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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Império ou República Bizantina?

Constantinopla - Idade Média


Análise do livro: The Byzantine Republic: People and Power in New Rome, Anthony Kaldellis

por BRIAN PATRICK MITCHELL

Os livros-textos dizem que o Império Bizantino era uma autocracia teocrática unindo a igreja e o estado sob um imperador todo-poderoso que os bizantinos acreditavam ser o vice-rei e vigário de Deus. Tudo besteira, diz Anthony Kaldellis, professor de antiguidade clássica na Universidade Estadual de Ohio. O Império Bizantino era uma continuação do Império Romano e mesmo da República Romana. Sua ideologia política era fundamentalmente secular e ancorada na antiga crença republicana romana de que o governo existe para servir ao bem comum. Seu povo não mais tinha um papel na eleição dos líderes e legisladores, mas frequentemente tinham um papel extra-legal em elevar e destruir imperadores, cuja legitimidade dependia da popularidade e não de uma alegação de direito divino ou correção constitucional. Os imperadores governavam pragmaticamente e não fanaticamente, frequentemente decepcionando a Igreja para a agradar o povo. 

Isso é um ar fresco para os cristãos ortodoxos, que têm tido que aturar a acusação da teocracia bizantina por mais tempo do que os cristãos ocidentais tem aguentado as acusações de crusadas e inquisições. Mas "The Byzantine Republic" de Kaldellis também provê uma crítica útil do pensamento político ocidental moderno, assim como um portentoso, ainda que inadvertido, insight sobre o pensamento democrático de centro-esquerda e para onde ele vai nos levar. 

Seu livro é francamente um ataque revisionista no campo dos estudos bizantinos, o qual tem perpetuado antigos preconceitos ocidentais que contradizem registros históricos. Kaldellis mira principalmente nos acadêmicos da década de 30 e seus imitadores, mas as raízes do preconceito vão até muito antes, até a propaganda anti-ortodoxa da Idade Média. Os ortodoxos bizantinos recusam-se a reconhecer a supremacia do Papa de Roma sobre todas as coisas sagradas e seculares, e permitiam ao seu imperador muito mais autoridade sobre a Igreja do que os partidários do papado toleravam. Mais tarde, durante o Iluminismo, enquanto o Ocidente se transformava para excluir a religião da política, os bizantinos foram tomados como o principal exemplo de "cesaropapismo" por conta da equivocada crença de que o imperador bizantino governava tanto como rei e papa, sem separação da igreja e do estado. 

Na medida em que o pensamento ocidental evoluía, mais acusações foram lançadas contra o modelo bizantino. O império não possuía uma constituição por escrito, enumerando direitos, separações de poderes, processos democráticos, nem nenhum limite explícito à autoridade do imperador, que parecia governar por direito divino como um monarca absoluto. À essa altura, o império já não existia, então os ocidentais sem nenhum conhecimento de grego ou acesso a documentos relevantes não tinham como conferir a realidade histórica em face das alegações depreciativas de Edward Gibbon e outros, para os quais os bizantinos serviam como um conveniente ponto de partida para versão Whig da história: um pesadelo primevo de despotismo supersticioso do qual o mundo ocidental despertou e se libertou. 

Alguns acadêmicos do século 20, mais gentis, sugeriram modestas correções na narrativa convencional, negando acusações de cesaropapismo e celebrando a arte e a cultura bizantinas, mas nenhum foi tão longe quanto Kaldellis em asseverar a base secular da política bizantina ou em demonstrar a cegueira dos historiadores ocidentais que têm interpretado a política de acordo exclusivamente com as categorias de pensamento do Iluminismo. 

Ao ler, erroneamente, a história romana, os primeiros teóricos ocidentais modernos dividiram o governo em duas categorias básicas, monarquias e repúblicas, definindo a última como uma pólis auto-governada sem um monarca e categorizando as monarquias ora como absolutas, ora como constitucionais. Conforme explica Kaldellis, os antigos gregos e romanos viam as coisas de modo diferente. Suas duas categorias básicas eram reinos e comunidades. Um reino, na experiência deles, era a propriedade de um rei, governada por sua força para sua própria satisfação. Uma comunidade - res publica em latim, politeia em grego, era uma pólis independente, que podia ser governada de várias formas, para o bem de todos. Comunidades, portanto, podiam ser monarquias, aristocracias ou democracias. O próprio Cícero confirma isso, mesmo enquanto lamentava a diminuição do poder senatorial. 

A história padrão de que a república romana terminara com a ascensão de César Augusto a imperador estaria, portanto, simplesmente errada, diz Kaldellis. A república sobreviveu, em uma nova fase, no Principado no lugar do antigo Consulado. Os historiadores chamam a terceira fase da república de Dominato, período durante o qual imperadores militares, governando desde onde fosse necessário para fins militares, pela primeira vez na história romana foram chamados de Domine, ou "Senhor". A quarta, de longe a mais longa e última fase foi Bizâncio, durando do século 5 ao 15, durante a qual os imperadores governaram como civis desde a cidade oficialmente nomeada Nova Roma, mas comumente chamada de Constantinopla ("Cidade do Constantino") e fundada originalmente como Byzantion (Byzantium em latim). 

Durante todo esse milênio, o povo do império chamava a si mesmo de romanos. O termo "bizantino" é uma invenção ocidental moderna. E durante todo o tempo esses romanos identificavam seu império como uma res publica ou politeia, vangloriando-se que diferente de outros impérios, o deles era comprometido com o bem comum. Do início ao fim, os imperadores romanos "bizantinos" eram obrigados a justificar suas ações não com apelos ao direito divino ou lei divina, mas ao bem comum, e o árbitro máximo do bem comum era a politeia, a qual incluía todo mundo - a aristocracia, a burocracia, os exércitos, o clero e as várias classes de pessoas: mercadores, comerciantes, fazendeiros, etc. 

Qualquer um desses podia desafiar o direito de governo do imperador em termos de seu fracasso em servir ao bem comum. Assim, os imperadores bizantinos viviam com medo do povo e faziam todo o possível para mantê-lo feliz, mostrando-se como servidores públicos trabalhando incansavelmente pelo benefício do público. 

Por outro lado, o povo não tinha muito medo do imperador. Comumente eram irreverentes e desleais, abusando verbalmente do imperador em público, e até em sua presença, e desconsiderando leis de que não gostavam. "A história bizantina está cheia de casos de homens e mulheres que se recusavam a obedecer ordens do imperador, quase sempre por motivos religiosos", escreve Kaldellis. Com uma única exceção, revoltas populares tinham sucesso em forçar os imperadores a realizar concessões ou, resistindo, serem forçados à deposição. A única exceção nos mil anos do império foi a revolta de Nika de 532, quando Justiniano, o Grande, por insistência da Imperatriz Teodora, enviou soldados para eliminar a turba assassina reunida no Hipódromo para aclamar outro imperador. Os únicos casos anteriores de tal brutalidade ocorreram ainda no Dominato dos séculos 3 e 4. 

Um elemento mais difícil de ser analisado por ocidentais modernos é a relação entre a autoridade o imperador e as leis do império. Romanos de todas as idades orgulhavam-se de seu respeito pelas leis, o que estava fortemente relacionado com sua crença no bem comum, e uma das características da romanidade que eles acreditavam colocarem-nos acima das outras nações. Esperava-se também que seus imperadores também respeitassem as leis, e mesmo assim não havia lei que não pudessem mudar. Aos olhos ocidentais, isso fazia do imperador não só um autocrata cuja palavra era lei, mas um autocrata sem limites - um monarca absoluto. 

Essa perspectiva comum no ocidente baseia-se menos em Bizâncio do que no "Novo Absolutismo" do início do ocidente moderno, o qual desenvolveu-se a partir dos primeiros esforços dos príncipes ocidentais de teorizar suas alegações de "soberania" em face de reivindicações papais sobre a mesma. Com a Reforma Protestante, essas reinvindicações peculiarmente ocidentais de soberania tornaram-se mais urgentes e expansivas, gerando justificativas tanto católicas quanto protestantes para o "Direito Divino dos Reis", de acordo com o qual o rei, como soberano, não responde a ninguém a não ser a Deus. Para o católico francês Jacques-Benigne Bossuet, o rei personificava o estado: "Tout l´État est en la personne du prince", ele escreveu, ou como diria o Rei Sol, "L'État c´est moi." 

Contra esse Novo Absolutismo surgiram contra-argumentos sujeitando o rei a outros soberanos: a common law (direito comum) anglo-saxã, direitos naturais, constituições codificadas ou não codificadas, a vontade do povo. Contendas religiosas e políticas conduziram os ocidentais a pólos opostos do idealismo político, contrapondo ao idealismo monárquico do Direito Divino ao idealismo "republicano" anti-monárquico concebido sob várias formas. Os argumentos em favor deste último nos são mais conhecidos hoje em dia. Os Pais Fundadores dos EUA utilizaram todos desse último tipo, com quase nenhuma consideração por consistência e sem resolver de fato o problema teórico e prático da soberania limitada. Pois se o povo é soberano, o que nos protegerá do absolutismo democrático já que o povo decide que leis fazer, que direitos respeitar, e mesmo como ler a constituição? Quem dirá ao povo que ele está errado, e quem vai detê-lo quando ele não escuta? 

Os bizantinos nunca se importaram em fazer tais perguntas porque nunca precisaram. Para eles a preocupação central não era a fonte do governo - soberania - mas, diz Kaldellis, o propósito do governo. Portanto eles não absolutizavam o imperador. Eles sabiam que ele era um mero mortal e um pecador que respondia tanto a Deus e à politeia. Eles não acreditavam em Direito Divino. 

Eles acreditavam que Deus ordenava os governantes como "agente(s) da justiça para punir quem pratica o mal" (Romanos 13:4), mas também sabiam que Deus costumava desordenar governantes por seus próprios motivos. Como muitos povos eram tentados a acreditar em sangue real, mas isso não impedia que destronassem imperadores incompetentes "nascidos no púrpura". E se qualquer imperador bizantino tivesse dito, "o estado sou eu", todos os que tivessem ouvido o teriam por louco. 

