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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Uma sociedade moralmente sedentária

Macunaíma


Adaptação do artigo "Uma sociedade moralmente sedentária" de Percival Puggina


Li “O homem medíocre” pela primeira vez em 1999. O autor, José Ingenieros, tratava, ali, da diferença entre a mera honestidade e a virtude, bem como da falsa honestidade daqueles que a exibem como troféu.

“Em todos os tempos, a ditadura dos medíocres é inimiga do homem virtuoso. Prefere o honesto e o exibe como exemplo. Mas há nisso um erro ou mentira que cabe apontar. Honestidade não é virtude, ainda que não seja vício. A virtude se eleva sobre a moral corrente, implica uma certa aristocracia do coração, própria do talento moral. O virtuoso se empenha em busca da perfeição.”

Com efeito, não fazer o mal é bem menos do que fazer todo o bem que se possa. Ser e proclamar-se honesto para consumo externo é moldar-se às expectativas da massa e isso fica muito aquém da verdadeira virtude. 

“Não há diferença entre o covarde que modera suas ações por medo do castigo e o cobiçoso que age em busca da recompensa“, 

afirma o filósofo portenho enquanto sentencia sobre o homem medíocre:

“Ele teme a opinião pública porque ela é a medida de todas as coisas, senhora de seus atos“.

É preciso distinguir, portanto, a virtude que se alcança por adesão voluntária a um determinado bem, da virtude intrínseca a modelos institucionais que inibem a conduta não virtuosa. A fidelidade será, sempre, um produto da vontade humana. O pérfido só renunciará a perfídia quando ela se mostrar inconveniente. O venal pode trocar de camiseta, mas só não terá preço se não houver negócio a ser feito.

A corrupção tem causas em duas fragilidades, a da moralidade individual e a institucional. No plano das individualidades, só teremos pessoas virtuosas em maior número quando forem enfrentadas certas questões mais amplas, na ordem social. Ou seja, quando:

• a virtude for socialmente reconhecida como um bem a ser buscado;

• escolas e universidades retomarem o espírito que lhes deu origem e levarem a sério sua missão de formação e informação e não cooptação;

• famílias e meios de comunicação compreenderem a relação existente entre o desvario das condutas instalado na vida pública e o estrago que vêm produzindo na formação da consciência moral e na vida privada dos indivíduos;

• o Estado deixar de ser fonte de privilégios;

• for vedada a filiação partidária dos servidores públicos;

• forem extintos os Cargos de Confiança na administração direta, indireta e Estatais;

• a sociedade observar com a atenção devida o método formativo e educacional das corporações militares;

• voltar a ser cultivado o amor à Pátria;

• a noção ideológica de “la pátria grande”, que prega que a "América Latina" é que é a pátria, ao invés dos países, for banida por inspirar alta traição;

• as Igrejas voltarem a reconhecer que sua missão salvadora nada tem a ver com sociedade do bem estar social, mas com sociedade comprometida com os valores que levam ao supremo Bem.

Não há virtude onde não há uma robusta adesão da vontade ao Bem. E isso não acontece por acaso. É uma busca que exige grande empenho.

Por fim, quero lembrar que o relativismo moral veio para acabar com a moral. O novo totalitarismo elegeu como adversário os valores do Ocidente. Multidões, sem o perceber, tornaram-se moralmente sedentárias.

Abandonaram os exercícios que moldam a consciência e fortalecem a vontade. Ao fim e ao cabo, em vez de uma sociedade onde os indivíduos orientam suas vidas segundo os conceitos que têm, constituímos uma sociedade onde os indivíduos conformam seus princípios e seus valores à vida que levam.

domingo, 12 de junho de 2011

Jugo Desigual

por Padre Chris Metropulos
20 de outubro de 2009


Fonte: HELLENIC Communication Service
http://www.helleniccomserve.com/crtlunequallyyoked.html




Parece que todo lugar em que olhamos hoje em dia, tem alguém falando sobre o casamento. No mundo político, o assunto do assim chamado "casamento gay" é cheio de raiva. O New York Times recentemente publicou que pela primeira vez na história dos EUA o número de mulheres solteiras é maior que o número de mulheres casadas: 51%.

Os comerciais de TV e a internet anunciam websites feitos para te ajudar a encontrar um parceiro, e têm lucrado muito. Há artigos sobre solidão, sobre os problemas dos casamentos, e sobre realização pessoal que condicionam uma mentalidade sobre relacionamentos que parece contrária à sabedoria preservada na Igreja.

Então, como devemos interpretar estes "sinais dos tempos"? Eu sugiro que o entendimento atual sobre o que é o casamento e o que os relacionamentos foram feitos para ser é incompleto para dizer o mínimo.

Vivemos em uma época na qual "eu tenho o direito de ser feliz" parece estar no topo das prioridades da cabeça de todos. O casamento é visto como uma forma de realização pessoal e de felicidade. As relações são avaliadas por quão "felizes" elas fazem as pessoas, e quando a pessoa não se sente mais "feliz" então a relação "acabou". "Minha felicidade" é a medida de todas as coisas e quando esta é abalada, então a fuga é a resposta.

Se este é o modo pelo qual a maioria das pessoas trata o casamento e as relações, será alguma surpresa que exista tanto medo de compromisso e um indíce tão alto de divórcio?

A Igreja nos oferece uma visão radicalmente diferente do casamento e das relações. A Fé nos diz que o casamento não é sobre felicidade pessoal, mas sobre salvação pessoal. As relações nos são dadas, não com fins utilitários de fazer-nos felizes, ou de fazermos crianças, ou mesmo para o sucesso econômico. Eles nos são dadas para nos ajudarem a sermos como Cristo em nossas atitudes e comportamento. As relações foram feitas por Deus para servir como caminhos que nos chamam a sermos cristãos.

Não surpreende que o Apóstolo Paulo tenha insistido que "Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas?" (2 Coríntios 6:14). Com esta atitude cristã sobre o casamento e as relações, você não escolhe alguém para casar baseando-se na aparência, no dinheiro, ou mesmo na atração física. Você escolhe primariamente baseado em como aquela pessoa pode te ajudar a ser o melhor cristão que você pode ser. Sem isso como o critério primário para seu parceiro pela vida toda, você só vai alimentar a noção de relações descartáveis.

Aqui estão três modos de evitar o 'jugo desigual" e realizar uma escolha sábia para casar-se.

Primeiro - Escolha baseado na Fé. Ninguém deve ter medo de encontrar um parceiro que ame a Deus mais do que o/a esposo/a. A verdade é que um esposo que é comprometido com Cristo e Sua Igreja é uma escolha melhor do que alguém morno na fé. Um cristão ortodoxo comprometido irá levar a sério os mandamentos do Salvador de amar e servir e de fazer o casamento o mais forte possível.

Segundo - Escolha baseado em camaradagem. Um esposo é mais do que um parceiro econômico ou mesmo uma fonte de prazer sexual. Seu esposo é seu companheiro de vida. Isto significa que esta pessoa precisa ser alguém com quem você pode passar durante tempos difíceis. É alguém que vai te ajudar nas horas difíceis e se alegrar contigo nas horas felizes.

Finalmente, escolha baseado na família. Qual é a atitude do seu potencial esposo em relação à família? É a mesma que a sua? Vocês serão pais comprometidos e criar seus filhos em um lar cristão ortodoxo? As respostas a tais questões são fundamentais para que qualquer casamento seja o que ele foi feito para ser.

