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sexta-feira, 5 de junho de 2015

Ateísmo e Ortodoxia na Rússia Moderna


por Metropolita Hilarion (Alfeev)


Tradução Fabio L. Leite



Nesta fala, buscarei delinear a história do ateísmo na Rússia durante os últimos cem anos. Começarei apontando o tipo de ateísmo presente na Rússia antes da Revolução. Então direi alguma coisa sobre o desenvolvimento do ateísmo durante o período soviético. E finalmente concluirei com algumas observações concernentes à natureza do ateísmo russo pós-soviético.



Gostaria de iniciar com as seguintes questões. O que aconteceu para que o país conhecido como "Santa Rússia", com uma longa história de Cristianismo Ortodoxo, fosse transformado pelos bolsheviques em um período bem curto de tempo no "primeiro estado ateu do mundo?" Como é possível que as mesmas pessoas que aprenderam religão no ensino médio da década de 1910, com suas próprias mãos, destruíssem igrejas e queimassem santos ícones na década de 1920? Qual é a explicação para o fato de que a Igreja Ortodoxa, que era tão poderosa no Império Russo, fosse reduzida a quase zero pelos seus ex-membros?



Devo logo dizer que não posso interpretar o que aconteceu na Rússia de 1917 como um acidente, a tomada de poder por um pequeno grupo de vilões. Ao contrário, entendo a revolução russa como o resultado final de um processo que se desenvolvia no cerne da sociedade pré-revolucionária, e portanto, em medida considerável, dentro da Igreja russa, já que não há separação entre Igreja e sociedade. Eu alegaria que a revolução russa foi cria tanto da monarquia russa quanto da Igreja. As raízes do ateísmo pós-revolucionário devem ser buscadas na sociedade russa pré-revolucionária e na Igreja.



Já se disse que na Rússia houve batismo mas não houve iluminismo. De fato, no que tange ao século 19, fica claro que o iluminismo comumente estava em conflito com a religião: as massas de camponeses analfabetos mantinham suas crenças tradicionais, porém mais e mais pessoas educadas, até as que viviam em contexto puramente religioso, rejeitavam a fé e se tornavam atéias. Chernyshevsky e Dobroliubov são exemplos clássicos. Ambos vieram de famílias clericais, ambos tornaram-se ateus depois de estudarem em seminários teológicos. Para tipos como Dostoyevsky, a religião era algo que precisava ser redescoberta, depois de tê-la perdido como resultado de sua educação. Tolstói, por outro lado, chegou a um certo tipo de fé, mas continuou alienado da Igreja Ortodoxa. Fica claro quando estudamos o período pré-revolucionário, que havia uma enorme lacuna entre a Igreja e o mundo das pessoas educadas, a assim chamada intelligentsia, e tal lacuna apenas aumentava.



Mas às vésperas da revolução, tornava-se cada vez mais claro que o ateísmo tinha invadido também as massas das pessoas comuns. Berdyaev escreveu que naquela época, a baba(vovó) russa de vida simples, que supostamente devia ser religiosa, já não era realidade, mas um mito: a vovó era agora niilista e atéia. Eu gostaria de citar um pouco mais deste grande filósofo russo. Ele escreveu o seguinte em 1917, meses antes da revolução de Outubro:



"A nação russa sempre considerou-se cristã. Pensadores e artistas russos estavam inclinados até mesmo a tomá-la como uma nação que é cristã par excellence. Os eslavófilos pensavam que o povo russo vivia pela fé ortodoxa, a qual é a única fé verdadeira, contendo toda a verdade.. Dostoyevsky pregava isso. A nação russa é portadora de Deus... mas quando a revolução aconteceu... ela revelou o vazio espiritual do povo russo. Esse vazio era resultado de uma escravidão que tinha durado tempo demais, de um processo de degeneração do antigo regime que fora longe demais, de uma paralização da Igreja russa e uma degradação moral das autoridades eclesiásticas que durara demais. Já há muito tempo o sagrado fora exterminado da alma do povo tanto pela esquerda quanto pela direita, as quais prepararam essa atitude cínica em relação ao sagrado que agora se revela de modo tão grotesco".



Berdyaev culpa o regime czarista e a Igreja Ortodoxa pelo que aconteceu em 1917. Deixando de lado o primeiro, examinemos o papel da Igreja no período pré-revolucionário. Por um lado, ela ainda era a igreja do estado, extremamente poderosa e influente, penetrando em todos os níveis da vida em sociedade. Ainda existiam santos vivos, como João de Kronstadt e a vida espiritual florescia, pelo menos em alguns mosteiros. Por outro lado, a Igreja era governada por autoridades civis, ou até por figuras exóticas como Rasputin, e é verdade que estava paralizada em grande medida.



Recordo-me de ter lido um livro do Padre George Shavelsky, que fora protopresbítero das Forças Armadas Russas sob Nicolau II. Ele era membro sênior do Santo Sínodo, e dava seu testemunho de que o Sínodo estava realmente muito longe da vida do povo, que fazia muito pouco, se é que fazia, para evitar que a propaganda atéia se espalhasse entre as pessoas comuns. Para mostrar como era bem pouco o que restava da devoção tradicional do povo a Deus, Shavelsky cita o seguinte exemplo: quando um decreto imperial especial determinou que comparecer à Liturgia não era mais obrigatório para os soldados russos, apenas dez por cento deles continuaram indo à Igreja.



Outro testemunho do mesmo tipo é o do Metropolita Veniamin (Fedchenkov), que se tornou bispo do Exército Branco depois da revolução. Ele escreve que nenhum dos alunos da Academia Teológica de S. Petersburgo, onde ele havia estudado, sequer iam ver o Pe. João de Kronstadt, e que alguns de seus alunos eram ateus. Ele descreve uma atmosfera de frio espiritual dentro da Igreja Ortodoxa, uma falta de espírito profético. Ele diz quenão foi por acaso que surgiram pessoas como Rasputin: em um ambiente geral de indiferença quanto a religião, ele era uma figura carismática e assim foi aceito pelas autoridades eclesiásticas, que então o dirigiram até o palácio imperial.



O terceiro testemunho que gostaria de trazer aqui é de um tipo mais pessoal, é o do Pe. Sergei Bulgakov. Ele era filho de padre,e depois de estudar em um seminário teológico, tornou-se ateu, seguindo os passos de Chernyshevsky e Dobroliubov. Em suas notas autobiográficas, ele se pergunta como isso pôde acontecer, e responde: "Aconteceu, de alguma forma, quase de repente, e de maneira imperceptível, como algo tido por certo, quando a poesia da minha infância foi substituída pela prosa do seminário teológico... quando comecei a duvidar, meus pensamentos críticos não estavam satisfeitos com a apologética tradicional, mas ao invés, a consideravam escandalosa... minha revolta era fortalecida pela devoção compulsória: aqueles ofícios compridos com acátistos, e rituais devocionais no geral, não me davam satisfação nenhuma." O Pe. Bulgakov desistiu de sua religião facilmente, sem luta, e nem suas origens sacerdotais, nem sua educação teológica o ajudaram a resistir a tentação do ateísmo e do niilismo.



O quadro que temos quando lemos as memórias dos que viveram o período pré-revolucionário é de um profundo declínio na crença religiosa. Embora o Cristianismo Ortodoxo ainda fosse mantido como religião oficial da monarquia russa, tanto a sociedade como a Igreja estavam fatalmente contaminados pela descrença, pelo niilismo e pelo ateísmo. Até os seminaristas, futuros padres, oscilavam entre a religião e o ateísmo. Muitos cristãos comuns, se não a maioria, não tinha fé nenhuma, e foram eles que se voltaram contra a Igreja assim que a participação nela deixou de ser encorajada. A Igreja de uma só vez perdera a grande maioria de seus membros e continuou com um rebanho pequeno constituído dos que estavam dispostos a morrer por Cristo.



Sabemos o que aconteceu com tais fiéis da Igreja. Ou foram executados ou severamente perseguidos, e apenas alguns dentre eles sobreviveram.



Houve uma certa melhora na situação da Igreja durante e depois da II Guerra Mundial, mas a Igreja nunca recuperou a posição dentro da sociedade russa que ocupara antes.



