoxo Perante o Mundo Não-Ortodoxo

3.1 - A Igreja Ortodoxa é a guardiã da Tradição e dos dons plenos de graça da Igreja dos primeiros séculos. Sua tarefa primeira em relação aos não-ortodoxos é, portanto, manter um testemunho contínuo e persistente que fará a verdade expressa nesta Tradição tornar-se compreensível e aceitável. De acordo com a III Conferência Pré-Conciliar Pan-Ortodoxa (1986):
 
«A Igreja Ortodoxa, em sua profunda convicção e consciência eclesiástica de ser a portadora e testemunha da fé e tradição da Igreja Santa, Una, Católica e Apostólica, firmemente crê ocupar um papel central em questões relacionadas à promoção da unidade cristã no mundo contemporâneo: É a missão e dever da Igreja Ortodoxa transmitir, em toda a sua plenitude, a verdade contida nas Santas Escrituras e na Tradição, a verdade que dá à Igreja seu caráter universal. A responsabilidade da Igreja Ortodoxa, assim como sua missão ecumênica referente à unidade cristã, foram expressas nos Concílios Ecumênicos.


Estes, em particular, enfatizaram a ligação indissolúvel existente entre a verdadeira fé e a comunhão sacramental. A Igreja Ortodoxa sempre buscou trazer as diferentes igrejas e confissões cristãs para uma busca conjunta pela unidade perdida dos cristãos, de modo que todos possam alcançar a unidade de fé.»
 
3.2 - A tarefa do testemunho ortodoxo é confiada a cada membro da Igreja. Os cristãos ortodoxos devem conscientizar-se claramente de que a fé que preservam e confessam tem um caráter global e universal. A Igreja não é chamada apenas a ensinar seus próprios filhos, mas também a testemunhar perante aqueles que a deixaram. "Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram falar? e como ouvirão, se não há quem pregue?" (Rom. 10:14). O dever do cristão ortodoxo é testemunhar a verdade que foi confiada à Igreja para sempre, já que, de acordo com S. Paulo, "nós somos cooperadores de Deus" (1 Cor. 3:9).

4. Diálogo com os Não-Ortodoxos

4.1 - A Igreja Ortodoxa russa tem mantido o diálogo teológico com cristãos não-ortodoxos por mais de dois séculos. Este diálogo tem se caracterizado pela combinação de uma abordagem dogmática fundamentada e amor fraternal. Este princípio foi formulado na "Resposta à Carta do Santo Sínodo do Patriarcado Ecumênico" (1903) como um método de diálogo teológico com os anglicanos e os vétero-católicos.
 
Considerando as confissões não-Ortodoxas, foi dito:
 
«Deve haver uma prontidão fraternal para ajuda-los por meio de explicações, consideração normal por seus melhores anseios, toda paciência possível quanto às suas perplexidades naturais dada a separação secular, mas, ao mesmo tempo, a confissão firme da verdade de nossa Igreja Universal como a única guardiã da herança de Cristo e a única arca salvadora da graça divina. Nossa missão referente a eles deve ser: sem contrapor-lhes obstáculos desnecessários para a união sendo inapropriadamente intolerante ou desconfiados, interpretar para eles nossa fé e imutável convicção de que apenas nossa Igreja Ortodoxa Oriental que preservou intacta e inteiramente a herança de Cristo, que é no presente a Igreja Universal, e assim demonstrar-lhes de fato o que eles devem considerar e decidir se realmente crêem que a salvação está ligada com a vida em Igreja e sinceramente desejam estarem unidos com ela».

 
4.2 - O que caracteriza os diálogos conduzidos pela Igreja Ortodoxa Russa com outras confissões cristãs é sua natureza teológica. A tarefa do diálogo teológico é explicar aos parceiros no diálogo a consciência eclesiológica da Igreja Ortodoxa, os fundamentos de sua doutrina, ordem canônica e tradição espiritual e desfazer perplexidades e estereótipos predominantes.
 
4.3 - Os representantes da Igreja Ortodoxa Russa conduzem diálogos com confissões não-ortodoxas com base na fidelidade à Tradição apostólica e patrística da Igreja Ortodoxa e aos ensinos dos concílios ecumênicos e locais. Qualquer concessão dogmática ou comprometimentos da fé estão excluídos. Nenhum documento ou acordo adotado em diálogos e debates teológicos é obrigatório para quaisquer igrejas ortodoxas até que seja adotado pela Igreja Ortodoxa como um todo.
 
4.4 - De uma perspectiva ortodoxa, o caminho da reunificação para os não-ortodoxos se encontra na transformação e cura de sua consciência e experiência dogmáticas. Seguindo esta linha, as questões discutidas na era dos concílios ecumênicos devem ser analisadas mais uma vez. Uma parte importante do diálogo com as confissões não-ortodoxas é o estudo da herança espiritual e teológica dos santos pais, as vozes da fé da Igreja.
 
4.5 - O testemunho não pode ser um monólogo, já que supõe a existência de ouvintes e portanto de comunicação. Diálogo implica em dois lados, uma abertura mútua para a comunicação, uma disposição para compreender, não apenas uma "boca aberta", mas também um "coração dilatado" (cf. II Cor. 6:11). Este é o porquê o problema da linguagem, compreensão e interpretação teológicas deve se tornar um dos pontos mais importantes da teologia ortodoxa com outras confissões.
 
4.6 - É gratificante e inspirador que o pensamento teológico não-ortodoxo, como expresso por seus melhores representantes, tem demonstrado um interesse sincero e profundo em estudar a herança patrística, a fé e a ordem da Igreja dos primeiros séculos. Ao mesmo tempo, deve-se admitir que entre a teologia ortodoxa e a não-ortodoxa ainda existem muitos problemas não resolvidos e diferenças de opinião.
 
Mais do que isso, mesmo existentes similaridades formais em muitos aspectos da fé não tratam de uma autêntica unidade, já que elementos doutrinais recebem interpretações diferentes em tradições teológicas diferentes.
 
4.7 - O diálogo com as confissões não-ortodoxas reacendeu a compreensão de que uma só verdade e norma católica pode ser expressa e corporificada em uma variedade de contextos culturais e lingüísticos. No curso do diálogo, é essencial que os teólogos ortodoxos sejam capazes de distinguir entre um contexto específico e um desvio real da plenitude católica. Também é necessário investigar a questão dos limites da diversidade dentro da tradição católica una.
 
4.8 - Centros de estudos conjuntos, grupos e programas devem ser estabelecidos dentro do diálogo teológico. É importante que conferências, seminários e encontros acadêmicos teológicos conjuntos, que o intercâmbio de delegações, publicações e informações, assim como projetos de publicações conjuntas ocorram regularmente. O intercâmbio de especialistas, professores e teólogos também é de grande significado.
 
4.9 - É especialmente importante para a Igreja Ortodoxa Russa enviar seus teólogos para os maiores centros acadêmicos de teologia não-ortodoxa. Também é necessário convidar teólogos não-ortodoxos para escolas teológicas e outras instituições educacionais da Igreja Ortodoxa Russa para estudarem teologia ortodoxa. As escolas teológicas da Igreja Ortodoxa Russa devem prestar mais atenção em seus currículos ao estudo dos progressos e resultados dos diálogos teológicos e às confissões não-ortodoxas.
 
4.10 - Ao lado dos apropriados temas teológicos, o diálogo deve também ser conduzido em uma larga escala de problemas envolvendo as relações entre a Igreja e o mundo. Entre as importantes áreas de desenvolvimento de relações com as confissões não-ortodoxas está o trabalho conjunto no serviço à sociedade. Em situações nas quais não haja conflito com a fé e a prática espiritual ortodoxas, programas conjuntos de educação religiosa e catecismo devem ser desenvolvidos.
 
4.11 - Os diálogos bilaterais conduzidos pela Igreja Ortodoxa Russa diferem de suas relações multilaterais e de sua participação em organizações inter-cristãs no sentido de que estruturam-se em tamanho e forma conforme ela considere mais adequado no momento. A régua e critério aqui é o sucesso do diálogo em si mesmo e a prontidão do parceiro em considerar a posição tomada pela Igreja Ortodoxa Russa em uma larga escala de problemas eclesiásticos e sociais e não apenas teológicos.

5. Diálogo Multilateral e participação no trabalho de organizações inter-cristãs

5.1 - A Igreja Ortodoxa Russa conduz diálogos com confissões não-ortodoxas não apenas bilateralmente mas também em um nível multilateral, enquanto também participa de delegações pan-ortodoxas e no trabalho de organizações inter-cristãs.
 
5.2 - Com respeito a sua participação em várias organizações cristãs, ela adere ao seguinte critério: A Igreja Ortodoxa Russa não pode participar em organizações cristãs nacionais ou internacionais nas quais a) as regras ou constituição exijam a renúncia da doutrina ou tradições da Igreja Ortodoxa; b) a Igreja Ortodoxa não tenha oportunidade de dar testemunho de ser a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica; c) os processos de tomada de decisão não levem em consideração a consciência eclesiológica da Igreja Ortodoxa; e (d) as regras e procedimentos façam a "opinião da maioria" ser obrigatória a seus membros.
 
5.3 - Os níveis e formas da participação da Igreja Ortodoxa Russa em uma organização cristã internacional devem levar em consideração sua dinâmica interna, planos, prioridades e natureza geral.
 
5.4 - A abrangência e extensão da participação da Igreja Ortodoxa Russa em uma organização cristã internacional é determinada pelas autoridades da Igreja com base em sua utilidade para a Igreja.
 
5.5 - Ao mesmo tempo em que enfatiza a grande importância do diálogo teológico e da discussão a respeito das normas de fé, ordem da Igreja e os princípios da vida espiritual, a Igreja Ortodoxa Russa, como outras Igrejas Ortodoxas locais, considera possível e benéfico participar no trabalho de várias organizações internacionais em esferas de serviço para o mundo tais como diaconia, serviço social e trabalhos pela paz. A Igreja Ortodoxa Russa mantém cooperação com várias denominações cristãs e organizações cristãs internacionais na tarefa de testemunho comum perante a sociedade secular.
 
5.6 - A Igreja Ortodoxa Russa mantém relações de trabalho no nível de associação ou cooperação com uma grande variedade de organizações cristãs internacionais, assim como com conselhos regionais e nacionais de igrejas e agências cristãs especializadas na diaconia, trabalho com juventude e em prol da paz.