Sem um ideal monárquico, os bizantinos nunca precisaram de um ideal anti-monárquico. Eles nunca absolutizaram os direitos naturais, ou a lei romana, ou mesmo o povo romano. Também eles, eram meros mortais e pecadores, e o que importava mais era o bem da politeia, não a vontade do povo. Nem a vontade deles era a única vontade que importava: tinha-se que ponderar a vontade de Deus, e sabia-se que Deus normalmente dava ao povo não o que ele queria, mas o que ele precisava. Ele lidava com o povo não de acordo com princípios fixos de justiça, mas em termos do que seria melhor para a salvação da alma de cada um. O termo bizantino para isso era oikonomía e ainda éum importante aspecto da teologia pastoral cristão ortodoxa. 

A abordagem bizantina da política era igualmente "econômica". A lei suprema era a segurança da comunidade. Todo o resto era discricionário. A garantia divina do imperador como um "agente da justiça" contra o mal era entendida pragmaticamente como um dever de os governantes restringirem o mal, e não de erradicá-lo. Concessões eram feitas por "humanidade, bom senso e utilidade pública", nas palavras de Justiniano, com o entendimento de que alguns males não são facilmente criminalizáveis. Os imperadores cristãos, portanto, eram lentos em banir muitos males condenados pela igreja mas que eram populares entre as massas como a escravidão, a prostituição, a pornografia e os jogos de gladiadores. 

Kaldellis admite que o ensino cristão fundamentava o comprometimento da república bizantina com o bem comum, e ele considera a Bizâncio cristã mais republicana que as duas fases anteriores da república - o Principado e o Dominato. Mas em sua ânsia de argumentar contra a leitura convencionalmente teocrática da historia de Bizâncio, ele erra pelo lado oposto, na direção de uma leitura essencialmente secular. "A politeia romana era cristã apenas acidentalmente", ele escreve, e o resultado era um república monárquica fundamentalmente secular "mascarando-se, para si mesma tanto quanto para os outros, como uma teocracia imperial". Os bizantinos seriam confusos, dados a "modalidades conflitantes de pensamento" e de oscilar "contextualmente" entre pensamento secular e religioso. Seu pragmatismo e seu republicanismo seriam ambos produtos de um pensamento secular, em conflito com o suposto idealismo e imperialismo cristãos. 


É nesse ponto que a dependência do próprio Kaldellis em face de concepções ocidentais do cristianismo interfere com sua análise. Ele escreve, por exemplo,que "secular" é uma "categorial fundamental do pensamento cristão". Pode-se argumentar que isso seja verdade no cristianismo ocidental, o qual tende a fazer distinções bem definidas entre as categorias de sagrado e profano, natural e sobrenatural, clero e povo, sacerdócio "religioso" e "secular", autoridade espiritual e autoridade temporal, a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens. Mas isso não é tão obviamente verdadeiro sobre o cristianismo ortodoxo. A Ortodoxia não tem um equivalente teológico exato de "secular" e lhes parece que os católicos enfatizam demais tais categorias. 

O uso que Kaldellis faz de “secular” é ainda mais distante do pensamento ortodoxo. Ele parece limitar o pensamento cristão a ideias a respeito da religião cristã, como se todas as demais ideias não fossem cristãs e fossem, portanto, seculares. Então, quando uma fonte bizantina atribui uma vitória à intervenção divina, ela estaria pensando “religiosamente”, e quanto a mesma fonte atribui a vitória à uma estratégia superior, ela estaria pensando “secularmente”. Kaldellis portanto não entende como os cristãos bizantinos conseguiam reconciliar a deposição de um imperador pelo povo com a ordenação daquele imperador por Deus. Ele só consegue classificar a coisa de inconsistente – e mais fundamentalmente secular que cristã. 

Surpreendentemente, Kaldellis identifica Jean-Jacques Rousseau como o teórico ocidental mais próximo da tradição bizantina, citando passagens do Contrato Social que até soam vagamente bizantinas. Rousseau define a república como “qualquer estado governado por leis, qualquer que seja a forma de administração”. Ele atribui a soberania ao povo e faz do governo seus ministros. E enfatiza a importância do consenso moral e vê a necessidade de uma religião civil. Quando ele escreve que as leis mais importantes não são as que estão escritas, mas as que estão “nos corações dos cidadãos”, segundo Kaldellis, Rousseau “revela-se um pensador clássico ao invés de moderno”. 

Essa é uma leitura superficial de Rousseau. Bizâncio era uma realidade histórica concreta – um povo em particular com um passado em particular, e tradições religiosas, legais, políticas e culturais – enquanto a república de Rousseau é só a mais uma ideia teórica ocidental, baseada em uma compreensão da natureza humana e da história que é muito anti-romana, anti-cristã e anti-bizantina. Em sua república teórica, todas as questões de valor definidoras do bem comum são definidas pela “vontade geral”, a qual não tem ligação com religião, tradição, instituição, constituição, contrato ou mesmo com a realidade. O povo é livre para construir uma nova civilização da forma que acharem melhor: ele só precisam de um legislador iluminado para mostrar-lhes como. Rousseau via a si mesmo nesse papel e chegou a oferecer sua consultoria em legislação revolucionária para a Polônia e Córsega. 

Mas o que Kaldellis vê em Rousseau, a ideia de um povo expressando sua vontade do jeito bizantino, afirmando sua soberania sobre o governo extralegalmente, é o motivo pelo qual Rousseau ainda se equipara a Marx como o principal profeta do esquerdismo, e porque podemos esperar que acadêmicos de esquerda abracem a recolocação que Kaldellis faz dos bizantinos como democratas seculares. Kaldellis mostra que a democracia pode significar coisas diferentes para pessoas diferentes. Para conservadores americanos, ela significa eleições regulamentadas e aderência estrita à lei escrita e precedentes legais, mas para muitos esquerdistas americanos significa protestos públicos, desobediência civil e intimidação por turbas. A esquerda entende que se apenas a vontade do povo decide o bem comum, então o punho erguido é um indicador do bem comum melhor que o voto, pois quando o sistema não satisfaz, algumas pessoas vão se revoltar e algumas não. 

Brian Patrick Mitchell é autor de Eight Ways to Run the Country e protodiácono na Igreja Ortodoxa.

http://www.theamericanconservative.com/articles/byzantine-empire-or-republic/

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Asceticismo e a Sociedade Livre





Na última sexta-feira tive a oportunidade de apresentar um trabalho na conferência anual do Instituto Sophia, no Union Theological Seminary. O tópico deste ano era "Casamento, Família, e Amor na Tradição Ortodoxa". O título do meu trabalho foi "O que constitui uma sociedade?" e focava, no contexto do casamento e da família, no desenvolvimento de uma resposta cristã ortodoxa para a questão. As respostas católico-romanas e neo-calvinistas, respectivamente subsidiariedade e esfera de soberania, embora não mutuamente exclusivas, recebem atenção frequente no PowerBlog, mas, até onde sei, nenhuma resposta ortodoxa foi claramente articulada, e por isso pode ser difícil saber onde começar. Estou convicto, porém. que, conforme o tópico da minha pesquisa, que uma resposta ortodoxa historicamente razoável para essa questão pode ser encontrada no conceito de asceticismo, corretamente entendido.

Embora eu não vá reproduzir meu trabalho aqui, pretendo resumir brevemente dois de seus pontos fundamentais que podem ser de interesse geral. Primeiramente, o que é asceticismo? Em segundo lugar, como pode o asceticismo ser visto como um princípio organizacional da sociedade? Finalmente, tenciono explorar rapidamente a relevância deste princípio para uma sociedade livre, tema que vai além do escopo do meu trabalho.

Considerando a primeira questão, é muito importante reconhecer que existem muitas formas de asceticismo. A palavra vem do grego "askesis" e significa basicamente "exercício". Aplicada a nossas vidas espirituais, possui a conotação de recusar confortos para o corpo com o fim de treinar nossas almas através de oração, jejum, doação de esmolas, etc. Mais frequentemente, entretanto, as pessoas lembram apenas dos sentidos negativos quando escutam a palavra, como, por exemplo, o tipo de asceticismo que S. Paulo denuncia na Epístola aos Colossenses dizendo: 

Se em Cristo estais mortos aos princípios deste mundo, por que ainda vos deixais impor proibições, como se vivêsseis no mundo?
Não pegues! Não proves! Não toques!,
proibições estas que se tornam perniciosas pelo uso que delas se faz, e que não passam de normas e doutrinas humanas.
Elas podem, sem dúvida, dar a impressão de sabedoria, enquanto exibem culto voluntário, de humildade e austeridade corporal. Mas não têm nenhum valor real, e só servem para satisfazer a carne. 
Colossenses 2:20-23

O problema com este tipo de asceticismo era que ele confundia os meios com os fins. As disciplinas ascéticas (oração, jejum, esmolas, simplicidade, etc) não são um fim em si mesmas, não para o cristão ao menos. A atitude correta pode ser vista em muitos dos ditos dos pais do deserto, nos quais, por exemplo, eles criticam os que recusam hospitalidade em nome do jejum.

Ao invés, de acordo com S. Moisés, o Etíope, estas disciplinas "devem ser degraus de uma escada na qual o coração ascende ao perfeito amor". E de acordo com o Pe. George Florovsky, "o verdadeiro asceticismo é inspirado não pelo desdém, mas pelo desejo de transformação". O corpo não é visto como algo mau e que merece ser mal-tratado, mas como um instrumento para melhorarmos nossas almas, exercitando-nos nas virtudes e, em última instância, no amor. É o meio pelo qual mortificamos nossos membros na terra e colocamos nossas mentes nas coisas que são de cima (cf. Colossenses 3:1-11). Desta forma, o asceticismo cristão tem, na verdade, uma visão excepcionalmente elevada do corpo: ele não é mau, nem sem valor espiritualmente, mas essencial para nosso desenvolvimento espiritual.

