sexta-feira, 5 de março de 2010

3o Domingo da Quaresma, o Domingo da Veneração da Santa Cruz

Amigos,
em vista do 3o Domingo da Quaresma, o Domingo da Veneração da Santa Cruz, reescrevi e expandi um artigo mais antigo sobre a Santa e Vivificante Cruz. Espero que a Graça de Deus complete em inspiração na sua leitura o muito que me faltou na escrita.
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A Santa Cruz


A Santa Cruz é a nova Árvore da Vida em paralelo com aquela do Paraíso pois nela estava o Fruto da Vida.

Lembremos da passagem em Gênesis 3:22:
"Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente"

O primeiro mandamento de Deus para o homem foi o jejum. O homem devia jejuar não comendo do fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Quando o Homem quebrou este primeiro mandamento afastou-se de Deus pela desobediência, trazendo sobre si a doença, o pecado e a morte.

Caso tomasse da Árvore da Vida nessa condição, tornaria-se imortal e seria eternamente doente, pecador e...espiritualmente morto. O fruto da Árvore da Vida o tornaria eterno na condição em que estivesse.

Esse foi o motivo da expulsão de Adão e Eva: a infinita misericórdia de Deus que não queria que nos tornássemos eternos em um estado de decadência sem fim. E foi também por esta ilimitada misericórdia que Deus nos enviou Seu próprio Filho, Ele mesmo o Fruto da Vida, o Pão da Vida (Eu sou o Caminho, a Verdade e A VIDA). Vejamos as Santas Escrituras em São João, capítulo 6:

32 Disse-lhes, pois, Jesus: Na verdade, na verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu; mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu

Quem é que o Pai nos deus senão seu Filho? Ele é o Pão do céu como ele confirma em seguida:

33 Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo.


Que também concorda com São João, capítulo 3:13:

Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu.


Aquele que desceu do céu, Aquele que o Pai nos deu é ele a Vida, Nosso Senhor Jesus Cristo, o que Ele diz de forma explícita em São João 6:51:

"Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo."

Sendo assim o madeiro da cruz torna-se o tronco árvore de onde o Pai nos concede o Fruto da Vida que outrora nos proibira. A ação redentora de Nosso Senhor tudo transfigura, tudo renova e um instrumento de morte se transforma em doador da Vida.

Sabemos também, através da última bem-aventurança em São Mateus 5

Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa.Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.

e de São João 15:20

Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa.

Que a energia da Cruz é componente essencial da redenção, isto é como disse São Paulo ao Romanos 6:8 (repare a condicional):

Ora, *se* já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos.

Ou seja, que *se* "morremos" com Cristo, ressuscitaremos em Cristo. 

Reparem que há os que crêem que Deus veio sofrer em nosso lugar, isto é, que tendo padecido todas aquelas dores, nós devemos minimizar nossos sofrimentos, dores e frustrações. Que podemos buscar uma "vida boa", com confortos e seguranças e ainda assim estarmos com o Cristo.

Não é isso que ensinam as Santas Escrituras. Como vemos acima *se* morremos com Cristo, apenas então ressuscitaremos em Cristo. Ai daqueles que não padecem sofrimentos e vivem no fausto ou buscando sempre "alegria", "felicidade" e "bem-estar". Ai dos que acham que Jesus veio nos ajudar a ter uma vida confortável, ter festas e adeqüação social. Estes passam pela porta do Reino dos Céus e a desprezam, se riem dela e até mesmo a temem. 

O cristão ortodoxo não é apegado aos conceitos mundanos da busca da felicidade, da auto-realização, do "meu bem-estar primeiro". A cruz, o sofrimento, são a porta de entrada para ressurreição. É na dor que o pecador morre e o novo ser ressuscita "três dias depois". Não a buscamos como um masoquista, mas assim como o Cristo subiu voluntariamente à Cruz, nós também aceitamos obedientemente, em lágrimas consoladas pelo Espírito Santo e pelas orações da Santa Mãe de Deus, muitos dos problemas que encontramos em nossas vidas.  Não digo com isto, irmãos, que o doente não irá buscar tratamento. Digo sim que mesmo enquanto busca o tratamento, ele vai moldando o coração para compreender que a dor é um dom também. Todos um dia adormeceremos em Cristo. Como o Cristo, não buscamos a Cruz. Mas quando ela vem, aceitamos. São nas dores e sofrimentos da vida que o ser egoísta, que pensa em si em primeiro lugar morre.

Deixando morrer o "homem velho", carnal, das paixões, "crucificando-o", fazemos como São João Batista: "É necessário que *Ele* cresça e *eu* diminua" (S. João 3:30).

É o nosso "eu" que deve morrer - ego-ísmo, vem do grego, no qual ego significa "eu" e "egoísmo" é o culto do "eu". Que é a "felicidade" moderna, senão o "meu" bem-estar primeiro, a "minha" carreira, a "minha" vida, a "minha" educação, o "meu" espaço, o "meu" prazer? Tudo em torno do "eu". Casais se separam porque cada um sente seu "eu" insatisfeito ou "sufocado". Pequenas crueldades são cometidadas até no lar e no emprego para satisfazer nossos "eus". Perversões são legitimadas por constituírem satisfação do "eu". Vidas são sacrificadas para que não atrapalhem o estilo de vida que um "eu" sente ser seu por direito.

E de fato, na morte precisamente de todos estes "eus" está a energia da Santa e Vivificante Cruz; a aceitação do sofrimento e da dor ao invés de fugir deles, a diminuição constante do nosso eu, da nossa vontade para que a Dele seja plena em nós e possamos dizer com o Filho para o Pai:
"Que se faça a Tua Vontade e não a Minha" (S. Lucas 22:42);

e como São Paulo:
"Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim;" (Gálatas 2:20).

No dia da Liturgia são lidos os Salmos 22, 74 e 99 que profetizam a crucificação de Nosso Senhor. Isso demonstra que a Cruz faz parte da Salvação desde o início.

