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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Asceticismo e a Sociedade Livre





Na última sexta-feira tive a oportunidade de apresentar um trabalho na conferência anual do Instituto Sophia, no Union Theological Seminary. O tópico deste ano era "Casamento, Família, e Amor na Tradição Ortodoxa". O título do meu trabalho foi "O que constitui uma sociedade?" e focava, no contexto do casamento e da família, no desenvolvimento de uma resposta cristã ortodoxa para a questão. As respostas católico-romanas e neo-calvinistas, respectivamente subsidiariedade e esfera de soberania, embora não mutuamente exclusivas, recebem atenção frequente no PowerBlog, mas, até onde sei, nenhuma resposta ortodoxa foi claramente articulada, e por isso pode ser difícil saber onde começar. Estou convicto, porém. que, conforme o tópico da minha pesquisa, que uma resposta ortodoxa historicamente razoável para essa questão pode ser encontrada no conceito de asceticismo, corretamente entendido.

Embora eu não vá reproduzir meu trabalho aqui, pretendo resumir brevemente dois de seus pontos fundamentais que podem ser de interesse geral. Primeiramente, o que é asceticismo? Em segundo lugar, como pode o asceticismo ser visto como um princípio organizacional da sociedade? Finalmente, tenciono explorar rapidamente a relevância deste princípio para uma sociedade livre, tema que vai além do escopo do meu trabalho.

Considerando a primeira questão, é muito importante reconhecer que existem muitas formas de asceticismo. A palavra vem do grego "askesis" e significa basicamente "exercício". Aplicada a nossas vidas espirituais, possui a conotação de recusar confortos para o corpo com o fim de treinar nossas almas através de oração, jejum, doação de esmolas, etc. Mais frequentemente, entretanto, as pessoas lembram apenas dos sentidos negativos quando escutam a palavra, como, por exemplo, o tipo de asceticismo que S. Paulo denuncia na Epístola aos Colossenses dizendo: 

Se em Cristo estais mortos aos princípios deste mundo, por que ainda vos deixais impor proibições, como se vivêsseis no mundo?
Não pegues! Não proves! Não toques!,
proibições estas que se tornam perniciosas pelo uso que delas se faz, e que não passam de normas e doutrinas humanas.
Elas podem, sem dúvida, dar a impressão de sabedoria, enquanto exibem culto voluntário, de humildade e austeridade corporal. Mas não têm nenhum valor real, e só servem para satisfazer a carne. 
Colossenses 2:20-23

O problema com este tipo de asceticismo era que ele confundia os meios com os fins. As disciplinas ascéticas (oração, jejum, esmolas, simplicidade, etc) não são um fim em si mesmas, não para o cristão ao menos. A atitude correta pode ser vista em muitos dos ditos dos pais do deserto, nos quais, por exemplo, eles criticam os que recusam hospitalidade em nome do jejum.

Ao invés, de acordo com S. Moisés, o Etíope, estas disciplinas "devem ser degraus de uma escada na qual o coração ascende ao perfeito amor". E de acordo com o Pe. George Florovsky, "o verdadeiro asceticismo é inspirado não pelo desdém, mas pelo desejo de transformação". O corpo não é visto como algo mau e que merece ser mal-tratado, mas como um instrumento para melhorarmos nossas almas, exercitando-nos nas virtudes e, em última instância, no amor. É o meio pelo qual mortificamos nossos membros na terra e colocamos nossas mentes nas coisas que são de cima (cf. Colossenses 3:1-11). Desta forma, o asceticismo cristão tem, na verdade, uma visão excepcionalmente elevada do corpo: ele não é mau, nem sem valor espiritualmente, mas essencial para nosso desenvolvimento espiritual.