Mas como pode o asceticismo, de ordinário associado exclusivamente com monges e místicos, ser um princípio social? Como escrevi em meu trabalho,

Podemos confirmar isto refletindo nos hábitos cotidianos da família. Não chamamos de disfuncional a família na qual as crianças podem comer sorvete no café-da-manhã, onde a família não passa nenhum tempo juntos voluntariamente, e a desobediência nunca é disciplinada? Não chamamos, com razão, de irresponsáveis os pais que abandonam seus filhos, recusando-se a sacrificarem-se para prover a eles, e que, ao invés, buscam uma existência egoísta? Famílias saudáveis, por outro lado, têm refeições juntas de acordo com as limitações dietéticas auto-impostas ("coma seus legumes, depois pode comer a sobremesa", por exemplo); eles compartilham espaços e tempo uns com os outros; os pais sacrificam seu tempo e desejos para trabalhar para prover para seus filhos; os filhos tem o dever de realizar tarefas domésticas para contribuir com a casa, e assim por diante. A sociedade simplesmente não "funciona" sem a auto-renúncia ascética.

Em meu trabalho, clarifico: "É verdade, tal asceticismo pode ser considerado leve por qualquer padrão e não a corporificação perfeita do ideal, mas o princípio básico deve, mesmo assim, estar presente." Compreendido desta forma, não há sociedade que possa sobreviver sem algum grau de asceticismo.

Eu acho esta perspectiva particularmente adequada à tradição ortodoxa porque ainda existe uma expectativa de que todos pratiquem o asceticismo em certa medida. Quartas e sextas são dias de jejum, e os períodos do Advento e da Quaresma, entre outros, são épocas nas quais maior ênfase é dada, não apenas ao jejum, mas também à oração, esmolas, simplicidade, arrependimento, etc. O asceticismo intencional é ainda um elemento fundamental do ethos ortodoxo, e a tradição ortodoxa está cheia de sabedoria sobre o modo ascético de vida.

Tudo isto está bem e é bom, mas o que significa para uma sociedade livre? De acordo com Edmund Burke,

A sociedade não pode existir, a menos que um poder que controle a vontade e o apetite seja colocado em algum lugar, e quanto menos exista interiormente, mais dele existirá exteriormente. Está ordenado na constituição eterna das coisas, que homens de mentes intemperantes não podem ser livres. Suas paixões forjam seus próprios grilhões.

O asceticismo é historicamente o meio pelo qual os cristãos esmerilham-se, em cooperação com a Graça, para colocar um "poder que controle a vontade e o apetite". Quanto mais autodomínio as pessoas tiverem dentro de si, mais limitado o governo delas pode ser. Quanto mais austeras as próprias pessoas forem, mais terão para dar ao próximo, reduzindo a necessidade de assistência do governo. É assim que a austeridade no governo requer uma cultura de austeridade e generosidade.

Em nossa nação hoje em dia (o autor refere-se aos EUA), ambos são largamente necessários. Temos um problema com o débito que apenas se torna maior a cada dia, e uma parcela significativa disto é devido a termos realizado promessas às gerações futuras que não podemos realisticamente manter se nossas atitudes e práticas em relação a dívidas e déficits não mudarem. Estamos, ao mesmo tempo, prometendo às nossas crianças todo tipo de direitos, muitos dos quais louváveis e que valeriam preservar, mas os quais, postos todos ao mesmo tempo, são economicamente insustentáveis em nosso atual estado. Se quisermos que nosso governo torne-se mais austero em prol da responsabilidade fiscal - e devemos querer isso - então também temos que encorajar uma cultura mais ascética, na qual a austeridade é realizada por generosidade e amor, ou seja, o verdadeiro asceticismo. O asceticismo deve ser visto como um modo de vida, que mantém a sociedade coesa, e por meio do qual somos verdadeiramente livres. De outra forma, seremos prisioneiros de nossas paixões que "forjam nossos grilhões", e precisaremos apenas olhar no espelho para sabermos a quem devemos culpar.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Entrevista do Patriarca Bartolomeu I

O Patriarca Ecumênico Bartolomeu em entrevista para o Cafebabel:
"Antes do Grande Cisma de 1054, toda a Europa era Ortodoxa"

Nós o encontramos em seu escritório no Fanar, Istambul, em um tarde nublada de sábado. Esta foi a primeira entrevista conjunta para o Cafebabel Grécia e o Cafebabel Instambul. Estamos um pouco ansiosos, ficamos revisando as perguntas juntos com Ozcan e Angelina. Não sabíamos o que esperar. Estamos antes surpresos que o Patriarca Ecumênico estivesse prestes a conceder uma entrevista para o Cafebabel. Bem, entrevistar o "Papa Oriental", o líder espiritual de mais de 350 milhões de ortodoxos não parecia muito fácil. Toda essa agonia passou quando ele nos saudou. Sorridente, ele nos ofereceu doces tradicionais e café. É como entrevistar o seu avô. Ele vai falar com você sobre tudo: de Halki e o meio-ambiente até a juventude européia, ciência e Chris Spyrou.


O líder da Igreja Católica Romana, o Papa, recentemente visitou o Reino Unido, e, bem antes, o Fanar. Considerando-se que o Patriarcado Ecumênico foi o primeiro a liderar o diálogo entre igrejas cristãs, sendo um dos membros fundadores do Conselho Mundial de Igrejas, o senhor considera a união das igrejas factível?

Desde o tempo de meus predecessores, Atenágoras e Dimitrios, o Patriarcado Ecumênico tem liderado o diálogo entre denominações cristãs. De fato, estamos na liderança do que é chamado "movimento ecumênico". Durante a visita do Papa ao Patriarcado Ecumênico, nós assinamos a declaração conjunta e ele recitou o "Pai Nosso" durante o ofício ortodoxo. Além disso, o Patriarcado Ecumênico participa na Conferência das Igrejas Européias. Nós apoiamos o diálogo,embora o lapso da divisão seja grande, já que estivemos separados por dez séculos. Agora estamos discutindo a questão do primado do Papa, examinando como ele se parecia no primeiro milênio de nossa senda comum e porque ele mudou. Junto com o filioque, esta é a questão mais difícil que nos divide. A estrada para a união é longa, mas não nos desencorajamos. Ao contrário, fazemos todo o possível para construir pontes.

Em agosto, o senhor realizou uma liturgia histórica no Monastério de Sumela, perto de Trebizonda, e poucas semanas atrás, uma liturgia foi oficiada na Igreja Armênia da Santa Cruz, no Lago Van, Turquia. O senhor acredita que tais ações ajudam o entendimento mútuo e o respeito pelas liberdades religiosas no país? Será que o próximo passo pode ser a reabertura da Escola Teológica de Halki (Heybeliada)?

Estamos muito contentes com tais desenvolvimentos, tanto no Monastério de Sumela (Trebizonda), e pelos armênios. Eles revelam uma mudança de atitude da Turquia. O que aconteceu em Panagia Sumela prova que o lugar (o qual oficialmente é um museu) também pode ser utilizado uma vez por ano como local de adoração, como indica a permissão oficial que recebemos. Isto é benéfico para todos. O estado Turco compreende que não somos uma ameaça, mas, ao contrário, que amamos e trabalhamos para para o bem do país. Além dos benefícios materiais para o país resultantes dos peregrinos, tais ações são evidência de que o respeito da liberdade religiosa está crescendo na Turquia. É uma questão de princípios e valores em relação aos direitos humanos básicos.

No que tange a Escola Teológica de Halki, estamos muito otimistas.Acreditamos que a questão será resolvida no ano 2011, quando completam-se 40 anos do fechamento da escola. Nós estamos prontos para operar imediatamente com o fim de acomodar estudantes da Turquia e de fora, assim como no passado. Estaremos prontos para treinar nosso clero em todos os níveis necessários para o funcionamento do Patriarcado Ecumênico, o qual, como vocês sabem, tem dioceses em muitas partes do mundo, tais como Estados Unidos, Europa Ocidental e Oriental, Austrália, Coréia, Hong Kong, América do Sul e Central e assim por diante.

Como o senhor sente pessoalmente o peso histórico de sentar no trono de S.João Crisóstomo, do Patriarca Fócio e do Patriarca Genadios?

É um enorme peso histórico. Estas pessoas foram titãs da fé e do conhecimento. Claro que pessoalmente não podemos chegar ao nível deles. Mas este trono é uma cruz, que cada patriarca é obrigado e chamado a carregar. Nós somos a voz de uma instituição vibrante que tem existido nesta cidade, Istambul, por dezessete séculos e assim irá permanecer com a graça de Deus.

A Turquia parece estar gradualmente reconhecendo que o Patriarcado Ecumênico não é simplesmente uma diocese local dos gregos de Constantinopla, mas uma instituição universal, e que não restringindo, mas, ao contrário, apoiando suas atividades, o país tem muito a ganhar. O senhor compartilha desta visão e tem alguma evidência de que o estado turco esteja mudando sua política?

Veja, podemos resumir a posição do governo turco até hoje com uma única palavra: contra-producente.

É contra-producente não apenas para nós, mas primeiramente e acima de tudo para o interesse nacional da própria Turquia. Entretanto, os desenvolvimentos atuais são positivos. É compreendido que não temos, nunca tivemos e não teremos, nenhuma aspiração ou interesse político. Às vezes, alguns argumentos nem um pouco sérios tem sido expressos, isto é, de que estaríamos tentando criar um segundo Vaticano no Fanar. Que venham e mostrem onde estas tentativas se encontram. Tais argumentos não são sérios.

O fato é que vemos uma mudança de atitude, e a nova Lei de Fundações de Minorias também destacam esta mudança. Ela não resolve todos os nossos problemas, mas certamente dá mais liberdade de movimento para as minorias. Recentemente um ortodoxo rume (um cidadão turco de origem grega) foi eleito como membro da Comissão de Estado para a Administração de todas as Vakif (fundações) em Ankara, e que tem reuniões quinzenais. Estes são desenvolvimentos sem precedentes para nós aqui, e estamos muito felizes com eles. Além disso, o Primeiro-Ministro Erdogan visitou o orfanato grego em Büyükada antes que a CEDH (Corte Européia de Direitos Humanos) anunciasse sua decisão, que justificava nossos direitos sobre a propriedade. Este foi um corajoso ato político da parte do Primeiro-Ministro, cheio de poderoso simbolismo.

A autoridade do Patriarcado Ecumênico na Igreja Ortodoxa ao redor do mundo é imensa, algo que é benéfico para a Turquia. Nossos esforços de construir a paz e promover o respeito entre os povos de toda fé são bem conhecidos, e isto é confirmado pelo fato de que todo político que vem à Turquia sempre visita o Patriarcado Ecumênico. Estamos otimistas, então, e insistimos sobre estes direitos. 