De fato, transmite-nos a Santa Tradição que o sacrifício redentor de Nosso Senhor é figurativamente mencionado já no proto-Evangelho do Gênesis (3:15) quando Deus diz à serpente: "E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e *tu lhe ferirás o calcanhar." Este ferir o calcanhar é uma alusão ao sofrimento, mesmo físico que Jesus iria passar milênios depois. Mas veja que o demônio causa um ferimento menor, apenas no calcanhar, enquanto o Cristo, "a semente" de Eva, fere a cabeça da serpente, o que a impede de agir e é ferida letal.

Finalmente, Nosso Senhor explica para Nicodemos de que modo esta Vida Eterna nos foi dada:

E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado;
Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
(S. João 3:14-15)

As nossas cruzes pessoais são manifestações da Cruz de Cristo na vida do cristão. Sejamos como a Virgem Maria, Sta. Maria Madalena, S. João e a outra Maria e permaneçamos, na dor, ao pé da Cruz, sem fugir como fizeram os Apóstolos na ocasião. Diante dos obstáculos e das dores, peçamos a Deus a força para suportá-los com mais intensidade do que pedimos para que eles desapareçam. Muitas vezes, assim como a Cruz foi o instrumento que permitiu a Ressurreição, serão nossas cruzes que nos unirão a Deus. Diante da dor e do sofrimento, da injusta condenação, do fracasso inesperado e imerecido, das calúnias, digamos com o Cristo em S. Lc 22:42 "Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua". E sendo crucificados com o Cristo, ressuscitaremos nEle.

terça-feira, 2 de março de 2010

Patriarca de Jerusalém sobre a União das Igrejas: Amor *E* Verdade


Uma visita dos bispos da igreja católica romana alemã ao Patriarcado de Jerusalém

do website do Patriarcado de Jerusalém

Traduzido para o inglês pelo site OODE: http://www.oodegr.com/english/papismos/GermanBishopsVisit.htm

Traduzido do inglês para o português por Fabio L. Leite a partir do website: http://www.impantokratoros.gr/root.en.aspx


Gregoriano (16/09/2009)/Juliano(03/09/2009)


Na quarta-feira, 03/16-09-2009, Sua Beatitude o Patriarca de Jerusalém Teófilos III foi visitado pelo Dr. Gerhard Ludwig Müller, Bispo de Regensburg, Dr. Heinrich Mussinghoff, Bispo de Aechen e pelo Dr. Gerhard Feige, Bispo de Magdeburgo da Igreja Católica Romana, juntos com um pequeno grupo de acompanhantes, no contexto de suas visitas missionárias à Terra Santa, com o fim de conhecerem as Igrejas do Oriente Médio e reforçar a presença cristã naquele território.

O Bispo de Regensburgo, Dr. Gerhard Ludwig Müller, quando dirigindo-se à Sua Beatitude, fez referências à contribuição do Patriarcado de Jerusalém à teologia da Igreja através de seu posicionamento no apoio ao dogma cristológico do 4 Concílio Ecumênico de Calcedônia em 451 AC, quando o Patriarca Sofrônios que defendera as duas vontades e energias de Nosso Senhor Jesus Cristo, o posicionamento do Patriarca de Jerusalém durante a disputa Iconomáquica e também durante o corrente diálogo teológico com a Igreja Católica Romana.

Ele então entregou à Sua Beatitude a medalha do Instituto de Regensburgo pelo ensino da língua alemã para estudantes originários das Igrejas orientais. O Diretor Interino deste instituto, o clérigo Dr. Nikolaus Wyrwoll, era um dos acompanhantes no grupo de arciprestes católico-romanos.

Em sua resposta, Sua Beatitude deu as boas-vindas a Jerusalém ao Bispo de Regensburgo, Dr. Müller e seu grupo ; ele os agradeceu por suas palavras a respeito do posicionamento do Patriarcado de Jerusalém durante os períodos de crise na Igreja, assim como por sua colaboração em favor da união das Igrejas.

“Sua visita”, disse Sua Beatitude, “é significativa para a presença cristã na Terra Santa; é uma visita de solidariedade. Vocês têm familiaridade com os dogmas da Igreja e com a história eclesiástica. Também estão familiarizados com a atual situação política. Nós, entretanto, vivemos dentro dela. Existe aqui uma conhecida situação política e religiosa, com suas respectivas conseqüências. Nosso Patriarcado tem, ao longo das eras, cultivado um espírito de coexistência pacífica com o Islã e o Judaísmo. Não estamos falando de diálogo, ou de uma relação, mas de coexistência. Respeitamos os locais sagrados de peregrinação de todas as três religiões. A própria Jerusalém é uma Cidade Santa para todas as três. Jerusalém foi santificada pelo sangue dos profetas e de Jesus Cristo. Há espaço para os seguidores das três religiões. A resolução política do problema de Jerusalém é da alçada de outros. Nosso dever é preservar a singularidade espiritual de Jerusalém. A diminuição do elemento cristão não nos assusta: ‘não temais, Ó pequeno rebanho’ (S. Lc. 12:32). Todos estão familiarizados com a contribuição e a ajuda oferecidas pelo elemento cristão aqui. Em paralelo, entretanto, os cristãos também necessitam de ajuda e apoio. Estes já foram, às vezes, chamados de uma ‘comunidade’ – uma referência que não é válida, já que os cristãos daqui são nativos. Quanto ao diálogo teológico, somos a favor; entretanto, não o aguardamos com ansiedade. Acreditamos que devemos nos esforçar por uma unidade de fé, e não uma unidade de administração.”

Continuando sua fala, Sua Beatitude disse que o diálogo eclesiástico devia incluir também os monges, os quais não confundem ‘especulação com revelação’; eles sabem que o Cristianismo não envolve especulação. Eles sabem o que a verdade é: que o objetivo de um cristão é a deificação.  Os representantes do diálogo teológico entre as igrejas e os líderes das igrejas deveriam ficar felizes se ambos os níveis do diálogo coexistirem, isto é, o amor e a verdade. Não o amor sozinho.
Sua Beatitude enfatizou que já é hora de ambas as Igrejas examinarem o que as dividem, e não apenas os elementos que as unem.