Mas como pode o asceticismo, de ordinário associado exclusivamente com monges e místicos, ser um princípio social? Como escrevi em meu trabalho,

Podemos confirmar isto refletindo nos hábitos cotidianos da família. Não chamamos de disfuncional a família na qual as crianças podem comer sorvete no café-da-manhã, onde a família não passa nenhum tempo juntos voluntariamente, e a desobediência nunca é disciplinada? Não chamamos, com razão, de irresponsáveis os pais que abandonam seus filhos, recusando-se a sacrificarem-se para prover a eles, e que, ao invés, buscam uma existência egoísta? Famílias saudáveis, por outro lado, têm refeições juntas de acordo com as limitações dietéticas auto-impostas ("coma seus legumes, depois pode comer a sobremesa", por exemplo); eles compartilham espaços e tempo uns com os outros; os pais sacrificam seu tempo e desejos para trabalhar para prover para seus filhos; os filhos tem o dever de realizar tarefas domésticas para contribuir com a casa, e assim por diante. A sociedade simplesmente não "funciona" sem a auto-renúncia ascética.

Em meu trabalho, clarifico: "É verdade, tal asceticismo pode ser considerado leve por qualquer padrão e não a corporificação perfeita do ideal, mas o princípio básico deve, mesmo assim, estar presente." Compreendido desta forma, não há sociedade que possa sobreviver sem algum grau de asceticismo.

Eu acho esta perspectiva particularmente adequada à tradição ortodoxa porque ainda existe uma expectativa de que todos pratiquem o asceticismo em certa medida. Quartas e sextas são dias de jejum, e os períodos do Advento e da Quaresma, entre outros, são épocas nas quais maior ênfase é dada, não apenas ao jejum, mas também à oração, esmolas, simplicidade, arrependimento, etc. O asceticismo intencional é ainda um elemento fundamental do ethos ortodoxo, e a tradição ortodoxa está cheia de sabedoria sobre o modo ascético de vida.

Tudo isto está bem e é bom, mas o que significa para uma sociedade livre? De acordo com Edmund Burke,

A sociedade não pode existir, a menos que um poder que controle a vontade e o apetite seja colocado em algum lugar, e quanto menos exista interiormente, mais dele existirá exteriormente. Está ordenado na constituição eterna das coisas, que homens de mentes intemperantes não podem ser livres. Suas paixões forjam seus próprios grilhões.

O asceticismo é historicamente o meio pelo qual os cristãos esmerilham-se, em cooperação com a Graça, para colocar um "poder que controle a vontade e o apetite". Quanto mais autodomínio as pessoas tiverem dentro de si, mais limitado o governo delas pode ser. Quanto mais austeras as próprias pessoas forem, mais terão para dar ao próximo, reduzindo a necessidade de assistência do governo. É assim que a austeridade no governo requer uma cultura de austeridade e generosidade.

Em nossa nação hoje em dia (o autor refere-se aos EUA), ambos são largamente necessários. Temos um problema com o débito que apenas se torna maior a cada dia, e uma parcela significativa disto é devido a termos realizado promessas às gerações futuras que não podemos realisticamente manter se nossas atitudes e práticas em relação a dívidas e déficits não mudarem. Estamos, ao mesmo tempo, prometendo às nossas crianças todo tipo de direitos, muitos dos quais louváveis e que valeriam preservar, mas os quais, postos todos ao mesmo tempo, são economicamente insustentáveis em nosso atual estado. Se quisermos que nosso governo torne-se mais austero em prol da responsabilidade fiscal - e devemos querer isso - então também temos que encorajar uma cultura mais ascética, na qual a austeridade é realizada por generosidade e amor, ou seja, o verdadeiro asceticismo. O asceticismo deve ser visto como um modo de vida, que mantém a sociedade coesa, e por meio do qual somos verdadeiramente livres. De outra forma, seremos prisioneiros de nossas paixões que "forjam nossos grilhões", e precisaremos apenas olhar no espelho para sabermos a quem devemos culpar.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Meus Dois Centavos Sobre o Capitalismo



Caro leitor,

abaixo você encontrará a tradução que fiz da transcrição de um dos programas de podcast do Prof. Dr. de Filosofia Clark Carlton. O professor Carlton dá aulas de história da filosofia, lógica e filosofia da religião na Tennessee Tech University. Você pode escutar os podcasts dele, em inglês, neste endereço:


Transcrição

Venham e pedi-me a prestação de contas, diz o Senhor. Embora vossos pecados sejam escarlates, eles serão brancos como a neve; embora sejam vermelhos carmim, serão como a lã. Se fordes obedientes e o quiserdes, comereis o fruto da terra.