O que o senhor pensa da nova reaproximação do governo turco com as minorias?

Isto é uma questão política e não podemos silenciar sobre a questão. Não é segredo algum que estamos realmente felizes sobre estes passos do governo turco. Apoiamos esta abordagem.Esperamos que continue no futuro. Além disso, como dissemos antes, acreditamos que tais negociações irão deixar a Turquia mais democrática como um país, e é precisamente por esta razão que apoiamos a total participação da Turquia na UE.

Um grupo greco-americano liderado pelo Sr. Chris Spyrou queria organizar uma cerimônia religiosa em Hagia Sophia, em Istambul, mas cancelaram seu plano. O senhor esteve envolvido nas tentativas de cancelar os planos deles?

Não conhecemos esta pessoa. Não sabemos como seria possível organizar uma cerimônia religiosa sem nos consultar em nossa competência como o Arcebispo local da cidade e sem obter a permissão do governo turco. Nós objetamos e eles cancelaram seus planos. Ninguém pode conduzir um cerimônia cristã ortodoxa em Hagia Sophia sem uma permissão tanto do Patriarcado Ecumênico quanto do governo turco. Nem mesmo nós podemos conduzir cerimônias religiosas em outros países sem a permissão das igrejas locais nesses países e das autoridades locais.


O senhor tem sido chamado de "Patriarca Verde" por causa de sua sensibilidade ambiental. O senhor acha que líderes religiosos são capazes de afetar, se não os governos, pelo menos a consciência ambiental dos fiéis?

É quase impossível influenciar governos. Interesses financeiros estão pressionando tanto que não é possível para os políticos mesmos concordarem, e nós encaramos essa situação em Copenhagen. Mas, sim, nós achamos que somos capazes de cultivar entre os fiéis uma sensibilidade no que diz respeito às questões ambientais.

Esta crise global é primariamente conceitual; ela trata de valores. Temos que entender que somos responsáveis por passar o planeta para as próximas gerações. Não podemos continuar a desperdiçar recursos mas, ao invés, permitir que as gerações futuras se beneficiem do que nos foi dado por Deus.

A palavra "ecologia" vem do grego "eco" e "logos", onde "eco"(oikos) significa nosso lar. Para que isso seja compreendido, temos que primeiro apreender que não somos donos, mas gerentes do mundo, o qual Deus nos confiou. Portanto, temos que cuidar deste mundo com o fim de passá-lo para a próxima geração. O Patriarcado Ecumênico tomou a liderança neste esforço para desenvolver consciência ecológica através do seu Simpósio Ecológico Internacional.

 É fácil combinar o estilo de vida moderno de consumismo com a frugalidade advogada pelo Cristianismo? Muitos argumentam que os dois modelos são incompatíveis.

É essencial mudarmos a mentalidade atual e abandonar o estilo de vida de excesso de consumo e ganância que inevitavelmente levam à injustiça social e a desigualdade. O Apóstolo Paulo ensina que a ganância nos leva à idolatria dos bens materiais, e a idolatria é o maior dos pecados. A Igreja não ensina ganância mas "oligarkeia" (isto é, viver uma vida simples, lacônica). O Evangelho diz que quem quer que possua duas roupas dê uma para quem não tem nenhuma. Infelizmente, chegamos em um ponto no qual tentamos tirar de nosso próximo até suas próprias vestes.

O que podem dar à juventude da Europa a fé e o testemunho ortodoxos? É fácil adotar conceitos e valores ortodoxos para um europeu ocidental com um histórico católico ou protestante?

Como eu disse antes, todos os assuntos estão interligados uns com os outros - socialmente, economicamente, e ideologicamente. Os jovens sentem-se inseguros. A Igreja Ortodoxa tem a oferecer a fé original como ela existiu durante os dez primeiros séculos de nossa estrada comum com o Ocidente. Isso quer dizer, a fé e a Igreja como o verdadeiro Corpo de Cristo. Antes do Grande Cisma de 1054, toda a Europa era Ortodoxa. Portanto, o que a Igreja é chamada a oferecer é a simplicidade e a autenticidade da fé cristã. Ensinamos a autenticidade, a moralidade e a espiritualidade ascéticas. Todas estas estão faltando nas igrejas protestantes e católico-romanas.

O Ocidente separou-se destes valores, e é precisamente isto que justifica a nostalgia manifesta hoje em dia. Recentemente, mais e mais livros litúrgicos da Igreja Ortodoxa tem sido traduzidos e publicados em países estrangeiros. Além dos livros teológicos, pode-se encontrar orientação espiritual em livros tais como a Filokalia, que de grande interesse para povos não-ortodoxos. Além disso, na fé ortodoxa, existe muita atenção para a devoção e a adoração; e existe uma ênfase maior no coração do que no intelecto. É por isso que pode-se dizer que a Ortodoxia compreende a tradição, a experiência e a sabedoria condensada.

O senhor teme a globalização? Muitos argumentam que com tantos elementos sendo bombardeados por todos os lados a tendência é que tudo se torne uma "aktarma" (mistura sem forma).

A globalização tem alguns elementos positivos que apoiamos. Ela oferece compreensão entre povos e cria uma base para as pessoas cooperarem e viverem pacificamente. Entretanto, como o Arcebispo Christodoulos costumava dizer, existe também o perigo de nos tornarmos como "carne moída". Isso certamente não é desejável.
Nós defendemos que todos os povos mantenham um registro de sua cultura, língua, etc. que os preservem distintos. Estes elementos contribuem para a individualidade de um povo. Entretanto, ao mesmo tempo, devemos ser criativos e não manter estes elementos em um "jarro fechado" e reduzi-los a uma forma de auto-admiração.

Os missionários Cirilo e Metódio, no século VI, foram comissionados como delegados do Patriarcado Ecumênico para pregar o Evangelho aos eslavos. Como resultado, eles criaram o alfabeto cirilico. Isso foi fonte de acusação do Patriarcado por parte do historiador grego Paparigopoulos, alegando que os missionários não converteram os eslavos à ortodoxia grega. Dizemos isso porque o Patriarcado Ecumênico via esses povos como eslavos; acreditamos que devemos respeitá-los e pregar para eles em sua própria língua, mas não mudá-los. Desta forma, protegemos tanto a identidade grega quanto a identidade eslava. Então agora todos os povos eslavos - russos, búlgaros e sérvios - são gratos à Igreja Mãe de Constantinopla.

Finalmente, a ciência e a fé são incompatíveis ou simplesmente possuem recipientes e conteúdos diferentes? Recentemente, Stephen Hawking causou certa comoção com sua declaração de que o universo pode existir sem um Criador. O senhor considera estas afirmativas como significativas? Qual é a resposta da Igreja?

Eu não considero que a fé e a ciência sejam opostos, mas sim vias paralelas. Elas são complementares porque levam ao mesmo objetivo da Verdade. Einstein uma vez disse: "A ciência não tem um Deus, mas os cientistas sim."
A Igreja Ortodoxa não é contra a ciência. Na verdade, existe evidência histórica de que nossos bispos estiveram entre os mais eminentes cientistas. Os monastérios ortodoxos preservaram os manuscritos gregos e os disponibilizaram para o Ocidente. São Gregório Palamás estudou a filosofia de Aristóteles. Além disso, nossa Igreja tem um santo chamado Epistimi (que significa "ciência" em grego) e um santo Ypomoni (que significa "paciência"). Não tivemos nenhum Galileu.

Afirmações como as de Stephen Hawking são respeitáveis mas não são mandatórias para ninguém. Entretanto são provacadoras e no fim apenas dividem as pessoas. Nossa abordagem é que todo o universo criado que vemos a nossa volta - o céu, os oceanos, as plantas - não poderia ter sido gerado por acaso e de fato tem um Criador. Poucos dias atrás, eu passeava pelo jardim com amigos. Quando peguei uma flor, reparei quão perfeita e bela ela era e quão sabiamente ela era construída por milhares de florezinhas que eram uma festa de se contemplar. Isso não pode ter acontecido por acaso. 

http://athens.cafebabel.com/en/post/2010/11/17/The-Ecumenical-Patriarch-Bartholomew-speaks-to-Cafebabel:-Before-the-Great-Schism-of-1054,-all-of-Europe-was-Orthodox2