“Os elementos que as unem já foram exaustivamente discutidos. O início da nossa unidade na fé se encontra no reconhecimento das nossas fraquezas. Já é hora de operarmos em nossas feridas.”

Do Secretariado-Mor

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Igrejas Ortodoxas Canônicas do Brasil



Amigos,

compartilho com vocês uma tabela que fiz com todas as jurisdições canônicas da Igreja Ortodoxa que estão atuantes no Brasil. 

Infelizmente, existem pessoas que se aproveitam de a Igreja Ortodoxa ser pouco conhecida no Brasil para "inventar" suas próprias igrejas ou se dizer ligadas a igrejas que de fato não estão ligados. Existem também, é claro, representantes no Brasil de igrejas separadas da Igreja Ortodoxa, seja recentemente ou desde o primeiro milênio, e mesmo assim apresentam-se como se fossem Ortodoxos.

Para evitar todas estas confusões, nesta ante-véspera do Domingo do Triunfo da Ortodoxia, envio-lhes esta tabela com as jurisdições que realmente são ortodoxas, com respectivos hierarcas responsáveis e reconhecidos. Não existe instituição ou jurisdição ortodoxa no Brasil que não esteja ligada a eles. Evidentemente no futuro poderão haver outras jurisdições ortodoxas canônicas, de outros patriarcados ou igrejas canônicas, mas, no momento, são apenas os que seguem abaixo. Quem não está em uma destas igrejas, ligado a um destes bispos, não é ortodoxo, então muito cuidado com os falsos ortodoxos por aí.


Jurisdições Canônicas da Igreja Ortodoxa Presentes no Brasil

Patriarcado de Constantinopla
Patriarca Bartolomeu I

As igrejas grega e ucraniana, no Brasil, estão filiadas ao Patriarcado de Constantinopla.
Arquidiocese Greco-Ortodoxa
da América do Sul

Metropolita Dom Tarásios
Baseado em Buenos Aires, Argentina

Eparquia Ortodoxa Ucraniana
da América do Sul

Arcebispo Dom Jeremias
Baseado em Curitiba, Paraná

Patriarcado de Antioquia
Patriarca Inácio IV

O Vicariato Patriarcal é uma paróquia diretamente vinculada ao Patriarca.
Arquidiocese Ortodoxa Antioquena
de São Paulo e todo o Brasil

Metropolita Dom Damaskinos
Baseado em São Paulo, SP

Vicariato Patriarcal Antioqueno
do Rio de Janeiro

Responsável: Arquimandrita Inácio
Baseado no Rio de Janeiro, RJ

Patriarcado de Moscou
Patriarca Cirilo
Diocese Ortodoxa Russa
da América do Sul

Bispo Dom Platão
Baseado em Buenos Aires, Argentina

Igreja Ortodoxa Russa no Exílio
Metropolita Hilarion

A Igreja Ortodoxa Russa no Exílio está em plena comunhão com o Patriarcado de Moscou. Infelizmente as paróquias que ela tinha no Brasil entraram em cisma em 2007 por serem contra essa comunhão. Por isso, até que retornem, ou novas paróquias sejam criadas, estamos sem representações desta Igreja no Brasil até o momento.

Diocese da Igreja Ortodoxa Russa no Exílio da América do Sul

Bispo Dom João
Baseado em Buenos Aires, Argentina

Patriarcado da Sérvia
Patriarca Irineu

As missões sérvia e polonesa (abaixo) caracterizam-se por serem grupos predominantemente missionários, isto é, tencionam ver a Igreja se expandir no Brasil até chegarmos a ter uma Ortodoxia brasileira como temos russa, árabe, ucraniana e grega.

Diocese Ortodoxa Sérvia do Leste dos EUA

Bispo Dom Mitrófam
Baseado em  Pensilvânia, EUA

Missão Ortodoxa Sérvia no Brasil
Responsável, Padre Alexis
Baseado em Recife, Pernambuco

Igreja Ortodoxa da Polônia
Metropolita Savas I
Arquidiocese Ortodoxa Polonesa do Brasil

Missão Polonesa no Brasil
Arcebispo Dom Crisóstomo
Baseado no Rio de Janeiro, RJ



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Sermão de São Tikhon no Domingo do Triunfo da Ortodoxia


Sermão de São Tikhon no Domingo do Triunfo da Ortodoxia

São Tikhon foi bispo nos EUA no início do século XX e posteriormente patriarca de Moscou pouco antes da Revolução Comunista.


Neste domingo, irmãos, inicia-se a semana da Ortodoxia, ou a semana do Triunfo da Ortodoxia, assim chamada pois é neste dia que a Santa Igreja Ortodoxa solenemente relembra sua vitória sobre a heresia iconoclasta e outras heresias e, com gratidão, relembra todos os que lutaram pela fé Ortodoxa em palavras, escritos, ensinos, sofrimentos, ou com uma vida em Deus.

Ao mantermos o dia da Ortodoxia, os ortodoxos devemos lembrar que é nosso dever sagrado mantermo-nos firmes na fé ortodoxa e cuidadosamente mantê-la.

Para nós, é um precioso tesouro: nesta fé nascemos e fomos criados; todos os eventos importantes da nossa vida estão relacionados com ela, e ela está sempre pronta a nos ajudar e abençoar em todas as necessidades e boas iniciativas, por menores que pareçam ser. Ela nos dá forças, alegria e consolo; nos cura, purifica e nos salva.

A fé Ortodoxa também nos é querida porque é a Fé de nossos Pais. Por amor dela, os Apóstolos labutaram e suportaram dores; mártires e pregadores sofreram por ela, campeões, que eram como os santos, derramaram lágrimas e sangue; pastores e professores lutaram por ela, e nossos ancestrais a defenderam, e tal legado deveria ser para nós como a pupila de nossos olhos.