6. Relações da Igreja Ortodoxa Russa com os não-ortodoxos em seu território canônico

6.1 - As relações da Igreja Ortodoxa Russa com as comunidades cristãs não-ortodoxas na CEI e nos estados bálticos deve ser realizada no mesmo espírito de cooperação fraternal com o qual a Igreja Ortodoxa trabalha com outras confissões tradicionais com fins de coordenar o trabalho social, promover harmonia social e por um fim ao proselitismo no território canônico da Igreja Ortodoxa Russa.
 
6.2 - A Igreja Ortodoxa Russa defende que a missão das confissões tradicionais é possível apenas se for efetuada sem proselitismo e sem ser às custas do "roubo" de fiéis, especialmente com a ajuda de benefícios materiais. As comunidades cristãs na CEI e nos países bálticos são conclamadas a unir seus esforços pela reconciliação e o reavivamento moral da sociedade e a levantar suas vozes na defesa da vida e dignidade humanas.
 
6.3 - A Igreja Ortodoxa traça uma distinção clara entre, de um lado as confissões não-ortodoxas que declaram sua fé na Santíssima Trindade e na natureza divino-humana de Jesus Cristo, e do outro as seitas que rejeitam doutrinas cristãs fundamentais. Ao mesmo tempo que reconhece o direito de cristãos não-ortodoxos testemunharem sua fé e de conduzirem educação religiosa entre os grupos populacionais que tradicionalmente fazem parte deles, a Igreja Ortodoxa é contra qualquer atividade missionária destrutiva da parte de seitas.

7. Tarefas internas em relação ao diálogo com as confissões não-ortodoxas

7.1 - Ao mesmo tempo que rejeitando pontos de vista que são errôneos segundo a doutrina ortodoxa, os ortodoxos são convocados a tratar com amor cristão aqueles que confessam tais pontos de vista. Na sua relação com os não-ortodoxos, os ortodoxos deveriam dar testemunho da santidade da Ortodoxia e da unidade da Igreja. Ao dar testemunho da Verdade, entretanto, os ortodoxos devem estar a altura deste testemunho: causar ofensa aos não-ortodoxos é inadmissível.
 
7.2 - É essencial dar aos membros da Igreja informação competente e confiável sobre o progresso, tarefas e prospectos dos contatos e diálogos da Igreja Ortodoxa Russa com as confissões não-ortodoxas.
 
7.3 - A Igreja condena aqueles que, utilizando informação inautêntica, deliberadamente distorcem a tarefa da Igreja Ortodoxa em seu testemunho perante o mundo não-ortodoxo e conscientemente caluniam as autoridades da Igreja, acusando-as de "traição" da Ortodoxia. Tais pessoas, que semeiam tentação entre os fiéis comuns, devem estar sujeitos a sanções canônicas. Concernente a isto, a orientação é dada pelas decisões do encontro pan-ortodoxo em Tessalônica em 1998:
 
«Os delegados unanimemente denunciam aqueles grupos de cismáticos, assim como certos grupos extremistas dentro das próprias Igrejas Ortodoxas locais, que estão usando o tema do ecumenismo para criticar a liderança da Igreja. Eles também utilizam material não-factual e desinformação com o objetivo de embasar suas críticas injustas. Os delegados também enfatizam que a participação ortodoxa no movimento ecumênico sempre foi baseada na tradição ortodoxa, nas decisões dos Santos Sínodos das igrejas ortodoxas locais e em encontros pan-ortodoxos... Os participantes são unânimes em seu entendimento da necessidade da continuação de sua participação em várias formas de atividade inter-cristã. Não temos o direito de recuar da missão que nos foi dada por nosso Senhor Jesus Cristo: a missão de testemunhar a Verdade perante o mundo não-ortodoxo. Não devemos interromper relações com os cristãos de outras confissões que estão aptos a trabalhar conosco. Durante a participação ortodoxa de muitas décadas no movimento ecumênico, a Ortodoxia nunca foi traída por nenhum representante de uma igreja ortodoxa local. Ao contrário, estes representante sempre foram completamente fiéis e obedientes às suas respectivas autoridades eclesiásticas e agiram em completo acordo com as regras canônicas, o ensino dos Concílios Ecumênicos, os Pais da Igreja e a Santa Tradição da Igreja Ortodoxa.»

 
Uma ameaça à Igreja se dá por aqueles que participam em contatos inter-cristãos, falando em nome da Igreja Ortodoxa Russa sem a benção das autoridades da Igreja, assim como por aqueles que trazem tentação ao seio da Igreja entrando em comunhões sacramentais canonicamente inaceitáveis com comunidades não-ortodoxas.

8. Conclusão

O século vinte, chegando agora ao final, foi marcado pela tragédia das divisões, inimizades e alienação, mas nele os cristãos divididos demonstraram um desejo de alcançar a unidade na Igreja de Cristo. A Igreja Ortodoxa Russa respondeu a este desejo com presteza em conduzir um diálogo na verdade e no amor com os cristãos não-ortodoxos, inspirada pelo chamamento de Cristo e pelo objetivo da unidade cristã como ordenado por Deus. E hoje, na fronteira do terceiro milênio, depois da Natividade de acordo com a Carne de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, a Igreja Ortodoxa, uma vez mais, com amor e persistência chama aqueles para os quais o nome de Jesus Cristo está acima de todos os outros nomes abaixo do Céu (cf. Ats. 4:12) a buscarem a santa unidade com a Igreja: "nossa boca está aberta para vós, o nosso coração está dilatado!" (II Cor. 6:11)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

O dia em que eles começaram a matar cristãos

Tradução de: http://fatherjohn.blogspot.com/2005/02/day-they-began-killing-christians.html
Elevando seus braços aos céus, o Metropolita Vladimir orou em voz alta:
"Ó Deus, perdoa meus pecados, voluntários e involuntários, e aceita meu espírito em paz."
Então ele abençoou seus assassinos com ambas as mãos e disse:
"Meu Deus os abençoa e perdoa."
No silêncio da noite, quatro tiros foram ouvidos, então mais dois, e mais...
O Hieromártir Vladimir de Kiev, 7 de fevereiro de 1918


Neste domingo que se aproxima (8 de fevereiro de 2009), a Igreja Ortodoxa Russa celebra a memória dos Novos Mártires eConfessores da Rússia, que foram assassinados pelos comunistas. O motivo pelo qual este domingo em particular foi escolhido é que ele é o mais próximo do dia em que o primeiro Mártir do Jugo Comunista foi assassinado (25 de janeiro no Calendário Ortodoxo, 7 de fevereiro no calendário civil).

Talvez não seja coincidência que este mártir tenha sido o metropolita Vladimir de Kiev, que porta o nome de S. Vladimir, o Grande, que iluminou a terra russa com a fé cristã; e que tenha sido o Metropolita de Kiev, a cidade-mãe da Rússia que testemunhou o batisma da velha Rus em 988 DC. Este era o início de um novo batismo da Rus( http://saintjohnwonderworker.org/baptism.htm ) e através da fé e das orações dos Novo Mártires, vemos hoje o início de um renascimento do Cristianismo Ortodoxo na Rússia.

É especialmente comovente ler sobre a reação dos fiéis, que em todas as suas vidas leram sobre os mártires do passado, mas que pela primeira vez viram um em carne e osso. Este foi apenas o primeiro de milhões assassinados pelos comunistas por se recusarem a dobrar os joelhos ao estado ao invés de Deus. ( http://www.allsaintsofamerica.org/martyrs/nmruss.html )

Eis aqui o relato de seu assassinato nas mãos dos comunistas:
( http://www.orthodox.net/russiannm/vladimir-metropolitan-and-hieromartyr-of-kiev.html ):

Cápsulas de artilharia começaram a cair nas cavernas da Lavra de Kiev no dia 15 de janeiro e continuaram por vários dias. Entretanto, o metropolita continuou com suas obrigações religiosas, demonstrando grande calma, e no dia 23 de janeiro celebrou sua última Divina Liturgia com a irmandade da Lavra. No dia 23 de janeiro, os bolsheviques invadiram a Lavra, cometendendo jamais vistos atosde sacrilégio e pilhagem, debochando e chicoteando os monges e matando os oficiais e pessoal militar que lá estavam. A despeito da comoção, o metropolita oficiou um acatisto à Dormição da Mãe de Deus na grande igreja da Lavra, o qual acabou sendo seu último ofício na terra. Então ele e o Bispo Teodoro de Priluki, foram para o altar da igreja menor, a qual era dedicada à S. Miguel, primeiro metropolita de Kiev.

A noite de 25 de janeiro foi alarmante. Quatro homens armados e uma mulher,vestida como uma enfermeira da Cruz Vermelha, invadiram as instalações do superior, realizaram uma busca detalhada e levaram tudo de valor. No meio danoite, três deles saíram "para fazer reconhecimento" e roubaram o tesoureiro e o preposto. Mais tarde, três Vermelhos armados vasculharam os aposentos do metropolita e, não encontrando nada de valor, levaram uma medalha de ouro do cofre.

Às seis e meia da tarde, a campainha tocou fortemente três vezes. Cinco homens, vestidos com uniformes de soldados e liderados por um marinheiro, entraram na casa e perguntaram por "Vladimir, o metropolita". Foram guiados descendo as escadas até a cela do arquipastor. O metropolita saiu para encontrá-los, e então foi levado para o quarto onde ficaram por vinte minutos atrás de portas trancadas. Lá o Metropolita Vladimir foi torturado e estrangulado com a corrente de sua cruz, insultado e ordenado a entregar-lhes dinheiro. Depois, os presentes encontraram no chão do quarto pedaços de uma corrente quebrada, uma corda de seda, uma caixinha com relíquias sagradas e um iconezinho que o metropolita sempre usava no pescoço.

Quando o metropolita saiu vinte minutos depois, cercado por seus torturadores, estava vestindo sua batina, uma panaguia ( http://en.wikipedia.org/wiki/Panagia#Vestment ) e um klobuk branco (http://en.wikipedia.org/wiki/Klobuk) na cabeça. Nos primeiros degraus ele foi abordado pelo servente da cela, Philip, que lhe pediu sua benção. O marinheiro o empurro, gritando:

"Pare de mostrar respeito a esses sanguessugas! Chega disso!"

O metropolita foi até Philip, abençou-o, beijou-o e apertando sua mão disse:

"Adeus, Philip."