domingo, 16 de maio de 2010

O Que Sobrou da Religião



OLAVO DE CARVALHO | 16 MAIO 2010 
ARTIGOS - CULTURA

É tudo uma profecia auto-realizável: se a evidência avassaladora da percepção extracorporal é negada, não é só porque as pessoas não acreditam nela - é porque se tornaram realmente incapazes de vivenciá-la de maneira consciente.
Se há neste mundo um fato bem comprovado, é a percepção extra-sensorial durante o estado de morte clínica. Um corpo inerte, sem batimentos cardíacos ou qualquer atividade cerebral, desperta de repente e descreve, com riqueza de detalhes, o que se passava durante o seu transe, não só no quarto onde jazia, mas nos outros aposentos da casa ou do hospital, que de onde estava ele não poderia ver nem se estivesse acordado, bem de saúde e com os olhos abertos.
Isso já se repetiu tantas vezes, e foi atestado por tantas autoridades científicas idôneas, que só um completo ignorante na matéria pode teimar em permanecer incrédulo. Mas mesmo alguns daqueles que reconhecem a impossibilidade de negar o fato relutam em tirar a conclusão que ele impõe necessariamente: os limites da consciência humana estendem-se para além do horizonte da atividade corporal, inclusive a do cérebro.
A relutância em aceitar isso mostra que o "homem moderno" - o produto da cultura que herdamos do iluminismo - se identificou com o seu corpo ao ponto de sentir-se amedrontado e ofendido ante a mera sugestão de que sua pessoa é algo mais. É evidente que aí não se trata só de uma convicção, de uma idéia, mas de um transe auto-hipnótico incapacitante, de um bloqueio efetivo da percepção.
Esse estado é implantado nas almas pela tremenda pressão anônima da coletividade, que as mantém em estado de atrofia espiritual mediante a ameaça do escárnio e o temor - imaginário, mas nem por isso menos eficiente - da exclusão. Infinitamente multiplicado e potencializado pelo sistema educacional e pela a mídia , o que um dia foi mera idéia filosófica, ou pseudofilosófica, incorpora-se nas personalidades individuais como reflexo de autodefesa e, na mesma medida, restringe a autopercepção de cada qual ao mínimo necessário para o desempenho nas tarefas imediatas da vida socio-econômica. É tudo uma profecia auto-realizável: se a evidência avassaladora da percepção extracorporal é negada, não é só porque as pessoas não acreditam nela - é porque se tornaram realmente incapazes de vivenciá-la de maneira consciente. Vivem alienadas da sua experiência psíquica mais profunda e constante, encerradas num círculo de banalidades no qual o triunfalismo "cultural" e "científico" da mídia popular infunde uma ilusão de riqueza e variedade.
O "mundo real" no qual essas pessoas acreditam viver é o dualismo galilaico-cartesiano, já totalmente desmoralizado pela física de Einstein e Planck, mas que a mídia e o sistema escolar continuam impondo à alma das multidões como verdade definitiva: tudo o que existe nesse mundo são as "coisas físicas" e, em cima delas, o "pensamento humano", as "criações culturais". De um lado, a realidade dura da matéria regida por leis supostamente inflexíveis, nas quais se fundamenta a autoridade universal e inquestionável da "ciência"; de outro, a pasta mole e dúctil do "subjetivo", do arbitrário, onde toda opinião vale o mesmo. Dessa esfera "subjetiva" faz parte a "religião", que é o direito de crer no que bem se entenda, com a condição de não proclamá-lo jamais verdade objetiva ou valor universal.
Nessas condições, o próprio exercício da religião torna-se uma caricatura grotesca. Tanto quanto o ateu, o homem religioso de hoje em dia acredita piamente na existência de uma esfera material autônoma, regida por leis próprias que a ciência enuncia, só de vez em quando rompidas pela interferência do "milagre", do "inexplicável", do "divino". Por mais que a filosofia esculhambe com o "Deus dos hiatos" (aquele que só age por entre as brechas do conhecimento científico), ele é o único que restou no altar das multidões de crentes. Oficializada pelo establishmentgovernamental, universitário e midiático, a rígida separação kantiana de "conhecimento" e "fé" tornou-se verdade de evangelho para a maioria das almas religiosas, embora ela seja, em si, perfeitamente herética à luz da doutrina católica, interpondo um abismo infranqueável entre dimensões cuja interpenetração, ao contrário, é a própria essência da concepção cristã do cosmos. É novamente a profecia auto-realizável em ação: à percepção mutilada do eu individual corresponde uma religião mutilada, e vice-versa.
Quando digo percepção mutilada, estou afirmando, taxativamente, que a imagem do eu como algo que reside no corpo ou se identifica com ele é fantástica, ilusória, doente. Ela impõe à consciência limitações que não são de maneira alguma naturais, muito menos necessárias. Todas as tradições espirituais do mundo, todas as disciplinas sapienciais começam pela constatação óbvia de que o eu não é o corpo, não "está" no corpo mas de certo modo o abrange como o supra-espacial transcende e abrange o espacial (este é balizado por certas relações matemáticas que, em si, não estão em parte alguma do espaço). Mas uma coisa é compreender isso por pura lógica, outra bem melhor é poder constatá-lo no fato vivo da percepção extra-sensorial em casos de morte clínica. Bastaria, a rigor, um único episódio desse tipo para dar por terra com a balela de que o cérebro, isto é, o corpo, "cria" a cognição, o pensamento, a consciência. Mas os episódios são milhares, e o desinteresse dos crentes por esse tipo de fenômenos (mais estudados por ateus, adeptos da New Age e budistas do que por católicos, protestantes, ou mesmo judeus crentes) denota que a mente religiosa já se conformou com um estado de existência diminuída, em que a alma supracorporal, condição fundamental do acesso a Deus, só passará a existir no outro mundo, por alguma transmutação mágica da psique corporal, em vez de constituir já nesta vida a nossa realidade pessoal mais concreta, mais substantiva e mais verdadeira, presente e atuante nos nossos atos mais mínimos como nas nossas vivências mais elevadas e sublimes.
Durante milênios cada ser humano, ao pronunciar a palavra "eu", referia-se de maneira imediata e automática à sua alma imortal, a única que podia orar e responder por seus próprios atos ante o altar da divindade. Dessa alma, a psique corporal era uma parte e função menor, voltada ao meio material e social tão-somente, alheia a todo senso do eterno e, a rigor, incapaz de pecado ou santidade, apenas de delitos e virtudes socialmente reconhecidos. A partir do momento em que a psique corporal foi assumida como realidade autônoma, cada indivíduo só se enxerga a si mesmo como membro de uma espécie animal e como "cidadão", amputado daquela dimensão que fundamenta o senso último de responsabilidade e cultivando, em lugar dele, o mero instinto da adequação social, adornado ou não de "moral religiosa". Imaginem a diferença que isso faz, por exemplo, na compreensão que você tem da Bíblia: se você não a lê com sua alma imortal, talvez fosse melhor não lê-la de maneira alguma, porque a lê com a carne e não com o espírito.

Diário do Comércio, 12 de maio de 2010

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Assembléia Episcopal das Igrejas Ortodoxas da América do Sul







Os dias 16 a 18 de abril marcaram a história da Igreja Ortodoxa na América do Sul, pela realização da “Primeira Assembléia Episcopal das Igrejas Ortodoxas da América do Sul”, na sede do Arcebispado Antioqueno de São Paulo (Brasil), sendo anfitrião da mesma S.E.R. Monsenhor Damaskinos. Participaram da dita reunião os bispos de todas as Igrejas Ortodoxas (Patriarcado de Constantinopla, Patriarcado de Antioquia, Patriarcado de Moscou e Patriarcado da Romênia), contando com a presença de 10 hierarcas, faltando unicamente o bispo do Patriarcado da Sérbia, por sua participação na reunião do Santo Sínodo Sérvio. (*)

O objetivo da Assembléia foi implementar o resultado da 4ª Conferência Episcopal de Chambésy (Suíça) em 2009, das Igrejas Ortodoxas com vistas a criar em todo o mundo Assembléias de Bispos para um maior testemunho da Ortodoxia e para coordenar o trabalho em conjunto em diferentes áreas (educação, catequese, traduções de textos litúrgicos, relações com as autoridades públicas, etc.). Na reunião se tratou da adoção de uma versão em espanhol dos documentos aprovados em Chambésy, e se apresentou a situação de cada Igreja Ortodoxa na América do Sul. A Assembléia estabeleceu um Comitê Executivo, cujos integrantes são S.E.R. Monsenhores: Atenágoras do México (Presidente, Patriarcado de Constantinopla), Antônio do México (1º Vice-presidente, Patriarcado de Antioquia), Platão de Buenos Aires (2º Vice-Presidente, Patriarcado de Moscou), Siluan de Buenos Aires (Secretário, Patriarcado de Antioquia), e Tarásios de Buenos Aires (Membro, Patriarcado de Constantinopla). Ao finalizar as deliberações, a Assembléia elevou uma série de recomendações com o fim de serem tratadas a nível inter-ortodoxo.
Sem dúvidas, o ápice da reunião foi a celebração da Divina Liturgia dominical na Catedral Antioquena de São Paulo, que contou com a participação de todas as comunidades ortodoxas de São Paulo, e dignatários representando as várias autoridades, tanto públicas como religiosas e sociais.

A Assembléia saudou especialmente ao Presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, pela diligência e deferência que demonstrou ao expressar, através de um comunicado dirigido à Assembléia, palavras pelo êxito desta primeira reunião e desejos de bons frutos a favor das comunidades em toda a América do Sul. Também, a Assembléia agradeceu a S.E.R. Monsenhor Damaskinos, por sua fraternal acolhida, hospitalidade e diligência na organização e também a todas as entidades da coletividade sírio-libanesa de São Paulo pelo carinho e pela atenção para com os participantes da Assembléia.

Arquidiócesis de México, Venezuela, Centroamérica y el Caribe

(*) Não estiveram presentes também os bispos representantes da Igreja Ortodoxa da Polônia, que possui diocese no Brasil sediada no Rio de Janeiro, por falha de comunicação na organização da Assembléia.  A chancelaria da Arquidiocese Mexicana do Patriarcado de Constantinopla emitiu nota desculpando-se pela falha.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

METROPOLITA HILARIÃO DE VOLOKOLAMSK ENCONTRA EMBAIXADOR DA RÚSSIA PARA O BRASIL




O Metropolita Hilarião de Volokolamsk, presidente do Departamento de Relações Externas da Igreja (DREI) do Patriarcado de Moscou, encontrou-se no dia 09 de março de 2010 com o recém-indicado embaixador russo no Brasil, S. Akopov.

Participou 
da conversa o Igúmeno Philip (Riabykh), vice-presidente do DRE, o Rev. Dionísio Kazantsev, reitor da paróquia de São Pedro e São Paulo em Santa Rosa e da paróquia de São João, o Teólogo, em Campina das Missões, Brasil e pelo Sr. M. Palacio, membro da equipe do DREI.Sua Eminência Hilarião falou ao Sr. Akopov sobre a condição atual da Ortodoxia russa no Brasil, chamando sua atenção para o fato de que as paróquias brasileiras da Igreja Russa no Exílio rejeitou a restauração da comunhão canônica com a Igreja Ortodoxa Russa.

De acordo com o Metropolita, a razão foi, em grande parte, o fato de que um número considerável de imigrantes russos no Brasil acredita em idéias desatualizadas sobre sua pátria e sobre o Patriarcado de Moscou. "Nossa tarefa comum é ajudar nossos compatriotas a entenderem a verdade sobre a Igreja mãe", ele disse.

Sua Eminência manifestou esperança de que cooperação entre o DREI e a embaixada russa no Brasil aumente e pediu ao Sr. Akopov para apresentar os residentes à tradição espiritual e história russas e à atualidade da vida da Igreja Ortodoxa Russa.O Sr. Akopov, de sua parte, garantiu ao presidente do DREI sua prontidão em ajudar de todos os modos possíveis a desenvolver a presença da Ortodoxia russa no Brasil.

Como lembrança do encontro, o Metropolita Hilarião deu a novo embaixador russo no Brasil um disco com sua composição "A Paixão Segundo S. Mateus".