E quanto a nós, descendentes destes – preservamos a fé Ortodoxa? Somos fiéis aos seus Evangelhos? Desde milênios atrás, o profeta Elias, este grande trabalhador pela glória de Deus, denunciava que os Filhos de Israel haviam abandonado o Testamento do Senhor, afastando-se dele e chegando-se aos deuses dos pagãos. Ainda assim, o Senhor revelou ao Seu profeta que entre os israelitas ainda existiam sete mil pessoas que não haviam se ajoelhado perante Baal ( 3 Reis 19 LXX(1)). De forma parecida, sem dúvida, em nossos dias também existem alguns verdadeiros seguidores de Cristo. “O Senhor conhece os que são Seus.” (2 Tim 2.19)

Ocasionalmente encontramos os filhos da Igreja, aqueles que são obedientes aos Seus decretos, que honram seus pastores espirituais, que amam a Igreja de Deus e a beleza do seu exterior, que anseiam por atenderem à Divina Liturgia e levar uma vida boa, que reconhecem suas falhas humanas e sinceramente arrependem-se de seus pecados.

Mas existem muitos como estes entre nós? Não são em maior número aqueles, “em quem as sufocantes ervas daninhas da vaidade e da paixão permitem apenas pequenos frutos da influência dos Evangelhos, ou que são mesmo desprovidas de frutos, que resistem à verdade do Evangelho, por causa do aumento de seus pecados, que renunciam ao dom do Senhor e repudiam a Graça de Deus”.

‘Eu fiz nascer filhos e os glorifiquei, e mesmo assim eles Me renegam’ disse o Senhor nos dias antigos, a respeito de Israel. E hoje também existem muitos que o Senhor fez nascer, cuidou e glorificou na fé Ortodoxa, e mesmo assim negam sua fé, não prestam atenção aos ensinamentos da Igreja, não mantêm suas injunções, não escutam seus pastores espirituais e se mantêm frios no que se refere aos ofícios divinos e à Igreja de Deus.

Quão rapidamente alguns de nós perdem a fé Ortodoxa neste país de muitos credos e tribos! Eles começam sua apostasia com coisas que a seus olhos possuem pouca importância. Eles acham que é “antiquado” ou que “não é aceitável entre as pessoas cultas” observar costumes tais como: orar antes e depois das refeições, ou mesmo de manhã e à noite, usar uma cruz no pescoço, ter ícones em suas casas ou observar os dias santos da igreja e seus jejuns. E não param em tais coisas, mas vão além: raramente vão à igreja e algumas nem mesmo vão, já que o homem tem que descansar no domingo (em algum bar); eles não se confessam, não fazem questão de se casar na igreja e adiam o batizado de suas crianças.

E deste modo seus laços com a fé Ortodoxa são quebrados! Eles se lembram da Igreja no leito de morte, e alguns nem mesmo ali! Para desculpar sua apostasia eles ingenuamente dizem: ‘esta não é a nossa terra natal, aqui é a América, e portanto é impossível observar todas as exigências da Igreja’, como se a palavra de Cristo fosse apenas para a terra natal e não para o mundo todo. Como se a fé Ortodoxa não fosse a fundação do mundo!

“Ah, nação pecadora, um povo tomado pela iniquidade, uma semente de perpetradores do mal, crianças que são corruptoras: eles se esqueceram do Senhor, eles provocaram a ira do Santo de Israel’ (Is 1.4)

Se não conseguem preservar a fé Ortodoxa e os mandamentos de Deus, o mínimo que podem fazer é não humilharem seus corações inventando falsas desculpas para seus pecados!

Se não honram nossos costumes, o mínimo que podem fazer é não rir das coisas que não conhecem nem entendem.

Se não aceitam o cuidado maternal da Santa Igreja Ortodoxa, o mínimo que podem fazer é confessar que agem erroneamente, que estão pecando contra a Igreja e se comportando como crianças!

Se o fizerem, a Igreja Ortodoxa irá perdoá-los, como uma terna mãe, de sua frieza e fraqueza, e irá recebê-los de volta em seus braços, como filhos que erraram.

Apegando-se à fé Ortodoxa, como a algo santo, amando-a com todo o seu coração e dando-lhe o mais alto valor, cada Ortodoxo deve, além disso, esforçar-se para espalhar esta fé entre os povos de outras crenças.

Cristo, o Salvador, disse que “nem os homens acendem uma vela para colocá-la embaixo da mesa, mas sobre o candelabro, para que ela ilumine a todos que estão na casa.’ (S. Mt. 5:15)

A luz da Ortodoxia não foi acesa para brilhar apenas sobre um pequeno número de pessoas. A Igreja Ortodoxa é universal; ela se lembra das palavras de seu Fundador: “Vão ao mundo, e preguem o evangelho para todas as criaturas”(S. Lc. 16:15), “vão pois, e ensinem a todas as nações” (S. Mt. 28:19).

Temos que compartilhar nossa riqueza espiritual, nossa verdade, luz e alegria com os outros, que estão privados de tais bênçãos, mas normalmente estão buscando-as e sedentas por elas.

Certa feita, uma visão apareceu a Paulo de noite. Um homem da Macedônia o chamava dizendo, ‘venha para a Macedônia e nos ajude,’ (At. 16.9). Depois deste evento o apóstolo foi a este país apregoar a Cristo. Nós também ouvimos este convite. Nós vivemos cercados por pessoas de crenças diferentes; no mar de várias religiões, nossa Igreja é uma pequena ilha de salvação, na direção da qual alguns nadam, atirados ao mar da vida. ‘Venham, rápido, socorro!’, escutamos às vezes de pagãos em lugares tão longe quanto o Alasca, e mais frequentemente daqueles que são nossos irmãos em sangue e foram um dia nossos irmãos em fé, os Uniatas. ‘Recebe-nos em sua comunidade, nos dê um de seus bons pastores, nos envie um Padre para que tenhamos o Ofício Divino realizado nos dias santos, ajude-nos a construir uma igreja, a construir uma escola para nossos filhos, para que eles não percam na América sua fé e nacionalidade,’ estes são os pedidos que temos escutado, especialmente nos últimos dias.

