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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O Que A Igreja Ortodoxa Não É - Parte 02/11

Carlos Magno, Criador do Sacro Império Franco-Germânico

por Sua Eminência Jeremias (Foundas) de Gortyna e Megalópolis (Grécia)

Não Para a Terminologia dos Franco-Latinos
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Para começar, sinto que é necessário escrever umas poucas palavras sobre os franco-latinos, cuja teologia é completamente oposta à nossa; e esse é precisamente nosso tópico aqui (3). O Império Romano Cristão unificado costumava ser conhecido na sua integridade sob o nome de "Romania" (=Terra dos Romanos), e estava organizado em setores ocidentais e orientais. Roma, a capital do Império, pertencia ao setor ocidental embora fosse melhor que estivesse no oriental. Por essa razão mesmo, Constantino, o Grande, transferiu a capital para a cidade de Bizâncio e renomeou-a Nova Roma. Porém, ela acabou sendo chamada pelo nome dele ficou conhecida como "Constantinopla" (= Cidade do Constantino).

Tanto os setores ocidentais quanto orientais do Império Romano Cristão Unido (isto é, a România) tinham inimigos. Para o ocidental, que é de nosso interesse no momento, os principais inimigos eram os francos, povos bárbaros e incivilizados. Eventualmente, os francos conseguiram subjugar o setor ocidental do império e com o fim de passarem como os verdadeiros sucessores desse Império Romano, eles se renomearam romanos; equanto isso, os romanos, ou romíos(*), somos exclusivamente nós ortodoxos e assim deveríamos ser chamados. Por essa razão devemos garantir, com grande cuidado, que seja evitado chamarmos os francos de "romanos", ou pior, chamar sua confissão de "Igreja Católica Romana"!)

Com o objetivo de alijar completamente os romanos conquistados no setor ocidental de seus irmãos ortodoxos no setor oriental, os francos buscaram um nome calunioso com o qual ofender os romanos orientais. Eles os chamavam de "gregos", que, naquela época significava "impostor"(**). E mais tarde, os francos os chamaram de "bizantinos", enquanto os antigos e positivos nomes de "romano" e "romíos", que eram usados para se referir aos ortodoxos ocidentais e orientais respectivamente no império unido, foram usurpados pelos francos para eles mesmos e aqueles por eles subjugados. Mas depois de conquistarem o setor ocidental do império, se deram conta que para ter completa soberania sobre o ocidente teriam que de alguma forma subjugar a Igreja e fazer de sua própria teologia a norma no ocidente. Mas tinham os francos uma teologia própria para dar? No século 8, os francos já tinham recebido a teologia existente do Abençoado Agostinho, o qual, como o Pe. John Romanides nos informa, e iremos provar no presente estudo, "essencialmente ignorava a teologia patrística e suas pressuposições". Os francos conseguiram, no fim subjugar a Igreja dos cristãos ortodoxos ocidentais no século 11 (1014-1046 DC) e impor sobre eles sua própria teologia agostiniana, a qual, porém, não expressa a tradição patrística.

Chamaremos os hereges francos de francos: nem romanos, nem católicos, pois Católicos e Romanos somos nós, os Ortodoxos. Porque os francos receberam o latim como sua língua teológica e eclesiástica, eles desejavam ser conhecidos como "latinos"; por essa razão os chamaremos de "franco-latinos". Mas não devemos confundir por causa disso a tradição patrística escrita em latim, com a tradição franca. Não rejeitamos os Santos Pais que escreveram em Latim, nem faremos a distinção equivocada entre Pais Latinos e Gregos. Aceitamos os Pais Ortodoxos Romíos, alguns dos quais escreveram na língua grega e outros na língua latina. 

Tendo clarificado tais coisas, podemos continuar.

(*) Da palavra helênica para "romano,a" que é"rhomaios" (m.) ou "rhomaia (f.), também pronunciada como "rhomios" (m.) e "rhomia" (f.), depois da queda do império em 1453, os termos "romios" e "romanos" era usados como sinônimos entre as populações do setor oriental do império caído.