Que tipo de ateísmo foi imposto ao povo russo pelo regime soviético? Não foi de fato descrença: foi, ao invés, uma crença muito forte na não-existência de Deus, em um futuro feliz nesta vida, na infalibilidade do partido comunista e de sua ideologia materialista. A figura quase-divina de Lênin (por muitos anos ao lado de Stálin, mas depois apenas ele) era dominante por toda parte, em todos os lugares, em todas as salas de todos os prédios públicos, fossem jardins de infância ou universidades, lojas ou hospitais. Lênin como deus, o partido único como única igreja, seus líderes (o Politbureau) como uma assembléia de santos, os trabalhos de Lênin como a Bíblia, etc. O povo soviético não recebeu ateísmo, mas uma pseudo-religião, uma religião do Anticristo. Assim Berdyayev estava bem correto em falar do caráter religioso do socialismo e ateísmo russos. Em que medida foi essa ideologia atéia aceita pelo povo, ou melhor, quantas pessoas aceitaram essa ideologia e qual porcentagem era capaz de resistir? Nas décadas de 1920 e 1930 o ateísmo russo viveu seu estágio mais militante: era muito ativo, agressivo e envolvia as massas do povo. No fim da década de 1960, porém, já tinha perdido muito do seu entusiasmo inicial: era tido como certo pela maioria, mas já não era seguido com fanatismo e zelo. Assim, em termos da qualidade do ateísmo russo, são os anos de 1930 que devem ser considerados seu clímax, mas quanto a números, acho que serão encontrados mais nas décadas de 1960 e 1970. Durante os 1930 ainda existiam as babushki (vovózinhas), que guardavam secretamente a fé que tinham herdado da época do tsar. Mas no fim dos 1970s, as vovós pré-revolucionárias já tinham na maioria morrido (com isso me refiro às que foram educadas antes da revolução), e seu lugar era tomado por aquelas que cresceram dentro do regime ateu.



Posso ilustrar o que disse sobre a qualidade do ateísmo russo com exemplos da minha própria família. Todos os meus avós nasceram antes da Revolução, mas foram educados depois dela: nenhum deles era um crente. Mesmo na década de 1980, quando quase todos os membros mais jovens da minha família, um depois do outro, vinham à Igreja para serem batizados, meus avós se mantiveram fora desse processo. Uma das minhas avós me disse uma vez: "Eu me sinto como Robinso Crusoé na sua ilha desabitada: todo mundo a minha volta vai à Igreja, e eu não." Ela tinha sido membro do Partido Comunista por mais de 50 anos e, suponho, na década de 20 deve ter sido uma atéia militante. Mas no início dos anos 80, de quando eu me lembro dela, ela não sentia nada contra a religião, mas nada em favor dela também. Seu ateísmo tinha se tornado completamente passivo: era tido como garantido e ela não pensava nisso.



Meus pais cresceram na sociedade atéia das décadas de 40 e 50 e nunca foram ateus militantes. Já em sua juventude rejeitaram a ideologia soviética e buscavam a verdade fora dela. Mas ainda existia uma pressão tremenda sobre eles por parte da sociedade na qual tinham que sobreviver, e tinham medo constante de que sua descrença na ideologia fosse descoberta e que eles seriam punidos. Minha mãe veio para o Cristianismo em meados da década de 70, mas não podia praticar sua religião abertamente. Ser abertamente religioso ainda significava ser expulso da sociedade atéia, e talvez perder o emprego. Foi em alguma casa secreta, e não em uma igreja, que eu fui batizado.



Eu cresci entre as décadas de 70 e 80, o qual certamente foi um período de declínio do ateísmo russo. Mas ainda era perigoso praticar a religião abertamente: por exemplo, eu teria sido expulso da minha escola, uma escola musical de elite, se tivessem descoberto que eu ia à igreja. Durante os onze anos de estudos naquela escola, eu não vi nenhum pupilo que fosse abertamente religioso. Era dado por certo que todo mundo era ateu.  Ao mesmo tempo, muitos dos meus colegas não compartilhavam a ideologia oficial e tinha idéias muito liberais: estavam afastados da Igreja, mas muitos deles também não acreditavam nas idéias comunistas também. Ainda era difícil acreditar abertamente em Deus, mas já era bem possível não acreditar na ideologia. A atmosfera na minha escola era bem tolerante, embora o nível oficial de ideologia comunista era mantido.



Assim, embora eu tenha crescido sob o regime ateu, eu nunca fui tão pressionado a ponto de não ser capaz de resitir: ao contrário, lembro de uma total ausência de medo e um maravilhoso sentimento de liberdade. Portanto, não fico surpreso que tenha sido predominantemente pessoas da minha geração que foram para as ruas de Moscou em agosto de 1991 para se despedir do regime comunista. Eles não estavam com medo porque cresceram durante o período de declínio e decomposição da ideologia comunista.



Uma das principais razões para a falência da ideologia atéia soviética foi que as pessoas simplesmente não acreditavam mais nela. Quando o ateísmo perdeu seu caráter religioso, tornou-se vazio e perdeu seu poder muito antes de ser oficialmente abandonado. 



E qual é agora, em resumo, a situação do ateísmo e da religião na Rússia, depois do colapso do sistema soviético?



Parece-me que, embora o número de crentes tenha aumentado enormemente nos últimos anos, a Rússia ainda está longe de ser um país cristão. Batizar-se, ser ortodoxo, tornou-se uma moda. Não me surpreenderia se a maioria das pessoas, quando perguntadas se são ortodoxas, dariam agora uma resposta positiva. Isso não significa, porém, que todas elas vão à Igreja. Significa apenas que a maioria deles adotou uma nova identidade exterior para se harmonizarem com o tal "reavivamente religioso". Eu lembro de perguntar uma adolescente que veio com sua mãe para ser batizada: "Você acredita em Deus?" "Não", foi o que ela respondeu. Tive então que perguntar, "Por que então você quer ser batizada?" "Bem, todo mundo tá se batizando hoje em dia", ela disse. Esse caso, um de muitos, ilustra que muitas pessoas vivem a religião de um modo muito superficial, às vezes até sem acreditar em Deus. Continuando interiormente ateus, tornam-se externamente ortodoxos.



A última pesquisa de opinião na Rússia mostra que embora exista um número relativamente pequeno de ateus convictos, cristãos praticantes estão longe de ser uma maioria. A maioria dirá "acredito em alguma coisa". Reconhecemos que existe algo "sobrenatural", mas também dizem que a fé religiosa não tem um papel muito importante em suas vidas. Existe um outro paradoxo: nem todas as pessoas que dizem ser ortodoxas acreditam em Deus. Alguns chegam a participar de organizações e movimentos ortodoxos sem praticar a religião.



Falar de um reavivamento religioso na Rússia contemporânea se tornou um lugar comum. Mas as pessoas divergem no entendimento do que significa esse reavivamento. Certamente há um reavivamento externo: muitas igrejas, mosteiros e escolas teológicas tem sido reabertas, os prédios estão sendo restaurados. Mas ainda é cedo para falar de uma restauração da alma russa. Não existe uma melhora da moral na Rússia contemporânea. Ao contrário, temos que admitir que os padrões morais tornaram-se ainda mais baixos do que costumavam ser sob os soviéticos. Não é isso uma indicação de que não existe um reavivamento interior da vida cristã, que as pessoas não adotam o cristianismo como uma norma de vida? Não é uma evidência gritante do fato de que o longamente esperado arrependimento, a metanóia como uma mudança de mentalidade para melhor, ainda não ocorreu na Rússia?



Alguns atribuem essa repentina degradação dos padrões morais à influência ocidental: é do Ocidente degenerado que vêm a pornografia, a prostituição e todo tipo de imoralidade. Esta é a nossa fuga: culpar a todo mundo, menos a nós mesmos. Mas a realidade é que, como Berdyaev disse em 1918, 'por amargo que seja... o povo russo é hoje menos religioso que muitos povos do ocidente... a cultura religiosa da alma nele é mais fraca.' Isso é verdade se por cultura religiosa entendermos não a participação em alguma organização ortodoxa de direita, mas primeiro de tudo viver de acordo com as normas da moralidade cristã.


Quando a 'perestroika' começou, a Igreja foi desafiada por expectativas muito altas da sociedade. Muitos acreditavam que a Igreja seria capaz de assumir o papel de liderança no reavivamento espiritual da nação. Temos que admitir que isso não aconteceu. A Igreja começou a "reviver" reconstruindo as paredes dos mosteiros (o que é uma tarefa realmente importante e difícil), mas não respondeu adequadamente à necessidade da iluminação moral e religiosa do povo. Os líderes da Igreja ganharam acesso às autoridades civis, mas até agora foram incapazes (com alguams exceções) de ganhar acesso ao povo comum, especialmente os que estão fora da Igreja. A Igreja Ortodoxa ainda está fechada em si mesma; ainda está mais ocupada com seus próprios problemas internos do que com as demandas espirituais da sociedade moderna.  No fim, as seitas protestantes ocidentais tomaram a iniciativa de iluminar os ex-ateus, e não é de surpreender que com sua atitude direta e algo insistente, estejam ganhando a simpatia de mais e mais pessoas comuns.