O maravilhoso paradoxo disso tudo é que quando você procura primeiro o Reino de Deus e coloca a sua fé como a prioridade maior da sua vida, felicidade e alegria te encontram por si sós. Você não estará o tempo todo lutando para ser feliz ou, pior ainda, dependendo de outros para te fazerem feliz. Você vai descobrir que focar a sua vida em Cristo traz todas as outras coisas que você esperava e que você será capaz de recebê-las como presentes ao invés de como um "direito" de uma vida auto-centrada e amesquinhadora da alma.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Morar Junto Sem Casar Causa Depressão



Vocês querem ser modernos e práticos, deixam todo aquele papo de altar, convites com frufru e bolo de vários andares pra lá, juntam as trouxinhas e vão morar juntos. Pronto: na prática,estão casados. Mas, também na prática, têm chances bem maiores de acabarem de cara feia e sem vontade de sair da cama (pelos motivos errados) do que os casais de papel passado. “Casais que apenas moram juntos reportam níveis mais altos de depressão do que os que são casados”, alertam pesquisadores da Bowling Green State University, em Ohio (EUA). O motivo? Aquele sentimento de falta de estabilidade no relacionamento, que atinge os “juntados” 25% mais do que os casados pela lei. “E isso é especialmente verdade entre os casais que estão juntos há muito tempo”, diz o estudo. E aí, quer repensar essa modernidade toda?
http://super.abril.com.br/blogs/cienciamaluca/morar-junto-sem-casar-causa-depressao/

domingo, 28 de novembro de 2010

O que é a Igreja?



A Igreja é uma mera comunidade? Um produto ou elemento da cultura de cada país ou de cada época? Ela é algo que nos afeta apenas socialmente ou apenas no "coração"?  Eu acho que não. Eu acho que existe algo radicalmente físico ali. Se Jesus viesse para montar um novo grupo de pessoas de bom coração, eu não precisaria da igreja. Ninguém precisa da aprovação de um grupo para praticar o bem. Aliás, o mais comum é que tenhamos que praticar o bem enfrentando a oposição do grupo. Se ela fosse um elemento de uma cultura, a palavra conversão não teria o menor sentido, fosse para que lado fosse, porque você não deixa de ter a cultura na qual cresceu.  Se fosse um livro infalível, qual interpretação, dentre as infinitas possíveis, seria também infalível? Aliás, porque Deus todo-poderoso se daria o trabalho de vir na terra e morrer por nós, se fosse para, no fim das contas, depender de um bispo ou de um livro infalíveis?

 Algo radical aconteceu no nascimento, morte e ressurreição de Deus na Terra. Algo radicalmente físico, encarnado. Ou todo o processo seria desprovido de sentido. A Igreja é necessariamente física, dependente de uma continuidade física com aquilo que aconteceu há 2000 anos. É uma mudança em nosso espírito sim, mas em nosso corpo também. Transmitida pela Graça do Espírito através de inúmeros meios, mas una e diversa, visível e invisível, encarnada e espiritual, emotiva e racional, humilde e gloriosa, simples e esplendorosa.

O que é uma vida cristã ortodoxa? Não é apenas ser moral. Você pode ser moral e ético sem ser cristão ou sem ser ortodoxo. Não é simplesmente "ir na igreja". Isso você pode fazer em qualquer religião. Não é simplesmente compreender que a dor faz parte da vida, e que cada um tem sua cruz. Isso outras igrejas podem te ensinar também. Não é simplesmente crer que nela você faz parte do corpo de Cristo ou que está em comunhão com Cristo. Você não precisa de igreja para crer nisso. Viver ortodoxamente é viver, além de buscando realizar tudo isso, ser uma pessoa direita, de oração, de contrição, perdão e amor, além do esmerilhamento pessoal, além da recepção da Graça, da mudança de vida, ser espiritual e fisicamente alterado, estar em sintonia com Deus sim, mas de um modo único, do modo pelo qual Ele veio a Terra para tornar possível. É compreender que tudo se transfigura a partir da Encarnação, Morte e Ressurreição de Cristo. Nós, o Pão e o Vinho, a água, tudo. O Reino de Deus não é um objetivo futuro, é também, porém não apenas, um estado de espírito, mas a matéria glorificada também. E tudo isso acontece, aqui, agora, desde a Eternidade.

sábado, 13 de novembro de 2010

A Importância da Doutrina Correta

Amigos,

o texto abaixo é a tradução de um podcast realizado por um padre ortodoxo americano. Para os que não conhecem, podcasts são como programas de rádio só que transmitidos pela internet. Este padre realizou toda uma série de podcasts comparando a fé ortodoxa com as demais fés religiosas e este texto faz parte da introdução. Abaixo encontrarão também o link para a série original, sendo que ela é em inglês.

Espero que aproveitem!

A Importância da Doutrina Correta

Padre Andrew Stephen Damick
Tradução: Fabio L. Leite

http://ancientfaith.com/podcasts/orthodoxyheterodoxy

Na maior parte das áreas de nossas vidas, nos preocupamos com a verdade. Um caixa tem que saber quanto de troco terá que dar. Uma enfermeira tem que aplicar a quantidade correta do medicamento no paciente. Um matemático checa e confere suas provas. Um júri escuta todos os fatos para encontrar a verdade em um julgamento. O professor de história tem que conhecer os nomes e datas corretos.O cientista publica seu trabalho para ser conferido por seus pares, de modo a garantir que todos estejam obtendo os mesmos resultados. Em todos estes casos e mais, o que importa não é a opinião, é a verdade.

Mesmo assim, parece que quando chegamos nas questões religiosas e espirituais, e nas questões morais que as acompanham, aí nos tornarmos relativistas. Ao invés de perguntarmos o que Deus realmente é, perguntamos, "O que é Deus para mim?" Ao invés de perguntarmos qual o significado de Deus ter se tornado homem, nós sugerimos que "tá bom se algumas pessoas acreditarem porque elas querem". Ao invés de perguntarmos se Deus espera algo de nós, nós jugamos as expectativas religiosas pelo que nós mesmos queremos. A busca da objetividade é atirada pela janela, e a subjetividade reina.

Este problema fundamental é piorado por causa da falta de familiaridade com as ferramentas do conhecimento espiritual; isto é, as pessoas não estão fazendo o que é necessário para ver a verdade. Se um astrônomo recusa-se a utilizar um telescópio, ou se um biólogo não quisesse utilizar um microscópio, nos diríamos que eles, na melhor das hipóteses, possuem um conhecimento incompleto de seus campos. De um ponto de vista cristão, o que está faltando é pureza de coração; como Jesus disse: "Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus".Também está faltando a orientação para alcançarmos esta pureza, que deveria vir daqueles que viram Deus e passam a experiência à frente para a próxima geração.

Platão definiu o mesmo problema quando escreveu A República e utilizou a famosa alegoria da caverna. Nesta alegoria, prisioneiros acorrentados em uma caverna por todas as suas vidas acreditam que toda a realidade é definida pelas sombras que vêem na parede. Se um dos prisioneiros escapasse, encontrasse a saída e visse o sol e toda a realidade como ela é, como ele poderia descrever a sua experiência para pessoas cuja realidade consiste de sombras? Quando ele retornasse à caverna, tentando reajustar-se à vida na escuridão, os que ali permaneceram provavelmente iriam ridicularizá-lo como tendo enlouquecido pela sua experiência ao invés de iluminado. Tal é o fardo de muitos fiéis hoje.

Eu sugiro que a grande batalha espiritual de nossa época não é entre crentes e ateístas; ao invés, é uma luta entre o orgulho e a humildade. Esperamos e exigimos humildade em quase todas as áreas da vida: o que importa é o que é objetivamente verdadeiro, não o que cada um de nós por acaso acha que é verdade. Não são nossos gostos que são importantes. Mas quando se trata das questões mais importantes, deixamos a humildade de lado e nos colocamos no centro do universo. Esta tentação do orgulho é comum, mesmo entre os crentes em Deus.