Serviço de Comunicações do DREI.

http://www.mospat.ru/en/2010/03/09/news14264/

sábado, 16 de janeiro de 2010

Encíclica Arquiepiscopal:Haiti

Arquidiocese Ortodoxa da América
www.goarch.org - communications@goarch.org


Contato:
Escritório de Imprensa
Stavros Papegermanos
pressoffice@goarch.org

Encíclica Arquiepiscopal
Protocolo 04/10

13 de janeiro de 2010

Ao Reverendíssimos Hierarcas, aos Reverendos Padres e Diáconos, aos Monges e Monjas, aos Presidentes e Membros dos Conselhos Paroquiais das Comunidades Ortodoxas Gregas, aos distintos Arcontes do Patriarcado Ecumênico, Instituições de Ensino Regular e Eclesiástico, Irmandades Filoptochos, à Juventude, às Organizações Helênicas e a toda a família Ortodoxa grega na América

Amados Irmãos e Irmãs em Cristo,

Foi com grande tristeza e compaixão que recebemos as trágicas notícias sobre o devastador terremoto que ontem atingiu o país do Haiti, causando destruição generalizada e a perda de incontáveis vidas. Milhares presumilvemente mortos e muitos mais perderam familiares, lares e empregos. A infraestrutura e as instituições da capital, Port-au-Prince, estão em ruínas.

Em resposta a esta tragédia, peço primeiro e antes de tudo, que os fiéis da Igreja Ortodoxa grega na América ofereçam suas orações pelo povo do Haiti. Que possamos auxiliá-los com nossas orações a encontrarem consolo nesta hora de amargura e dor, e que possam encontrar força e esperança nEle através da fé e através do ministério de amor e cura oferecido por todo o mundo. Além disso, que também possamos oferecer nossas orações pelos fiéis ortodoxos gregos e duas paróquias no Haiti que estão sob a liderança arquipastoral de Sua Eminênica Metropolita Atenágoras do México. Oramos pela sua segurança e bem estar, e por seu testemunho e serviço durante este tempo difícil.

Também peço que as paróquias de nossa Santa Arquidiocese conduzam uma coleta especial neste domingo, 17 de janeiro, como resposta de compaixão pelas necessidades do povo do Haiti. Este país e seu povo experimentaram numerosas tragédias e lutas, e este desastre natural aprofundou os desafios com a destruição de hospitais, escolas, igrejas e centros de assistência. Peço que as ofertas sejam enviadas para Arquidiocese marcadas para o "Fundo de Assistência Haiti".

Através das orações, doações e serviços, que possamos responde a esta tremenda crise, sabendo que nosso Senhor será fiel em trazer conforto e cura através de nosso testemunho de Seu amor.

Com amor paternal em Cristo,

+DEMÉTRIOS
Arcebispo da América

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Encíclica Patriarcal de Natal 2009

A Igreja Ortodoxa Sérvia
para seus filhos espirituais no Natal, 2009





+AMPHILOHIJE

Pela Graça de Deus,
o Metropolita Ortodoxo de Montenegro e da Costa, Locum Tenens do trono dos Patriarcas da Sérvia, com todos os Hierarcas da Igreja Ortodoxa Sérvia, para todo o clero, monásticos, e todos os filhos e filhas de nossa Santa Igreja: graça, misericórdia e paz de Deus, Pais e Nosso Senhor Jesus Cristo, e o Espírito Santo, com uma jubilosa saudação de Natal:

Paz de Deus! Cristo Nasceu!

Mais uma vez, este ano, queridos filhos espirituais, estamos perante o berço do Menino Deus, Jesus Cristo. O enorme mistério, além de qualquer compreensão, do nascimento de Deus, o Logos, deu-se em uma humilde caverna em Belém, a qual, daquele momento em diante por todos os tempos, tornou-se o centro do mundo – o centro da Glória de Deus e a fonte de conforto para todos os que buscaram a Deus ao longo da história humana.  O grande pai da Igreja, S. João Crisóstomo, quando falando da Festa da Natividade, diz: “Honrem, irmãos, os dias de festas, mas acima de todos, o dia da Natividade de Cristo, pois quem chamar o nascimento de Cristo a mãe de todas as festas, não cometerá erro...”. Da festa da Natividade de Nosso Senhor, todos os demais dias de festa emergem, como rios de suas nascentes. De acordo com o santo Crisóstomo, o nascimento de Cristo é uma nova criação do mundo, e a Encarnação de Deus, o Logos, é a pedra fundamental de tudo. Outro grande pai da Igreja, S. Gregório, o Teólogo, inicia a homilia da Natividade com esta doxologia (glorificação de Deus):

Cristo nasceu – vamos glorificá-lO!
Cristo veio dos céus – vamos dar-Lhe boas vindas!
Cristo está na terra – sejamos erguidos!
Cantai ao Senhor toda a terra!

E ele continua:

Que o povo que está na trevas da ignorância veja a grande luz do conhecimento de Deus. O velho passou – veja, tudo se tornou novo! A letra do Velho Testamento recua – o Espírito toma conta; as sombras desaparecem – a Verdade chega.

De acordo com a narrativa dos Santos Evangelistas, o Senhor Jesus Cristo nasceu no tempo do imperador romano Augusto, em Belém da Judéia, a cidade dos profetas e do Rei Davi, de cuja descendência, de acordo com as profecias dos profetas do Velho Testamento, nasceria o Messias prometido por Deus – o Salvador do mundo.

São Gregório Palamás, o teólogo da luz de Belém e do Tabor, em sua homilia da Natividade revela o profundo significado da vinda do Messias: “Com a encarnação e nascimento do Cristo-Messias no mundo, júbilo universal e paz foram concedidos ao mundo. Escutem o final da canção do anjo, o portador das boas novas e você perceberá – ele diz: “Glória a Deus nas alturas, e na terra paz e boa vontade entre os homens” (S. Lc. 2:14); pois Deus veio em carne para nos trazer Sua paz ao mundo e para reconciliá-lo com o Pai Altíssimo”. A paz de Cristo não é a mesma paz deste mundo. S. Gregório Palamás chama a paz do Natal de “espírito de adoção, porque aqueles que portam esta paz com fé tornam-se herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo” (Rom. 8:17). É por isso que, de acordo com este mesmo santo, apenas aqueles que vivem em amor uns com os outros, e que, de acordo com as palavras do Santo Apóstolo Paulo “toleram uns aos outros, e perdoam uns aos outro...assim como Cristo os perdôou”, vivem no mesmo Salvador e no espírito do Natal (cf. Col. 3:13).

O Deus distante e exaltado, Que no Velho Testamento conversou om Moisés no Monte Sinai (ver Ex. 3:5), com o nascimento de Cristo curvou-se dos céus e se tornou “Emmanuel”, o que significa, “Deu conosco” (S. Mat. 1:23), sem perder nada de divino. S. João de Damasco nos confirma isso quando ele fala da natividade de Cristo dizendo: “É por isto que não dizemos que Ele é um homem feito Deus, mas que Ele é Deus que Se fez homem: porque sendo Ele perfeito Deus por sua natureza, ele se tornou perfeito homem sem mudança de sua própria natureza e divina economia.”

O recém-revelado Pai Justino de Celije disse que “no Natal Deus, por seu amor imensurável, entrou na história, pela graça do Espírito Santo, encarnou-se da Sempre-Virgem Maria, a Teotokos, e tornou-se um homem real.” Deste modo, na Criança recém-nascida – o Menino Deus Jesus Cristo – recebemos todo abundante dom do Reino Celestial. Ele trouxe Consigo Verdade Eterna, Justiça Eterna e Vida Eterna, a qual, de acordo com S. Máximo o Confessor, nós experimentamos adiantadamente na vida e Liturgia da Igreja de Cristo. A festa do Natal dividiu toda a história da humanidade em duas partes – no tempo da espera e no tempo da salvação. A espera bíblica pelo Messias e Salvador já havia se iniciado com a promessa feita aos primeiros criados Adão e Eva(ver Gen. 3:15), e mais concretamente a nosso ancestral Abraão, a quem Deus prometera  que em seus descendentes todos os povos seriam abençoados (ver Gen 22:18), a qual foi concretizada precisamente pelo Nascimento do Homem-Deus, Jesus Cristo.

Todos os profetas do Velho Testamento apontam para o grande mistério do nascimento do Messias. Portanto, olhando o Velho Testamento com os olhos do Santo Apóstolo Paulo, podemos repetir com ele que o Velho Testamento é, todo ele, “nosso tutor para nos trazer a Cristo”, (Gal. 3:24), um instrutor que antes de Cristo apontou todas as almas que amam a Deus para a caverna de Belém. Por outro lado, os Três Magos do Oriente, que a Estrela cheia de graça de Belém levou ao local onde Cristo nascera, significa, de acordo com a interpretação dos Santos Padres, todo o mundo politeísta, o qual, através de sua filosofia dos homens (cf. Col. 2:8), não conseguia penetrar nas profundezas dos mistérios da Encarnação de Deus. Tanto para as almas que amam a Deus quanto para o  mundo politeísta, o anjo celestial revelou durante o Nascimento de Cristo, o grande mistério da salvação do mundo, dando as Boas Novas para os pastores de Belém e através deles para todos nós: “Não temam, mas contemplem, eu lhes trago novas de júbilo que são para todos os povos. Pois vos nasceu neste dia, na cidade de Davi, um Salvador, que é Cristo, o Senhor” (S. Lc. 2:10-11). Desde aquela proclamação de boas novas aos pastores de Belém até hoje em dia, o Nascimento de Cristo é o dia de festa da alegria terrena e celestial, na qual os anjos e os santos participam juntos, mas também toda alma que ama a Deus, iluminada pela luz de Belém. Como os Três Reis Magos do Oriente que vieram adorar o Menino-Deus Jesus Cristo, todos nós fomos chamados para adorá-lO também, e oferecer nossos dons ao Rei dos Céus (cf. S. Mt. 2:2). Não é todo bem de Deus que fizemos este ano nosso maior presente ao Menino-Deus? Se alimentamos os famintos, se saciamos os sedentos, e visitamos os doentes, ao fazê-lo não ofertamos nossos dons a Deus? Se glorificamos Deus com nossa vida, vivendo de forma santa e agradável a Deus, ao fazê-lo não oferecemos o ouro de nossas virtudes ao Menino Deus? Se amamos a Igreja de Deus e com diligência adornamos a Casa do Senhor, ao fazê-lo não oferecemos um sacrifício agradável a Deus? Se reconhecemos o sofrimento de nossos irmãos, e se os confortamos com nossos trabalhos, ao fazê-lo não foi ao próprio Cristo que o fizemos? (cf. S. Mt. 10:42).