O ateísmo russo pode muito bem morrer algum dia, mas isso irá acontecer quando além de ter sido batizado, o país seja iluminado e nasça de novo. 



A Igreja Ortodoxa deve ter um papel central nesse renascimento espiritual. Mas isso só pode acontecer depois que ela se tornar verdadeiramente uma igreja da nação e não do estado, seja lá qual estado for. Ela deve ser uma igreja da nação, do povo. Para se tornar isso, a Igreja deve sair de sua concha, deve aprender a falar a língua que o povo fala, deve encarar as demandas da sociedade e respondê-las adequadamente.


No presente, nossa igreja luta para encontrar sua nova identidade na Rússia pós-comunista e pós-atéia. 



Existem, em minha opinião, dois perigos principais. O primeiro é o retorno a uma situação pré-revolucionária, onde havia uma Igreja do estado que se tornou cada vez menos uma igreja da nação. Se, em algum ponto do desenvolvimento da sociedade, tal papel for oferecido à Igreja pelo estado, seria um enorme erro aceitá-lo. Nesse caso, a Igreja será novamente rejeitada pela maioria da nação, como o foi em 1917. Os 70 anos de perseguição soviética foram uma experiência de fogo purgatorial para a Igreja russa, do qual ela deveria ter saído completamente renovada. O erro mais perigoso seria não aprender com o que aconteceu e retornar a uma situação pré-revolucionária, como alguns membros do clero desejam fazer hoje em dia.



O segundo erro é o da Ortodoxia militante, o que seria a contra-parte pós-atéia do ateísmo militante. Refiro-me a uma Ortodoxia que quer lutar contra judeus, contra maçons, contra a democracia, contra a cultura ocidental, contra o iluminismo. Esse tipo de Ortodoxia tem sido pregada até por membros chave da hierarquia, e tem muitos apoiadores.  Esse tipo de Ortodoxia, especialmente se ganhar apoio do estado, pode forçar o ateísmo russo para as catacumbas, mas temporariamente. Mas ele não desaparecerá até que haja uma transfiguração da alma, e a necessidade de viver de acordo com o Evangelho se torne a única mensagem da Igreja Ortodoxa russa.



Sua Eminência, o Reverendíssimo Metropolita Hilarion (Alfeyev) de Volokolamsk é bispo na Igreja Católica Ortodoxa russa, presidente do Departamento de Relações Exteriores da Igreja, membro permanente do Santo Sínodo do Patriarcado de Moscou, teólogo, historiador da Igreja e compositor. É também autor de diversos livros sobre teologia dogmática, patrística, e história da igreja, com artigos em várias  línguas, bem como compositor para coro e orquestra.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

METROPOLITA HILARIÃO DE VOLOKOLAMSK ENCONTRA EMBAIXADOR DA RÚSSIA PARA O BRASIL




O Metropolita Hilarião de Volokolamsk, presidente do Departamento de Relações Externas da Igreja (DREI) do Patriarcado de Moscou, encontrou-se no dia 09 de março de 2010 com o recém-indicado embaixador russo no Brasil, S. Akopov.

Participou 
da conversa o Igúmeno Philip (Riabykh), vice-presidente do DRE, o Rev. Dionísio Kazantsev, reitor da paróquia de São Pedro e São Paulo em Santa Rosa e da paróquia de São João, o Teólogo, em Campina das Missões, Brasil e pelo Sr. M. Palacio, membro da equipe do DREI.Sua Eminência Hilarião falou ao Sr. Akopov sobre a condição atual da Ortodoxia russa no Brasil, chamando sua atenção para o fato de que as paróquias brasileiras da Igreja Russa no Exílio rejeitou a restauração da comunhão canônica com a Igreja Ortodoxa Russa.

De acordo com o Metropolita, a razão foi, em grande parte, o fato de que um número considerável de imigrantes russos no Brasil acredita em idéias desatualizadas sobre sua pátria e sobre o Patriarcado de Moscou. "Nossa tarefa comum é ajudar nossos compatriotas a entenderem a verdade sobre a Igreja mãe", ele disse.

Sua Eminência manifestou esperança de que cooperação entre o DREI e a embaixada russa no Brasil aumente e pediu ao Sr. Akopov para apresentar os residentes à tradição espiritual e história russas e à atualidade da vida da Igreja Ortodoxa Russa.O Sr. Akopov, de sua parte, garantiu ao presidente do DREI sua prontidão em ajudar de todos os modos possíveis a desenvolver a presença da Ortodoxia russa no Brasil.

Como lembrança do encontro, o Metropolita Hilarião deu a novo embaixador russo no Brasil um disco com sua composição "A Paixão Segundo S. Mateus".


Serviço de Comunicações do DREI.

http://www.mospat.ru/en/2010/03/09/news14264/

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Sermão de São Tikhon no Domingo do Triunfo da Ortodoxia


Sermão de São Tikhon no Domingo do Triunfo da Ortodoxia

São Tikhon foi bispo nos EUA no início do século XX e posteriormente patriarca de Moscou pouco antes da Revolução Comunista.


Neste domingo, irmãos, inicia-se a semana da Ortodoxia, ou a semana do Triunfo da Ortodoxia, assim chamada pois é neste dia que a Santa Igreja Ortodoxa solenemente relembra sua vitória sobre a heresia iconoclasta e outras heresias e, com gratidão, relembra todos os que lutaram pela fé Ortodoxa em palavras, escritos, ensinos, sofrimentos, ou com uma vida em Deus.

Ao mantermos o dia da Ortodoxia, os ortodoxos devemos lembrar que é nosso dever sagrado mantermo-nos firmes na fé ortodoxa e cuidadosamente mantê-la.

Para nós, é um precioso tesouro: nesta fé nascemos e fomos criados; todos os eventos importantes da nossa vida estão relacionados com ela, e ela está sempre pronta a nos ajudar e abençoar em todas as necessidades e boas iniciativas, por menores que pareçam ser. Ela nos dá forças, alegria e consolo; nos cura, purifica e nos salva.

A fé Ortodoxa também nos é querida porque é a Fé de nossos Pais. Por amor dela, os Apóstolos labutaram e suportaram dores; mártires e pregadores sofreram por ela, campeões, que eram como os santos, derramaram lágrimas e sangue; pastores e professores lutaram por ela, e nossos ancestrais a defenderam, e tal legado deveria ser para nós como a pupila de nossos olhos.

E quanto a nós, descendentes destes – preservamos a fé Ortodoxa? Somos fiéis aos seus Evangelhos? Desde milênios atrás, o profeta Elias, este grande trabalhador pela glória de Deus, denunciava que os Filhos de Israel haviam abandonado o Testamento do Senhor, afastando-se dele e chegando-se aos deuses dos pagãos. Ainda assim, o Senhor revelou ao Seu profeta que entre os israelitas ainda existiam sete mil pessoas que não haviam se ajoelhado perante Baal ( 3 Reis 19 LXX(1)). De forma parecida, sem dúvida, em nossos dias também existem alguns verdadeiros seguidores de Cristo. “O Senhor conhece os que são Seus.” (2 Tim 2.19)

Ocasionalmente encontramos os filhos da Igreja, aqueles que são obedientes aos Seus decretos, que honram seus pastores espirituais, que amam a Igreja de Deus e a beleza do seu exterior, que anseiam por atenderem à Divina Liturgia e levar uma vida boa, que reconhecem suas falhas humanas e sinceramente arrependem-se de seus pecados.

Mas existem muitos como estes entre nós? Não são em maior número aqueles, “em quem as sufocantes ervas daninhas da vaidade e da paixão permitem apenas pequenos frutos da influência dos Evangelhos, ou que são mesmo desprovidas de frutos, que resistem à verdade do Evangelho, por causa do aumento de seus pecados, que renunciam ao dom do Senhor e repudiam a Graça de Deus”.

‘Eu fiz nascer filhos e os glorifiquei, e mesmo assim eles Me renegam’ disse o Senhor nos dias antigos, a respeito de Israel. E hoje também existem muitos que o Senhor fez nascer, cuidou e glorificou na fé Ortodoxa, e mesmo assim negam sua fé, não prestam atenção aos ensinamentos da Igreja, não mantêm suas injunções, não escutam seus pastores espirituais e se mantêm frios no que se refere aos ofícios divinos e à Igreja de Deus.