E então enxugou suas lágrimas. Philip relatou mais tarde que quando se separaram o metropolita estava calmo e solene, como se estivesse saindo para a igreja, para celebrar a Santa Liturgia.

Este velho, humilde e inocente servo de Deus foi para sua morte sem qualquer sinal de fraqueza ou medo. Enquanto era levado para fora do monastério, persignou-se e suavemente cantou uma oração.

Uma testemunha ocular relata que o Metropolita Vladimir foi levado de carro dos portões do monastério até o local da execução. No seu caminho do carro até uma pequena clareira perto de uma parede fortificad, ele perguntou:

"É aqui que vão atirar em mim?"

Um dos assassinos respondeu:

"Por que não? Você espera que façamos cerimônia para você?"

Quando o metropolita pediu permissão para orar antes de ser alvejado, a resposta foi:

"Seja rápido com isso!"

Elevando seus braços aos céus, o Metropolita Vladimir orou em voz alta:

"Ó Deus, perdoa meus pecados, voluntários e involuntários, e aceita meu espírito em paz."

Então ele abençoou seus assassinos com ambas as mãos e disse:

"Meu Deus os abençoa e perdoa."

No silêncio da noite, quatro tiros foram ouvidos, então mais dois, e mais...

"Estão atirando no metropolita!", disse um dos monges na Lavra.

"São tiros demais para um assassinato só", replicou outro.

Ao som dos tiros, cerca de quinze marinheiros com revólveres e lanternas correram para o quintal do monastério. Um deles perguntou:

"Eles levaram o metropolita?"

"Levaram para fora dos portões", responderam os monges timidamente.

Os marinheiros correram, e em vinte minutos voltaram.

"É, nós achamos ele," eles disseram, "e vamos cuidar de cada um de vocês da mesma forma".

Existe um outro relato da morte do metropolita. O arquimandrita Nicanor Troitsky lembra que quando era menino, sua mãe correu com ele até a Lavra, onde um círculo de soldados estava impedindo uma multidão de se aproximar da cena da execução. Ele lembra que o metropolita foi arguido sobre uma série de questões, e cada vez que dava uma resposta insatisfatória uma baioneta lhe golpeavao corpo até que ele se tornou uma fonte de sangue. Depois da execução a multidão quebrou o cordão de soldados. Então a mãe do Pe. Nicanor disse-lhe para por os dedos no sangue do metropolita martirizado, fazer uma cruz na testa, e lembrar que tinha testemunhado a morte de um verdadeiro mártir, a cuja confissão ele deveria ser fiel por toda a sua vida....

O silêncio não foi quebrado novamente naquela noite. O monastério dormia, e ninguém parecia se dar conta de que apenas a mil pés dos portões norte da Lavra, em uma poça de sangue, jazia o corpo estilhaçado do santo metropolita.

Ao nascer do sol, algumas mulheres peregrinas apareceram nos portões da Lavra, e os monges ouviram delas onde estava o corpo mutilado do metropolita. A irmandade decidiu trazer o corpo para o monastério, o que necessitou de permissão das autoridades comunistas. Às nove horas, o arquimandrita Anthimus, acompanhado por quatro assistentes hospitalares, foi até a cena do assassinato.

O metropolita estava sobre suas costas coberto com um sobretudo. Faltavam sua panagia, seu klobu e cruz, galochas, botas, meias, relógio de ouro e corrente. A autópsia mostrou que havia sido assassinado com balas explosivas e perfurado em vários locais com armas afiadas e frias. Suas mãos estavam congeladas na posição de benção.

Depois de oficiar uma litiya no local onde o metropolita havia morrido, colocaram o corpo na maca e, por volta de onze da manhã, o trouxeram para a igreja de S. Miguel, onde o metropolita assassinado havia passado as últimas horas de sua vida. Enquanto o Arquimandrita Anthimus estava erguendo o corpo, foi cercado por mais ou menos dez homens que começara a debochar e insultar os restos mortais do metropolita.

"Você quer enterrá-lo! Mas ele merece ser jogado na sarjeta! Vocês querem fazer relíquias dele, é por isso que estão guardando-o!", gritavam.

Enquanto a lamuriosa procissão fazia seu caminho até a Lavra, mulheres pias que estavam passando, choraram e oraram, dizendo:

"O sofredor e santo mártir, que o Reino de Deus seja para ele!"

"Um reino dos céus? Seu lugar é no inferno, no lugar mais profundo!", replicavam os fanáticos.

Depois do corpo do metropolita ter sido fotografado e vestido apropriadamente, o vice-abade da Lavra, Arquimandrita Clemente, e os irmãos mais antigos do monastério oficiaram uma panikhida. No dia 27 de janeiro, o Metropolita deTbilisi, que estava representando o Patriarcado Russo no Concílio Ucraniano,oficiou uma panikhida para o metropolita em Kiev. No dia 29 de janeiro, o corpo foi transferido para a Grande Igreja das Cavernas da Lavra de Kiev, e depois do ofício funerário, foi enterrado na igreja da Elevação da Cruz, nas Cavernas Próximas.

No dia 15/28 de fevereiro de1918,uma sessão do Concílio da Igreja Russa em Moscou foi dedicada à memória do metropolita assassinado.

O metropolita Vladimir foi o hierarca que arcou com o fardo do primeiro assalto revolucionário à Igreja Russa. Era portanto apenas adequado que ele se tornasse o primeiro novo mártir hierarca. E no dia 5/18 de abril, o Concílio Russo decretou que o domingo mais próximo da data de seu martírio, 25/01-07/02, deveria ser a data da comemoração anual de todos os santos novos mártires e confessores da Rússia.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Quais as Diferenças entre a Ortodoxia e o Catolicismo Romano?


Amigos,
eu tinha este artigo impresso aqui, mas não lembro de que site eu o havia obtido. Reencontrei-o em um site da Renovação Carismática e compartilho-o com vocês por elucidar de forma sucinta a pergunta que mais se faz a respeito da comparação da Igreja Latina e a Santa Igreja.



Quais as Diferenças entre a Ortodoxia e o Catolicismo Romano?


Por Michael Azkoul 


Esta questão é levantada diversas vezes. Muitos Ortodoxos, quando citam as diferenças entre a Ortodoxia e o Catolicismo Romano, mencionam normalmente o Papa e o purgatório, e algumas vezes o filioque.

Historicamente, as diferenças são mais numerosas e profundas.

Também, nos tempos modernos, desde o Vaticano II há trinta anos atrás, a trágica tentativa de “atualizar” o Catolicismo Romano (v.g. a revisão do direito canônico), as diferenças entre a Ortodoxia e os seguidores do papa aumentaram. 

Neste presente artigo, lidaremos principalmente com as diferenças cultivadas entre a Ortodoxia e o Catolicismo, separados há quase mil anos. 

1. Fé e Razão 

Seguindo os Santos Padres, a Ortodoxia usa a ciência e a filosofia para defender e explicar a fé. Ao contrário do Catolicismo Romano, ela não se baseia nos resultados da filosofia e da ciência. A Igreja não busca reconciliar fé e razão. Ela não faz nenhum esforço para provar pela lógica ou pela ciência o que Cristo entregou para que seus seguidores acreditem. Não recusamos o apoio da física, da biologia ou da química nos ensinamentos da Igreja. Porém, a Ortodoxia não é intimidada pelas realizações intelectuais do homem. Ela não se curva perante tais coisas, e não muda o pensamento da fé Cristã por causa dos pensamentos humanos e da ciência. 

São Basílio o Grande alertava os jovens monges sobre a utilização da filosofia grega, para que a utilizassem como a abelha usa a flor. “Peguem somente o ‘mel’ – a verdade – que Deus plantou no mundo para preparar o homem para a Vinda do Senhor.” 

Por exemplo, os Gregos possuíam a doutrina do Logos. O Evangelho de João começa, “E no princípio era o Verbo” (Logos, em Grego). Para os pagãos, o Logos não era Deus, como Ele é para os Cristãos, mas sim um princípio, um poder, uma força pela qual “Deus” criou e governa o mundo. 

Os Pais da Igreja apontavam a semelhança entre o Logos da Bíblia e o Logos da Filosofia Grega como um sinal da Providência Divina. A diferença entre eles é atribuída ao pecado do homem e à fraqueza do intelecto humano. Isso nos lembra as palavras do apóstolo Paulo: “Estai de sobreaviso, para que ninguém vos engane com filosofias e vãos sofismas baseados nas tradições humanas, nos rudimentos do mundo, em vez de se apoiar em Cristo.” (Cl. 2:8).

Por outro lado, o Catolicismo dá um alto valor à razão humana. Sua história nos mostra a conseqüência desta confiança. Por exemplo, na Idade Média, durante o século XII, o teólogo e filósofo Tomás de Aquino “uniu” o Cristianismo com a filosofia de Aristóteles. A partir deste período, os latinos começaram a oscilar como nunca graças a este respeito pela sabedoria humana, alternando radicalmente entre teologia, os mistérios e as instituições da religião Cristã. 


2. O Desenvolvimento Doutrinário 

A Igreja Ortodoxa não endossa a visão de que os ensinamentos de Cristo devem mudar através dos tempos, mas sim que os ensinamentos de Cristo permanecem inalterados desde o dia em que o Senhor entregou a Fé aos Apóstolos (Mateus 28:18-20). 

É claro que a Ortodoxia reconhece mudanças externas (por exemplo, vestes do clero, hábitos monásticos, novas festas, cânones de concílios ecumênicos ou regionais, etc), mas jamais algo foi adicionado ou subtraído de sua Fé. As mudanças externas possuem um único propósito: expressar a fé em vista de novas circunstâncias. Por exemplo, a Bíblia e os serviços divinos foram traduzidos do hebraico para o grego e para os outros idiomas das novas terras, novos costumes religiosos surgiram para expressar a sensibilidade étnica de novos povos convertidos, etc.; todavia, sempre há “uma só Fé, um só Senhor, e um só batismo” (Ef. 4:4).

O fundamental testemunho para a Tradição Cristã é a Bíblia Sagrada, e os expositores supremos das escrituras são os divinamente inspirados Pais da Igreja, sejam eles gregos, latinos, sírios ou eslavos. O lugar deles na religião Ortodoxa não pode ser alterado. Sua autoridade nunca pode ser substituída ou ignorada.

Por outro lado, o Catolicismo Romano, incapaz de mostrar uma continuidade na fé para justificar suas novas doutrinas, criou no último século a teoria chamada de “desenvolvimento de doutrina”. 