Olá, e bem-vindos mais uma vez ao “Fé e Filosofia”. O assunto de hoje é “Meus Dois Centavos sobre o Capitalismo”. Irei retornar ao tópico da linguagem teológica nos podcasts futuros, e quando o fizer, quero dar um foco especial nas Escrituras e como devemos lê-las.

Mas hoje, quero fazer um pequeno desvio. Eu tenho me colocado em dia com vários dos últimos podcasts aqui na Ancient Faith Radio. E fiquei intrigado com uma série deles sobre o capitalismo. Sendo assim, enquanto o assunto ainda está fresco na minha cabeça, eu quero contribuir com meus dois centavos.
O que se segue não busca ser uma refutação do que quer que tenha sido dito por alguém aqui. Ao invés, meus comentários têm o objetivo de clarificar os termos e questões que têm sido levantados. A única crítica que tenho sobre as discussões anteriores é que houve uma falta de contexto histórico. Tentar definir os termos abstratamente, sem referência a seus desenvolvimentos históricos, irá inevitavelmente levar a distorções.

Basicamente, quero detonar com dois mitos que cercam o capitalismo, e daí meus dois centavos. O primeiro mito é que o capitalismo depende da propriedade privada e do livre-mercado. O segundo é que o progressismo e o socialismo são alternativas reais ao capitalismo.

Vamos começar com o primeiro mito, e isso com certeza vai levantar algumas sobrancelhas. Historicamente, o capitalismo tem se provado um inimigo da propriedade privada, não seu defensor. É, é, eu sei. Todos nós já ouvimos quem defina o capitalismo como posse privada de propriedade, em contraste com o socialismo que seria a posse pública do capital.

Mas esta definição é enganadora e pouco útil. As pessoas já possuíam propriedade privada por milênios antes do surgimento do capitalismo. Os romanos reconheciam a posse privada, assim como os gregos e os judeus. A propriedade privada não é uma invenção moderna. De fato, o republicanismo clássico dependia da posse privada da propriedade e, portanto, nas virtudes da classe de cidadãos proprietários.

Karl Marx recebeu bem e elogiou o capitalismo. Aposto como você não ouviu isso nas escolas públicas. Você diz, “Marx queria eliminar a propriedade privada”. E queria mesmo. Mas ele via o capitalismo como um estágio necessário no desenvolvimento sócio-econômico da humanidade – um desenvolvimento que, segundo ele acreditava, levaria inexoravelmente a uma utopia comunista.

Dito de outra forma, o capitalismo é essencial para a concentração da propriedade nas mãos de alguns poucos. Isto alcança duas coisas dentro da perspectiva comunista: acentua as desigualdades socioeconômicas até o ponto no qual o proletariado irá se erguer em revolução, e deixa a transição para o comunismo mais fácil porque apenas uns poucos são donos da propriedade.

Além disso, o capitalismo prospera apenas em mercados controlados, não em livre-mercados. Algumas das discussões nos podcasts focavam no capitalismo laissez-faire. Vamos deixar uma coisa clara. Tal coisa não existe. Nunca existiu. Nunca existirá. Capitalismo laissez-faire é uma fantasia libertária, e os libertários têm sido descritos, corretamente, como os utópicos da direita.

O capitalismo, da forma que se desenvolveu historicamente, não está fundamentado nas trocas do livre-mercado, mas na manipulação do mercado pelos governos para o benefício dos capitalistas – ou, pelo menos, de alguns capitalistas.

Primeiro de tudo, o capitalismo só pode existir onde a economia tenha sido monetarizada. Seria impossível em uma economia de escambo. Uma economia monetarizada, por sua vez, necessita de um sistema monetário de algum tipo, o que vai exigir um sistema bancário e, tão importante quanto, algum tipo de base governamental ou política para o dinheiro.

Desde o início, os capitalistas dependeram dos governos para beneficiá-los através de tributações monetárias e políticas comerciais. O capitalismo e o mercantilismo andam de mãos dadas. Os industriais do século XIX não ficaram podres de ricos pela manipulação do livre-mercado. Eles ficaram ricos graças a políticas monetárias federais, políticas tributárias, gastos públicos em coisas como linhas férreas, e altas tarifas que os protegiam da livre competição.