Quão rapidamente alguns de nós perdem a fé Ortodoxa neste país de muitos credos e tribos! Eles começam sua apostasia com coisas que a seus olhos possuem pouca importância. Eles acham que é “antiquado” ou que “não é aceitável entre as pessoas cultas” observar costumes tais como: orar antes e depois das refeições, ou mesmo de manhã e à noite, usar uma cruz no pescoço, ter ícones em suas casas ou observar os dias santos da igreja e seus jejuns. E não param em tais coisas, mas vão além: raramente vão à igreja e algumas nem mesmo vão, já que o homem tem que descansar no domingo (em algum bar); eles não se confessam, não fazem questão de se casar na igreja e adiam o batizado de suas crianças.

E deste modo seus laços com a fé Ortodoxa são quebrados! Eles se lembram da Igreja no leito de morte, e alguns nem mesmo ali! Para desculpar sua apostasia eles ingenuamente dizem: ‘esta não é a nossa terra natal, aqui é a América, e portanto é impossível observar todas as exigências da Igreja’, como se a palavra de Cristo fosse apenas para a terra natal e não para o mundo todo. Como se a fé Ortodoxa não fosse a fundação do mundo!

“Ah, nação pecadora, um povo tomado pela iniquidade, uma semente de perpetradores do mal, crianças que são corruptoras: eles se esqueceram do Senhor, eles provocaram a ira do Santo de Israel’ (Is 1.4)

Se não conseguem preservar a fé Ortodoxa e os mandamentos de Deus, o mínimo que podem fazer é não humilharem seus corações inventando falsas desculpas para seus pecados!

Se não honram nossos costumes, o mínimo que podem fazer é não rir das coisas que não conhecem nem entendem.

Se não aceitam o cuidado maternal da Santa Igreja Ortodoxa, o mínimo que podem fazer é confessar que agem erroneamente, que estão pecando contra a Igreja e se comportando como crianças!

Se o fizerem, a Igreja Ortodoxa irá perdoá-los, como uma terna mãe, de sua frieza e fraqueza, e irá recebê-los de volta em seus braços, como filhos que erraram.

Apegando-se à fé Ortodoxa, como a algo santo, amando-a com todo o seu coração e dando-lhe o mais alto valor, cada Ortodoxo deve, além disso, esforçar-se para espalhar esta fé entre os povos de outras crenças.

Cristo, o Salvador, disse que “nem os homens acendem uma vela para colocá-la embaixo da mesa, mas sobre o candelabro, para que ela ilumine a todos que estão na casa.’ (S. Mt. 5:15)

A luz da Ortodoxia não foi acesa para brilhar apenas sobre um pequeno número de pessoas. A Igreja Ortodoxa é universal; ela se lembra das palavras de seu Fundador: “Vão ao mundo, e preguem o evangelho para todas as criaturas”(S. Lc. 16:15), “vão pois, e ensinem a todas as nações” (S. Mt. 28:19).

Temos que compartilhar nossa riqueza espiritual, nossa verdade, luz e alegria com os outros, que estão privados de tais bênçãos, mas normalmente estão buscando-as e sedentas por elas.

Certa feita, uma visão apareceu a Paulo de noite. Um homem da Macedônia o chamava dizendo, ‘venha para a Macedônia e nos ajude,’ (At. 16.9). Depois deste evento o apóstolo foi a este país apregoar a Cristo. Nós também ouvimos este convite. Nós vivemos cercados por pessoas de crenças diferentes; no mar de várias religiões, nossa Igreja é uma pequena ilha de salvação, na direção da qual alguns nadam, atirados ao mar da vida. ‘Venham, rápido, socorro!’, escutamos às vezes de pagãos em lugares tão longe quanto o Alasca, e mais frequentemente daqueles que são nossos irmãos em sangue e foram um dia nossos irmãos em fé, os Uniatas. ‘Recebe-nos em sua comunidade, nos dê um de seus bons pastores, nos envie um Padre para que tenhamos o Ofício Divino realizado nos dias santos, ajude-nos a construir uma igreja, a construir uma escola para nossos filhos, para que eles não percam na América sua fé e nacionalidade,’ estes são os pedidos que temos escutado, especialmente nos últimos dias.

E devemos nós permanecer surdos e insensíveis? Deus nos proteja contra tal falta de compaixão. Ou então ai de nós, ‘pois tomamos a chave do conhecimento e nem entramos nós, e nem deixamos entrar os que queriam.’ (S. Lc. 11:52).

Mas quem vai trabalhar pela expansão da fé Ortodoxa, para o crescimento dos filhos da Igreja Ortodoxa? O clero e missionários, você responde. Você está certo, mas estarão eles sozinhos?

S. Paulo sabiamente compara a Igreja de Cristo a um corpo, e a vida do corpo é compartilhada por seus membros. Assim deve ser na vida da Igreja também. ‘Do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor. ‘(Ef. 4:16)

No início, não apenas o clero sofria pela fé do Cristo, mas também os leigos, homens, mulheres e até crianças. Heresias foram combatidas por leigos também. Igualmente, a expansão da fé de Cristo deve ser algo próximo e querido ao coração de todo cristão. Neste trabalho todo membro da Igreja deve tomar parte com vivacidade e de coração. Este interesse pode se expressar na pregação pessoal do Evangelho de Cristo.

E para nossa alegria, sabemos de tais exemplos entre nossos irmãos leigos. Em Sitka, membros de uma irmandade missionária de índios fazem trabalho missionário com os outros habitantes de suas vilas. E um irmão zeloso viajou até uma vila distante (Kilisno), e ajudou bastante o padre local em proteger os filhos simples e crédulos da Igreja Ortodoxa contra influências exteriores, através de suas próprias explicações e argumentos. Além disso, em muitos lugares dos Estados Unidos, aqueles que deixaram o Uniatismo para juntar-se à Ortodoxia compartilham com seus amigos onde a verdade pode ser encontrada, e os predispõem a entrarem para a Igreja Ortodoxa.

Não é necessário dizer, não são todos entre nós que tem a oportunidade ou a capacidade de pregar o evangelho pessoalmente. E em vistas disto, eu os oriento, irmãos, que cada pessoa faça o que possa para expandir a Ortodoxia e essa é a medida do seu dever.

As Epístolas Apostólicas frequentemente mostram o fato de que quando os Apóstolos se dirigiam a lugares distantes para pregar, os fiéis normalmente os ajudavam com suas orações e ofertas. São Paulo buscou esta ajuda dos cristãos especialmente.

Consequentemente, podemos expressar o interesse que temos na causa do Evangelho orando ao Senhor,

que Ele tome esta santa causa sob Sua proteção,

que Ele dê aos seus servos a força para realizarem seu trabalho dignamente,

que Ele os ajude a conquistar as dificuldades e perigos, que são parte do trabalho,

que Ele não permita que se sintam deprimidos ou enfraqueçam em seu zelo,

que Ele abra os corações dos descrentes para ouvirem e a aceitarem o Evangelho de Cristo,

que Ele conceda a eles a palavra da verdade,

que Ele os una à Santa Igreja Católica e Apostólica;

que Ele confirme, aumente e pacifique Sua Igreja, mantendo-na para sempre invencível,


oramos por tudo isso, porém quase sempre com os lábios, mas raramente com o coração.

Não escutamos amiúde comentários como: ‘de que servem estas orações em particular pelos novos iniciados? Eles não existem em nosso tempo, exceto, talvez, em lugares distantes como as Américas e na Ásia; que orem por eles, onde eles existam; em nosso país tais orações apenas prolongam desnecessariamente o ofício, que já não é curto do jeito que é.’ Ai da nossa falta de sabedoria. Ai do nosso relaxamento e ociosidade!

Oferecendo orações sinceras para o sucesso da pregação de Cristo, nós também mostramos nosso interesse de ajudar materialmente. Era assim na Igreja primitiva, e os Apóstolos amavelmente aceitavam a ajuda material à causa da pregação, vendo nela uma expressão de amor e zelo cristãos.

Em nossos dias, estas ofertas são especialmente necessárias. Por falta delas, muitos trabalhos param no meio. Por falta delas, pregadores não podem ser enviados, ou apoiados, igrejas não podem ser construídas, nem escolas podem ser fundadas, e os necessitados entre os recém-convertidos não podem ser ajudados. Tudo isso necessita de dinheiro e membros de outras religiões sempre encontram um modo de provê-lo.

Talvez você diga que estas pessoas sejam mais ricas do que nós. É verdade, mas grandes recursos são acumulados por pequenos, e se todos entre nós derem o que puderem com tal objetivo, nós também poderemos angariar recursos consideráveis. Igualmente, não se envergonhem do pouco que seja sua oferta. Se você não possuir muito, ofereça o que puder,  mas por favor ofereça, não perca a chance de ajudar a causa da conversão dos seus próximos para Cristo, porque em fazendo-o, nas palavras de S.Tiago, ‘você salvará sua alma da morte e ocultará uma multidão de pecados’(S. Tg. 5:19-20).