Seguindo o espírito filosófico atual (sob a liderança do Cardeal Henry Newman), o catolicismo romano começou a definir que Cristo nos deu um “depósito original” de fé, uma “semente”, que deve amadurecer através dos séculos. O Espírito Santo, segundo eles, ampliou a Fé Cristã e moveu a Igreja para novas circunstâncias, adquirindo outras necessidades. 

Conseqüentemente, o catolicismo romano desenha sua teologia como algo que cresce por estágios, aumentando e clareando os níveis de conhecimento. Os ensinamentos dos Pais da Igreja, por mais importantes que sejam, pertencem a uma fase anterior à Idade Média Latina (Escolástica), que por sua vez, está atrás das novas idéias posteriores, como as do Concílio Vaticano II.

Todos estes estágios são úteis, como recursos; e o teólogo pode simpatizar pelos Santos Padres, por exemplo, mas também pode contradizer qualquer coisa, seja ela de maior ou menor escala. 

Desta forma, teorias como o dogma da “infalibilidade papal” e a “imaculada conceição de Maria” (sobre a qual falaremos mais à frente) são apresentadas ao fiel como necessárias à salvação. 

Neste caso, para os católicos a verdade destes dogmas já pertencia à Tradição Cristã. Eles já faziam parte da Tradição Cristã, mas em forma de “dicas”, ou como sementes que esperavam o tempo para florescer. 


3. Deus 

O Catolicismo Romano ensina que a razão pode provar o que Deus é; e até mesmo deduzir que Ele é eterno, infinito, bom, incorpóreo, todo-poderoso, onisciente, etc. Ele é o “ser mais real”, “verdadeiro ser”. O homem é como Ele (análogo), porém, é um ser imperfeito. Um escritor do século XVII, Blaise Pascal, explicou melhor, “o Deus do Catolicismo Romano é o Deus dos filósofos e sábios, e não o Deus de Abraão, Isaac e Jacó.” 

Seguindo os Santos Padres, a Ortodoxia ensina que o conhecimento de Deus está plantado na natureza humana, e isto nos leva a crer que Ele existe. Caso contrário, somente se Deus falasse conosco, pois a razão humana não pode saber nada sobre Ele. O conhecimento salvífico de Deus vem do Salvador. Falando sobre Seu Pai, ele disse: /“Ora, a vida eterna consiste em que conheçam a ti, um só Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo que enviaste.” /(João 17:3) 

O Catolicismo Romano ensina também que na Era futura, o homem conseguirá com seu intelecto e a ajuda da graça, descobrir a Essência de Deus. Os Santos Padres declaram que é impossível olhar a Deus Nele Mesmo. Porém, os salvos verão a Deus glorificado na carne de Cristo. 

Historicamente, a teologia Católica Romana nunca distinguiu a Essência de Deus (o que Ele é) e suas Energias incriadas (sobre os significados de seus Atos). São Gregório Palamas tentou nos explicar essa diferença fazendo uma comparação entre Deus e o Sol. O Sol tem seus raios, assim como Deus tem suas energias (entre elas, a Graça e a Luz). Por sua energia, Deus criou, sustenta e governa o universo. Por suas energias, Ele transforma e deifica sua criação; Ele enche suas criações de energia, assim como a água enche uma esponja.

Finalmente, o catolicismo romano ensina que o Espírito Santo “procede do Pai e do Filho” (filioque). Com isso, ele rejeita a Tradição Apostólica de que o Deus Pai é a única fonte (“monarquia”) do Filho e do Espírito Santo. Assim, os latinos acrescentaram palavras ao Credo de Nicéia. 

“Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a Vida, e que procede o Pai e do Filho...” 

Eles fizeram tudo isso utilizando somente a autoridade do Papa, durante o século XI, sem nenhum Concílio da Igreja (Concílio Ecumênico). 


4. Cristo 

Por que Deus se fez homem? A resposta dos Católicos Romanos difere da resposta da Santa Igreja Ortodoxa. Seguindo os Santos Padres, a Ortodoxia ensina que Cristo, na Cruz, deu “sua vida em resgate de uma multidão” (Mateus 20:28/). “Porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em redenção por muitos.” (Marcos 10:48). O “resgate” foi pago na sepultura. Como Deus revelou ao Profeta Oséas (Oséas 13:14); “E eu o libertaria do poder da região dos mortos, isentá-lo-ia da morte”. Em suma, Ele pagou o resgate ao Diabo, que guardava as sepulturas e celebrava o poder da morte (Hb. 2:14).

O Cristo Homem deu-Se voluntariamente na Cruz. Ele morreu por todos (“um resgate pela multidão, ou à multidão”). Mas, ele ressuscitou da morte com Seu corpo crucificado. A morte não tinha poder para segurá-lo. Ninguém nunca terá este poder. A raça humana foi liberta da sepultura e do diabo. Estar livre do diabo é estar liberto da morte e do pecado. Para ficarmos livres de tais coisas, nós nos tornamos como Deus (deificação) para podermos viver com Ele sempre.Segundo a teologia católica romana, Deus se fez homem para satisfazer a justiça Divina, ofendida pelo pecado de Adão. Em outras palavras, o pecado de Adão ofendeu a Deus infinitamente, e isso trouxe conseqüências infinitas. Como o homem pecador e finito não tem como fazer este pagamento, o pecado de Adão (“pecado original”) foi passado para nós, de maneira obrigatória. Somente Cristo, o Deus feito homem, conseguiria pagar esta “dívida de honra”.

Ele pagou esta dívida morrendo na Cruz. Sua morte compensa o pecado feito por Adão, removendo a ofensa. Cristo ressuscitou dos mortos, a promessa ou a “realidade” da crença do homem futuro. Por muito tempo, os latinos, mesmo entre os católicos mais simples e intelectuais, deram muito pouca atenção para a ideia da deificação. Eles não deram muita atenção aos conceitos necessários do entendimento dessa doutrina.A teologia católica romana é normalmente legalista e filosófica. Por exemplo, um batismo “válido” em Cristo resulta da boa intenção de quem recebe (usando a mesma compreensão do Batismo da Igreja) e o uso correto das formas e palavras durante a cerimônia ou rito. Assim, até mesmo um ateu, seguindo certas condições, pode batizar uma pessoa. “Espirrar” (efusão) a água sobre a cabeça do batizado já é suficiente. 

Atualmente, alguns teólogos latinos estão repensando o ensinamento Cristão sobre a salvação (soterologia). Eles estão começando a aceitar a ideia da deificação (tendo o batismo como primeiro passo), levando este assunto mais a sério. Eles insistem justamente na Tradição Cristã, inclusive em Santo Agostinho e outros padres latinos. De fato, esta revolução na teologia católica é necessária para que ela se torne algo mais Bíblico e patrístico, para poder alcançar o entendimento sobre Cristo e a salvação dada por Ele.


5. A Igreja 

A visão Católica Romana sobre a Igreja (eclesiologia) difere do ensinamento Ortodoxo em vários pontos. 

Os latinos ensinam que o Papa é a cabeça visível da Igreja, o sucessor de São Pedro, elevado para esta sagrada posição pelas palavras de Nosso Senhor; “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja...” (Mateus 16:18). 

O Papa é o “Bispo da Igreja Católica”, além de professor e vigário de Cristo na terra. Ele é o intérprete da Tradição Cristã. Quando ele fala para toda a Igreja (ex cathedra), o Espírito Santo não permite que ele cometa erros. Ele é infalível, em matéria de moral e doutrina. Os outros bispos são seus subalternos. Ele é o símbolo da unidade do episcopado.

A Igreja Ortodoxa ensina que todos os bispos são iguais. Para ser sincero, há diferentes graus de bispos (patriarcas, arcebispos, metropolitas, bispos), mas um bispo é sempre um bispo. Tais diferenças se aplicam às administrações de grupo de igrejas, mas não à natureza dos bispos. O presidente de um sínodo de bispos é chamado de arcebispo ou metropolita.

De acordo com a tradição latina, cada paróquia é parte da Igreja universal. Todas as paróquias Católicas formam o Corpo de Cristo na terra. O corpo visível da Igreja tem uma cabeça visível, o papa. Esta ideia implica que cada paróquia local possui duas cabeças: o papa e o bispo local. Mas um corpo com duas cabeças não passa de um monstro. Assim, o bispo local é extirpado de sua autoridade apostólica, pois o papa pode contradizer suas ordens. Na verdade, ele não é bispo se o papa não o permitir. 

A Ortodoxia ensina que todo Bispo, “o ícone vivo de Cristo”, e seu rebanho constituem a Igreja em um certo local, ou, como disse Santo Ignácio da Antioquia, a Igreja de Cristo está nos Bispos, nos padres e diáconos, e com os fiéis que participam da Eucaristia na verdadeira fé. Todos os Bispos e rebanhos constituem e compõem a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica. 

Em outras palavras, não há Igreja sem bispo, não existe bispo sem Eucaristia, e não há bispo e eucaristia onde não existe a verdadeira fé, a Fé Apostólica; “confiada de uma vez para sempre aos santos” (Judas 1:3). “A Igreja está no bispo e o bispo na Igreja” escreveu São Cipriano de Cartago. Por outro lado, não há Igreja sem bispo, e não há Bispo onde não existe a sucessão apostólica, e não há esta sucessão onde não existe a Fé dos Apóstolos.

Também não há Igreja sem Eucaristia, o Sacramento da unidade, porque a Igreja é formada por ele. O Corpo e o Sangue de Cristo unem o fiel a Deus. Esta comunhão ou koinonia é o grande propósito do Cristianismo. Ao mesmo tempo, não há Eucaristia – ou outros mistérios – sem um bispo que ensine a verdade aos batizados. 


6. Os Santos Cânones 

O cânone é uma “regra” ou um “guia” para o governo da Igreja. Os cânones são compostos por Apóstolos, Padres, e pelo Concílio (em latim) ou Sínodo (em Grego), local ou ecumênico. Somente o bispo, como líder da igreja, pode aplicá-los. Ele pode utilizá-los “estritamente” (akreveia) ou “estritamente” (economia). O normal é “estritamente”. 

Ao contrário dos latinos, a Igreja Ortodoxa não pensa nos Cânones como leis, isto é, como reguladores de direitos humanos ou seculares, pelo contrário, a Ortodoxia enxerga os cânones como uma maneira de se criar um “novo homem” ou uma “nova criatura”, utilizando a obediência. São treinadores para a virtude. Devem ser utilizados para produzir santidade. 