Francamente, é impossível ficar rico como os Vanderbilts ou os Rockfellers, ou mesmos os Bill Gates e Warren Buffets da vida, sem uma manipulação governamental gigantesca dos mercados – especialmente através de políticas monetárias e políticas de taxas. Algumas pessoas se tornam ricas com essas manipulações. Outras ficam pobres. Não tem nada a ver com a sobrevivência do mais adaptado, mas com quem você conhece ou quão bem você pode manipular o sistema a seu favor.

O que me traz ao segundo mito, que diz que o progressismo e o socialismo oferecem alternativas genuínas ao capitalismo. Se o capitalismo tratasse de propriedade privada e livre-mercados, então estas coisas seriam alternativas. Mas o capitalismo na verdade promove a concentração de riqueza e a socialização dos riscos da economia, enquanto o socialismo não passa de um lado diferente do mesmo sistema econômico corrupto.
Eu costumo dizer que os evangélicos constituem o grupo mais burro de eleitores nos EUA, porque você quase sempre pode contar que eles irão votar contra seus próprio interesses – basta que um político diga algo legal sobre Jesus e finja se opor ao aborto. Depois dos evangélicos, entretanto, eu colocaria os auto-proclamados progressistas, que realmente acreditam que apoiando coisas como regulamentação governamental e serviço universal de saúde, estão enfrentando a elite em nome dos pequenos e frágeis. Total e completo esterco de cavalo.

Vou dar um exemplo. Este ano o congresso americano concedeu ao FDA a competência de regular o tabaco – uma grande vitória para os consumidores e defensores da saúde contra as grandes e malvadas corporações, certo? Na verdade não. O que mudou o rumo das coisas foi que as grandes empresas deixaram de se opor à lei. Eles descobriram que as novas regulamentações iriam lhes dar uma vantagem competitiva contras as empresas de tabaco menores, já que as incontornáveis regulamentações da FDA seriam mais custosas para os pequenos produtores.

De fato, na maioria dos casos, a regulamentação governamental tende a beneficiar as grandes corporações e colocar grandes fardos nas pequenas empresas. Tudo isso pode ser percebido se estudarmos a história dos EUA. Ao contrário do que diz a mitologia do livro escolar, os primeiros colonizadores não eram minorias religiosas buscando a liberdade.

Tanto a Massachusetts Bay Company quanto a Virginia Company eram corporações visando lucros com acionistas na Inglaterra, e que estavam esperando uma admirável compensação por seus investimentos. Desde o início, entretanto, houve tensões entre os colonos e seus senhores corporativos. O que a maior parte das pessoas não se dá conta é que uma boa parte da legislação parlamentar, contra a qual os colonos reclamavam tanto, fora passada sob as ordens e para o benefício da Compania das Índias Orientais.
No fim do século XVIII, a Compania havia se tornado tão rica e poderosa – ela chegou a possuir exército e marinha próprios – que na prática o Parlamento e a Coroa estavam comprados e no seu bolso. Assim, quando os colonos reclamavam contra a tirania, era na verdade a tirania corporativa, embora manifesta através dos atos de um parlamento marionete.

Quando os colonos alcançaram a independência, dois caminhos distintos estavam à sua frente. Jefferson queria uma ruptura completa com o velho sistema mercantilista, capitalista. Ele imaginava uma república de repúblicas menores, baseada em uma vasta rede de propriedades privadas agrárias e pequenos negócios. Ele alertava contra as temíveis conseqüências se acionistas e banqueiros chegassem a ter a predominância. Ele acreditava que para os direitos de propriedade e a liberdade serem preservados, o poder político devia ser o mais descentralizado possível.

Do outro lado do debate estava Alexander Hamilton. Ele queria reproduzir o mercantilismo inglês deste lado do Atlântico e derrotar os ingleses em seu próprio jogo. Ele imaginava os Estados Unidos como um furacão militar e econômico. Para se alcançar tal coisa, entretanto, tanto o poder político quanto o capital financeiro teriam que ser concentrados.

Pela primeira metade do século XIX, os jeffersonianos contiveram os hamiltonianos. Mas em 1860, tudo mudou. A eleição de Abraham Lincoln colocou os EUA solidamente no caminho de se tornar um império mercantilista, e temos pago o preço disso desde então.