Povo Ortodoxo! Celebrando o dia da Ortodoxia, vocês devem entregar-se a fé Ortodoxa não em palavra e língua apenas, mas em feitos e em verdade.

1 O livro 3 Reinos na versão Septuaginta do Antigo Testamento é paralelo ao livro 1 Reis da Bíblia Hebraica na qual muitas versões estão baseadas. Assim, o texto de 3 Reinos 19, pode ser encontrado em 1 Reis 19.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

O dia em que eles começaram a matar cristãos

Tradução de: http://fatherjohn.blogspot.com/2005/02/day-they-began-killing-christians.html
Elevando seus braços aos céus, o Metropolita Vladimir orou em voz alta:
"Ó Deus, perdoa meus pecados, voluntários e involuntários, e aceita meu espírito em paz."
Então ele abençoou seus assassinos com ambas as mãos e disse:
"Meu Deus os abençoa e perdoa."
No silêncio da noite, quatro tiros foram ouvidos, então mais dois, e mais...
O Hieromártir Vladimir de Kiev, 7 de fevereiro de 1918


Neste domingo que se aproxima (8 de fevereiro de 2009), a Igreja Ortodoxa Russa celebra a memória dos Novos Mártires eConfessores da Rússia, que foram assassinados pelos comunistas. O motivo pelo qual este domingo em particular foi escolhido é que ele é o mais próximo do dia em que o primeiro Mártir do Jugo Comunista foi assassinado (25 de janeiro no Calendário Ortodoxo, 7 de fevereiro no calendário civil).

Talvez não seja coincidência que este mártir tenha sido o metropolita Vladimir de Kiev, que porta o nome de S. Vladimir, o Grande, que iluminou a terra russa com a fé cristã; e que tenha sido o Metropolita de Kiev, a cidade-mãe da Rússia que testemunhou o batisma da velha Rus em 988 DC. Este era o início de um novo batismo da Rus( http://saintjohnwonderworker.org/baptism.htm ) e através da fé e das orações dos Novo Mártires, vemos hoje o início de um renascimento do Cristianismo Ortodoxo na Rússia.

É especialmente comovente ler sobre a reação dos fiéis, que em todas as suas vidas leram sobre os mártires do passado, mas que pela primeira vez viram um em carne e osso. Este foi apenas o primeiro de milhões assassinados pelos comunistas por se recusarem a dobrar os joelhos ao estado ao invés de Deus. ( http://www.allsaintsofamerica.org/martyrs/nmruss.html )

Eis aqui o relato de seu assassinato nas mãos dos comunistas:
( http://www.orthodox.net/russiannm/vladimir-metropolitan-and-hieromartyr-of-kiev.html ):

Cápsulas de artilharia começaram a cair nas cavernas da Lavra de Kiev no dia 15 de janeiro e continuaram por vários dias. Entretanto, o metropolita continuou com suas obrigações religiosas, demonstrando grande calma, e no dia 23 de janeiro celebrou sua última Divina Liturgia com a irmandade da Lavra. No dia 23 de janeiro, os bolsheviques invadiram a Lavra, cometendendo jamais vistos atosde sacrilégio e pilhagem, debochando e chicoteando os monges e matando os oficiais e pessoal militar que lá estavam. A despeito da comoção, o metropolita oficiou um acatisto à Dormição da Mãe de Deus na grande igreja da Lavra, o qual acabou sendo seu último ofício na terra. Então ele e o Bispo Teodoro de Priluki, foram para o altar da igreja menor, a qual era dedicada à S. Miguel, primeiro metropolita de Kiev.

A noite de 25 de janeiro foi alarmante. Quatro homens armados e uma mulher,vestida como uma enfermeira da Cruz Vermelha, invadiram as instalações do superior, realizaram uma busca detalhada e levaram tudo de valor. No meio danoite, três deles saíram "para fazer reconhecimento" e roubaram o tesoureiro e o preposto. Mais tarde, três Vermelhos armados vasculharam os aposentos do metropolita e, não encontrando nada de valor, levaram uma medalha de ouro do cofre.

Às seis e meia da tarde, a campainha tocou fortemente três vezes. Cinco homens, vestidos com uniformes de soldados e liderados por um marinheiro, entraram na casa e perguntaram por "Vladimir, o metropolita". Foram guiados descendo as escadas até a cela do arquipastor. O metropolita saiu para encontrá-los, e então foi levado para o quarto onde ficaram por vinte minutos atrás de portas trancadas. Lá o Metropolita Vladimir foi torturado e estrangulado com a corrente de sua cruz, insultado e ordenado a entregar-lhes dinheiro. Depois, os presentes encontraram no chão do quarto pedaços de uma corrente quebrada, uma corda de seda, uma caixinha com relíquias sagradas e um iconezinho que o metropolita sempre usava no pescoço.

Quando o metropolita saiu vinte minutos depois, cercado por seus torturadores, estava vestindo sua batina, uma panaguia ( http://en.wikipedia.org/wiki/Panagia#Vestment ) e um klobuk branco (http://en.wikipedia.org/wiki/Klobuk) na cabeça. Nos primeiros degraus ele foi abordado pelo servente da cela, Philip, que lhe pediu sua benção. O marinheiro o empurro, gritando:

"Pare de mostrar respeito a esses sanguessugas! Chega disso!"

O metropolita foi até Philip, abençou-o, beijou-o e apertando sua mão disse:

"Adeus, Philip."

E então enxugou suas lágrimas. Philip relatou mais tarde que quando se separaram o metropolita estava calmo e solene, como se estivesse saindo para a igreja, para celebrar a Santa Liturgia.

Este velho, humilde e inocente servo de Deus foi para sua morte sem qualquer sinal de fraqueza ou medo. Enquanto era levado para fora do monastério, persignou-se e suavemente cantou uma oração.

Uma testemunha ocular relata que o Metropolita Vladimir foi levado de carro dos portões do monastério até o local da execução. No seu caminho do carro até uma pequena clareira perto de uma parede fortificad, ele perguntou:

"É aqui que vão atirar em mim?"

Um dos assassinos respondeu:

"Por que não? Você espera que façamos cerimônia para você?"

Quando o metropolita pediu permissão para orar antes de ser alvejado, a resposta foi:

"Seja rápido com isso!"

Elevando seus braços aos céus, o Metropolita Vladimir orou em voz alta:

"Ó Deus, perdoa meus pecados, voluntários e involuntários, e aceita meu espírito em paz."

Então ele abençoou seus assassinos com ambas as mãos e disse:

"Meu Deus os abençoa e perdoa."

No silêncio da noite, quatro tiros foram ouvidos, então mais dois, e mais...

"Estão atirando no metropolita!", disse um dos monges na Lavra.

"São tiros demais para um assassinato só", replicou outro.

Ao som dos tiros, cerca de quinze marinheiros com revólveres e lanternas correram para o quintal do monastério. Um deles perguntou:

"Eles levaram o metropolita?"

"Levaram para fora dos portões", responderam os monges timidamente.

Os marinheiros correram, e em vinte minutos voltaram.

"É, nós achamos ele," eles disseram, "e vamos cuidar de cada um de vocês da mesma forma".

Existe um outro relato da morte do metropolita. O arquimandrita Nicanor Troitsky lembra que quando era menino, sua mãe correu com ele até a Lavra, onde um círculo de soldados estava impedindo uma multidão de se aproximar da cena da execução. Ele lembra que o metropolita foi arguido sobre uma série de questões, e cada vez que dava uma resposta insatisfatória uma baioneta lhe golpeavao corpo até que ele se tornou uma fonte de sangue. Depois da execução a multidão quebrou o cordão de soldados. Então a mãe do Pe. Nicanor disse-lhe para por os dedos no sangue do metropolita martirizado, fazer uma cruz na testa, e lembrar que tinha testemunhado a morte de um verdadeiro mártir, a cuja confissão ele deveria ser fiel por toda a sua vida....

O silêncio não foi quebrado novamente naquela noite. O monastério dormia, e ninguém parecia se dar conta de que apenas a mil pés dos portões norte da Lavra, em uma poça de sangue, jazia o corpo estilhaçado do santo metropolita.

Ao nascer do sol, algumas mulheres peregrinas apareceram nos portões da Lavra, e os monges ouviram delas onde estava o corpo mutilado do metropolita. A irmandade decidiu trazer o corpo para o monastério, o que necessitou de permissão das autoridades comunistas. Às nove horas, o arquimandrita Anthimus, acompanhado por quatro assistentes hospitalares, foi até a cena do assassinato.