E devemos nós permanecer surdos e insensíveis? Deus nos proteja contra tal falta de compaixão. Ou então ai de nós, ‘pois tomamos a chave do conhecimento e nem entramos nós, e nem deixamos entrar os que queriam.’ (S. Lc. 11:52).

Mas quem vai trabalhar pela expansão da fé Ortodoxa, para o crescimento dos filhos da Igreja Ortodoxa? O clero e missionários, você responde. Você está certo, mas estarão eles sozinhos?

S. Paulo sabiamente compara a Igreja de Cristo a um corpo, e a vida do corpo é compartilhada por seus membros. Assim deve ser na vida da Igreja também. ‘Do qual todo o corpo, bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor. ‘(Ef. 4:16)

No início, não apenas o clero sofria pela fé do Cristo, mas também os leigos, homens, mulheres e até crianças. Heresias foram combatidas por leigos também. Igualmente, a expansão da fé de Cristo deve ser algo próximo e querido ao coração de todo cristão. Neste trabalho todo membro da Igreja deve tomar parte com vivacidade e de coração. Este interesse pode se expressar na pregação pessoal do Evangelho de Cristo.

E para nossa alegria, sabemos de tais exemplos entre nossos irmãos leigos. Em Sitka, membros de uma irmandade missionária de índios fazem trabalho missionário com os outros habitantes de suas vilas. E um irmão zeloso viajou até uma vila distante (Kilisno), e ajudou bastante o padre local em proteger os filhos simples e crédulos da Igreja Ortodoxa contra influências exteriores, através de suas próprias explicações e argumentos. Além disso, em muitos lugares dos Estados Unidos, aqueles que deixaram o Uniatismo para juntar-se à Ortodoxia compartilham com seus amigos onde a verdade pode ser encontrada, e os predispõem a entrarem para a Igreja Ortodoxa.

Não é necessário dizer, não são todos entre nós que tem a oportunidade ou a capacidade de pregar o evangelho pessoalmente. E em vistas disto, eu os oriento, irmãos, que cada pessoa faça o que possa para expandir a Ortodoxia e essa é a medida do seu dever.

As Epístolas Apostólicas frequentemente mostram o fato de que quando os Apóstolos se dirigiam a lugares distantes para pregar, os fiéis normalmente os ajudavam com suas orações e ofertas. São Paulo buscou esta ajuda dos cristãos especialmente.

Consequentemente, podemos expressar o interesse que temos na causa do Evangelho orando ao Senhor,

que Ele tome esta santa causa sob Sua proteção,

que Ele dê aos seus servos a força para realizarem seu trabalho dignamente,

que Ele os ajude a conquistar as dificuldades e perigos, que são parte do trabalho,

que Ele não permita que se sintam deprimidos ou enfraqueçam em seu zelo,

que Ele abra os corações dos descrentes para ouvirem e a aceitarem o Evangelho de Cristo,

que Ele conceda a eles a palavra da verdade,

que Ele os una à Santa Igreja Católica e Apostólica;

que Ele confirme, aumente e pacifique Sua Igreja, mantendo-na para sempre invencível,


oramos por tudo isso, porém quase sempre com os lábios, mas raramente com o coração.

Não escutamos amiúde comentários como: ‘de que servem estas orações em particular pelos novos iniciados? Eles não existem em nosso tempo, exceto, talvez, em lugares distantes como as Américas e na Ásia; que orem por eles, onde eles existam; em nosso país tais orações apenas prolongam desnecessariamente o ofício, que já não é curto do jeito que é.’ Ai da nossa falta de sabedoria. Ai do nosso relaxamento e ociosidade!

Oferecendo orações sinceras para o sucesso da pregação de Cristo, nós também mostramos nosso interesse de ajudar materialmente. Era assim na Igreja primitiva, e os Apóstolos amavelmente aceitavam a ajuda material à causa da pregação, vendo nela uma expressão de amor e zelo cristãos.

Em nossos dias, estas ofertas são especialmente necessárias. Por falta delas, muitos trabalhos param no meio. Por falta delas, pregadores não podem ser enviados, ou apoiados, igrejas não podem ser construídas, nem escolas podem ser fundadas, e os necessitados entre os recém-convertidos não podem ser ajudados. Tudo isso necessita de dinheiro e membros de outras religiões sempre encontram um modo de provê-lo.

Talvez você diga que estas pessoas sejam mais ricas do que nós. É verdade, mas grandes recursos são acumulados por pequenos, e se todos entre nós derem o que puderem com tal objetivo, nós também poderemos angariar recursos consideráveis. Igualmente, não se envergonhem do pouco que seja sua oferta. Se você não possuir muito, ofereça o que puder,  mas por favor ofereça, não perca a chance de ajudar a causa da conversão dos seus próximos para Cristo, porque em fazendo-o, nas palavras de S.Tiago, ‘você salvará sua alma da morte e ocultará uma multidão de pecados’(S. Tg. 5:19-20).

Povo Ortodoxo! Celebrando o dia da Ortodoxia, vocês devem entregar-se a fé Ortodoxa não em palavra e língua apenas, mas em feitos e em verdade.