(**) Junto com o termo "heleno", durante a Idade Média, "grego", significava também "pagão", sendo portanto uma forma de descaracterização de povos cristãos. (NT)



3. Para esse assunto cf. o livro do Metropolita de Nafpaktos, Sua Eminência Hierotheos "Born and Raised Romans"; o livro do professor Pe. John Romanides "Romanity and Romans or Roman Fathers of the Church" p. 57 ff, assim como os importantes trabalhos relacionados do Professor Pe. George Metallinos. Veja também nosso artigo sobre a expressão "Igreja Católica Romana" encontrado em nosso periódico "Catequese Ortodoxa" número 01.



4. Também "a distinção histórica correta do Cristianismo não é entre Latinos e Gregos, mas entre Francos e Romanos, ou entre a Francocacia e a Romanidade. Todos os Pais Romanos de língua helênica e latina (com exceção de Agostinho) pertencem à Romanidade, à tradição teológica romana, que é claramente distinta da tradição teológica franco-agostiniana" (Pe. John Romanides em seu livro "Romans or Roman Fathers of the Church" p. 58 e p. 67)

O Que A Igreja Ortodoxa Não É - Parte 01/11


por Sua Eminência Jeremias (Foundas) de Gortyna e Megalópolis (Grécia)

O Estudo Correto dos Santos Pais Demonstra o Que a Igreja É
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Começarei minha fala com os Santos Pais primeiro. Nós, os ortodoxos, temos Pais, e glorificamos nosso Deus como "Deus de nossos Pais". Toda reunião (sinaxis) de adoração assim como nossas orações pessoais, todas terminam com "Pelas orações de nossos Santos Pais". Muitos anos se passaram desde que o slogan "retorno aos Pais" foi primeiramente criado; e muitos estudos e projetos patrísticos ocorreram desde então e continuam a acontecer. Entretanto, a compreensão profunda dos Pais só é alcançada por aqueles que seguem o método e modo de vida desses Santos Pais em suas vidas. E isso tem lógica: o santo compreende o Santo. Não é possível compreender as experiências e teologia dos Santos Pais através de métodos científicos, porque suas vidas portadoras de Deus (assim como as teóptias* dos Santos Pais e a teologia que emana deles), transcendem os potenciais da lógica e da ciência, e por esse motivo não pertencem ao campo do estudo científico. Nem podemos interpretar os Santos Pais com a ajuda da psicologia, pois a teósis, o estado existencial em que os Santos Pais viviam, não é nem física nem contra a natureza, para que a psicologia tenha relevância, mas é um estado sobrenatural do ser humano. Por isso, repetimos que um conhecimento profundo dos Pais só é alcançado por aqueles que vivem como os Santos Pais viveram e possui vivência das experiências daquele modo de vida. São muito belas as palavras do sempre memorável professor e grande teólogo de nosso século Pe. John Romanides:

"Teósis (deificação ou glorificação) ou Teoria Divina (Contemplação Divina) é uma energia incriada de Deus, transcedendo todos os categoremas criados, na qual apenas os cheios de graça Profetas, Apóstolos e Santos tomam parte. Apenas aqueles que passam por essa experiência que analisamos é entendido por outro tendo a mesma experiência e nunca por qualquer outra pessoa, particularmente heterodoxos ou alguém que não possui um conhecimento interior da teologia bíblica-patrística da vida mística da Igreja em Cristo" (1)

Mesmo assim, os heterodoxos também conduzem estudos patrísticos e de fato acreditam que podem compreender profundamente a tradição patrística e até melhor do que os que nela foram iniciados, ou seja, nós ortodoxos. Isso é causado pela percepção orgulhosa dos franco-latinos de que o intelectual pode, através de sua poderosa lógica e erudição, penetrar os meandros da tradição patrística e compreende-la totalmente, mesmo se ele for exterior a ela. O problema é que essa arrogância dos intelectuais ocidentais também persiste em alguns círculos ortodoxos, com o resultado de não mantermos entre nós uma correta compreensão dos Pais, por não mantermos as pressuposições espirituais corretas dentro de nós, isto é, realizarmos a batalha pela limpeza do coração de suas paixões e da chegada da Graça do Espírito Santo dentro dele. Em outras palavras, realizamos estudos teológicos sem primeiro termos realizado a pressuposição patrística de limparmos nossos corações de nossas paixões.