O metropolita estava sobre suas costas coberto com um sobretudo. Faltavam sua panagia, seu klobu e cruz, galochas, botas, meias, relógio de ouro e corrente. A autópsia mostrou que havia sido assassinado com balas explosivas e perfurado em vários locais com armas afiadas e frias. Suas mãos estavam congeladas na posição de benção.

Depois de oficiar uma litiya no local onde o metropolita havia morrido, colocaram o corpo na maca e, por volta de onze da manhã, o trouxeram para a igreja de S. Miguel, onde o metropolita assassinado havia passado as últimas horas de sua vida. Enquanto o Arquimandrita Anthimus estava erguendo o corpo, foi cercado por mais ou menos dez homens que começara a debochar e insultar os restos mortais do metropolita.

"Você quer enterrá-lo! Mas ele merece ser jogado na sarjeta! Vocês querem fazer relíquias dele, é por isso que estão guardando-o!", gritavam.

Enquanto a lamuriosa procissão fazia seu caminho até a Lavra, mulheres pias que estavam passando, choraram e oraram, dizendo:

"O sofredor e santo mártir, que o Reino de Deus seja para ele!"

"Um reino dos céus? Seu lugar é no inferno, no lugar mais profundo!", replicavam os fanáticos.

Depois do corpo do metropolita ter sido fotografado e vestido apropriadamente, o vice-abade da Lavra, Arquimandrita Clemente, e os irmãos mais antigos do monastério oficiaram uma panikhida. No dia 27 de janeiro, o Metropolita deTbilisi, que estava representando o Patriarcado Russo no Concílio Ucraniano,oficiou uma panikhida para o metropolita em Kiev. No dia 29 de janeiro, o corpo foi transferido para a Grande Igreja das Cavernas da Lavra de Kiev, e depois do ofício funerário, foi enterrado na igreja da Elevação da Cruz, nas Cavernas Próximas.

No dia 15/28 de fevereiro de1918,uma sessão do Concílio da Igreja Russa em Moscou foi dedicada à memória do metropolita assassinado.

O metropolita Vladimir foi o hierarca que arcou com o fardo do primeiro assalto revolucionário à Igreja Russa. Era portanto apenas adequado que ele se tornasse o primeiro novo mártir hierarca. E no dia 5/18 de abril, o Concílio Russo decretou que o domingo mais próximo da data de seu martírio, 25/01-07/02, deveria ser a data da comemoração anual de todos os santos novos mártires e confessores da Rússia.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Mais sobre os Dias da Rússia no Brasil


Mais excelentes notícias sobre os dias de festa da Igreja Ortodoxa Russa no Brasil, trazidas pelo amigo Felipe Ortiz:

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Prezados amigos,


Gostaria de deixá-los a par de uma notícia adicional envolvendo os "Dias da Rússia" no Brasil. Além do Ícone da Deípara (Nossa Senhora) da Raiz e de Kursk, será trazido ao Brasil também um outro importantíssimo ícone milagroso russo: o Ícone da Deípara Soberana de Kolomenskoye.

Este ícone tem uma história que merece ser mais conhecida. Em 13 de fevereiro de 1917, uma camponesa, Evdokia Adrianovna, teve em sonhos uma visão da Mãe de Deus dizendo-lhe: "Na aldeia de Kolomenskoye, há um grande ícone negro. Ele tem que ser recuperado, para que as pessoas rezem perante ele." Menos de duas semanas depois, em 26 de fevereiro, a mesma camponesa teve em sonhos uma outra visão de uma igreja branca, dentro da qual uma mulher majestosa estava sentada num trono. Muito impressionada, Evdokia decidiu ir a Kolomenskoye (uma aldeia de veraneio dos imperadores russos, próxima de Moscou) tentar encontrar o ícone com que sonhara. Em 2 de março, Evdokia chegou a Kolomenskoye e reconheceu que a Igreja da Ascensão do Senhor, construída no século XVI, era exatamente a igreja que vira em seu segundo sonho.

(Aqui está uma foto dessa Igreja da Ascensão: http://upload. wikimedia. org/wikipedia/ commons/7/ 71/Kolomen00. jpg)

Evdokia entrou na igreja, encontrou o pároco e contou-lhe sobre seus sonhos. O padre, igualmente impressionado, resolveu ajudá-la a vasculhar a igreja em busca de algum ícone que se parecesse com aquele que a camponesa procurava descrever. Uma longa busca não revelou nada de notável. Revirando o porão da igreja, que estava em grande desordem, os dois acabaram encontrando um enorme ícone velho, já bastante escuro, no qual Nossa Senhora estava sentada sobre um trono, exatamente como na visão de Evdokia:


A Mãe de Deus é representada como uma rainha: veste o manto vermelho real, uma coroa, o cetro e o globo dos imperadores russos, e está sentada sobre um trono. Por isso, nesse ícone ela é chamada de "Soberana".

Nesse mesmo dia, 2 de março de 1917, o Tsar São Nicolau II foi obrigado a renunciar ao trono. Era o fim da monarquia cristã ortodoxa russa.

A conexão providencial entre os dois eventos ficou imediatamente evidente para o povo ortodoxo russo: sem mais Tsares ungidos por Deus, era a própria Deípara quem assumia a liderança e a proteção da nação russa.

Rapidamente, o ícone se tornou muito famoso em todo o país e começou a operar incontáveis milagres. São Ticônio, Patriarca de Moscou, colaborou na composição de um ofício litúrgico em honra ao ícone. Em pouco tempo, porém, os revolucionários comunistas chegaram a Kolomenskoye, fecharam a Igreja da Ascensão e confiscaram o ícone. Durante todo o período soviético, ele ficou armazenado num depósito do Museu Histórico Estatal, fora do alcance de seus visitantes e dos fiéis em geral. No final da década de 1980, o ícone foi secretamente restituído à Igreja, com a colaboração clandestina do diretor do Museu. Em 1990, a posse do ícone pela Igreja foi legalizada e ele foi solenemente reconduzido a Kolomenskoye, onde desde então é conservado na Igreja do Ícone da Deípara de Kazan'.

Para esta viagem pela América Latina, o Metropolita Cirilo de Smolensk trará consigo esse Ícone, a fim de que os fiéis ortodoxos latino-americanos possam venerá-lo também. Dessa forma, nas cerimônias religiosas a ser realizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, estarão presentes, juntos, à vista dos fiéis, dois dos ícones miraculosos mais preciosos da história da Igreja Russa: o da Deípara Soberana de Kolomenskoye, protetora da Igreja que sofreu dentro da Rússia depois da Revolução de 1917, e o da Deípara da Raiz e de Kursk, que é a protetora da diáspora dos russos exilados por essa mesma Revolução desde 1920 (pois nesse ano o Bispo Teófanes de Kursk, ao partir para o exílio, levou o ícone consigo, para salvá-lo dos comunistas que pretendiam se apoderar dele, e desde então ele tem sido conservado pela Igreja Russa no Exterior). Estará assim simbolicamente representada, de um modo muito significativo, a unidade restabelecida entre as duas partes da Igreja Russa.

Reforço o convite a todos, portanto, para que compareçam às celebrações marcadas para os Dias da Rússia no Brasil e apresentem as suas orações à Mãe de Deus perante esses seus ícones tão especiais, que já foram venerados por incontáveis santos e produziram inumeráveis milagres -- dos quais o maior, talvez, seja a preservação da Igreja Ortodoxa Russa, dentro e fora do país, ao longo do século XX, apesar de todas as provações suscitadas quer pela perseguição do regime comunista, quer pela difícil sobrevivência como minoria exilada em terras estrangeiras e heterodoxas. As orações da Virgem Maria, que sustentaram continuamente o povo ortodoxo russo, podem dar força espiritual à Ortodoxia brasileira também.


Em Cristo,

Felipe Ortiz

domingo, 12 de outubro de 2008

Dias da Igreja Russa no Brasil

Amigos,


estou partilhando com vocês a excelente notícia que nos traz o amigo Felipe Ortiz. O ícone abaixo é dos Santos Novos Mártires da Rússia, homens e mulheres que foram martirizados pelo comunismo, o socialismo internacionalista. Para explicações detalhadas sobre ele, basta clicar no ícone e serão dirigidos a detalhes de cada figura no site da Igreja Russa de Todos os Santos da América do Norte, na Virgínia. Uma vez no site, basta clicar em cada quadro, que surgirá a explicação.