Uma das pressuposições básicas desta série de podcasts é que a verdade não é relativa, e que o Cristianismo Ortodoxo representa a plenitude da verdade - o locus da revelação de Deus em Cristo. Desta posição básica, analisaremos vários grupos religiosos e seus ensinamentos, vendo o que temos em comum e o que temos de diferente. Porque a verdade não é relativa, todos os seres humanos devem estar dispostos a colocar de lado o que preferiríamos que fosse verdade e aceitar o que realmente é verdadeiro, mudando a nós mesmos, nossas atitudes, e nossas crenças sempre que necessário.

Se tornou politicamente incorreto em nosso tempo falar-se como se uma crença em particular fosse verdade e outra falsa. E mesmo assim, eu consigo lembrar bem claramente em minha própria história de vida que vários grupos religiosos em nossa cultura costumavam achar que suas próprias crenças eram verdades e, então, concluir pela lógica que as outras deveriam ser falsas.

Hoje, porém, esta conclusão - e, acima de tudo, expressá-la publicamente, é vista como sendo não caridosa, não amorosa. De fato, em nosso tempo, discordâncias públicas sobre religião são entendidas como ofensivas. Porque vivemos em uma época do politicamente correto, recebemos alguns mandamentos de teologia cultural que dizem:

Todas as religiões são basicamente a mesma coisa;

O que importa é viver uma vida boa;

Todos adoramos o mesmo Deus;

Religião é uma questão privada;

Não imponha suas crenças sobre os outros;

Nenhuma religião está certa em tudo;

Nós vamos descobrir o todo da verdade quando chegarmos no Céu;

Pensamentos como os acima possuem uma idéia comum por trás deles: que as crenças sobre Deus e sobre a natureza da realidade não são muito importantes. Por isso é que não deveriam ser discutidas em público. Por isso é que os detalhes de cada uma delas não seriam tão importantes. Por isso é que não deveríamos tentar converter as pessoas para nossa fé. Não existe esse negócio de "verdade absoluta". Tudo é relativo - exceto, talvez, o fato de que tudo é relativo.

E mesmo assim, para quase tudo na vida - seja na política, na saúde, ou mesmo nas tabelas de pontos de nossos times de futebol - nós exigimos seriedade, detalhe, precisão. Distraída por estas coisas transientes, nossa cultura conseguiu ignorar um silogismo básico:

Se realmente existe um Deus, então quem Ele é e o que Ele pode querer de nós são mais importantes do que tudo no universo.

Como pessoas que acreditam em Deus, nosso negócio não é "ser agradável". Nosso negócio é a verdade. O propósito destes podcasts é examinar as diferenças entre a fé da Igreja Ortodoxa e as fés de outras comunhões cristãs e não-cristãs.

Evidentemente, como um padre ortodoxo, é minha crença que a fé cristã ortodoxa é a única verdadeira. Eu não seria ortodoxo se eu não acreditasse que a Igreja Ortodoxa é a verdade revelada por Deus em seu filho Jesus Cristo. Minha fé é tal que, se eu encontrar uma parte da fé ortodoxa que não faça sentido para mim ou me parecesse incorreta, então sou eu que preciso ser reformado, e não a Igreja.

De fato, esta é a visão de todas as religiões tradicionais, clássicas, ao contrário do estilo consumista moderno de compreensão da fé que é popular em nossa cultura - que cada pessoa é o árbitro final do que é verdadeiro ou falso, que ela pode ficar escolhendo que pedacinhos de cada espiritualidade ou crença ela quer para si, em um tipo de buffet religioso.

A natureza da verdade, entretanto, é ser verdade independente do que qualquer um pensa a respeito. Em face da verdade, não há opiniões. A maioria das pessoas acredita nisso, mas não costumam aplicar isso na questão que mais importa: quem é Deus, e o que Ele quer de mim?

Existe o bem e existe o mal. Existe a verdade e existe a falsidade. Estas pressuposições básicas, fundamentadas em nossa existência do dia-a-dia, deveriam ser a base de todos os nossos pensamentos e ações relacionadas à verdade suprema.

Se você já visitou o site Facebook (Nota do Tradutor: um site como o Orkut, mais utilizado por americanos), você provavelmente sabe que os usuários podem montar seus perfis detalhando com várias pequenas informações sobre quem são e o que fazem. Um dos detalhes que podem ser especificados é rotulado "Visão religiosa". É isso que a maioria das pessoas pensa quando tratam de religião, que é uma questão de "visão", que religião é uma opinião que você tem, algo que você acha. Repare que o Facebook nem mesmo usa o termo "crença".

Para as religiões mais tradicionais, entretanto, a fé não é meramente um conjunto de visões; ao contrário, a fé religiosa é todo um modo de vida, uma forma de viver com propósito que, no seu cerne, possui objetivos que fundamentam tudo no modo como vivemos.

Assim, o Facebook representa uma filosofia secularista, a qual não é tanto uma negação das verdades espirituais, mas divide em compartamentos isolados os elementos da vida, em categorias elegantes nas quais uma nada tem a ver com a outra. Nesta caixa eu guardo minhas visões econômicas. Nesta outra estão minhas opiniões sobre a televisão à cabo. Nesta aqui estão minhas preferências de leituras, e nesta eu mantenho minha religião. Até a palavra religião - que eu não gosto de utilizar em relação à Igreja Ortodoxa - significa algo bem diferente. A palavra latina "religio" significa reconexão. Construir e reconstruir relações.

Aquilo com o qual você está tentando se relacionar varia de uma religião para outra, mas o ponto comum é que existe algo acontecendo de fato. Não é simplesmente algo que você acha ou concorda e não é apenas sobre você: existe um Outro.

Isso é verdade para tudo na vida. Meu irmão é um engenheiro químico. Minha irmã é bióloga. Dá para tentar imaginar o que foi que deu em mim de virar padre. Mas eles sabem que é assim, que não é sobre opinião. Se não acredita neles, pergunte a um médico, um físico ou psicólogo. Pergunte a um pedreiro, a um faxineiro. Eles vão te dizer que o que você acredita e o que você faz fazem diferença. Se você crê ou faz algo diferente, vai obter resultados diferentes.

O que me preocupa é que normalmente não aplicamos este princípio básico ao que mais importa na vida humana. No contexto religioso, esta verdade fundamental significa que religiões diferentes - porque crêem e praticam coisas diferentes - vão chegar a resultados diferentes.

Às vezes, estes resultados diferentes são todos jogados sob o mesmo rótulo de salvação. Mas o que significa ser salvo? Para o hindu que pratica yoga, a salvação significa ser liberado do corpo físico e ser absorvido no esquecimento do universo; para o Budista é a aniquilação da personalidade individual no Nirvana. Eu te garanto que não é isso que a salvação significa para um batista. Mas o que um batista quer dizer com salvação e o que um ortodoxo quer dizer, também não são a mesma coisa. Assim, os membros das diferentes fés possuem diferentes métodos de chegar aonde eles querem chegar.

Além disso, porque existem a verdade e a falsidade, e porque a maioria das religiões tradicionalmente alegam que suas fés são verdadeiras e as outras são pelo menos de alguma forma falsas, isso significa que alguns crentes religiosos estão fundamentalmente errados sobre suas crenças e práticas. Isto significa que eles não irão obter os resultados que pensam que terão.