Os acadêmicos heterodoxos que estudam os Pais têm pressuposições gravemente errôneas em seus estudos; são pressuposições teológicas e filosóficas estranhas à teologia bíblica-patrística dos Sínodos Ecumênicos. Por essa razão, não são capazes de realizar uma apresentação correta de nossos Santos Pais. Não nos impressionemos nem um pouco por seus estudos patrísticos porque são, repetimos, errôneos, pois estudam os Pais segundo o modo de análise do Abençoado Agostinho. O Pe. Romanides nos diz:

"Quando os francos finalmente adquiriram uma certa familiaridade com os textos patrísticos helenísticos, eles submeteram a teologia patrística aos categoremas da teologia agostiniana, exatamente como fizeram no século 13 com a filosofia aristotélica. Assim vemos os trabalhos dos Pais Romanos de língua helênica traduzidos para o latim sob o prisma de Agostinho" (2)

(*) Significados de "teoptia":

(a) a teologia inerrante e mística daqueles que alcançaram teoptia (a "visão" de Deus), que falam de sua experiência pessoal e comunhão com Deus,

(b) a teologia amante da sabedoria daqueles que não têm nenhuma experiência pessoal da teoptia, mas que humildemente aceitam as experiências e as teoptias daqueles que a atingiram, e teologizam de acordo com eles, e

(c) a teologia moderna (recém-descoberta e inovadora) de teólogos insolentes que teologizam dialeticamente, na base de seus próprios princípios filosóficos e que rejeitam as experiências dos santos.

(1) Pe. John Romanides no seu livro "Romans or Roman Fathers of the Church", p.52

(2) Ibid., p. 55-56. p. 104

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Como discernir as verdadeiras experiências da Graça de Deus das falsas - Parte 01/02


Trecho da transcrição da palestra do Abade Arquimandrita George do Santo Mosteiro de São Gregório da Montanha Santa em Stratoni de Halkidiki, em 14 de janeiro de 1989, por convite do Reverendíssimo Nicodemus, Metropolita de Hierissou, da Montanha Santa e Ardameri. 

Original na revista "São Gregório" do Santo Mosteiro de São Gregório, da Montanha Santa

Fonte: http://www.impantokratoros.gr/2D843221.en.aspx

Tradução: Lr. Fabio L. Leite


Formas de Experiência da Graça de Deus

Quais são as experiências da graça que um cristão pode receber de forma que sua fé e vida cristã não sejam para ele algo mental e externo, mas um verdadeiro sentimento espiritual de Deus, uma comunhão com Deus, uma habitação de Deus na qual todo o seu ser participa?

É primeiro e antes de tudo uma informação interior de que através da fé em Deus, ele encontrará o verdadeiro significado da vida. Ele sente que sua fé em Cristo é uma fé que o conforta internamente; que ela dá sentido à sua vida, e o guia, que é uma luz forte que o ilumina. Quando ele percebe dessa forma a fé cristã em si, ele começa a viver a graça de Deus. Deus não é algo externo a ele.

Outra experiência da graça de Deus é recebida pelo homem quando ele ouve em seus coração o convite de Deus para arrepender-se de suas ações pecadoras e tenebrosas, para retornar ao modo cristão de vida, para confessar, para entrar no caminho que leva a Deus. Essa voz de Deus que ele ouve dentro de si é uma experiência preliminar da graça de Deus. Todos os anos que vivemos longe de Deus são anos em que não temos como entender nada.

Ele começa a se arrepender, ele confessa com seu confessor pela primeira vez na vida. Depois da confissão, ele sente uma grande paz e alegria como nunca sentiu antes. Então ele diz "Eu fui confortado". Esse consolo é a visitação da graça divina em uma alma que se arrependeu e que Deus deseja confortar.

As lágrimas de arrependimento de um cristão quando ele começa a orar e pede perdão a Deus ou quando ele confessa são lágrimas de contrição. São lágrimas muito confortadoras. Elas trazem muita paz à alma do homem. A pessoa sente então que elas são um dom e uma experiência da graça divina.

Quão mais profundo o arrependimento do homem, mais profundo será seu amor por Deus e rezará com um eros divino, quando então suas lágrimas de arrependimento tornam-se lágrimas de alegria, lágrimas de amor e de eros divino. As lágrimas que estão acima e além das lágrimas de arrependimento são também prova de uma visitação e experiência mais nobre da graça de Deus.