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Prezados amigos,

A Igreja Ortodoxa Russa, cruelmente perseguida durante a era soviética, vem passando por um processo miraculoso de recuperação desde o final dos anos 1980. Em 1987, havia menos de sete mil paróquias em funcionamento em todo o país e o número total de mosteiros não chegava a vinte. Apenas vinte anos depois, já são quase trinta mil as paróquias em atividade, enquanto os
mosteiros são mais de setecentos.

Essa ressurreição da Igreja Ortodoxa na Rússia foi recentemente acompanhada por um outro evento não menos admirável: a reconciliação entre o Patriarcado de Moscou, que atua principalmente dentro do território russo, e a Igreja Ortodoxa Russa no Exterior, formada pelas comunidades da diáspora russa espalhada principalmente pela Europa Ocidental, Américas e Oceania. As duas partes da Igreja Russa, que não mantinham relações uma com a outra desde a
década de 1920, voltaram a se reconhecer mutuamente em 2007. Nessa ocasião, a Igreja Ortodoxa Russa no Exterior reintegrou-se ao Patriarcado de Moscou, como uma parte autônoma da Igreja Ortodoxa Russa.

A fim de celebrar esses eventos e, ao mesmo tempo, tornar a Ortodoxia russa mais conhecida e forte na América Latina, a Igreja Ortodoxa Russa, com o apoio do governo da Rússia (que atualmente colabora com a Igreja, em vez de persegui-la), realizará o evento Dias da Rússia nos Países da América Latina. Trata-se da excursão de uma grande comitiva de representantes da Igreja e da cultura russa, durante um mês (17 de outubro a 17 de novembro), por vários países latino-americanos.

Entre eles está o Brasil, que será visitado de 24 de outubro a 31 de outubro. De 24 a 26 de outubro, a delegação estará no Rio de Janeiro; em 27 e 28 de outubro, em São Paulo; e de 29 a 31 de outubro, em Brasília.

Os integrantes da comitiva incluirão: o Bispo João de Caracas, titular da Diocese Sul-Americana da Igreja Ortodoxa Russa no Exterior, consagrado recentemente (em junho) e que fará, nessa ocasião, a sua primeira viagem pastoral pela sua diocese; o Metropolita Platão de Buenos Aires, titular da Diocese Sul-Americana do Patriarcado de Moscou, que também aproveitará a mesma ocasião para uma nova viagem pastoral pela sua diocese; o Metropolita Hilarião de Nova York, primaz da Igreja Ortodoxa Russa no Exterior, em sua primeira visita à América do Sul depois de sua entronização como Metropolita, em maio deste ano; o Metropolita Cirilo de Smolensk, chefe do Departamento de Relações Eclesiásticas Externas do Patriarcado de Moscou, representando o Patriarca Aleixo II; e outros.

A programação incluirá diversas atividades:

a) Celebrações religiosas nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, com a participação de todos os hierarcas acima referidos, bem como de clérigos locais. Haverá uma Divina Liturgia na manhã de sábado, 25 de outubro, na Paróquia Russa de Santa Zenaide, no Rio de Janeiro; no anoitecer deste mesmo dia, haverá uma Vigília no mesmo local. Na manhã de domingo, 26 de outubro, ainda no Rio, haverá uma nova Divina Liturgia. Na manhã de terça-feira, 28 de outubro, já em São Paulo, mais uma Divina Liturgia, provavelmente na Catedral Antioquina de São Paulo. Todas essas cerimônias contarão com a presença de ícones e relíquias sagradas, trazidas da Rússia e dos EUA para a veneração dos fiéis brasileiros. Entre elas, o Ícone da Deípara (Nossa
Senhora) da Raiz e de Kursk, um ícone milagroso encontrado por um caçador em 1295 numa floresta próxima de Kursk, na Rússia, junto à raiz de uma árvore. O ícone verte bálsamo permanentemente e tem um odor que só pode ser descrito como celestial. Além desse milagre contínuo, inumeráveis outros milagres já foram operados pelo ícone. (Mais informações podem ser encontradas aqui: http://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/icon_kursk_p.htm)

Atualmente, o ícone é conservado na Catedral do Ícone da Deípara da Raiz e de Kursk, em Nova York, a sé diocesana do Metropolita Hilarião, que o trará consigo durante esta viagem pela América Latina.

b) A parte musical das cerimônias religiosas mencionadas acima ficará a cargo do Coral do Mosteiro do Encontro (em russo, Sretenskiy Monastyr'), que acompanhará a comitiva russa durante essa jornada latino-americana. Esse mosteiro fica em Moscou e foi fundado em 1397. Tem esse nome porque foi construído no local onde dois anos antes havia sido encontrado o Ícone
miraculoso da Deípara de Vladimir, que impediu a invasão da cidade pelos mongóis. Durante mais de quinhentos anos, o mosteiro foi um dos centros da vida monástica e espiritual moscovita, até ser fechado pelos comunistas em 1925 e ter a maior parte de suas dependências destruída pelo governo da URSS entre 1928 e 1930. Foi poupada apenas a histórica Catedral do Encontro do Ícone da Deípara de Vladimir; porém, esse edifício era utilizado com finalidades seculares. Em 1991, a Catedral foi devolvida à Igreja e retomaram-se as atividades religiosas ali. Em 1994, começou a reconstrução do mosteiro ao seu redor. Hoje o Mosteiro de Sretenskiy, novamente povoado de monges, é mais uma vez um notável centro espiritual para a cidade de Moscou e é, ele próprio, um testemunho vivo da história da ressurreição da Igreja na Rússia. O Coral desse Mosteiro, composto por fiéis leigos, é um dos melhores da Rússia e tem renome mundial. Além de cantar música sacra ortodoxa russa durante as cerimônias diárias do Mosteiro, o Coral tem
realizado apresentações em várias salas de concerto em todo o mundo; nesses concertos seculares, seu repertório compõe-se sobretudo de clássicos da música folclórica russa. Durante os "Dias da Rússia nos Países da América Latina", o público brasileiro terá a oportunidade não apenas de rezar ao som do Coro do Mosteiro durante as cerimônias religiosas mencionadas acima, mas também de apreciar as apresentações seculares do Coro durante três noites:

- domingo, 26 de outubro, no Rio de Janeiro, na Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo (a Antiga Sé);

- terça-feira, 28 de outubro, em São Paulo, no Teatro São Bento (Largo de São Bento);

- quinta-feira, 30 de outubro, em Brasília, no Teatro Nacional Cláudio Santoro, Sala Villa Lobos, às 21h.

Pelas notícias de que disponho até o momento, todas essas apresentações terão entrada franca.

Algumas amostras do que aguarda os ouvintes brasileiros podem ser encontradas no site oficial do Coro do Mosteiro:

http://choir.pravoslavie.ru/page1007_0.htm

(Clique em cada um dos ícones em forma de capa de CD ou de botão roxo, e, na tela que aparecerá a seguir, procure e clique em um dos pequenos botões verdes. Quando terminar a música, clique no botão verde seguinte, e assim por diante. Quando terminar tudo, volte para a tela anterior e repita o processo com outro ícone, e assim por diante.)

c) Em todas as três cidades brasileiras que serão visitadas pela comitiva russa, serão realizadas as exposições "Rússia Ortodoxa" e "Rússia Moderna", que exibirão diversas fotografias e objetos que documentam o renascimento espiritual e cultural da Rússia após o fim do regime comunista. A reconstrução das igrejas e o retorno do povo à fé depois da queda do regime ateu será um dos principais temas dessas mostras. Será também realizada uma exposição de livros publicados recentemente pela Igreja Ortodoxa Russa. Se há apenas vinte anos a publicação de literatura religiosa era praticamente proibida na URSS e a quase totalidade dos livros espirituais que circulavam por ali ou era de produção clandestina ou vinha contrabandeada do exterior,
hoje a Rússia é de longe o maior centro editorial de literatura cristã ortodoxa no mundo e exporta seus livros para as comunidades ortodoxas do mundo inteiro.

d) Em Brasília, será promovido ainda um Festival de Filmes Russos, com longa-metragens de ficção, documentários e desenhos animados contemporâneos de origem russa, que também dão testemunho do renascimento da cultura naquele país. De um modo geral, esses filmes inspiram-se, direta ou indiretamente, nos valores da fé cristã ortodoxa. Na programação inclui-se a obra-prima "A Ilha" (Ostrov), de Pavel Lungin, filmado em 2006. Esse filme,
elogiado pelo Patriarca Aleixo II e amado pela audiência ortodoxa do mundo inteiro, conta a história (fictícia, mas essencialmente semelhante a diversas histórias reais) de um monge asceta da época soviética que correspondia a um tipo particular de santo, o "louco por Cristo" --
indivíduo que, sob inspiração do Espírito Santo, assume uma conduta aparentemente bizarra ou extravagante. Serão apresentadas também várias outras preciosidades que dificilmente chegarão às telas dos cinemas brasileiros, incluindo documentários sobre a vida monástica na Rússia. O Festival será realizado de 29 de outubro a 3 de novembro, no Espaço Cultural
Marcantônio Vilaça do Tribunal de Contas da União. Todas as sessões terão entrada franca. Todos os espectadores ganharão como brinde um DVD com um dos filmes programados. A sessão de abertura contará ainda com a presença dos diretores e atores principais dos filmes do festival, que virão da Rússia para uma conversa com o público.