Vejam, em retribuição ao Seu amor ilimitado, Cristo, o Menino-Deus, espera tais dons de nossa parte. É por isto que o Natal é também a festa antes da qual re-examinamos nossa fé e tudo que nós,  enquanto criaturas de Deus e filhos e filhas de Deus, somos chamados a fazer, como dizia tão frequentemente nosso Patriarca Pavle de abençoada memória.

Nesta época da Natividade estamos particularmente cheios de jubilosa tristeza, eis que nosso Patriarca Pavle nos deixou e foi da terra para o céu. Cremos profundamente que ele, de acordo com a liberdade que lhe foi dada por Deus, “com todos os santos de nossa nação” continua a oferecer suas orações por nossa Igreja e nosso povo crucificado, junto com São Savas, São Simeão, Vertedor de Mirra, e todos os nossos santos ancestrais que reconheceram e receberam o Patriarca Pavle “como um dos seus e seu igual”. Neste Natal, também lembramos todos aqueles que estão aflitos, os sofredores, os exilados, todos os injustiçados; queremos confortá-los com estas palavras: Cristo Nasceu! Alegrai-vos, pois contemplem, o Senhor vem para limpar todas as lágrimas humanas (ver Apocalipse 21:4).

Com Seu Nascimento na terra, Cristo santificou cada aspecto da vida humana – da concepção à morte e ressurreição. É por isto que a Natividade nos lembra de não levantarmos a mão contra o fruto de nossos ventres, mas, ao invés, vivermos de acordo com o mandamento de Deus: “Frutificai e multiplicai-vos; preencham toda a terra” (Gên. 1:28). Respeitando esta benção de Deus, as lágrimas de Raquel por nosso povo e por nossas crianças que não vivem mais (ver S. Mat. 2:18) iriam cessar, e a vida inextinguível que emerge na caverna de Belém iria florescer.

Nesta época do Natal, também estamos com nossos irmãos e irmãs do Kosovo e da Metohija – o berço de nosso povo. No amor de Cristo, pedimos a eles que retornem a seus lares  no Kosovo e para permanecerem lá para viverem com seus santos templos, salvaguardando nosso Kosovo, aquele “desafortunado lugar de julgamento”. Jamais percamos a esperança de que Deus irá iluminar as mentes daqueles a quem Ele deu o poder terreno e controle sobre os países e povos; que eles, no espírito da justiça divina e humana, reexaminem suas decisões injustas sobre o Kosovo e a Metohija. Apenas desta forma haverá paz e comunidade nos Bálcãs e a Europa se renovará, e a dignidade ferida do povo ortodoxo sérvio será restaurada. Também oramos para que o Recém-nascido Rei da Paz que erradique as guerras, a violência e a injustiça em toda parte do mundo, para que finalmente a paz e a justiça possam reinar entre os povos e nações.

Saudamos todo o nosso povo que ama a Deus, com a saudação de Belém, pedindo que preservemos a nossa fé ortodoxa, nossa língua e nosso alfabeto, qualquer que seja o continente onde vivamos. Nós, sérvios, somos uma nação cristã antiga, porque através do batismo por Cirilo e Metódio, e da iluminação por S. Sava, nós tornamos parte da cultura de todo o mundo cristão. Desta forma, deixamos uma marca indelével na história e civilização da Europa moderna e do mundo, associando-nos, de uma vez para sempre, ao seu futuro. A Natividade de Cristo sempre nos convoca a todos a viver o amor fraterno, no Amor de Deus e em humildade evangélica, vivendo do trabalho de nossas mãos e apegando-nos aos ensinamentos do Novo Testamento: que não façamos aos outros nada que não gostaríamos que fizessem a nós (cf. At. 15:29).

Resumindo este grande e inconcebível mistério da Natividade, São Gregório, o Teólogo, disse: “Este é nosso dia santo. É isto que celebramos hoje: a vinda de Deus à humanidade, para que pudéssemos ir a Deus; ou para dizer de forma mais adequada: para que pudéssemos retornar a Deus; para que pudéssemos despir-nos do velho homem e vestir o novo, e para que, assim como todos morremos em Adão, possamos vir à vida nova em Cristo, que possamos nascer novamente em Cristo, e ser crucificados com Ele, e sermos enterrados com Ele, e sermos ressuscitados com Ele.”

Concluindo nossa encíclica da Natividade com as palavras  deste divinamente sábio pai da Igreja, saudamos a todos vós, nossos queridos filhos espirituais, e saudamos todos os povos de todas as nações com a toda-jubilosa saudação de Belém e da paz:

A PAZ DE DEUS – CRISTO NASCEU!

Escrita no Patriarcado Sérvio em Belgrado, no Natal de 2009.
Vossos intercessores perante o berço do Divino Infante Cristo:

O locum tenens do trono dos  Patriarcas sérvios,
Metropolita de Montenegro e da Costa AMPHILOHIJE
Metropolita de Zagreb e Liubliana JOVAN
Metropolita de Libertyville-Chicago CHRISTOPHER
Metropolita de Dabro-Bosna NIKOLAJ
Bispo de  Savas-Valievo LAVRENTIJE
Bispo de  Nis IRINEJ
Bispo de Zvornik-Tuzla VASILIJE
Bispo da Sírmia VASILIJE
Bispo de  Bania Luka JEFREM
Bispo de  Budim LUKIJAN
Bispo do  Canadá GEORGIJE
Bispo de  Banat NIKANOR
Bispo de  New Gracanica-Centro-Oeste dos EUA LONGIN
Bispo do  Leste dos EUA MITROPHAN
Bispo de  Zica CHRYSOSTOM
Bispo de  Backa IRINEJ
Bispo da Grã-Bretanha e Escandinávia DOSITEJ
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Bispo de  Bihac e Petrovac CHRYSOSTOM
Bispo d  Osijek e Baranja LUKIJAN
Bispo da Europa Central CONSTANTINE
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Bispo de  Vranje PAHOMIJE
Bispo de  Sumadija JOVAN
Bispo da  Eslavônia SAVA
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Bispo de  Budimlie e Niksic JOANIKIJE
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Bispo d  Valievo MILUTIN
Bispo do Oeste dos EUA MAXIM
Bispo de  Gornii Karlovci GERASIM
Bispo da  Austrália e Nova Zelândia IRINEJ
Bispo aposentado de  Zahúmlia e Herzegovina ATANASIJE
Bispo Auxiliar de  Hvosno ATANASIJE
Bispo Auxiliar de  Jegar PORFIRIJE
Bispo Auxiliar de  Liplian TEODOSIJE
Bispo Auxiliar de  Dioclea JOVAN
Bispo Auxiliar de  Moravica ANTONIJE
A ARQUIDIOCESE DE OCHRID
Arcebispo de Ochrid e Metropolita de Skoplje JOVAN
Bispo de  Polos e Kumanovo JOAKIM
Bispo de  Bregal e locum tenens of the Diocese of Bitolj MARKO
Bispo Auxiliar de  Stobija DAVID                                                                                      

Tradução: Fabio L. Leite

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Meus Dois Centavos Sobre o Capitalismo



Caro leitor,

abaixo você encontrará a tradução que fiz da transcrição de um dos programas de podcast do Prof. Dr. de Filosofia Clark Carlton. O professor Carlton dá aulas de história da filosofia, lógica e filosofia da religião na Tennessee Tech University. Você pode escutar os podcasts dele, em inglês, neste endereço:


Transcrição

Venham e pedi-me a prestação de contas, diz o Senhor. Embora vossos pecados sejam escarlates, eles serão brancos como a neve; embora sejam vermelhos carmim, serão como a lã. Se fordes obedientes e o quiserdes, comereis o fruto da terra.

Olá, e bem-vindos mais uma vez ao “Fé e Filosofia”. O assunto de hoje é “Meus Dois Centavos sobre o Capitalismo”. Irei retornar ao tópico da linguagem teológica nos podcasts futuros, e quando o fizer, quero dar um foco especial nas Escrituras e como devemos lê-las.

Mas hoje, quero fazer um pequeno desvio. Eu tenho me colocado em dia com vários dos últimos podcasts aqui na Ancient Faith Radio. E fiquei intrigado com uma série deles sobre o capitalismo. Sendo assim, enquanto o assunto ainda está fresco na minha cabeça, eu quero contribuir com meus dois centavos.
O que se segue não busca ser uma refutação do que quer que tenha sido dito por alguém aqui. Ao invés, meus comentários têm o objetivo de clarificar os termos e questões que têm sido levantados. A única crítica que tenho sobre as discussões anteriores é que houve uma falta de contexto histórico. Tentar definir os termos abstratamente, sem referência a seus desenvolvimentos históricos, irá inevitavelmente levar a distorções.

Basicamente, quero detonar com dois mitos que cercam o capitalismo, e daí meus dois centavos. O primeiro mito é que o capitalismo depende da propriedade privada e do livre-mercado. O segundo é que o progressismo e o socialismo são alternativas reais ao capitalismo.

Vamos começar com o primeiro mito, e isso com certeza vai levantar algumas sobrancelhas. Historicamente, o capitalismo tem se provado um inimigo da propriedade privada, não seu defensor. É, é, eu sei. Todos nós já ouvimos quem defina o capitalismo como posse privada de propriedade, em contraste com o socialismo que seria a posse pública do capital.

Mas esta definição é enganadora e pouco útil. As pessoas já possuíam propriedade privada por milênios antes do surgimento do capitalismo. Os romanos reconheciam a posse privada, assim como os gregos e os judeus. A propriedade privada não é uma invenção moderna. De fato, o republicanismo clássico dependia da posse privada da propriedade e, portanto, nas virtudes da classe de cidadãos proprietários.

Karl Marx recebeu bem e elogiou o capitalismo. Aposto como você não ouviu isso nas escolas públicas. Você diz, “Marx queria eliminar a propriedade privada”. E queria mesmo. Mas ele via o capitalismo como um estágio necessário no desenvolvimento sócio-econômico da humanidade – um desenvolvimento que, segundo ele acreditava, levaria inexoravelmente a uma utopia comunista.