Vou detonar um outro mito agora. O Partido Republicano não é, nem nunca foi um partido conservador. Ele foi fundado em 1850 por uma coalizão de elites corporativas e progressistas sociais, e continua assim até hoje. O programa republicano de um banco nacional, melhorias internas financiadas publicamente, e tarifas altamente protetoras criaram não apenas riqueza jamais vista nesse país, mas também criaram uma corrupção como jamais vista – tanto privada quanto governamental.

As reformas progressistas da primeira parte do século XX não foram um repúdio do capitalismo mercantil, mas apenas um realinhamento em posições diferentes. A regulamentação governamental se tornou o preço da larga generosidade do governo. Não nos esqueçamos que o republicano Teddy Roosevelt se tornou um dos fundadores do Partido Progressista.

Até 1931, o Partido Democrático ainda era o mais conservador dos dois partidos, mas isso mudou com a eleição de Franklin D. Roosevelt, cuja família, não esqueçamos, havia sido republicana. Reparem no programa democrata de 1932. É praticamente o oposto especular do que Roosevelt de fato executou no posto. A eleição de 1932 foi uma das grandes farças de todos os tempos.

Tudo isto explica, aliás, porque as políticas de Obama pouco diferem das de George Bush. Obama apoiou os planos de subsídios antes de ser eleito e seu governo deu continuidade às mesma políticas desastrosas de subsidiar bancos e desvalorizar os dólares nas contas bancárias de pessoas que realmente tem que trabalhar para viver. Nada mudou.

Para voltar à pergunta feita nos outros podcasts, seria o capitalismo compatível com o Cristianismo Ortodoxo? Bem, a resposta é não. Mas o progressismo não oferece uma alternativa real. O capitalismo é um sistema econômico modernista e o progressismo é um paleativo modernista – não uma alternativa.
A única alternativa real ao capitalismo é algo na linha do que Jefferson havia planejado, o que é parecido com a visão dos distributivistas católicos, tais como Belloc e Chesterton, e com a terceira via do economista protestante Wilhelm Röpke. O fundamento de um tal sistema é uma vasta rede propriedades privadas e governo descentralizado.

Quero salientar que a palavra grega ekonimia significa administração doméstica. Wall Street não é a economia. A economia é como você provê para si mesmo e para sua família e como você trata seus vizinhos no processo. Entretanto, tem se tornado cada vez mais difícil prover para nós mesmos quando nossas economias são desvalorizadas por políticas governamentais e nossas pequenas fazendas e negócios são regulamentados em cada centímetro para o benefício das grandes corporações.

Gostaria de concluir com alguns comentários concernentes ao protestante Wilhelm Röpke. Estes comentários foram feitos por Ralph Ansel, em um excelente artigo que ele escreveu:

Para um protestante que considerava a situação criada pela Reforma como de uma das grandes calamidades na história, ele devia ter dificuldades em encontrar seu lar religioso tanto no protestantismo contemporâneo, o qual em seu caos e falta de orientação está pior do que jamais esteve, ou no contemporâneo catolicismo pós-reforma. Tudo que ele pode fazer é reunir, em si mesmo, os elementos essências do cristianismo indiviso pré-reforma. E nisto, eu acho que estou na companhia de homens cuja boa-vontade, pelo menos, não é duvidável.

Nós sabemos, naturalmente, que o Cristianismo indiviso não necessita ser, de fato não pode ser, reunido porque ele já existe na Igreja Ortodoxa. Mas esta passagem é um lembrete de que a solução dos dilemas econômicos do homem moderno não estão no modernismo, mas na fé e vida de uma vez por todas entregue aos santos.

Apenas a Ortodoxia é capaz de oferecer não apenas uma crítica da modernidade, mas de apontar-nos soluções reais. Não podemos dar o testemunho da verdade que o mundo precisa, porém, enquanto continuarmos a tentar contemporizar com sistemas econômicos e políticos que, por sua própria natureza, minam a fé que temos e a vida que buscamos levar.