Nos aproximamos para comungar o Corpo e o Sangue de Cristo tendo arrependimento, confessado e com preparação espiritual através do jejum. Depois de receber a Santa Comunhão como nos sentimos? Profunda paz em nossa alma, e alegria espiritual. Também isso é uma visitação da graça divina e uma experiência de Deus.

Existem, porém, outras experiências ainda maiores de Deus. A experiência suprema de Deus é a visão da Luz Incriada. Foi essa luz que os discípulos do Senhor viram no Monte da Transfiguração. Eles viram Cristo brilhar como o sol, com uma intensa e divina luz, a qual não era uma luz material, criada, como a do sol ou de outras fontes luminosas da criação. Era a Luz Incriada, mais precisamente a Luz de Deus, a Luz da Santa Trindade. Aqueles que estão completamente limpos das paixões e pecados, e que oram com sinceridade e uma oração limpa, são os que são considerados dignos dessa grande experiência de ver a Luz de Deus ainda nesta vida. Essa é a Luz que irá brilhar na vida eterna. Eles não apenas a vêem desde já, mas também são eles mesmos vistos nessa Luz desde agora, pois essa Luz cobre os Santos. Não a vemos com nossos olhos, mas os de coração puro e os santos a vêem. O halo luminoso que é pintado ao redor da cabeça dos santos é a Luz da Santa Trindade que os iluminou e os santificou.

Na vida de São Basílio Magno, lemos que enquanto ele estava orando em sua cela, ele podia ser visto completamente envolto na Luz, e a cela inteiramente inundada pela Luz Incriada. Vemos a mesma coisa nas vidas de muitos santos.

Portanto, alguém ser considerado digno de ver a Luz Incriada, é ter uma das maiores experiências concedidas por Deus e não é dada a todos, mas a bem poucos - apenas àqueles que progrediram na vida espiritual. De acordo com Pai Isaac, em cada geração apenas uma pessoa, se tanto, chega a ver a Luz Incriada. Mesmo assim, até em nossos dias há cristãos considerados dignos dessa experiência única de Deus.

Claro que precisamos enfatizar que não basta ter visto alguma Luz para que realmente a pessoa tenha visto a Luz Incriada. O demônio pode enganar essas pessoas, e mostrar-lhes outras luzes - demoníacas ou psicológicas - enganando-os a crer que se trata da Luz Incriada, quando não é. Por essa razão, todo cristão que ouve alguma coisa, ou tem alguma experiência, não deve aceitá-la imediatamente como se viesse de Deus, porque ele pode estar sendo enganado pelo demônio. Ele deve confessar a experiência ao seu confessor que então irá dizer-lhe se é de Deus ou um engano dos demônios. É necessário muito cuidado em tais casos.

Identificando uma experiência pura da graça de Deus

Vamos examinar agora as condições que podem garantir se as diferentes experiências que temos são genuínas ou falsas.

A primeira condição é que devemos ser pessoas de arrependimento. Se não nos arrependemos de nossos pecados e nos limpamos de nossas paixões, não é possível que estejamos vendo Deus. Como o Senhor diz em suas bem-aventuranças, "Bem-aventurados os puros de coração pois eles verão a Deus". Quanto mais a pessoa purifica-se de suas paixões, se arrepende e retorna a Deus, mais ela sentirá e verá Deus.

Tentar alcançar essas experiências de Deus através de métodos e meios artificiais - como é feito no Hinduísmo, Yoga, etc, é um erro. Essas experiências não vem de Deus. São experiências alcançadas por meios psicológicos.

Os Santos Padres nos dizem: "Dê seu sangue para receber o espírito". Em outras palavras, se você não der o sangue do seu coração com seu arrependimento, oração, jejum, asceticismo, você não receberá a graça do Espírito Santo. As verdadeiras experiências espirituais são dadas aos que, por humildade, não pedem experiências espirituais mas pedem a Deus por arrependimento e salvação, são dadas aos que são humildes e dizem, "Meu Deus, não sou digno de receber a visitação da Tua graça, da Tua consolação celestial e divina, dos prazeres espirituais". Entretanto, aos que orgulhosamente pedem a Deus para lhes dar experiências, Ele não as concederá, devido ao orgulho delas. Assim, a segunda condição é humildade.