De acordo com o ensinamento católico romano sobre os sacramentos (mistagogia), a pessoa vira um membro da Igreja pelo Batismo. É quando o “pecado original” é lavado. A Ortodoxia ensina o mesmo, mas a ideia de “pecado original” ou “culpa inerente” (de Adão) não fazem parte do nosso pensamento. Falaremos sobre isso mais à frente. 

Os católicos romanos chamam de “Confirmação” o que a Ortodoxia chama de “Crisma”. A “Confirmação” é separada do batismo e é feita pelo bispo, e não pelo padre, mas a “Crisma” é feita pelo padre, que já recebeu a “crisma” do bispo. O Sacramento da “Crisma” e da “Confirmação” representam o recebimento do Espírito Santo. Os latinos adiam a "confirmação" (com a "primeira comunhão") das crianças batizadas não mais que sete anos, antes que tenham alguma noção do dom de Deus. 

A Igreja Ortodoxa une o Batismo, a Crisma e a Santa Comunhão, primeiramente há a tripla imersão em água benta, assim o “Novo Cristão” sai da água com a companhia do Espírito Santo, que o conduzirá à união com Deus. Este é o propósito dos membros da Igreja. 

A Ordenação é a cerimônia na qual pela graça e chamado de Deus o homem é elevado ao sacerdócio. O sacerdócio possui três ordens: bispo, padre (ancião) e diácono. Todos cristãos são sacerdotes em virtude do batismo em Cristo, que é o Sumo Sacerdote, Profeta e Rei - por isso São Pedro se refere a Igreja como /“nobre sacerdócio”/ (I Pedro 2:9). O bispo é o “sumo sacerdote”, o “presidente da Eucaristia e dos Mistérios”. Os padres e diáconos são seus assistentes. Os latinos asseguram que o padre “age na pessoa de Cristo”, quando na verdade, ele não faz mais do que representar o bispo, que é o “ícone vivo de Cristo”. 

No sentido exato, a Penitência – às vezes chamada de “Confissão” – só deveria ser recebida pelo fiel re-admitido na Igreja. Durante algum tempo, a Penitência, ou confissão dos pecados, juntamente com as orações e o jejum, só eram aplicadas aos excomungados e apóstatas. 

Para os Católicos Romanos, o Sagrado Matrimônio é uma ligação, um contrato inquebrável. O homem e a mulher ministram o casamento, e a “Igreja” (bispo ou padre) serve apenas como uma testemunha do ato. Conseqüentemente, não há a possibilidade de divórcio, mas sim a de anulação do contrato do matrimônio, caso haja algum vício canônico que lhe faça nulo e sem efeito (como se isso nunca acontecesse).

Na Ortodoxia, o Sagrado Matrimônio não é um contrato, mas sim um mistério ou a união mística que une o homem e a mulher, – uma imitação da união de Cristo com a Igreja -, na presença de “todo povo de Deus”, representado pelo bispo ou padre. O divórcio também é proibido, mas, como uma concessão à fraqueza humana, é permitido em casos de adultério. É permitido um segundo ou terceiro matrimônio – não como uma questão legal –, mas como um ato de misericórdia, uma concessão à fraqueza humana (v.g., após a morte de um cônjuge). Este Sacramento, como todos os outros, é completado pela Eucaristia, como disse São Dionísio, o Aeropagita.

Como mencionado acima, os latinos só concedem a Extrema Unção como último sacramento, que prepara o fiel para morte, purgatório e para o Século que há de vir. Na Ortodoxia, o Santo Óleo é usado para cura. Freqüentemente, a doença é fruto do pecado, então o Óleo é envolvido na confissão dos pecados. Após o final do rito, o ungido recebe a Santa Comunhão.

A Igreja Ortodoxa também reconhece como mistérios o episcopado, monasticismo, benção das águas, etc... 


8. A Natureza do Homem

A natureza humana foi criada boa, em comunhão com a Santíssima Trindade, que a “criou”. Homem e mulher foram criados “à imagem e semelhança” (Gn 1:26) de Deus: “semelhança” em virtude, e “imagem” significa reger a terra de maneira racional, agindo com sabedoria e liberdade. A mulher foi feita para ser a “companheira” do homem (Gn. 2:18, ICor. 11:8-9).

Ambos devem viver em harmonia e respeito mútuo.

Seguindo os Santos Padres, a Igreja Ortodoxa ensina que Adão introduziu a morte no mundo quando pecou contra Deus. Considerando que todos nascem nas mesmas condições de Adão, todos os homens herdam a morte. A morte significa o fim de todo ser humano (mortalidade), mas a morte também gera sentimentos como as paixões (raiva, ódio, luxúria, ganância, etc.), doenças e envelhecimento. 

O catolicismo romano deu pouca atenção para a concepção Ortodoxa, de que o homem é escravo da morte através das paixões, que são controladas pelo diabo. Na verdade, o diabo foi “jogado fora”. Os latinos compreendem a Crucificação de outra forma, como Cristo sofrendo um castigo pela raça humana (“sacrifício propiciatório”), quando na verdade, Cristo sofreu na Cruz para vencer o diabo e destruir todo seu poder, a morte. Em todo caso, a Ortodoxia dá muita atenção ao “domínio das paixões”, através das orações (louvações públicas e devoções privadas), jejum (auto-penitência), obediência voluntária e participação regular na Eucaristia (chamados algumas vezes de “os Mistérios)”. Assim, a melhor forma de vida Cristã (“a suprema filosofia”), é o monasticismo. Nele toda energia humana é voltada para perfeição.

Desta maneira, o monasticismo vem desaparecendo entre os Católicos Romanos. A chamada “religião sobrenatural” está ficando cada vez mais “mundana”. Com isso, eles abandonaram suas heranças medievais, e sua natureza vai ficando cada vez mais secular. 


9. A Mãe de Deus 

A doutrina e o lugar de Maria na Igreja é chamado de “mariologia”. Ortodoxos e Católicos Romanos acreditam que ela é a “Mãe de Deus” (Theotokos) e a “Sempre Virgem Maria”. 

Porém, os Ortodoxos rejeitam o dogma Católico Romano da “Imaculada Conceição de Maria”, definido como dogma de fé pelo Papa Pio IX, em 8 de dezembro de 1854. Este dogma assegura que: “a beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante da sua Conceição, por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha de pecado original, essa doutrina foi revelada por Deus, e por isto deve ser crida firme e inviolavelmente por todos os fiéis.” (Bula Ineffabilis Deus, Cap. 41). 

Tal teoria não possui nenhuma base Bíblica ou patrística. Ela contém muitas idéias (como os “méritos de Cristo”), sem nenhuma fundamentação apostólica. A ideia de que Deus e seus Santos produzem mais graças do que o necessário. Tal excesso foi aplicado outras vezes, até mesmo no purgatório (veja abaixo).

Voltando ao assunto: a Igreja não aceita a idéia de que a Mãe de Deus tenha nascido com a culpa de Adão, pois ninguém nasce assim. Porém, ela herdou a mortalidade devido à queda de Adão. 

Portanto, não há necessidade da criação deste dogma pelos latinos. Não há razão para inventar uma teoria que fundamente o dogma da Imaculada Conceição. Não há necessidade em ensinar, por causa dos “méritos de Cristo”, o Espírito Santo a impediu de herdar a culpa de Adão. 

Na verdade, ela nasceu como todo ser humano. O Espírito Santo lhe preparou para ser a Mãe de Deus. Ela estava cheia da energia incriada do Espírito Santo de Deus, para que pudesse ser merecedora do nascimento de Cristo. Além de que, muitos padres, observam que ela pecou antes da ressurreição do Filho. São João Crisóstomo ensina que pode-se presumir isso nas Bodas de Caná (João 2:3-4). Aí está uma prova de sua mortalidade.

Após receber o Espírito Santo mais uma vez, em Pentecostes, ela pôde morrer sem pecado. Devido a seu papel especial no Plano Divino (“economia” ou “dispensação”), ela foi levada ao Céu, de corpo e alma. Agora ela está sentada aos pés do Filho, fazendo intercessões por todos que imploram por sua misericórdia. A Igreja Ortodoxa honra sua milagrosa “assunção” com uma festa no dia 15 de agosto, como os seguidores do Papa. Ambos acreditam na intercessão da Virgem Maria e de todos os Santos. A intercessão é um reflexo da unidade da Igreja do céu com a Igreja da terra.

Mas ambos acreditam que a Mãe de Deus é a Igreja. A Igreja é o Corpo de Cristo. Os que pertencem a Igreja são identificados com Ele. Mas ele também é nosso “irmão” (Ro. 8:29). Se Cristo é nosso irmão, a Virgem Maria é nossa Mãe. A Igreja é nossa Mãe pelo Batismo. Então, a Virgem Maria é a Igreja. 


10. Ícones 

O ícone é uma representação artística de Cristo, da Mãe de Deus e dos Santos. O Deus Pai nunca pode ser representado, pois Ele nunca foi visto. O Espírito Santo de Deus aparece como uma pomba, ou em forma de “línguas de fogo”. Ele pode ser demonstrado destas formas. O Deus Filho Se fez homem, e pode ser pintado em Sua forma humana. Os ícones são mais do que um quadro sagrado. Tudo sobre eles é teológico. Por exemplo, sempre são planos, para que entendamos com a experiência física o mundo espiritual de Cristo, Sua Mãe, os Anjos e os Santos, é um mundo de mistérios, que não podemos adentrar com os nossos cinco sentidos.

Historicamente, o Catolicismo Romano emprega estátuas em suas louvações. As estátuas são feitas em três dimensões. Normalmente imitam a arte da antiga Grécia. Ambas são naturalistas. Os latinos colocam Cristo, a Mãe de Deus, os Santos e anjos em estado natural. Este naturalismo” é proveniente da idéia medieval de que “a graça aperfeiçoa a natureza”. As pessoas representadas nos ícones estão deificadas. Não são representadas como seres humanos normais, mas muito além disso. Estão transfiguradas e glorificadas. Com uma humanidade nova e cheia de graça. 