E finalmente, que nosso Deus e Salvador, Jesus Cristo, através das interseções de Sto. Inocêncio do Alasca e do Abençoado Ancião Sofrônio Sakharov, tenha piedade de nós e nos conceda uma rica entrada em Seu Reino eterno.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Jesus e as Riquezas Mundanas

Jesus e as Riquezas Mundanas

A relação do Cristianismo com as riquezas mundanas gera diversas polêmicas históricas, políticas e sociológicas. Gostaria porém de fazer alguns comentários exegéticos e teológicos sobre o assunto. Creio que essa questão se encontra muito bem definida no evento em que o jovem rico encontra Jesus (Mc 10, 17:31; Mt 19, 16:30; Lc 18, 18:30). Para quem não lembra, eis o trecho segundo São Lucas:

São Lucas 18

18 E perguntou-lhe um certo príncipe, dizendo: Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?

19 Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom, senão um, que é Deus.

20 Sabes os mandamentos: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra a teu pai e a tua mãe.

21 E disse ele: Todas essas coisas tenho observado desde a minha mocidade.

22 E quando Jesus ouviu isto, disse-lhe: Ainda te falta uma coisa; vende tudo quanto tens, reparte-o pelos pobres, e terás um tesouro no céu; vem, e segue-me.

23 Mas, ouvindo ele isto, ficou muito triste, porque era muito rico.

24 E, vendo Jesus que ele ficara muito triste, disse: Quão
dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!

25 Porque é mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.

26 E os que ouviram isto disseram: Logo quem pode salvar-se?

27 Mas ele respondeu: As coisas que são impossíveis aos homens são possíveis a Deus.

28 E disse Pedro: Eis que nós deixamos tudo e te seguimos.

29 E ele lhes disse: Na verdade vos digo que ninguém há, que tenha deixado casa, ou pais, ou irmãos, ou mulher, ou filhos, pelo reino de Deus,

30 Que não haja de receber muito mais neste mundo, e na idade vindoura a vida eterna.

As riquezas, em si, não levam nem à salvação, nem à perdição. São neutras. Um homem pode inclusive ser chamado Justo mesmo sendo rico. A natureza humana, porém, é tal que é difícil para nós mantermo-nos longe das tentações uma vez que tenhamos os meios para obtê-las, seja através do poder financeiro ou político, e por isso Jesus nos alerta para os perigos inerentes a esse caminho, sem com isso reprovar taxativamente os que porventura o trilhem como veremos a seguir.

A leitura mais estimulante, parece-me, é esta que vemos em São Lucas pois logo depois daquele encontro com o mau rico, São Lucas nos apresenta um encontro de Jesus com São Zaqueu, um bom rico (veja o ícone ortodoxo em http://www.thehtm.org/images/a-312.jpg ):
São Lucas 19

1 E, tendo Jesus entrado em Jericó, ia passando.

2 E eis que havia ali um homem chamado Zaqueu; e era este um chefe dos publicanos, e era rico.

3 E procurava ver quem era Jesus, e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura.

4 E, correndo adiante, subiu a um sicômoro para o ver; porque havia de passar por ali.

5 E quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, viu-o e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa.

6 E, apressando-se, desceu, e recebeu-o alegremente.

7 E, vendo todos isto, murmuravam, dizendo que entrara para ser hóspede de um homem pecador.

8 E, levantando-se Zaqueu, disse ao Senhor: Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado.

9 E disse-lhe Jesus: Hoje veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão.

10 Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido.

Enquanto o “príncipe” hesita em ser fonte de benesses, São Zaqueu utiliza sua riqueza para auxiliar o próximo sem deixar de desfrutá-la. Fica bem claro que se despojar das riquezas é algo bem mais profundo do que simplesmente doar tudo materialmente. Já dizia S. João Crisóstomo que o pobre que vive ardendo de desejo pela riqueza peca mais gravemente do que muitos ricos. Daí que certas ideologias que vivem de cultivar a inveja da riqueza serem tão tipicamente anti-
cristãs apesar de se apresentarem com pretensões de motivações bondosas.