Para vários desses eventos, os horários e os locais exatos ainda não foram definidos ou divulgados. Convido todos os interessados, porém, a se programar desde já. Divulguem o evento entre seus amigos cristãos ortodoxos, bem como entre os amigos não-ortodoxos que desejam conhecer melhor a Ortodoxia. Será uma grande oportunidade de nos familiarizarmos melhor com a Ortodoxia Russa e travarmos ou reforçarmos o contato com os seus bispos diretamente encarregados da América Latina. Será também uma ocasião para testemunharmos em primeira mão alguns frutos da ressurreição da Igreja e da cultura espiritual ortodoxa na Rússia. Numa época na qual em quase todos os países do Ocidente (inclusive o Brasil) a influência do Cristianismo declina cada vez mais, enquanto cresce o materialismo e a irreligiosidade, é um
grande alento conhecermos melhor a experiência de uma nação que, pela graça de Deus e contra todas as expectativas humanas, está gradualmente passando pela experiência oposta.

Espero encontrar vocês em alguns desses eventos!
Em Cristo,
Felipe Ortiz

P.S.: Para obter informações sobre horários e locais exatos dos eventos, sugiro o contato com as seguintes entidades:

a) No Rio de Janeiro:

- Paróquia Ortodoxa Russa de Santa Zenaide
Rua Monte Alegre, 210
Santa Teresa
Tel.: (21) 2252-1471

- Consulado Geral da Rússia
Rua Professor Azevedo Marques, 50
Leblon
Tel.: (21) 2274-0097

b) Em São Paulo:

- Consulado Geral da Rússia
Avenida Lineu de Paula Machado, 1366
Jardim Everest
Tel.: (11) 3814-4100 ou 3814-1246

c) Em Brasília:

- Embaixada da Rússia
Avenida das Nações
SES, Quadra 801, Lote A
Tel.: (61) 3223-3094 ou 3223-4094

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Patriarca Alexei II convida a Europa à Moralidade

http://english.pravda.ru/world/europe/98211-orthodox_church-0

Europa se revolta contra lição de moral da Igreja Ortodoxa Russa

04-10-2007

A mídia russa e de outros países lançaram diversos comentários sobre a recente aparição do líder da Igreja Ortodoxa Russa, Patriarca Alexei II, na seção da Assembléia Parlamentar do Conselho da Europa em Strasbourg.

Foi a primeira vez na história que um alto líder religioso da maior confissão da Rússia apareceu perante delegados da Assembléia. Mais importante ainda, foi a primeira visita de Alexei II a um país católico.

O Jornal Novye Izvestia relata que a aparição de Alexei II perante os delegados deu origem a um grande debate antes mesmo de sua visita à França. Jornalistas conjeturavam se o Patriarca iria falar no tom do "pregador bonzinho" ou como um "duro acusador". Em Abril, Alexei II dissera que durante uma aparição planejada perante o Conselho da Europa ele iria falar sobre valores cristãos que a Europa ocidental estava, infelizmente, perdendo enquanto propagandea o pecado.

Em entrevista para o jornal La Vie o Patriarca disse que os russos criados segundo a tradição ortodoxa cristã tinham sua própria visão sobre muitos dos problemas modernos. Uma verdadeira cooperação Pan-Européia não pode ser estabelecida se esta visão não for levada em consideração, disse Alexei II.

O discurso do Patriarca no Conselho da Europa foi tratado de modo semelhante ao de um político de alto nível. O jornal Le Figaro chama a Igreja Ortodoxa Russa "a única instituição estável em uma Rússia instável". O modo de Alexei de falar é sempre suave a não-agressivo, exatamente ao estilo dos políticos peso-pesados.

Em seu discurso na Assembléia, o Patriarca não falou abertamente que a menção ao "código singular", os valores cristãos, não foi inclusa no rascunho da constituição da União Européia a despeito do fato de que representantes da Espanha e Polônia católicas haviam insistido que devessem ser incluídos no documento. O Patriarca russo enfatizou que a lacuna que há hoje em dia entre os direitos humanos e a moral era desastrosa para a Civilização Européia. Ele disse que esta lacuna era agravada pela "aparição de uma nova geração de direitos que contradizem a moralidade e buscam justificar atos imorais com direitos humanos". Alexei II pensa que quando a moralidade não é aplicada para avaliar os atos das autoridades, os problemas sociais se tornam ainda mais insolúveis.

Entretanto, o Patriarca russo revelou uma atitude categórica da Igreja Ortodoxa Russa quanto a paradas gays e minorias sexuais. Alexei II disse que a Igreja Ortodoxa Russa tratava as tentativas de organizar paradas de orgulho gay em Moscou como manipulação e propaganda do pecado. Ele disse que o homossexualismo é uma doença e uma distorção da personalidade humana assim como a cleptomania e perguntou: "Por que não fazemos propaganda da cleptomania?" Mas, ao mesmo tempo, Alexei II acrescentou que sua religião o ensinava a amar os pecadores a despeito dos seus pecados. A comparação do Patriarca entre a homossexualidade e a cleptomania recebeu uma tempestade de aplausos de seus delegados russos enquanto os outros abstiveram-se de comentários demonstrativos sobre a questão.

O Patriarca alertou o Conselho de delegados da Europa de que um rompimento entre os direitos humanos e a moralidade ameaçava a civilização Européia. Continuou enfatizando que as pessoas devem combater o pecado e não os pecadores e respeitar os ensinamentos morais da Bíblia.

Mas o Patriarca russo acrescentou que o governo não deve interferir com a vida privada já que é uma escolha livre do indivíduo ser moral ou imoral.

O jornal Rossiiskaya Gazeta afirma que a aparição do Patriarca perante o Conselho foi o primeiro de um tão alto nível. A Igreja Ortodoxa Russa é a primeira e única confissão representada no Conselho da Europa como um estado. Em 2005, o Patriarca aprovou a abertura de um escritório representativo da Igreja no Conselho da Europa para o estabelecimento de um diálogo regular e constante.

De acordo com o Patriarca russo, nenhuma ideologia, incluindo a secular, pode ter o monopólio da Europa ou do mundo. E é por isso que ele pensa que a religião não pode ser posta para fora do espaço público. É hora de assumir que pode existir também uma motivação religiosa na esfera pública, disse Alexei II.

Um dos delegados perguntou ao Patriarca qual era sua atitude quanto a pena de morte e Alexei II respondeu que a Igreja sempre defendeu a proteção da vida tanto dos bebês não nascidos quanto dos criminosos. Neste discurso em particular, seu discurso foi altamente emocionado.

Como disse o Patriarca, o progresso tecnológico provê uma nova interpretação dos direitos humanos. Os fiéis possuem sua própria opinião sobre bioética, identificação eletrônica e outros ramos do progresso tecnológico que deixam muitas pessoas ansiosas. O jornal Kommersant cita o Patriarca afirmando que um ser humano deve sempre permanecer um ser humano e não um artigo sob o controle de sistemas eletrônicos sempre a disposição de experimentos.

Os europeus acharam que Alexei II foi mais crítico quando tocou na muito popular religião européia do politicamente correto.

Ontem, a Gazeta GZT.ru relatou a aparição do Patriarca no Conselho em uma publicação intitulada "Rússia desconsidera envolvimento no Conselho da Europa mas Patriarca Alexei II ensina moralidade a Europa".


A Rússia é a principal ré na Corte Européia de Direitos Humanos mas a corte não está satisfeita com a cooperação deste país. Delegados do Conselho da Assembléia Parlamentar da Europa adotaram uma resolução que requer que os países membros devam manter cooperação em todos os níveis do procedimento judicial. De acordo com a Assembléia, a violação da lei no norte do Cáucaso é a mais escandalosa.

Source: agencies

Traduzido para o inglês por Maria Gousseva
Traduzido do inglês para o português por Fabio Lins
Pravda.ru

Vídeo do discurso: http://www.russiatoday.ru/news/news/15010/video