Repetindo, os ícones são necessários à devoção Ortodoxa. A veneração e o beijo dado nos ícones, é uma devoção que passa do ícone à pessoa nele representada. Os ícones não são ídolos, e os ortodoxos não os adoram. A adoração é reservada exclusivamente a Deus. As estátuas dos templos católicos romanos normalmente não são veneradas, são apenas decorações visuais. 


11. Purgatório 

O purgatório é um estado que antecede o juízo final. De acordo com a teologia católica romana, as almas destinadas ao céu (com algumas exceções) devem suportar um estado de purgação, ou purificação. Elas precisam limpar os pecados feitos na terra. Os outros vão para o inferno, para um castigo interno. Além disso, há uma “riqueza” de méritos ou graças extras, acumuladas pela virtude de Cristo, da Virgem Maria e dos santos, que podem conceder indulgências. Tais graças são concedidas aos que estão no purgatório, para encurtar a estadia dos que lá estão.

A Ortodoxia ensina que, após o corpo deixar a alma, inicia-se uma nova jornada pelo mundo dos mortos (Hades). Há algumas exceções, como a Theotokos, que foi levada por anjos diretamente para o Céu. O resto deve permanecer nesta condição de espera. Alguns possuem a previsão da glória que há de vir, e outros sofrem de antemão, esperando o chamado “Juízo Particular”. 

Quando Cristo retornar, a alma voltará ao corpo para o julgamento Dele. O “bom e fiel servo” terá a vida eterna, e o infiel e incrédulo passará a eternidade no inferno. Seus pecados e sua descrença serão sua tortura no fogo. 


12. Outras Diferenças 

Há outras pequenas diferenças entre a Ortodoxia e o Catolicismo Romano. 

Os ortodoxos não jejuam aos sábados (somente no Sábado Santo) e domingos. Os Católicos Romanos não possuem restrições desse tipo. 

Ortodoxos não se ajoelham aos domingos, os católicos romanos sim. Os ortodoxos não possuem a “Via Crucis”, como os católicos romanos. Os presbíteros e diáconos ortodoxos podem casar antes da ordenação, já o clero católico romano é celibatário*. 

Os ortodoxos fazem suas louvações em direção ao oriente (onde o sol nasce), os católicos romanos não. 

Na Liturgia Ortodoxa, o “pão” da Eucaristia é fermentado (levedado); na Missa Católica é não-fermentado (ázimo). 

O fiel Ortodoxo recebe o “Corpo” e o “Sangue de Cristo” na Santa Comunhão, os Católicos Romanos recebem apenas o pão, a hóstia**. 

Não há ordens monásticas na Ortodoxia (homens e mulheres), como no Catolicismo Romano (Jesuítas, Dominicanos, Beneditinos, Carmelitas, etc.). Recentemente, freiras e monges católicoa abandonaram seus hábitos tradicionais. 

O clero ortodoxo usa barba, o clero papista normalmente não. Há ainda outras diferenças, normalmente frutos da cultura. Também, é importante notar que tais diferenças, grandes ou não, não se aplicam à situação religiosa atual. O ecumenismo causou uma grande bagunça, ficando difícil até dizer de maneira precisa a crença dos católicos romanos, e enquanto isso, muitos que se denominam ortodoxos abandonam os ensinamentos tradicionais da Igreja.

* atualmente, o Vaticano autoriza a ordenação de diáconos casados. 

** mas os católicos romanos acreditam que comungam o Corpo *e* o Sangue de Cristo

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Um Debate entre um Cristão e três Muçulmanos no século XII

Medieval Sourcebook:
Um Debate entre um Cristão e três Muçulmanos no século XII


Traduzido para o inglês por Karim Hakkoum e Pe. Dale A. Johnson em 1989

Traduzido do inglês para o português por Fabio Lins em 2006

Tradução inglesa copiada com permissão de
http://www.teleport.com/~hamarabi/posts.html, dalej@colubs.com

Tradução em português feita a partir da inglesa que se encontra em:
http://www.fordham.edu/halsall/source/christ-muslim-debate.html

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Este documento notável é parte de um gênero mais amplo de literatura cristã. Embora datado de 1165, o documento está nas mãos da família do falecido Karim Hakkoum de Portland, Oregon, foi obtido e aparentemente copiado por seu pai em 1914 em Aleppo, Síria.

Publicamos a primeira das três seções deste registro de um debate entre o abade cristão Jorge e os clérigos muçulmanos sob a proteção de Saladino.

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Introdução

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, um só Deus, amém. Com o auxílio de Deus, começamos a registrar o debate que ocorreu entre o monge Jorge e três teólogos muçulmanos, na presença do príncipe Al-Khana, Al-Mushar Abul-Mulk, Gazi Al-Zaher Usef Ibn Ayub Al-Salah, o rei muçulmano de Alepo e Síria, e durante o reinado de Leão, o Armeno, filho de Etienne, Rei da Tribo Armênia, em outubro de 6615 do nosso Pai Adão e 1165 do ano do Senhor. Que Deus nos ajude! A história conta que o abade do convento de "S. Simão Pescador" fez uma visita ao rei de Alepo em sua moradia. O abade estava acompanhado de alguns monges. O rei lhes deu boas-vindas e ordenou que se lhes providenciassem todas as necessidades e permitiu que ficassem na tenda de seu pai. Entre os seguidores do abade estava um velho monge muito versado em conhecimento. Falava bem também. Todos gostavam dele. Entrara para o
convento na infância e aproveitara os livros de lá, adqüirindo as virtudes e boas maneiras dos monges. Tinha sido o abade por muitos anos até ficar velho e chamava-se monge Jorge. Quando encontrou com o príncipe, invocou Deus sobre ele.

O príncipe ficou agradecido e pediu-lhe que sentasse. Quando o abade foi convocado pelo rei para realizar suas ordens, o príncipe pediu ao monge Jorge para ficar e continuou a conversar com ele, perguntando sobre o convento e o modo de vida dos monges. Vamos relatar agora as perguntas do príncipe:

Debate sobre a natureza da vida monástica

O príncipe – Ó monge, vocês não comem carne nunca?

O monge – Não. Não comemos nenhuma carne.

O príncipe – Vocês não se casam?

O monge – Não, príncipe; ao contrário, evitamos as mulheres.

O príncipe – Por que? Isso é de Deus? Mas ele criou a humanidade como homem e mulher. Ele disse também: "....tenham carne para comer". Você pode comer a carne.

O monge – Não proibimos a carne. Mas tencionamos ter uma vida leve, não material, com objetivo de estarmos próximos de Deus deixando nossos corpos mais leves. O ferro é purificado de suas impurezas ficando perto do fogo. E assim como a água se torna mais clara, a água
permite que os raios do sol a penetrem – Não percebe que os raios permitem que a luz atravesse desde que seja leve e transparente? A razão, Ó príncipe, que está dentro de nós é de Deus, e torna-se escura com uma vida de luxos, e nos mantém distantes de Deus na proporção de
sua escuridão. E com a distância de Deus, nos apegamos às coisas materiais e à vida presente. Não evitamos apenas carne e mulheres, mas todo tipo de deleite corporal e todas as seduções dos cinco sentidos.

Esperamos, pelo uso de tais privações, obter a Graça de Deus em Seu reino eterno. Ele disse "você não obterá a alegria no mundo eterno, se não suportar as tristezas e dificuldades do mundo perecível."

O príncipe – Ó monge, você está bem certo. Mas, Deus nos concedeu este e aqueles.

O monge – Nosso Deus permitiu-te que faças como quiserdes e deu-te a liberdade de desfrutar as felicidades corporais quando Ele disse: "Irei dar-te no Céu um rio de leite, um rio de mel e mulheres bonitas".

O príncipe e o monge assim falavam quando três teólogos vieram ao príncipe e o saudaram. Ele ordenou que se sentassem. E quando viram o monge, eles falaram com o príncipe em turco, dizendo "De onde é este monge? Com que propósito está em vossa presença?"

O príncipe: Este monge é do convento de São Simão e veio até nós com outros monges para resolver alguns problemas com o Sultão. O que acham da aparência dele?

Um deles, chamado Abu-Zaher, de Bagdá, disse: "Que eu seja vosso resgate, Ó príncipe, pois ele possui uma boca sorridente e um belo rosto. Que lástima que seja cristão."

O príncipe: Vocês gostariam de ter um debate com ele sobre religião?

Eles responderam que sim.

Debate sobre a natureza salvífica de Deus

Então, eles se entreolharam. Um deles, chamado Abu-Salamah Ibn Saad, de Mossul disse:

Abu-Salamah --"Ó monge, reverenciamos e honramos vosso Cristo e O colocamos acima de todos os profetas exceto Maomé, profeta e apóstolo de Deus. Mas vós, cristãos, o menosprezam e não o honram, enquanto Deus o honrou e inspirou com o Corão, como uma luz e misericórdia. Não concordais que ele é o Profeta de Deus; por isso ele os irá confrontar na Ressurreição.

O monge – Abu-Salamah, toda pergunta tem resposta. Mas não viemos à vossa casa para ter um debate religioso convosco, mas como pedintes. Não precisamos conversar convosco senão sobre o que vos agrada; porque sabemos que a fúria é vossa e que contais vantagem sobre tal fato. Um
homem sábio disse: "Seja cuidadoso com eles enquanto viver na casa deles".

O muçulmano – Temei a Deus, ó monge, por causa do que falastes. Somos um povo de lei e justiça; e ninguém aqui deseja discutir contigo com má-fé.

Então, o príncipe olhou para o monge e disse: "Ó monge, sou nascido de uma mulher grega (N.T. significando cristã). Então, respondas como quiser, sem medo.

Então ele tirou seu próprio selo do dedo e o pôs no dedo do monge.

O monge – Abu-Salamah, não queremos falar mentiras ao invés da verdade. Mas tememos que tragas mentiras seguindo a grosseria da tua natureza. Não disseste tu que nós não everenciamos Maomé, nem confessamos que ele é Apóstolo de Deus? Pois bem, pois iremos dar-te
provas de Deus claras disto.

O muçulmano – Tu jamais terias sucesso algum nisto, mesmo que tentasses tais tarefas impossíveis.

O monge – A verdade irá aparecer. Abu-Salamah, não confessas que Deus criou todas as criaturas?

O muçulmano – Sim todas as que existem no céu e na terra, tudo que é visível e invisível foi criado por Deus, por Sua vontade.

O monge – Há algum povo criado por Deus e algum povo criado por outro Deus?

O muçulmano – Não! O criador os criou, Ele é o Único Deus que adoro e não há outro Deus!