É apenas com tal entendimento que vamos compreender o Sermão do Monte: Bem-aventurados os *pobres de coração* porque *deles* é o Reino dos Céus. Muitos pobres materiais não são pobres de coração. Vivem desejando a queda da classe dos ricos, sonhando com a ruína alheia e com a fortuna por ela mesma, com o fracasso do vizinho melhor de vida, seja uma pessoa ou um país, do parente afortunado, enfim de todos que estão melhor financeiramente que eles, consumidos por inveja, ganância e ressentimento. Igualmente, alguns po ucos ricos não poderiam fazer menor caso da fortuna que têm em mãos.

Não importa, para nossa salvação espiritual, se temos dinheiro nas mãos ou não. Importa se ele está em nosso coração ou não. O dinheiro *nunca* deve estar em nosso coração, pois este é templo sagrado de Deus. Infelizmente parece que nosso povo é mais “dinheirista” do que cristão. Choca-se mais com crimes de roubo de dinheiro na política do que com milhares de assassinados todos os anos. Ter dinheiro no coração não é simplesmente desejar o dinheiro ardentemente mas achar que o dinheiro vai solucionar tudo, que bastará dar ou ter dinheiro para que os problemas desapareçam. O dinheiro não tem esse poder. Ter dinheiro no coração é também se indignar com roubos e corrupções e ficar indiferente aos atentados contra a vida. Não por outro motivo no capítulo 11 de São Marcos, logo depois do encontro com o mau rico, temos o episódio da expulsão dos vendedores do Templo. Jesus faz externamente aquilo que devemos fazer internamente, isto é, expulsar do templo de Deus em nossas almas o dinheiro, pois Deus se deu a nós de graça para que existindo em nós possamos ofertá-Lo a Ele mesmo, como é dito durante a Anamnese (Rememoração) na Divina Liturgia ortodoxa: “O que é Teu, recebendo-o de Ti, nós Te oferecemos em tudo e por tudo“. Nada temos a ofertar, nem ao próprio Deus, que não tenha sido dado por Ele mesmo anteriormente. Dele provém toda virtude, bondade, graça e alegria.

Aquele que não tem riquezas materiais no coração é que é o “pobre de coração”, mesmo que seja “rico de bolso”. E é importante que mantenhamos isso na cabeça para não cultivarmos determinadas neuras de que se tivermos uma boa condição financeira então estaremos condenados ao inferno, pensamento pernicioso que é talvez responsável por boa parte das mazelas do Brasil em um tipo de auto-sabotagem subconsciente. De fato, no Brasil pensamos que o dinheiro é algo sujo e se vemos alguém rico logo ficamos pensando que “sujeiras” ele deve ter cometido para chegar a tal estado. Isto se dá porque subconscientemente, achamos a riqueza mundana algo sujo e que só pode ser obtida pela sujeira. E assim, apenas os desonestos se interessam por ela e desfrutam o poder de influenciar a sociedade que ela proporciona. Se os bons e os justos brasileiros tirarem essa imagem da riqueza da cabeça poderão eles mesmos obtê-la, permanecendo pobres de coração, e ser a fonte de boa influência nas altas rodas. Já é um ditado popular, e bastante sábio, a sentença que diz que a culpa do mal no mundo não da ação dos maus, mas da omissão dos bons.

Tanto a obtenção da riqueza é algo neutro em si que uma das parábolas mais marcantes de Jesus traz uma imagem praticamente capitalista. E está ligada também ao ciclo “Mau rico-Bom rico” para nos mostrar a dinâmica da relação do homem com a riqueza mundana. Vejamos o trecho, ainda em São Lucas 18, seguindo logo o que foi mencionado por último:

11 E, ouvindo eles estas coisas, ele prosseguiu, e contou uma parábola; porquanto estava perto de Jerusalém, e cuidavam que logo se havia de manifestar o reino de Deus.

12 Disse pois: Certo homem nobre partiu para uma terra remota, a fim de tomar para si um reino e voltar depois.

13 E, chamando dez servos seus, deu-lhes dez moedas, e disse-lhes: Negociai até que eu venha.

14 Mas os seus concidadãos odiavam-no, e mandaram após ele embaixadores, dizendo: Não queremos que este reine sobre nós.

15 E aconteceu que, voltando ele, depois de ter tomado o reino, disse que lhe chamassem aqueles servos, a quem tinha dado o dinheiro, para saber o que cada um tinha ganhado, negociando.