Na fé cristã ortodoxa, nosso único propósito na vida é nos tornarmos mais como Jesus Cristo. Se vamos para o céu depois de morrermos é apenas um elemento de um quadro muito maior. Este quadro maior é, em útima instância, a Santa Trindade.

A vida do cristão ortodoxo tem um objetivo: união com a Santíssima Trindade - o Pai, o Filho e o Espírito Santo - o Deus Uno que criou todas as coisas. O caminho para esta união é Jesus Cristo, o Deus-Homem, a segunda Pessoa da Santa Trindade. A Salvação é a obtenção da vida eterna.

Em João 17, em sua oração ao Pai antes de Sua crucificação, Jesus define o que isso significa. Ele disse: "E isto é a vida eterna: que eles Te conheçam, o único verdadeiro Deus, e Jesus Cristo, o qual Tu enviastes." Conhecer Deus - isso é o que a vida eterna significa, e não simplesmente viver para sempre.

Ele ora assim depois: "E a glória que Tu me entregastes, Eu entreguei a eles. Para que sejam um, como Nós somos um; Eu neles, e Tu em Mim, para que eles sejam feitos perfeitos em Um, e que o mundo possa saber que Tu Me enviastes, que Tu os amastes como amastes a Mim."

Assim, na fé cristã ortodoxa, ser salvo - ter a vida eterna - significa amar a Deus em Jesus Cristo. Também significa receber de Jesus a glória que Ele recebeu de Seu Pai. Na realidade, a salvação é muito, muito mais do que escapar do inferno quando morrermos. É um conhecimento profundo e íntimo de Deus: Pai, Filho e Espírito Santo.

Neste conhecimento profundo - o qual é experiência mais do que acumulação de fatos - aqueles que estão sendo salvos recebem a própria glória de Deus. Ir para o céu ou para o inferno no momento da morte significa simplesmente que nossa experiência de Deus durante esta vida continua na próxima, embora muito amplificado. Se amamos a Deus e o conhecemos profundamente, nossa experiência será de infinita e intensa felicidade. Se rejeitamos a Deus nesta vida - ou simplesmente O ignoramos - nossa experiência deste amor nos será completamente estranha e sentida como sofrimento. Ele derrama o mesmo amor sobre todos. Alguns querem, outros não.

É por isso que a doutrina correta importa. É por isso que heresias são tão perigosas. Toda a nossa doutrina está orientada para termos um conhecimento íntimo de Deus, porque o tipo do conhecimento que tivermos dele vai determinar nosso destino eterno, nossa existência perpétua na vida que há de vir. Este conhecimento depende da nossa vontade de vivenciar a doutrina correta em nossas vidas diárias.

Vamos supor que espalhassem por aí que sou um homossexua praticante. Não é verdade, mas porque algumas pessoas acreditariam, isso afetaria suas relações comigo. Porque sou um padre, poderia afetar até as relações entre os membros da paróquia. Muitas relações como muitas pessoas seriam quebradas. Algumas pessoas certamente aceitariam e tentariam se aproximar, mas também estas relações seriam baseadas em uma realidade distorcida. Algumas pessoas de fora da paróquia poderiam ouvir esta fofoca e nunca nos visitarem ou considerarem a conversão. Aqueles mais próximos de mim - minha esposa e família - teriam suas vidas grandemente perturbadas se acreditassem nesta mentira. Destruíria a minha vida familiar, o que iria reverberar por nossos parentes, amigos, a unidade da paróquia e assim por diante - tudo por causa de uma crença errada a respeito de quem sou.

Talvez a fofoca não fosse tão séria. Suponhamos que dissessem que eu tenho um problema com bebidas. Os efeitos provavelmente seriam tão sérios quanto, embora não tão escandalosos. De toda forma, todas as relações seriam afetadas, não de acordo com a moral de cada um, isto é, não dependeria de se eles praticaram o bem ou o mal, mas dependeria daquilo que eles acreditavam sobre mim e como reagiram a essa crença.

Agora aumente muito este efeito aplicado à adoração e conhecimento do próprio Deus do universo. Algumas doutrinas falsas sobre Ele, podem causar uma destruição espiritual inimaginável. Outras podem até ter um efeito menor. Mas todas elas, em um grau ou outro, nos afastam da verdade, do puro conhecimento do único e verdadeiro Deus. Isto irá afetar como e se receberemos a glória de Deus, e como iremos experienciá-lO na próxima vida.

Viver uma vida moral de acordo com a lei Deus é realmente fundamental para a nossa vida em Cristo, mas não é suficiente. A religião não é apenas a ética. Devemos conhecer Deus conforme Ele realmente é. É por isso que a doutrina correta importa.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Encíclica Arquiepiscopal:Haiti

Arquidiocese Ortodoxa da América
www.goarch.org - communications@goarch.org


Contato:
Escritório de Imprensa
Stavros Papegermanos
pressoffice@goarch.org

Encíclica Arquiepiscopal
Protocolo 04/10

13 de janeiro de 2010

Ao Reverendíssimos Hierarcas, aos Reverendos Padres e Diáconos, aos Monges e Monjas, aos Presidentes e Membros dos Conselhos Paroquiais das Comunidades Ortodoxas Gregas, aos distintos Arcontes do Patriarcado Ecumênico, Instituições de Ensino Regular e Eclesiástico, Irmandades Filoptochos, à Juventude, às Organizações Helênicas e a toda a família Ortodoxa grega na América

Amados Irmãos e Irmãs em Cristo,

Foi com grande tristeza e compaixão que recebemos as trágicas notícias sobre o devastador terremoto que ontem atingiu o país do Haiti, causando destruição generalizada e a perda de incontáveis vidas. Milhares presumilvemente mortos e muitos mais perderam familiares, lares e empregos. A infraestrutura e as instituições da capital, Port-au-Prince, estão em ruínas.

Em resposta a esta tragédia, peço primeiro e antes de tudo, que os fiéis da Igreja Ortodoxa grega na América ofereçam suas orações pelo povo do Haiti. Que possamos auxiliá-los com nossas orações a encontrarem consolo nesta hora de amargura e dor, e que possam encontrar força e esperança nEle através da fé e através do ministério de amor e cura oferecido por todo o mundo. Além disso, que também possamos oferecer nossas orações pelos fiéis ortodoxos gregos e duas paróquias no Haiti que estão sob a liderança arquipastoral de Sua Eminênica Metropolita Atenágoras do México. Oramos pela sua segurança e bem estar, e por seu testemunho e serviço durante este tempo difícil.

Também peço que as paróquias de nossa Santa Arquidiocese conduzam uma coleta especial neste domingo, 17 de janeiro, como resposta de compaixão pelas necessidades do povo do Haiti. Este país e seu povo experimentaram numerosas tragédias e lutas, e este desastre natural aprofundou os desafios com a destruição de hospitais, escolas, igrejas e centros de assistência. Peço que as ofertas sejam enviadas para Arquidiocese marcadas para o "Fundo de Assistência Haiti".

Através das orações, doações e serviços, que possamos responde a esta tremenda crise, sabendo que nosso Senhor será fiel em trazer conforto e cura através de nosso testemunho de Seu amor.

Com amor paternal em Cristo,

+DEMÉTRIOS
Arcebispo da América

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O Julgamento Moral

por São Pedro de Damasco


S. Pedro de Damasco descreve o Julgamento Moral no IV volume da Filokalia, p. 256:



"Como poderíamos alcançar o que quer que fosse sem julgamento moral? Ele nasce do nous, e constitui o meio-termo entre a esperteza - isto é, a astúcia excessiva - e a inconsequência. A esperteza puxa o julgamento moral na direção do engodo e da trapaça, e fere a alma de quem a possui e de tantos quantos puder.