O monge – Pensas que Deus deseja a salvação de todo o mundo ou que Ele quer salvar apenas um povo específico entre as Suas criaturas e destruir o resto? Não confessas que Deus é rico, generoso e magnânimo? Se não, então atribuis avareza a Deus; como o homem que preparasse
comida para cem pessoas mas quando elas chegassem, ele as expulsasse dizendo: "Vão embora, não tenho comida para vós!", deste modo demonstrando sua avareza.

O muçulmano – Confesso que Deus é rico, generoso, magnânimo e o Criador de todas as criaturas e que Ele deseja a salvação de todas.

O monge – Se Deus quer a salvação de todo o mundo, Seus mensageiros devem ser enviados ao mundo todo, também. E qualquer um que pretenda ser um mensageiro de Deus precisa corroborar esta asserção; ele precisa de um poder de Deus para confirmar sua mensagem.

O muçulmano – Qual é este poder e sinal?

O monge – Aqueles que possuíam os Apóstolos de Cristo

O muçulmano – Qual é esse poder?

O monge – São três: fazer milagres, falar várias línguas e evitar as coisas mundanas. Vós porém possuís as três características opostas.

O muçulmano – Como o quê?

O monge – A ameaça com a espada, os tributos e a culpabilidade. Estes traços podem ser vistos em Maomé. A evidência da autoridade de Deus está nos Apóstolos.

Então, o monge virou-se para o príncipe e disse: "Por Deus, Ó príncipe, se alguém viesse a ti agora fingindo ser um mensageiro do Rei perante ti com tal e tal propósito, e não encontrasses nele nem carta nem selo do Rei, acreditarias que ele é o mensageiro do Rei?"

O príncipe – Por Deus, não! Ao contrário, eu o consideraria como um mentiroso e um traidor.

O muçulmano – Quais são os sinais e provas dos Apóstolos de Cristo atestando sua aquisição do poder de fazer milagres, de falar várias línguas e de pregar para o mundo inteiro?

O monge – O sinal está perante vós e a prova é evidente: em qualquer direção em que olhardes, leste, oeste, sul ou norte, encontrarás a devoção ao Cristo nas regiões mais longínquas do mundo. Nenhuma região está sem tal devoção. Isto é uma prova evidente de que os Apóstolos de
Cristo viajaram através do mundo inteiro e falavam todas as línguas.
Não podeis encontrar um povo, uma língua ou boca sem o conhecimento de Cristo. O profeta Davi predisse isto quando disse "Eles foram por todo o mundo e suas falas cresceram nas regiões do mundo". Isto também é uma prova evidente de que os Apóstolos falavam todas as línguas.
Tendes vós, Abu-Salamah, alguma dúvida sobre estas duas coisas?

Abu-Salamah – Isto é evidente, sem dúvida. O sermão do Poder e do Sinal.

O monge – Provarei, agora, que faziam milagres, não pela força de suas palavras, mas pelo poder dO que os enviou, a partir da submissão dos povos bárbaros a eles. A pregação deles não era dependente da tolerância, nem da ameaça, nem da espada. Eles não tomavam dinheiro.
Eram, na maioria, pescadores analfabetos e fazedores de tendas. Mas os poderes recebidos de Cristo os ajudaram a governar este mundo. Quando o Cristo os enviou para pregar ao mundo, Ele entrou na sala onde se encontravam após Sua Ressurreição, enquanto as portas estavam
fechadas.Ele lhes deu a paz, primeiro porque estavam temendo os judeus. Então ele assoprou neles e disse, "recebam o Espírito Santo.
Este Espírito será a sua voz. Por esta voz, irão levantar os mortos, curar os doentes e derrotar reis. Se remirdes os pecados do povo, eles serão perdoados, mas se os renegarem, eles o serão. Dêem de graça o que de graça recebestes". Ele lhes disse também "Não levem cajado, nem
sacola, nem comida, nem tenham duas roupas ou dois sapatos. Não levem cobre em sua bolsa" Agora, digam-me o que é mais forte do que tais sinais? Se me disserdes que as ordens deles foram suaves demais, responderei que não foram deles, mas de Cristo, seu Mestre e aqui
estão: "Quando lhe baterem na face direita, oferecei também a esquerda" e "se alguém quiser sua roupa, dê o casaco também"; e " se alguém vos fizer andar uma milha, vá com ele duas milhas. Amem vossos inimigos. Abençoem os que os perseguem. Façam o bem aos que vos
afligem". Diga-me, quem poderia escutar tais ordens e aceitá-las, se milagres não assombrassem o mundo inteiro? Então, eles acreditaram nos Apóstolos e confiaram na sua pregação. Vede, Ó Muçulmanos, na pregação dos Apóstolos, como pregavam para os oradores, sábios e reis dizendo:
"acreditem em Deus. Ele nasceu de uma mulher; Ele comia comida e bebia água; foi surrado e chicoteado; as pessoas debochavam Dele e cuspiam na face Dele; eles O esbofetearam e colocaram em Sua cabeça uma coroa de espinhos; Ele foi crucificado e enterrado; mas levantou-se dos mortos". Ninguém acreditava neles. As pessoas debochavam deles,
negavam o que diziam, batiam neles e os expulsavam. O Apóstolo disse: "Povo, se negais nossa pregação, iremos provar a verdade. De fato, levem-nos aos aleijados, cegos e leprosos, e também aos loucos, perturbados e mortos". Eles diziam. "Em nome de Jesus Cristo de Nazaré, levanta-te, ó falecido!" E a pessoa levantava dos mortos. Assim como outras doenças, que também eram curadas. Então, o povo acreditava neles e adoravam ao Deus deles, pois seus atos testemunhavam por eles. Alguns fechavam os olhos e os ouvidos, como a cobra que fecha a audição para evitar escutar a voz do mágico. Mas os que adoravam a Satã, através do adultério, da voluptuosidade, do vício, da avidez e cujo objetivo era satisfazerem os desejos de seus
corpos, todos estes tornaram-se como fumaça e suas adorações idólatras se acabaram. Os céus, a terra, Deus e seus anjos testemunham que os Apóstolos eram os mensageiros de Cristo e que a religião deles é a correta. E vosso profeta, Maomé também testemunhou por eles, dizendo
no Corão: "Nós inspiramos o Corão como uma luz e uma orientação e confirmando o que está nas mãos deles (cristãos) da Bíblia e do Evangelho". Então, se vosso profeta e vosso livro confirmam o Evangelho, vós também deveis fazer o mesmo, ou estarão tratando vosso profeta e vosso livro como mentirosos.

Debate sobre a integridade dos Evangelhos

O Muçulmano – Eu confio no Evangelho e no seu conteúdo, mas vós o alteraram de conformidade com vossos interesses.

O monge – Não digam algo que não podem provar, porque, no fim, ficarão envergonhados, como aquele que prefere cobrir a luz do sol. Diga-me, Abu-Salamah, quantos anos se passaram de Cristo até Maomé?

O muçulmano – Não sei.

O monge – Eu respondo: de Cristo até Maomé, seiscentos e alguns anos se passaram.

O príncipe – Estás certo monge. É o que encontramos na história.

O monge – Haviam, então, Cristãos em todo o mundo?

O muçulmano – Sim, haviam.

O monge – Assim como hoje?

O muçulmano – Sim e mais do que hoje.

O monge – Poderíeis vós contar o número de Evangelhos que existiam naquela época no mundo nas várias línguas?

O muçulmano – Não poderíamos.

O monge – Vamos supor que algumas pessoas no Ocidente tenham alterado seus Evangelhos. Então, como eles poderiam comunicar-se com os que estavam no fim do mundo no Oriente? O mesmo serve para os que estavam no Norte em relação ao Sul. É impossível. Se tal fosse possível, estaríeis defrontando-vos com os Evangelhos apócrifos de parte dos cristãos. Porém, se fizerdes uma viagem ao redor do mundo, encontrarás os Evangelhos em vários lugares análogos aos que foram recebidos dos Apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Sem diferença nenhuma entre eles, nem mesmo em uma letra, a não ser pelas particularidades de cada língua. Presto-vos, então, um exemplo que permitirá que acrediteis em mim: Se alguém vos mostrasse um Corão diferente do que conheceis, e dissesse, "este é o Corão inspirado pelo Profeta", sem sê-lo, vós o aceitarias?

O príncipe – Não, ao contrário, nós o mataríamos e queimaríamos o seu livro.

O monge – Como podeis comparar o Mestre e o servo, o Criador e a criatura ou Deus e o homem?


Debate sobre a integridade de Maomé

O muçulmano – Não sabeis, monge, que Maomé governou os árabes e que é o Profeta e Mensageiro de Deus, porque guiou os descendentes de Ismael e os converteu da idolatria à adoração do Deus Vivo, como fez o Cristo e seus Apóstolos?

O monge – Eu sei que Maomé governou os árabes e os passou da idolatria tendo-os feito ouvir falar de Deus, mas não ao verdadeiro conhecimento, porque seu objetivo era governa-los para possuí-los sob sua jurisdição, muito mais do que lhes dar informações sobre o Criador. Se puderdes ser um pouco pacientes e acalmar-vos, dar-vos-ei um testemunho em meu nome e de todos os cristãos a respeito do seu profeta Maomé, para deixar-vos sabe porque não o honramos, nem o chamamos de Profeta ou Mensageiro.

O muçulmano – Já que o príncipe permitiu que falásseis como quiserdes e vos deu proteção e permissão para falardes do Islã, podeis dizer o que quiserdes.

O príncipe – Abu-Salamah, o monge falou em acordo com a verdade e como aceitável pela razão.

Abu-Salamah – Diga-nos o que tendes sobre Maomé.