1 O livro 3 Reinos na versão Septuaginta do Antigo Testamento é paralelo ao livro 1 Reis da Bíblia Hebraica na qual muitas versões estão baseadas. Assim, o texto de 3 Reinos 19, pode ser encontrado em 1 Reis 19.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Encíclica Arquiepiscopal:Haiti

Arquidiocese Ortodoxa da América
www.goarch.org - communications@goarch.org


Contato:
Escritório de Imprensa
Stavros Papegermanos
pressoffice@goarch.org

Encíclica Arquiepiscopal
Protocolo 04/10

13 de janeiro de 2010

Ao Reverendíssimos Hierarcas, aos Reverendos Padres e Diáconos, aos Monges e Monjas, aos Presidentes e Membros dos Conselhos Paroquiais das Comunidades Ortodoxas Gregas, aos distintos Arcontes do Patriarcado Ecumênico, Instituições de Ensino Regular e Eclesiástico, Irmandades Filoptochos, à Juventude, às Organizações Helênicas e a toda a família Ortodoxa grega na América

Amados Irmãos e Irmãs em Cristo,

Foi com grande tristeza e compaixão que recebemos as trágicas notícias sobre o devastador terremoto que ontem atingiu o país do Haiti, causando destruição generalizada e a perda de incontáveis vidas. Milhares presumilvemente mortos e muitos mais perderam familiares, lares e empregos. A infraestrutura e as instituições da capital, Port-au-Prince, estão em ruínas.

Em resposta a esta tragédia, peço primeiro e antes de tudo, que os fiéis da Igreja Ortodoxa grega na América ofereçam suas orações pelo povo do Haiti. Que possamos auxiliá-los com nossas orações a encontrarem consolo nesta hora de amargura e dor, e que possam encontrar força e esperança nEle através da fé e através do ministério de amor e cura oferecido por todo o mundo. Além disso, que também possamos oferecer nossas orações pelos fiéis ortodoxos gregos e duas paróquias no Haiti que estão sob a liderança arquipastoral de Sua Eminênica Metropolita Atenágoras do México. Oramos pela sua segurança e bem estar, e por seu testemunho e serviço durante este tempo difícil.

Também peço que as paróquias de nossa Santa Arquidiocese conduzam uma coleta especial neste domingo, 17 de janeiro, como resposta de compaixão pelas necessidades do povo do Haiti. Este país e seu povo experimentaram numerosas tragédias e lutas, e este desastre natural aprofundou os desafios com a destruição de hospitais, escolas, igrejas e centros de assistência. Peço que as ofertas sejam enviadas para Arquidiocese marcadas para o "Fundo de Assistência Haiti".

Através das orações, doações e serviços, que possamos responde a esta tremenda crise, sabendo que nosso Senhor será fiel em trazer conforto e cura através de nosso testemunho de Seu amor.

Com amor paternal em Cristo,

+DEMÉTRIOS
Arcebispo da América

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Encíclica Patriarcal de Natal 2009

A Igreja Ortodoxa Sérvia
para seus filhos espirituais no Natal, 2009





+AMPHILOHIJE

Pela Graça de Deus,
o Metropolita Ortodoxo de Montenegro e da Costa, Locum Tenens do trono dos Patriarcas da Sérvia, com todos os Hierarcas da Igreja Ortodoxa Sérvia, para todo o clero, monásticos, e todos os filhos e filhas de nossa Santa Igreja: graça, misericórdia e paz de Deus, Pais e Nosso Senhor Jesus Cristo, e o Espírito Santo, com uma jubilosa saudação de Natal:

Paz de Deus! Cristo Nasceu!

Mais uma vez, este ano, queridos filhos espirituais, estamos perante o berço do Menino Deus, Jesus Cristo. O enorme mistério, além de qualquer compreensão, do nascimento de Deus, o Logos, deu-se em uma humilde caverna em Belém, a qual, daquele momento em diante por todos os tempos, tornou-se o centro do mundo – o centro da Glória de Deus e a fonte de conforto para todos os que buscaram a Deus ao longo da história humana.  O grande pai da Igreja, S. João Crisóstomo, quando falando da Festa da Natividade, diz: “Honrem, irmãos, os dias de festas, mas acima de todos, o dia da Natividade de Cristo, pois quem chamar o nascimento de Cristo a mãe de todas as festas, não cometerá erro...”. Da festa da Natividade de Nosso Senhor, todos os demais dias de festa emergem, como rios de suas nascentes. De acordo com o santo Crisóstomo, o nascimento de Cristo é uma nova criação do mundo, e a Encarnação de Deus, o Logos, é a pedra fundamental de tudo. Outro grande pai da Igreja, S. Gregório, o Teólogo, inicia a homilia da Natividade com esta doxologia (glorificação de Deus):

Cristo nasceu – vamos glorificá-lO!
Cristo veio dos céus – vamos dar-Lhe boas vindas!
Cristo está na terra – sejamos erguidos!
Cantai ao Senhor toda a terra!

E ele continua:

Que o povo que está na trevas da ignorância veja a grande luz do conhecimento de Deus. O velho passou – veja, tudo se tornou novo! A letra do Velho Testamento recua – o Espírito toma conta; as sombras desaparecem – a Verdade chega.

De acordo com a narrativa dos Santos Evangelistas, o Senhor Jesus Cristo nasceu no tempo do imperador romano Augusto, em Belém da Judéia, a cidade dos profetas e do Rei Davi, de cuja descendência, de acordo com as profecias dos profetas do Velho Testamento, nasceria o Messias prometido por Deus – o Salvador do mundo.

São Gregório Palamás, o teólogo da luz de Belém e do Tabor, em sua homilia da Natividade revela o profundo significado da vinda do Messias: “Com a encarnação e nascimento do Cristo-Messias no mundo, júbilo universal e paz foram concedidos ao mundo. Escutem o final da canção do anjo, o portador das boas novas e você perceberá – ele diz: “Glória a Deus nas alturas, e na terra paz e boa vontade entre os homens” (S. Lc. 2:14); pois Deus veio em carne para nos trazer Sua paz ao mundo e para reconciliá-lo com o Pai Altíssimo”. A paz de Cristo não é a mesma paz deste mundo. S. Gregório Palamás chama a paz do Natal de “espírito de adoção, porque aqueles que portam esta paz com fé tornam-se herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo” (Rom. 8:17). É por isso que, de acordo com este mesmo santo, apenas aqueles que vivem em amor uns com os outros, e que, de acordo com as palavras do Santo Apóstolo Paulo “toleram uns aos outros, e perdoam uns aos outro...assim como Cristo os perdôou”, vivem no mesmo Salvador e no espírito do Natal (cf. Col. 3:13).