A falta de pensamento, por outro lado, torna a pessoa obtusa e trivial, e não permite que o nous se concentre nos assuntos divinos ou no que quer que seja de proveito para a alma da pessoa ou de outros. A primeira é como uma montanha, a segunda como uma ravina.

O homem de julgamento moral, então, é aquele que viaja pela planície que existe entre estes dois. Mas aquele que se desvia de tal trilha ou cai na ravina ou tenta escalar as alturas e, não encontro modo de fazê-lo, projeta-se de cabeça na ravina e não é capaz de sair dela, pois recusa-se a renunciar ao pico da montanha e através do arrependimento retornar a trilha do julgamento moral. Mas a pessoa que caiu na ravina clama com humildade por Aquele que pode guiá-lo de volta para a estrada real da virtude.


O homem de julgamento moral, entretanto, nem se eleva arrogantemente com o fim de prejudicar os outros, nem se rebaixa tolamente apenas para ser prejudicado por alguém. Escolhendo o caminho do meio, se apega a ele com a ajuda de Cristo, Nosso Senhor; a quem seja dada toda Glória e domínio por todas as eras. Amém."


Ou seja, o julgamento moral cristão *tem* algo de esperteza e astúcia. O que S. Pedro explana de forma mais longa é apenas que devemos ter tanto "a mansidão da pomba" quanto a "malícia da serpente".

domingo, 8 de fevereiro de 2009

O dia em que eles começaram a matar cristãos

Tradução de: http://fatherjohn.blogspot.com/2005/02/day-they-began-killing-christians.html
Elevando seus braços aos céus, o Metropolita Vladimir orou em voz alta:
"Ó Deus, perdoa meus pecados, voluntários e involuntários, e aceita meu espírito em paz."
Então ele abençoou seus assassinos com ambas as mãos e disse:
"Meu Deus os abençoa e perdoa."
No silêncio da noite, quatro tiros foram ouvidos, então mais dois, e mais...
O Hieromártir Vladimir de Kiev, 7 de fevereiro de 1918


Neste domingo que se aproxima (8 de fevereiro de 2009), a Igreja Ortodoxa Russa celebra a memória dos Novos Mártires eConfessores da Rússia, que foram assassinados pelos comunistas. O motivo pelo qual este domingo em particular foi escolhido é que ele é o mais próximo do dia em que o primeiro Mártir do Jugo Comunista foi assassinado (25 de janeiro no Calendário Ortodoxo, 7 de fevereiro no calendário civil).

Talvez não seja coincidência que este mártir tenha sido o metropolita Vladimir de Kiev, que porta o nome de S. Vladimir, o Grande, que iluminou a terra russa com a fé cristã; e que tenha sido o Metropolita de Kiev, a cidade-mãe da Rússia que testemunhou o batisma da velha Rus em 988 DC. Este era o início de um novo batismo da Rus( http://saintjohnwonderworker.org/baptism.htm ) e através da fé e das orações dos Novo Mártires, vemos hoje o início de um renascimento do Cristianismo Ortodoxo na Rússia.

É especialmente comovente ler sobre a reação dos fiéis, que em todas as suas vidas leram sobre os mártires do passado, mas que pela primeira vez viram um em carne e osso. Este foi apenas o primeiro de milhões assassinados pelos comunistas por se recusarem a dobrar os joelhos ao estado ao invés de Deus. ( http://www.allsaintsofamerica.org/martyrs/nmruss.html )

Eis aqui o relato de seu assassinato nas mãos dos comunistas:
( http://www.orthodox.net/russiannm/vladimir-metropolitan-and-hieromartyr-of-kiev.html ):

Cápsulas de artilharia começaram a cair nas cavernas da Lavra de Kiev no dia 15 de janeiro e continuaram por vários dias. Entretanto, o metropolita continuou com suas obrigações religiosas, demonstrando grande calma, e no dia 23 de janeiro celebrou sua última Divina Liturgia com a irmandade da Lavra. No dia 23 de janeiro, os bolsheviques invadiram a Lavra, cometendendo jamais vistos atosde sacrilégio e pilhagem, debochando e chicoteando os monges e matando os oficiais e pessoal militar que lá estavam. A despeito da comoção, o metropolita oficiou um acatisto à Dormição da Mãe de Deus na grande igreja da Lavra, o qual acabou sendo seu último ofício na terra. Então ele e o Bispo Teodoro de Priluki, foram para o altar da igreja menor, a qual era dedicada à S. Miguel, primeiro metropolita de Kiev.

A noite de 25 de janeiro foi alarmante. Quatro homens armados e uma mulher,vestida como uma enfermeira da Cruz Vermelha, invadiram as instalações do superior, realizaram uma busca detalhada e levaram tudo de valor. No meio danoite, três deles saíram "para fazer reconhecimento" e roubaram o tesoureiro e o preposto. Mais tarde, três Vermelhos armados vasculharam os aposentos do metropolita e, não encontrando nada de valor, levaram uma medalha de ouro do cofre.

Às seis e meia da tarde, a campainha tocou fortemente três vezes. Cinco homens, vestidos com uniformes de soldados e liderados por um marinheiro, entraram na casa e perguntaram por "Vladimir, o metropolita". Foram guiados descendo as escadas até a cela do arquipastor. O metropolita saiu para encontrá-los, e então foi levado para o quarto onde ficaram por vinte minutos atrás de portas trancadas. Lá o Metropolita Vladimir foi torturado e estrangulado com a corrente de sua cruz, insultado e ordenado a entregar-lhes dinheiro. Depois, os presentes encontraram no chão do quarto pedaços de uma corrente quebrada, uma corda de seda, uma caixinha com relíquias sagradas e um iconezinho que o metropolita sempre usava no pescoço.

Quando o metropolita saiu vinte minutos depois, cercado por seus torturadores, estava vestindo sua batina, uma panaguia ( http://en.wikipedia.org/wiki/Panagia#Vestment ) e um klobuk branco (http://en.wikipedia.org/wiki/Klobuk) na cabeça. Nos primeiros degraus ele foi abordado pelo servente da cela, Philip, que lhe pediu sua benção. O marinheiro o empurro, gritando:

"Pare de mostrar respeito a esses sanguessugas! Chega disso!"

O metropolita foi até Philip, abençou-o, beijou-o e apertando sua mão disse:

"Adeus, Philip."

E então enxugou suas lágrimas. Philip relatou mais tarde que quando se separaram o metropolita estava calmo e solene, como se estivesse saindo para a igreja, para celebrar a Santa Liturgia.

Este velho, humilde e inocente servo de Deus foi para sua morte sem qualquer sinal de fraqueza ou medo. Enquanto era levado para fora do monastério, persignou-se e suavemente cantou uma oração.

Uma testemunha ocular relata que o Metropolita Vladimir foi levado de carro dos portões do monastério até o local da execução. No seu caminho do carro até uma pequena clareira perto de uma parede fortificad, ele perguntou:

"É aqui que vão atirar em mim?"

Um dos assassinos respondeu:

"Por que não? Você espera que façamos cerimônia para você?"

Quando o metropolita pediu permissão para orar antes de ser alvejado, a resposta foi:

"Seja rápido com isso!"

Elevando seus braços aos céus, o Metropolita Vladimir orou em voz alta:

"Ó Deus, perdoa meus pecados, voluntários e involuntários, e aceita meu espírito em paz."

Então ele abençoou seus assassinos com ambas as mãos e disse:

"Meu Deus os abençoa e perdoa."

No silêncio da noite, quatro tiros foram ouvidos, então mais dois, e mais...