O monge – Deveis saber, Abu-Salamah, que Maomé era da tribo dos Coraixitas e descedente de Ismael, filho de Hagar, a egípcia, escrava de Sara e esposa de Abraão. Ele era um árabe nômade e mercador de camelos. Em suas viagens, veio a Jerusalém onde foi bem recebido por um cristão nestoriano chamado Buheira. Quando perguntou a Maomé sobre sua religião, descobriu que ele era um pagão. Estes eram os filhos de Ismael. Eles idolatravam um ídolo chamado Al-Akbar (o maior). Costumavam por em volta dele poemas de desejo e amor escritos em tabuinhas que suspendiam em volta do ídolo. Eles serviam de preces e foram chamados de os sete "usudallakat" (suspensos). Quando Buheira descobriu que Maomé era daquela tribo, teve simpatia por ele, devido a similaridade das línguas, a amizade e o desejo de conhecimento. Então leu para ele alguns capítulos do Evangelho, da Bíblia e dos Salmos. Quando voltou para casa, ele disse para os amigos: " Ai de vós! Estais em grande erro e vossa adoração é nada e sem objetivo". Eles lhe
disseram: "Qual seu problema, Maomé?" Ele respondeu: "Encontrei o verdadeiro Deus". Eles perguntaram: "Qual o nome dele?" Ele respondeu "Seu nome é Allah(A Divindade). Ele criou o céu e a terra e todas as criaturas entre eles. Ele me enviou a vós como uma luz e sinal de compaixão". Eles disseram: "Poderias mostra-lo a nós para sabermos onde Ele está?" Ele disse"Ele mora no céu e vê tudo, mas é invisível".

Eles lhe responderam: "Temos uma divindade que adoramos e honramos. Herdamos esse culto de nossos ancestrais que nos deram a liberdade de satisfazer nossos desejos com tudo que possuímos". Então Maomé lhes disse: "O que me enviou a vós disse-me que concede-vos o que é melhor e maior do que o que dizes". Eles perguntaram: "O que é?" Ele disse "É um paraíso para onde Ele vos leva após a morte. Lá há comida, bebida e mulheres". Eles perguntaram: "Qual é a forma dessa bebida, comida e mulheres?" Ele respondeu: "Rios de mel, leite e vinho, com lindas
mulheres; lá não sentireis sede nem tereis lágrimas". Eles disseram "Sois o Mensageiro de Deus?" Ele respondeu "Sou." Eles disseram "Tememos nosso deus Al-Akbar" Ele disse "Adorem a Deus e honrem Al-Akbar". Alguns deles disseram: "Acreditamos em Deus, dissestes a
verdade." Então ele passou para outro grupo de coraixitas, a tribo de Maomé. Ele, mais tarde encontrou outro grupo. Tais pessoas deixavam que seus homens casassem com as filhas. Tais eram seus costumes, antes de conhecer a Deus. Maomé escreveu a Buheira tudo que lhe tinha
ocorido. Buheira proibiu aqueles costumes e, com grandes esforços, teve sucesso em leva-los às primas. Quando obteve aderentes suficientes dos árabes e de sua aristocracia, alguns continuaram reticentes. Ele então desejou a monarquia para si e formou um destacamento armado para lutar com quem o contradizia e disse : "Os que entrarem no Islã estarão seguros" e disse "Os habitantes do céu e da terra entrarão no Islã por vontade própria e alguns pela força."
Então, atacou um grupo, convenceu o outro com palavras adornadas e argumentos. Seu objetivo era governá-los e apressá-los a alcançar as mulheres, pois ele era muito ávido delas. Ele as desejava intensamente. Confirmando isto, ele não se sentia satisfeito com suas numerosas mulheres, mas desejou a esposa de Zeid quando a viu e a tomou dele pela força, fingindo que Deus a deu a ele por esposa e não a Zeid. Ele falou a seus seguidores sobre isto assim " Depois que Zeid atingiu seus desejos com ela, Nós (Deus) a demos a ti como esposa, Maomé". Ele fingiu que Deus o inspirou a fazê-lo. Mas seus seguidores disseram: "Mensageiro de Deus, o que Deus vos concedeu não é permitido a mais ninguém".

O muçulmano – Maldição sobre tu, incircunciso! Zeid pedira a ele que a tomasse e jurou que ela seria desleal por ele.

O monge – Ele fora obrigado, ou teria o mesmo destino que outros.

O muçulmano – O que ocorreu então?

O monge – Não ouvistes sobre o beduíno assassinado por seu profeta, na cama, enquanto Deus proíbe até que matemos os pássaros em seus ninhos? E quando perguntado por seus seguidores "Quem matou o escravo?" respondeu "Minha espada".

O muçulmano – Se encontras alguns defeitos na vida de Maomé para acusá-lo, então deveis confessar que ele teve a maior e mais importante honra e o maior crédito perante Deus pelo que fez aos descendentes de Ismael.

O monge – Ele os guiou seguindo sua vontade própria, não como Deus gostaria. E Maomé não ignorava que ele e vós estão longe da verdade e do caminho correto, dizendo "Eu não sei o que é de mim ou de vós. Estamos na claridade ou na escuridão?" Ele disse também: "Temam Deus o
mais que puderdes, talvez alcançareis sucesso". E ele determinou que em cada oração vós peçais que sejam guiados ao caminho correto, "Guia-nos, Ó Deus, ao caminho correto". Então, se estais corretos, não precisais pedirdes pela correção. Mas ele pede a Deus por ajuda. Mas desconsideremos o que foi dito. Vejam este exemplo. Suponha, Ó príncipe, que eu deixasse vossa presença em busca de sem sair do caminho para a pátria-mãe. Não precisarei de orientação mas de ajuda para chegar na Pátria-Mãe.

O príncipe – Certamente.

O monge – Se Maomé sabia que vós estáveis caminhando no caminho correto, não vos ordenaria pedir a Deus orientação e maturidade. Além disto, sabendo que sua oração não era aceita por Deus, ele ordenou a vós que orásseis por ele, e vos disse, "Vós, crentes, orai por ele, e lhe garantam a salvação".

O muçulmano – Não sabeis vós que Deus e Seus anjos oram por Maomé? Não teríamos nós que orar por ele também?

O monge – Deveríeis preferencialmente orar por vós mesmos e pedirdes perdão para vós mesmos para não serdes como o que tem fome e pede comida para outros; ou como o que sofre um ferimento e pede medicina para outra pessoa. Então, se vós, com Deus e Seus anjos, oram por
Maomé, quem irá aceitar vossas orações? Se tal é vossa opinião, igualais Deus e os anjos com a humanidade.

O muçulmano – A oração de Deus é uma graça concedida aos seus adoradores.

O monge – Quem se beneficiou da graça de Deus e de seus anjos não precisa de orações. Fazeis melhor em orar por vós mesmos.

O muçulmano –Não oram vós, Cristãos, pelo vosso Cristo?

O monge – Absolutamente não! –Ao contrário, oramos para Ele, porque ele é nosso Deus e Criador, e Ele aceita nossas orações como Seus servos se eles as fazem, e perdoa nossas faltas.

O muçulmano – Mas que blasfêmia mais evidente e péssima idéia! Vós adorais a um homem criado, nascido de mulher, que sofreu ignomínia. Tal é o que vós confessais, e tu, monge, não o negas. Debochais com insolência de nosso Profeta Maomé, o Escolhido.

O monge – Sobre minha vida, não falei de nada de mim mesmo, mas de vosso Livro e vosso Corão. Não confessais que Maomé era beduíno e coraxaíta?

O muçulmano – Sim.

O monge – Não sabeis que ele possuía muitas mulheres, algumas contra e algumas concubinas? Não concordais que ele era desejoso de mulheres e que usava a espada para matar os que o desobedeciam, e que tomou a esposa de Zeid?

O muçulmano – Sim, era a ordem de Deus, pois Deus o inspirara a fazê-lo.

O monge – Não confessais que ele morreu e que foi enterrado com trinta membros com ele sob o solo? Mencionamos apenas alguns dos atributos do vosso Profeta, os quais admitis. Por que contestais então?

O muçulmano – Maldito sejas! Contestamos que fazeis de Deus uma criança, e que Cristo é filho de Deus e que ele seja o Deus Eterno e Criador das criaturas enquanto ele é humano e nascido de uma mulher e Deus o considera como Adão a quem disse: "Seja!" e ele foi.

O monge – Então, Abu-Salamah, acreditais em tudo que vosso Profeta mencionou em vosso livro e que foi inspirado por Deus?

O muçulmano – Sim, tudo escrito no Corão foi inspirado a Maomé.

O monge – O Corão não menciona que Cristo é o Espírito de Deus e Sua Palavra dada por Deus à Maria?

O muçulmano – Mas não palavra eterna e sim criada.

O monge – Já foi Deus, em algum tempo, mudo, surdo ou vazio de qualquer palavra ou espírito?

O muçulmano – Deus me livre! Deus, sua Palavra e Espírito sempre foram presentes.

O monge – É a palavra de Deus Criadora ou criada?

O muçulmano – Criadora.

O monge – Vós adorais a Deus junto com seu Espírito e Palavra, não é?

O muçulmano – Eu adoro Deus, Sua Palavra e Seu Espírito.

O monge – Diga agora, então, "Eu acredito em Deus, em Seu Espírito e
em Sua Palavra".

O muçulmano – Eu acredito em Deus e em Seu Espírito e em Sua Palavra. Mas eu não faço deles três, mas um Deus.

O monge – Tal é minha opinião também; e minha crença e aquela de todos os cristãos de fé Ortodoxa. Eu gostaria agora de explicar os significados da Santa Eternidade: o Pai é Deus; o Filho é Sua Palavra; e o terceiro é o Santo Espírito.

O príncipe estava deitado. Então levantou-se, olhou o muçulmano, deu uma gargalhada e disse: "Abu-Salamah, o monge o cristianizou e o introduziu na religião cristã; és então um cristão!"

Abu-Salamah estava furioso. Então, um jurisprudente chamado Abul-Fadl Al-Halabi, disse a seus amigos: Se tivésseis me permitido desde o início, eu teria dialogado com o monge e vos mostrado sua derrota.

Então, ele olhou para o príncipe e disse: "Estejais informado, Ó príncipe, que os não-crentes estão no fogo do inferno e que quem quer que se lhes aproxime queima a si mesmo e Satã, que é o espírito da tirania, fala pelas bocas deles".

O monge – Por que nos insultais? Por que atribuís a nós o que vos é próprio e ao vosso profeta? Não falamos e provamos que Cristo é o Espírito de Deus e Sua Palavra a partir de vosso Corão e vosso Profeta? Se tendes certeza que o que mencionamos é satânico, é de vosso Profeta e Livro que falamos.

O príncipe – Que vergonha, Abul-Fadl! Teu silêncio era melhor e mais produtivo que tua fala. Desejara eu que Deus o provesse de mudez e silêncio; então estaríamos mais à vontade.

Então Abdul-Fadl, envergonhado, partiu.




Medieval Sourcebook
Paul Halsall November 1996
halsall@murray.fordham.edu