O Deus distante e exaltado, Que no Velho Testamento conversou om Moisés no Monte Sinai (ver Ex. 3:5), com o nascimento de Cristo curvou-se dos céus e se tornou “Emmanuel”, o que significa, “Deu conosco” (S. Mat. 1:23), sem perder nada de divino. S. João de Damasco nos confirma isso quando ele fala da natividade de Cristo dizendo: “É por isto que não dizemos que Ele é um homem feito Deus, mas que Ele é Deus que Se fez homem: porque sendo Ele perfeito Deus por sua natureza, ele se tornou perfeito homem sem mudança de sua própria natureza e divina economia.”

O recém-revelado Pai Justino de Celije disse que “no Natal Deus, por seu amor imensurável, entrou na história, pela graça do Espírito Santo, encarnou-se da Sempre-Virgem Maria, a Teotokos, e tornou-se um homem real.” Deste modo, na Criança recém-nascida – o Menino Deus Jesus Cristo – recebemos todo abundante dom do Reino Celestial. Ele trouxe Consigo Verdade Eterna, Justiça Eterna e Vida Eterna, a qual, de acordo com S. Máximo o Confessor, nós experimentamos adiantadamente na vida e Liturgia da Igreja de Cristo. A festa do Natal dividiu toda a história da humanidade em duas partes – no tempo da espera e no tempo da salvação. A espera bíblica pelo Messias e Salvador já havia se iniciado com a promessa feita aos primeiros criados Adão e Eva(ver Gen. 3:15), e mais concretamente a nosso ancestral Abraão, a quem Deus prometera  que em seus descendentes todos os povos seriam abençoados (ver Gen 22:18), a qual foi concretizada precisamente pelo Nascimento do Homem-Deus, Jesus Cristo.

Todos os profetas do Velho Testamento apontam para o grande mistério do nascimento do Messias. Portanto, olhando o Velho Testamento com os olhos do Santo Apóstolo Paulo, podemos repetir com ele que o Velho Testamento é, todo ele, “nosso tutor para nos trazer a Cristo”, (Gal. 3:24), um instrutor que antes de Cristo apontou todas as almas que amam a Deus para a caverna de Belém. Por outro lado, os Três Magos do Oriente, que a Estrela cheia de graça de Belém levou ao local onde Cristo nascera, significa, de acordo com a interpretação dos Santos Padres, todo o mundo politeísta, o qual, através de sua filosofia dos homens (cf. Col. 2:8), não conseguia penetrar nas profundezas dos mistérios da Encarnação de Deus. Tanto para as almas que amam a Deus quanto para o  mundo politeísta, o anjo celestial revelou durante o Nascimento de Cristo, o grande mistério da salvação do mundo, dando as Boas Novas para os pastores de Belém e através deles para todos nós: “Não temam, mas contemplem, eu lhes trago novas de júbilo que são para todos os povos. Pois vos nasceu neste dia, na cidade de Davi, um Salvador, que é Cristo, o Senhor” (S. Lc. 2:10-11). Desde aquela proclamação de boas novas aos pastores de Belém até hoje em dia, o Nascimento de Cristo é o dia de festa da alegria terrena e celestial, na qual os anjos e os santos participam juntos, mas também toda alma que ama a Deus, iluminada pela luz de Belém. Como os Três Reis Magos do Oriente que vieram adorar o Menino-Deus Jesus Cristo, todos nós fomos chamados para adorá-lO também, e oferecer nossos dons ao Rei dos Céus (cf. S. Mt. 2:2). Não é todo bem de Deus que fizemos este ano nosso maior presente ao Menino-Deus? Se alimentamos os famintos, se saciamos os sedentos, e visitamos os doentes, ao fazê-lo não ofertamos nossos dons a Deus? Se glorificamos Deus com nossa vida, vivendo de forma santa e agradável a Deus, ao fazê-lo não oferecemos o ouro de nossas virtudes ao Menino Deus? Se amamos a Igreja de Deus e com diligência adornamos a Casa do Senhor, ao fazê-lo não oferecemos um sacrifício agradável a Deus? Se reconhecemos o sofrimento de nossos irmãos, e se os confortamos com nossos trabalhos, ao fazê-lo não foi ao próprio Cristo que o fizemos? (cf. S. Mt. 10:42).

Vejam, em retribuição ao Seu amor ilimitado, Cristo, o Menino-Deus, espera tais dons de nossa parte. É por isto que o Natal é também a festa antes da qual re-examinamos nossa fé e tudo que nós,  enquanto criaturas de Deus e filhos e filhas de Deus, somos chamados a fazer, como dizia tão frequentemente nosso Patriarca Pavle de abençoada memória.

Nesta época da Natividade estamos particularmente cheios de jubilosa tristeza, eis que nosso Patriarca Pavle nos deixou e foi da terra para o céu. Cremos profundamente que ele, de acordo com a liberdade que lhe foi dada por Deus, “com todos os santos de nossa nação” continua a oferecer suas orações por nossa Igreja e nosso povo crucificado, junto com São Savas, São Simeão, Vertedor de Mirra, e todos os nossos santos ancestrais que reconheceram e receberam o Patriarca Pavle “como um dos seus e seu igual”. Neste Natal, também lembramos todos aqueles que estão aflitos, os sofredores, os exilados, todos os injustiçados; queremos confortá-los com estas palavras: Cristo Nasceu! Alegrai-vos, pois contemplem, o Senhor vem para limpar todas as lágrimas humanas (ver Apocalipse 21:4).