"Estão atirando no metropolita!", disse um dos monges na Lavra.

"São tiros demais para um assassinato só", replicou outro.

Ao som dos tiros, cerca de quinze marinheiros com revólveres e lanternas correram para o quintal do monastério. Um deles perguntou:

"Eles levaram o metropolita?"

"Levaram para fora dos portões", responderam os monges timidamente.

Os marinheiros correram, e em vinte minutos voltaram.

"É, nós achamos ele," eles disseram, "e vamos cuidar de cada um de vocês da mesma forma".

Existe um outro relato da morte do metropolita. O arquimandrita Nicanor Troitsky lembra que quando era menino, sua mãe correu com ele até a Lavra, onde um círculo de soldados estava impedindo uma multidão de se aproximar da cena da execução. Ele lembra que o metropolita foi arguido sobre uma série de questões, e cada vez que dava uma resposta insatisfatória uma baioneta lhe golpeavao corpo até que ele se tornou uma fonte de sangue. Depois da execução a multidão quebrou o cordão de soldados. Então a mãe do Pe. Nicanor disse-lhe para por os dedos no sangue do metropolita martirizado, fazer uma cruz na testa, e lembrar que tinha testemunhado a morte de um verdadeiro mártir, a cuja confissão ele deveria ser fiel por toda a sua vida....

O silêncio não foi quebrado novamente naquela noite. O monastério dormia, e ninguém parecia se dar conta de que apenas a mil pés dos portões norte da Lavra, em uma poça de sangue, jazia o corpo estilhaçado do santo metropolita.

Ao nascer do sol, algumas mulheres peregrinas apareceram nos portões da Lavra, e os monges ouviram delas onde estava o corpo mutilado do metropolita. A irmandade decidiu trazer o corpo para o monastério, o que necessitou de permissão das autoridades comunistas. Às nove horas, o arquimandrita Anthimus, acompanhado por quatro assistentes hospitalares, foi até a cena do assassinato.

O metropolita estava sobre suas costas coberto com um sobretudo. Faltavam sua panagia, seu klobu e cruz, galochas, botas, meias, relógio de ouro e corrente. A autópsia mostrou que havia sido assassinado com balas explosivas e perfurado em vários locais com armas afiadas e frias. Suas mãos estavam congeladas na posição de benção.

Depois de oficiar uma litiya no local onde o metropolita havia morrido, colocaram o corpo na maca e, por volta de onze da manhã, o trouxeram para a igreja de S. Miguel, onde o metropolita assassinado havia passado as últimas horas de sua vida. Enquanto o Arquimandrita Anthimus estava erguendo o corpo, foi cercado por mais ou menos dez homens que começara a debochar e insultar os restos mortais do metropolita.

"Você quer enterrá-lo! Mas ele merece ser jogado na sarjeta! Vocês querem fazer relíquias dele, é por isso que estão guardando-o!", gritavam.

Enquanto a lamuriosa procissão fazia seu caminho até a Lavra, mulheres pias que estavam passando, choraram e oraram, dizendo:

"O sofredor e santo mártir, que o Reino de Deus seja para ele!"

"Um reino dos céus? Seu lugar é no inferno, no lugar mais profundo!", replicavam os fanáticos.

Depois do corpo do metropolita ter sido fotografado e vestido apropriadamente, o vice-abade da Lavra, Arquimandrita Clemente, e os irmãos mais antigos do monastério oficiaram uma panikhida. No dia 27 de janeiro, o Metropolita deTbilisi, que estava representando o Patriarcado Russo no Concílio Ucraniano,oficiou uma panikhida para o metropolita em Kiev. No dia 29 de janeiro, o corpo foi transferido para a Grande Igreja das Cavernas da Lavra de Kiev, e depois do ofício funerário, foi enterrado na igreja da Elevação da Cruz, nas Cavernas Próximas.

No dia 15/28 de fevereiro de1918,uma sessão do Concílio da Igreja Russa em Moscou foi dedicada à memória do metropolita assassinado.

O metropolita Vladimir foi o hierarca que arcou com o fardo do primeiro assalto revolucionário à Igreja Russa. Era portanto apenas adequado que ele se tornasse o primeiro novo mártir hierarca. E no dia 5/18 de abril, o Concílio Russo decretou que o domingo mais próximo da data de seu martírio, 25/01-07/02, deveria ser a data da comemoração anual de todos os santos novos mártires e confessores da Rússia.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Jesus e as Riquezas Mundanas

Jesus e as Riquezas Mundanas

A relação do Cristianismo com as riquezas mundanas gera diversas polêmicas históricas, políticas e sociológicas. Gostaria porém de fazer alguns comentários exegéticos e teológicos sobre o assunto. Creio que essa questão se encontra muito bem definida no evento em que o jovem rico encontra Jesus (Mc 10, 17:31; Mt 19, 16:30; Lc 18, 18:30). Para quem não lembra, eis o trecho segundo São Lucas:

São Lucas 18

18 E perguntou-lhe um certo príncipe, dizendo: Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?

19 Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom, senão um, que é Deus.

20 Sabes os mandamentos: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra a teu pai e a tua mãe.

21 E disse ele: Todas essas coisas tenho observado desde a minha mocidade.

22 E quando Jesus ouviu isto, disse-lhe: Ainda te falta uma coisa; vende tudo quanto tens, reparte-o pelos pobres, e terás um tesouro no céu; vem, e segue-me.

23 Mas, ouvindo ele isto, ficou muito triste, porque era muito rico.

24 E, vendo Jesus que ele ficara muito triste, disse: Quão
dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!

25 Porque é mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.

26 E os que ouviram isto disseram: Logo quem pode salvar-se?

27 Mas ele respondeu: As coisas que são impossíveis aos homens são possíveis a Deus.

28 E disse Pedro: Eis que nós deixamos tudo e te seguimos.

29 E ele lhes disse: Na verdade vos digo que ninguém há, que tenha deixado casa, ou pais, ou irmãos, ou mulher, ou filhos, pelo reino de Deus,

30 Que não haja de receber muito mais neste mundo, e na idade vindoura a vida eterna.

As riquezas, em si, não levam nem à salvação, nem à perdição. São neutras. Um homem pode inclusive ser chamado Justo mesmo sendo rico. A natureza humana, porém, é tal que é difícil para nós mantermo-nos longe das tentações uma vez que tenhamos os meios para obtê-las, seja através do poder financeiro ou político, e por isso Jesus nos alerta para os perigos inerentes a esse caminho, sem com isso reprovar taxativamente os que porventura o trilhem como veremos a seguir.

A leitura mais estimulante, parece-me, é esta que vemos em São Lucas pois logo depois daquele encontro com o mau rico, São Lucas nos apresenta um encontro de Jesus com São Zaqueu, um bom rico (veja o ícone ortodoxo em http://www.thehtm.org/images/a-312.jpg ):
São Lucas 19

1 E, tendo Jesus entrado em Jericó, ia passando.

2 E eis que havia ali um homem chamado Zaqueu; e era este um chefe dos publicanos, e era rico.

3 E procurava ver quem era Jesus, e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura.

4 E, correndo adiante, subiu a um sicômoro para o ver; porque havia de passar por ali.

5 E quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, viu-o e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa.

6 E, apressando-se, desceu, e recebeu-o alegremente.

7 E, vendo todos isto, murmuravam, dizendo que entrara para ser hóspede de um homem pecador.

8 E, levantando-se Zaqueu, disse ao Senhor: Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado.

9 E disse-lhe Jesus: Hoje veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão.

10 Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido.