Dito de outra forma, o capitalismo é essencial para a concentração da propriedade nas mãos de alguns poucos. Isto alcança duas coisas dentro da perspectiva comunista: acentua as desigualdades socioeconômicas até o ponto no qual o proletariado irá se erguer em revolução, e deixa a transição para o comunismo mais fácil porque apenas uns poucos são donos da propriedade.

Além disso, o capitalismo prospera apenas em mercados controlados, não em livre-mercados. Algumas das discussões nos podcasts focavam no capitalismo laissez-faire. Vamos deixar uma coisa clara. Tal coisa não existe. Nunca existiu. Nunca existirá. Capitalismo laissez-faire é uma fantasia libertária, e os libertários têm sido descritos, corretamente, como os utópicos da direita.

O capitalismo, da forma que se desenvolveu historicamente, não está fundamentado nas trocas do livre-mercado, mas na manipulação do mercado pelos governos para o benefício dos capitalistas – ou, pelo menos, de alguns capitalistas.

Primeiro de tudo, o capitalismo só pode existir onde a economia tenha sido monetarizada. Seria impossível em uma economia de escambo. Uma economia monetarizada, por sua vez, necessita de um sistema monetário de algum tipo, o que vai exigir um sistema bancário e, tão importante quanto, algum tipo de base governamental ou política para o dinheiro.

Desde o início, os capitalistas dependeram dos governos para beneficiá-los através de tributações monetárias e políticas comerciais. O capitalismo e o mercantilismo andam de mãos dadas. Os industriais do século XIX não ficaram podres de ricos pela manipulação do livre-mercado. Eles ficaram ricos graças a políticas monetárias federais, políticas tributárias, gastos públicos em coisas como linhas férreas, e altas tarifas que os protegiam da livre competição.

Francamente, é impossível ficar rico como os Vanderbilts ou os Rockfellers, ou mesmos os Bill Gates e Warren Buffets da vida, sem uma manipulação governamental gigantesca dos mercados – especialmente através de políticas monetárias e políticas de taxas. Algumas pessoas se tornam ricas com essas manipulações. Outras ficam pobres. Não tem nada a ver com a sobrevivência do mais adaptado, mas com quem você conhece ou quão bem você pode manipular o sistema a seu favor.

O que me traz ao segundo mito, que diz que o progressismo e o socialismo oferecem alternativas genuínas ao capitalismo. Se o capitalismo tratasse de propriedade privada e livre-mercados, então estas coisas seriam alternativas. Mas o capitalismo na verdade promove a concentração de riqueza e a socialização dos riscos da economia, enquanto o socialismo não passa de um lado diferente do mesmo sistema econômico corrupto.
Eu costumo dizer que os evangélicos constituem o grupo mais burro de eleitores nos EUA, porque você quase sempre pode contar que eles irão votar contra seus próprio interesses – basta que um político diga algo legal sobre Jesus e finja se opor ao aborto. Depois dos evangélicos, entretanto, eu colocaria os auto-proclamados progressistas, que realmente acreditam que apoiando coisas como regulamentação governamental e serviço universal de saúde, estão enfrentando a elite em nome dos pequenos e frágeis. Total e completo esterco de cavalo.

Vou dar um exemplo. Este ano o congresso americano concedeu ao FDA a competência de regular o tabaco – uma grande vitória para os consumidores e defensores da saúde contra as grandes e malvadas corporações, certo? Na verdade não. O que mudou o rumo das coisas foi que as grandes empresas deixaram de se opor à lei. Eles descobriram que as novas regulamentações iriam lhes dar uma vantagem competitiva contras as empresas de tabaco menores, já que as incontornáveis regulamentações da FDA seriam mais custosas para os pequenos produtores.

De fato, na maioria dos casos, a regulamentação governamental tende a beneficiar as grandes corporações e colocar grandes fardos nas pequenas empresas. Tudo isso pode ser percebido se estudarmos a história dos EUA. Ao contrário do que diz a mitologia do livro escolar, os primeiros colonizadores não eram minorias religiosas buscando a liberdade.

Tanto a Massachusetts Bay Company quanto a Virginia Company eram corporações visando lucros com acionistas na Inglaterra, e que estavam esperando uma admirável compensação por seus investimentos. Desde o início, entretanto, houve tensões entre os colonos e seus senhores corporativos. O que a maior parte das pessoas não se dá conta é que uma boa parte da legislação parlamentar, contra a qual os colonos reclamavam tanto, fora passada sob as ordens e para o benefício da Compania das Índias Orientais.
No fim do século XVIII, a Compania havia se tornado tão rica e poderosa – ela chegou a possuir exército e marinha próprios – que na prática o Parlamento e a Coroa estavam comprados e no seu bolso. Assim, quando os colonos reclamavam contra a tirania, era na verdade a tirania corporativa, embora manifesta através dos atos de um parlamento marionete.

Quando os colonos alcançaram a independência, dois caminhos distintos estavam à sua frente. Jefferson queria uma ruptura completa com o velho sistema mercantilista, capitalista. Ele imaginava uma república de repúblicas menores, baseada em uma vasta rede de propriedades privadas agrárias e pequenos negócios. Ele alertava contra as temíveis conseqüências se acionistas e banqueiros chegassem a ter a predominância. Ele acreditava que para os direitos de propriedade e a liberdade serem preservados, o poder político devia ser o mais descentralizado possível.

Do outro lado do debate estava Alexander Hamilton. Ele queria reproduzir o mercantilismo inglês deste lado do Atlântico e derrotar os ingleses em seu próprio jogo. Ele imaginava os Estados Unidos como um furacão militar e econômico. Para se alcançar tal coisa, entretanto, tanto o poder político quanto o capital financeiro teriam que ser concentrados.

Pela primeira metade do século XIX, os jeffersonianos contiveram os hamiltonianos. Mas em 1860, tudo mudou. A eleição de Abraham Lincoln colocou os EUA solidamente no caminho de se tornar um império mercantilista, e temos pago o preço disso desde então.

Vou detonar um outro mito agora. O Partido Republicano não é, nem nunca foi um partido conservador. Ele foi fundado em 1850 por uma coalizão de elites corporativas e progressistas sociais, e continua assim até hoje. O programa republicano de um banco nacional, melhorias internas financiadas publicamente, e tarifas altamente protetoras criaram não apenas riqueza jamais vista nesse país, mas também criaram uma corrupção como jamais vista – tanto privada quanto governamental.

As reformas progressistas da primeira parte do século XX não foram um repúdio do capitalismo mercantil, mas apenas um realinhamento em posições diferentes. A regulamentação governamental se tornou o preço da larga generosidade do governo. Não nos esqueçamos que o republicano Teddy Roosevelt se tornou um dos fundadores do Partido Progressista.

Até 1931, o Partido Democrático ainda era o mais conservador dos dois partidos, mas isso mudou com a eleição de Franklin D. Roosevelt, cuja família, não esqueçamos, havia sido republicana. Reparem no programa democrata de 1932. É praticamente o oposto especular do que Roosevelt de fato executou no posto. A eleição de 1932 foi uma das grandes farças de todos os tempos.

Tudo isto explica, aliás, porque as políticas de Obama pouco diferem das de George Bush. Obama apoiou os planos de subsídios antes de ser eleito e seu governo deu continuidade às mesma políticas desastrosas de subsidiar bancos e desvalorizar os dólares nas contas bancárias de pessoas que realmente tem que trabalhar para viver. Nada mudou.

Para voltar à pergunta feita nos outros podcasts, seria o capitalismo compatível com o Cristianismo Ortodoxo? Bem, a resposta é não. Mas o progressismo não oferece uma alternativa real. O capitalismo é um sistema econômico modernista e o progressismo é um paleativo modernista – não uma alternativa.
A única alternativa real ao capitalismo é algo na linha do que Jefferson havia planejado, o que é parecido com a visão dos distributivistas católicos, tais como Belloc e Chesterton, e com a terceira via do economista protestante Wilhelm Röpke. O fundamento de um tal sistema é uma vasta rede propriedades privadas e governo descentralizado.

Quero salientar que a palavra grega ekonimia significa administração doméstica. Wall Street não é a economia. A economia é como você provê para si mesmo e para sua família e como você trata seus vizinhos no processo. Entretanto, tem se tornado cada vez mais difícil prover para nós mesmos quando nossas economias são desvalorizadas por políticas governamentais e nossas pequenas fazendas e negócios são regulamentados em cada centímetro para o benefício das grandes corporações.

Gostaria de concluir com alguns comentários concernentes ao protestante Wilhelm Röpke. Estes comentários foram feitos por Ralph Ansel, em um excelente artigo que ele escreveu:

Para um protestante que considerava a situação criada pela Reforma como de uma das grandes calamidades na história, ele devia ter dificuldades em encontrar seu lar religioso tanto no protestantismo contemporâneo, o qual em seu caos e falta de orientação está pior do que jamais esteve, ou no contemporâneo catolicismo pós-reforma. Tudo que ele pode fazer é reunir, em si mesmo, os elementos essências do cristianismo indiviso pré-reforma. E nisto, eu acho que estou na companhia de homens cuja boa-vontade, pelo menos, não é duvidável.

Nós sabemos, naturalmente, que o Cristianismo indiviso não necessita ser, de fato não pode ser, reunido porque ele já existe na Igreja Ortodoxa. Mas esta passagem é um lembrete de que a solução dos dilemas econômicos do homem moderno não estão no modernismo, mas na fé e vida de uma vez por todas entregue aos santos.

Apenas a Ortodoxia é capaz de oferecer não apenas uma crítica da modernidade, mas de apontar-nos soluções reais. Não podemos dar o testemunho da verdade que o mundo precisa, porém, enquanto continuarmos a tentar contemporizar com sistemas econômicos e políticos que, por sua própria natureza, minam a fé que temos e a vida que buscamos levar.

E finalmente, que nosso Deus e Salvador, Jesus Cristo, através das interseções de Sto. Inocêncio do Alasca e do Abençoado Ancião Sofrônio Sakharov, tenha piedade de nós e nos conceda uma rica entrada em Seu Reino eterno.