Com Seu Nascimento na terra, Cristo santificou cada aspecto da vida humana – da concepção à morte e ressurreição. É por isto que a Natividade nos lembra de não levantarmos a mão contra o fruto de nossos ventres, mas, ao invés, vivermos de acordo com o mandamento de Deus: “Frutificai e multiplicai-vos; preencham toda a terra” (Gên. 1:28). Respeitando esta benção de Deus, as lágrimas de Raquel por nosso povo e por nossas crianças que não vivem mais (ver S. Mat. 2:18) iriam cessar, e a vida inextinguível que emerge na caverna de Belém iria florescer.

Nesta época do Natal, também estamos com nossos irmãos e irmãs do Kosovo e da Metohija – o berço de nosso povo. No amor de Cristo, pedimos a eles que retornem a seus lares  no Kosovo e para permanecerem lá para viverem com seus santos templos, salvaguardando nosso Kosovo, aquele “desafortunado lugar de julgamento”. Jamais percamos a esperança de que Deus irá iluminar as mentes daqueles a quem Ele deu o poder terreno e controle sobre os países e povos; que eles, no espírito da justiça divina e humana, reexaminem suas decisões injustas sobre o Kosovo e a Metohija. Apenas desta forma haverá paz e comunidade nos Bálcãs e a Europa se renovará, e a dignidade ferida do povo ortodoxo sérvio será restaurada. Também oramos para que o Recém-nascido Rei da Paz que erradique as guerras, a violência e a injustiça em toda parte do mundo, para que finalmente a paz e a justiça possam reinar entre os povos e nações.

Saudamos todo o nosso povo que ama a Deus, com a saudação de Belém, pedindo que preservemos a nossa fé ortodoxa, nossa língua e nosso alfabeto, qualquer que seja o continente onde vivamos. Nós, sérvios, somos uma nação cristã antiga, porque através do batismo por Cirilo e Metódio, e da iluminação por S. Sava, nós tornamos parte da cultura de todo o mundo cristão. Desta forma, deixamos uma marca indelével na história e civilização da Europa moderna e do mundo, associando-nos, de uma vez para sempre, ao seu futuro. A Natividade de Cristo sempre nos convoca a todos a viver o amor fraterno, no Amor de Deus e em humildade evangélica, vivendo do trabalho de nossas mãos e apegando-nos aos ensinamentos do Novo Testamento: que não façamos aos outros nada que não gostaríamos que fizessem a nós (cf. At. 15:29).

Resumindo este grande e inconcebível mistério da Natividade, São Gregório, o Teólogo, disse: “Este é nosso dia santo. É isto que celebramos hoje: a vinda de Deus à humanidade, para que pudéssemos ir a Deus; ou para dizer de forma mais adequada: para que pudéssemos retornar a Deus; para que pudéssemos despir-nos do velho homem e vestir o novo, e para que, assim como todos morremos em Adão, possamos vir à vida nova em Cristo, que possamos nascer novamente em Cristo, e ser crucificados com Ele, e sermos enterrados com Ele, e sermos ressuscitados com Ele.”

Concluindo nossa encíclica da Natividade com as palavras  deste divinamente sábio pai da Igreja, saudamos a todos vós, nossos queridos filhos espirituais, e saudamos todos os povos de todas as nações com a toda-jubilosa saudação de Belém e da paz:

A PAZ DE DEUS – CRISTO NASCEU!

Escrita no Patriarcado Sérvio em Belgrado, no Natal de 2009.
Vossos intercessores perante o berço do Divino Infante Cristo:

O locum tenens do trono dos  Patriarcas sérvios,
Metropolita de Montenegro e da Costa AMPHILOHIJE
Metropolita de Zagreb e Liubliana JOVAN
Metropolita de Libertyville-Chicago CHRISTOPHER
Metropolita de Dabro-Bosna NIKOLAJ
Bispo de  Savas-Valievo LAVRENTIJE
Bispo de  Nis IRINEJ
Bispo de Zvornik-Tuzla VASILIJE
Bispo da Sírmia VASILIJE
Bispo de  Bania Luka JEFREM
Bispo de  Budim LUKIJAN
Bispo do  Canadá GEORGIJE
Bispo de  Banat NIKANOR
Bispo de  New Gracanica-Centro-Oeste dos EUA LONGIN
Bispo do  Leste dos EUA MITROPHAN
Bispo de  Zica CHRYSOSTOM
Bispo de  Backa IRINEJ
Bispo da Grã-Bretanha e Escandinávia DOSITEJ
Bispo de  Ras e Prizren ARTEMIJE
Bispo de  Bihac e Petrovac CHRYSOSTOM
Bispo d  Osijek e Baranja LUKIJAN
Bispo da Europa Central CONSTANTINE
Bispo da Europa Ocidental LUKA
Bispo de  Timok JUSTIN
Bispo de  Vranje PAHOMIJE
Bispo de  Sumadija JOVAN
Bispo da  Eslavônia SAVA
Bispo de  Branicevo IGNATIJE
Bispo de  Milesevo FILARET
Bispo da  Dalmácia FOTIJE
Bispo de  Budimlie e Niksic JOANIKIJE
Bispo de  Zahúmlia e Herzegovina GRIGORIJE
Bispo d  Valievo MILUTIN
Bispo do Oeste dos EUA MAXIM
Bispo de  Gornii Karlovci GERASIM
Bispo da  Austrália e Nova Zelândia IRINEJ
Bispo aposentado de  Zahúmlia e Herzegovina ATANASIJE
Bispo Auxiliar de  Hvosno ATANASIJE
Bispo Auxiliar de  Jegar PORFIRIJE
Bispo Auxiliar de  Liplian TEODOSIJE
Bispo Auxiliar de  Dioclea JOVAN
Bispo Auxiliar de  Moravica ANTONIJE
A ARQUIDIOCESE DE OCHRID
Arcebispo de Ochrid e Metropolita de Skoplje JOVAN
Bispo de  Polos e Kumanovo JOAKIM
Bispo de  Bregal e locum tenens of the Diocese of Bitolj MARKO
Bispo Auxiliar de  Stobija DAVID                                                                                      

Tradução: Fabio L. Leite