16 E veio o primeiro, dizendo: Senhor, a tua moeda rendeu dez moedas.

17 E ele lhe disse: Bem está, servo bom, porque no mínimo foste fiel, sobre dez cidades terás autoridade.

18 E veio o segundo, dizendo: Senhor, a tua moeda rendeu cinco moedas.

19 E a este disse também: Sê tu também sobre cinco cidades.

20 E veio outro, dizendo: Senhor, aqui está a tua moeda, que guardei num lenço;

21 Porque tive medo de ti, que és homem rigoroso, que tomas o que não puseste, e colhes o que não semeaste.

22 Porém, ele lhe disse: Mau servo, pela tua boca te julgarei. Sabias que eu sou homem rigoroso, que tomo o que não pus, e colho o que não semeei;

23 Por que não puseste, pois, o meu dinheiro no banco, para que eu, vindo, o exigisse com os juros?

24 E disse aos que estavam com ele: Tirai-lhe a moeda, e dai-a ao que tem dez moedas.

25 (E disseram-lhe eles: Senhor, ele tem dez moedas.)

26 Pois eu vos digo que a qualquer que tiver ser-lhe-á dado, mas ao que não tiver, até o que tem lhe será tirado.

Esta passagem se refere a todas as graças de Deus de forma geral. Quer dizer que Deus nos confere dons que devemos utilizar e desenvolver e que aquele que não desenvolve acabará perdendo o dom. Não é possível porém, deixar de considerar a imagem quase capitalista e “especuladora” que Jesus utilizou nessa passagem para dar o ensinamento.

Houve por bastante tempo uma discussão sobre se o casamento seria algo bom. Isso se devia a heresias que pregavam que apenas o ser humano celibatário vivia de acordo com a vontade de Deus. Aqueles que defendiam o casamento apontavam que a união do homem e da mulher
é usada diversas vezes nas Santas Escrituras como imagem da união de Deus com a Igreja. Destacavam, a partir daí, que não poderia ser utilizado algo ruim como imagem de algo bom. Pode-se também dizer que se o lucro, o investimento capitalista e mesmo a especulação financeira fossem algo mal em neles mesmos, Deus não os utilizaria como imagem de algo tão bom e maravilhoso como a ação de Sua Graça sobre a humanidade.

O homem das dez moedas, assim como o das cinco moedas, eram pobres de coração e por isso herdaram as cidades, símbolos do Reino; enquanto o que não investiu e não multiplicou sua riqueza era o que era de fato “rico de coração” apesar de ter permanecido “pobre de bolso”.
Sua moeda foi dada ao mais sábio que por sua vez saberia transformar aquele pequeno investimento inicial em dons. Seja a graça de Deus a inteligência, o dom da palavra, o dom da oração, do entendimento ou mesmo a riqueza mundana, temos o dever santo e sagrado de multiplicá-lo e compartilhá-lo com os nossos próximos.

No desenho animado “José: Rei dos Sonhos”, que conta a história deste personagem do Antigo Testamento*, tem uma música “à la Disney”** cujo refrão resume bem o espírito dessa mensagem:

“Você tem que dar um pouco mais do que recebeu, tem que deixar um pouco mais do que estava aqui. É a própria medida da sua alma que está em jogo. Você tem que dar um pouco mais do que recebeu”.

Tal é a mensagem da parábola do Mau Investidor, que é tambem o Mau Pobre e a imagem que se deve seguir, personificada em São Zaqueu e no Patriarca José, que representam o Bom Rico, para que se dê bom uso à riqueza, de modo que na fortuna ou na miséria, mantenhamos sempre Deus, e unicamente Ele, no templo de nosso coração. Viver desejando sempre a Deus e o bem do próximo e não a riqueza, qualquer que seja nossa condição material.

Abraços, que Jesus Cristo na Santíssima Trindade e sua Santa Mãe nos abençõe! Peçamos pelas orações de São Zaqueu e do Patriarca José, para nos iluminar nesse tópico.
Fabio Lins

* Vejam ícones ortodoxos do Patriarca José:
http://www.comeandseeicons.com/j/inp109.jpg e
http://www.thehtm.org/images/a-77.jpg

** Vejam o clipe em: http://youtube.com/watch?v=6WDXCEmpuYI