Enquanto o “príncipe” hesita em ser fonte de benesses, São Zaqueu utiliza sua riqueza para auxiliar o próximo sem deixar de desfrutá-la. Fica bem claro que se despojar das riquezas é algo bem mais profundo do que simplesmente doar tudo materialmente. Já dizia S. João Crisóstomo que o pobre que vive ardendo de desejo pela riqueza peca mais gravemente do que muitos ricos. Daí que certas ideologias que vivem de cultivar a inveja da riqueza serem tão tipicamente anti-
cristãs apesar de se apresentarem com pretensões de motivações bondosas.

É apenas com tal entendimento que vamos compreender o Sermão do Monte: Bem-aventurados os *pobres de coração* porque *deles* é o Reino dos Céus. Muitos pobres materiais não são pobres de coração. Vivem desejando a queda da classe dos ricos, sonhando com a ruína alheia e com a fortuna por ela mesma, com o fracasso do vizinho melhor de vida, seja uma pessoa ou um país, do parente afortunado, enfim de todos que estão melhor financeiramente que eles, consumidos por inveja, ganância e ressentimento. Igualmente, alguns po ucos ricos não poderiam fazer menor caso da fortuna que têm em mãos.

Não importa, para nossa salvação espiritual, se temos dinheiro nas mãos ou não. Importa se ele está em nosso coração ou não. O dinheiro *nunca* deve estar em nosso coração, pois este é templo sagrado de Deus. Infelizmente parece que nosso povo é mais “dinheirista” do que cristão. Choca-se mais com crimes de roubo de dinheiro na política do que com milhares de assassinados todos os anos. Ter dinheiro no coração não é simplesmente desejar o dinheiro ardentemente mas achar que o dinheiro vai solucionar tudo, que bastará dar ou ter dinheiro para que os problemas desapareçam. O dinheiro não tem esse poder. Ter dinheiro no coração é também se indignar com roubos e corrupções e ficar indiferente aos atentados contra a vida. Não por outro motivo no capítulo 11 de São Marcos, logo depois do encontro com o mau rico, temos o episódio da expulsão dos vendedores do Templo. Jesus faz externamente aquilo que devemos fazer internamente, isto é, expulsar do templo de Deus em nossas almas o dinheiro, pois Deus se deu a nós de graça para que existindo em nós possamos ofertá-Lo a Ele mesmo, como é dito durante a Anamnese (Rememoração) na Divina Liturgia ortodoxa: “O que é Teu, recebendo-o de Ti, nós Te oferecemos em tudo e por tudo“. Nada temos a ofertar, nem ao próprio Deus, que não tenha sido dado por Ele mesmo anteriormente. Dele provém toda virtude, bondade, graça e alegria.

Aquele que não tem riquezas materiais no coração é que é o “pobre de coração”, mesmo que seja “rico de bolso”. E é importante que mantenhamos isso na cabeça para não cultivarmos determinadas neuras de que se tivermos uma boa condição financeira então estaremos condenados ao inferno, pensamento pernicioso que é talvez responsável por boa parte das mazelas do Brasil em um tipo de auto-sabotagem subconsciente. De fato, no Brasil pensamos que o dinheiro é algo sujo e se vemos alguém rico logo ficamos pensando que “sujeiras” ele deve ter cometido para chegar a tal estado. Isto se dá porque subconscientemente, achamos a riqueza mundana algo sujo e que só pode ser obtida pela sujeira. E assim, apenas os desonestos se interessam por ela e desfrutam o poder de influenciar a sociedade que ela proporciona. Se os bons e os justos brasileiros tirarem essa imagem da riqueza da cabeça poderão eles mesmos obtê-la, permanecendo pobres de coração, e ser a fonte de boa influência nas altas rodas. Já é um ditado popular, e bastante sábio, a sentença que diz que a culpa do mal no mundo não da ação dos maus, mas da omissão dos bons.

Tanto a obtenção da riqueza é algo neutro em si que uma das parábolas mais marcantes de Jesus traz uma imagem praticamente capitalista. E está ligada também ao ciclo “Mau rico-Bom rico” para nos mostrar a dinâmica da relação do homem com a riqueza mundana. Vejamos o trecho, ainda em São Lucas 18, seguindo logo o que foi mencionado por último:

11 E, ouvindo eles estas coisas, ele prosseguiu, e contou uma parábola; porquanto estava perto de Jerusalém, e cuidavam que logo se havia de manifestar o reino de Deus.

12 Disse pois: Certo homem nobre partiu para uma terra remota, a fim de tomar para si um reino e voltar depois.

13 E, chamando dez servos seus, deu-lhes dez moedas, e disse-lhes: Negociai até que eu venha.

14 Mas os seus concidadãos odiavam-no, e mandaram após ele embaixadores, dizendo: Não queremos que este reine sobre nós.

15 E aconteceu que, voltando ele, depois de ter tomado o reino, disse que lhe chamassem aqueles servos, a quem tinha dado o dinheiro, para saber o que cada um tinha ganhado, negociando.

16 E veio o primeiro, dizendo: Senhor, a tua moeda rendeu dez moedas.

17 E ele lhe disse: Bem está, servo bom, porque no mínimo foste fiel, sobre dez cidades terás autoridade.

18 E veio o segundo, dizendo: Senhor, a tua moeda rendeu cinco moedas.

19 E a este disse também: Sê tu também sobre cinco cidades.

20 E veio outro, dizendo: Senhor, aqui está a tua moeda, que guardei num lenço;

21 Porque tive medo de ti, que és homem rigoroso, que tomas o que não puseste, e colhes o que não semeaste.

22 Porém, ele lhe disse: Mau servo, pela tua boca te julgarei. Sabias que eu sou homem rigoroso, que tomo o que não pus, e colho o que não semeei;

23 Por que não puseste, pois, o meu dinheiro no banco, para que eu, vindo, o exigisse com os juros?

24 E disse aos que estavam com ele: Tirai-lhe a moeda, e dai-a ao que tem dez moedas.

25 (E disseram-lhe eles: Senhor, ele tem dez moedas.)

26 Pois eu vos digo que a qualquer que tiver ser-lhe-á dado, mas ao que não tiver, até o que tem lhe será tirado.

Esta passagem se refere a todas as graças de Deus de forma geral. Quer dizer que Deus nos confere dons que devemos utilizar e desenvolver e que aquele que não desenvolve acabará perdendo o dom. Não é possível porém, deixar de considerar a imagem quase capitalista e “especuladora” que Jesus utilizou nessa passagem para dar o ensinamento.

Houve por bastante tempo uma discussão sobre se o casamento seria algo bom. Isso se devia a heresias que pregavam que apenas o ser humano celibatário vivia de acordo com a vontade de Deus. Aqueles que defendiam o casamento apontavam que a união do homem e da mulher
é usada diversas vezes nas Santas Escrituras como imagem da união de Deus com a Igreja. Destacavam, a partir daí, que não poderia ser utilizado algo ruim como imagem de algo bom. Pode-se também dizer que se o lucro, o investimento capitalista e mesmo a especulação financeira fossem algo mal em neles mesmos, Deus não os utilizaria como imagem de algo tão bom e maravilhoso como a ação de Sua Graça sobre a humanidade.

O homem das dez moedas, assim como o das cinco moedas, eram pobres de coração e por isso herdaram as cidades, símbolos do Reino; enquanto o que não investiu e não multiplicou sua riqueza era o que era de fato “rico de coração” apesar de ter permanecido “pobre de bolso”.
Sua moeda foi dada ao mais sábio que por sua vez saberia transformar aquele pequeno investimento inicial em dons. Seja a graça de Deus a inteligência, o dom da palavra, o dom da oração, do entendimento ou mesmo a riqueza mundana, temos o dever santo e sagrado de multiplicá-lo e compartilhá-lo com os nossos próximos.

No desenho animado “José: Rei dos Sonhos”, que conta a história deste personagem do Antigo Testamento*, tem uma música “à la Disney”** cujo refrão resume bem o espírito dessa mensagem:

“Você tem que dar um pouco mais do que recebeu, tem que deixar um pouco mais do que estava aqui. É a própria medida da sua alma que está em jogo. Você tem que dar um pouco mais do que recebeu”.

Tal é a mensagem da parábola do Mau Investidor, que é tambem o Mau Pobre e a imagem que se deve seguir, personificada em São Zaqueu e no Patriarca José, que representam o Bom Rico, para que se dê bom uso à riqueza, de modo que na fortuna ou na miséria, mantenhamos sempre Deus, e unicamente Ele, no templo de nosso coração. Viver desejando sempre a Deus e o bem do próximo e não a riqueza, qualquer que seja nossa condição material.

Abraços, que Jesus Cristo na Santíssima Trindade e sua Santa Mãe nos abençõe! Peçamos pelas orações de São Zaqueu e do Patriarca José, para nos iluminar nesse tópico.
Fabio Lins

* Vejam ícones ortodoxos do Patriarca José:
http://www.comeandseeicons.com/j/inp109.jpg e
http://www.thehtm.org/images/a-77.jpg

** Vejam o clipe em: http://youtube.com/watch?v=6WDXCEmpuYI

Patriarca Alexei II convida a Europa à Moralidade

http://english.pravda.ru/world/europe/98211-orthodox_church-0

Europa se revolta contra lição de moral da Igreja Ortodoxa Russa

04-10-2007

A mídia russa e de outros países lançaram diversos comentários sobre a recente aparição do líder da Igreja Ortodoxa Russa, Patriarca Alexei II, na seção da Assembléia Parlamentar do Conselho da Europa em Strasbourg.

Foi a primeira vez na história que um alto líder religioso da maior confissão da Rússia apareceu perante delegados da Assembléia. Mais importante ainda, foi a primeira visita de Alexei II a um país católico.

O Jornal Novye Izvestia relata que a aparição de Alexei II perante os delegados deu origem a um grande debate antes mesmo de sua visita à França. Jornalistas conjeturavam se o Patriarca iria falar no tom do "pregador bonzinho" ou como um "duro acusador". Em Abril, Alexei II dissera que durante uma aparição planejada perante o Conselho da Europa ele iria falar sobre valores cristãos que a Europa ocidental estava, infelizmente, perdendo enquanto propagandea o pecado.

Em entrevista para o jornal La Vie o Patriarca disse que os russos criados segundo a tradição ortodoxa cristã tinham sua própria visão sobre muitos dos problemas modernos. Uma verdadeira cooperação Pan-Européia não pode ser estabelecida se esta visão não for levada em consideração, disse Alexei II.

O discurso do Patriarca no Conselho da Europa foi tratado de modo semelhante ao de um político de alto nível. O jornal Le Figaro chama a Igreja Ortodoxa Russa "a única instituição estável em uma Rússia instável". O modo de Alexei de falar é sempre suave a não-agressivo, exatamente ao estilo dos políticos peso-pesados.

Em seu discurso na Assembléia, o Patriarca não falou abertamente que a menção ao "código singular", os valores cristãos, não foi inclusa no rascunho da constituição da União Européia a despeito do fato de que representantes da Espanha e Polônia católicas haviam insistido que devessem ser incluídos no documento. O Patriarca russo enfatizou que a lacuna que há hoje em dia entre os direitos humanos e a moral era desastrosa para a Civilização Européia. Ele disse que esta lacuna era agravada pela "aparição de uma nova geração de direitos que contradizem a moralidade e buscam justificar atos imorais com direitos humanos". Alexei II pensa que quando a moralidade não é aplicada para avaliar os atos das autoridades, os problemas sociais se tornam ainda mais insolúveis.

Entretanto, o Patriarca russo revelou uma atitude categórica da Igreja Ortodoxa Russa quanto a paradas gays e minorias sexuais. Alexei II disse que a Igreja Ortodoxa Russa tratava as tentativas de organizar paradas de orgulho gay em Moscou como manipulação e propaganda do pecado. Ele disse que o homossexualismo é uma doença e uma distorção da personalidade humana assim como a cleptomania e perguntou: "Por que não fazemos propaganda da cleptomania?" Mas, ao mesmo tempo, Alexei II acrescentou que sua religião o ensinava a amar os pecadores a despeito dos seus pecados. A comparação do Patriarca entre a homossexualidade e a cleptomania recebeu uma tempestade de aplausos de seus delegados russos enquanto os outros abstiveram-se de comentários demonstrativos sobre a questão.

O Patriarca alertou o Conselho de delegados da Europa de que um rompimento entre os direitos humanos e a moralidade ameaçava a civilização Européia. Continuou enfatizando que as pessoas devem combater o pecado e não os pecadores e respeitar os ensinamentos morais da Bíblia.

Mas o Patriarca russo acrescentou que o governo não deve interferir com a vida privada já que é uma escolha livre do indivíduo ser moral ou imoral.

O jornal Rossiiskaya Gazeta afirma que a aparição do Patriarca perante o Conselho foi o primeiro de um tão alto nível. A Igreja Ortodoxa Russa é a primeira e única confissão representada no Conselho da Europa como um estado. Em 2005, o Patriarca aprovou a abertura de um escritório representativo da Igreja no Conselho da Europa para o estabelecimento de um diálogo regular e constante.

De acordo com o Patriarca russo, nenhuma ideologia, incluindo a secular, pode ter o monopólio da Europa ou do mundo. E é por isso que ele pensa que a religião não pode ser posta para fora do espaço público. É hora de assumir que pode existir também uma motivação religiosa na esfera pública, disse Alexei II.

Um dos delegados perguntou ao Patriarca qual era sua atitude quanto a pena de morte e Alexei II respondeu que a Igreja sempre defendeu a proteção da vida tanto dos bebês não nascidos quanto dos criminosos. Neste discurso em particular, seu discurso foi altamente emocionado.

Como disse o Patriarca, o progresso tecnológico provê uma nova interpretação dos direitos humanos. Os fiéis possuem sua própria opinião sobre bioética, identificação eletrônica e outros ramos do progresso tecnológico que deixam muitas pessoas ansiosas. O jornal Kommersant cita o Patriarca afirmando que um ser humano deve sempre permanecer um ser humano e não um artigo sob o controle de sistemas eletrônicos sempre a disposição de experimentos.

Os europeus acharam que Alexei II foi mais crítico quando tocou na muito popular religião européia do politicamente correto.

Ontem, a Gazeta GZT.ru relatou a aparição do Patriarca no Conselho em uma publicação intitulada "Rússia desconsidera envolvimento no Conselho da Europa mas Patriarca Alexei II ensina moralidade a Europa".


A Rússia é a principal ré na Corte Européia de Direitos Humanos mas a corte não está satisfeita com a cooperação deste país. Delegados do Conselho da Assembléia Parlamentar da Europa adotaram uma resolução que requer que os países membros devam manter cooperação em todos os níveis do procedimento judicial. De acordo com a Assembléia, a violação da lei no norte do Cáucaso é a mais escandalosa.

Source: agencies

Traduzido para o inglês por Maria Gousseva
Traduzido do inglês para o português por Fabio Lins
Pravda.ru

Vídeo do discurso: http://www.russiatoday.ru/news/news/15010/video