A terceira condição para receber uma verdadeira experiência espiritual é estarmos no seio da Igreja. Não fora da Igreja, porque fora dela o demônio irá nos enganar. Quando uma ovelha separa-se do rebanho, ela é devorada pelos lobos. Dentro do rebanho há segurança. O cristão só está seguro dentro da Igreja. Entretanto, quando ele abandona a Igreja, ele se expõe aos seus próprios enganos, aos enganos de outras pessoas e aos enganos do demônio. Temos incontáveis exemplos de muitas pessoas que não deram atenção à Igreja e ao seu estado espiritual e no fim caíram vítimas do engano. Elas até acreditavam terem visto Deus, ou que receberam visitações de Deus quando na verade as experiências que tiveram eram demoníacas e destrutivas. Também ajuda muitíssimo oferecer orações puras e fervorosas. A verdade é que é durante as horas de prece que Deus concede a maioria das experiências espirituais aos homens, e é por isso que os que oram amorosamente com zelo e paciência, recebem os dons do Espírito Santo e sentem a graça de Deus.

Como você talvez saiba, existe uma oração que rezamos na Montanha Santa e que você também rezar: "Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim, um(a) pecador(a)". Essa oração que se caracteriza por ser noética, sincera, incessante quando é dita com humildade, amor e persistência, traz ao coração do homem um sentimento da graça de Deus.

domingo, 16 de agosto de 2015

"Um Grande Sinal" (Apo 12:1) - Homilia sobre a Dormição da Teotókos


Por Pe. Matthew Baker
Tradução: Lr. Fabio Lins Leite

Hoje celebramos uma grandiosa e alegre solenidade: a dormição da Mãe de Deus em Jerusalém, e seu translado corporal em glória.

"A Plenitude do Mistério da Economia"

As leituras deste dia - de Gênesis, Ezequiel, e Provérbios - nos apresentam com uma série de imagens, todos com referências à Teotókos. Ela é a escada que ascende da terra ao céu, vista pelo patriarca Jacó em sua visão (Gen, 28:12). Ela é Beth-el, a casa de Deus, e os portões do céu (Gên. 28:17). Ela é o portão oriental do santuário do Templo, que permanece fechado - virginal: nenhum homem passa ali, "pois o Senhor, o Deus de Israel, passou por ele", como Ezequiel profetizou (Ez. 44:2). Ela é sabedoria, ou a casa da sabedoria, da qual o rei Salomão fala (Prov. 9:1).

Essas leituras - de Gênesis, Ezequiel e Provérbios - representam as 3 divisões da Bíblia judaica: o Torah, Profetas e Escritos. Juntos, formam um "bouquet" representando todo o que nós chamamos de Velho Testamento. É como se disséssemos: Maria é o resultado para o qual toda a história de Israel estava apontando desde sempre. Ela é a filha de Sião, o ponto de virada da história da salvação. Nela se inicia a Nova Aliança.

Nas palavras de S. João de Damasco, "no nome da Teotókos está contida a plenitude do mistério da economia. "Economia", do grego oikonomia, como ouvimos em nossos hinos, refere-se à administração que Deus faz de sua "casa", sua governança da criação e da história de acordo com seu plano para nossa salvação e glorificação. Existe uma lógica no plano de Deus, e uma unidade de sentido. Essa unidade é revelada na pessoa da Virgem Santa.

O papel de Maria nessa economia, sua identidade como "Mãe", não termina com o seu parto ou depois de Jesus ter crescido. Não a vemos apenas na Anunciação e nascimento de Jesus, mas também em Seu primeiro milagre em Canã, ao pé da Cruz e com a Igreja no Pentecostes. Como S. João de Damasco disse, "a plenitude da economia".

No ciclo de festas de nosso ano litúrgico, que começa no dia 1 de setembro, a primeira grande festa é o nascimento da Teotókos, em 8 de setembro. A última grande festa é hoje, sua dormição e assunção corporal ao céu. Nossa memória litúrgica do trabalho de salvação de Cristo começa e termina com Maria. Nós começamos com seu nascimento, terminamos com sua glorificação. "No nome da Teotókos está contido todo o mistério da economia".

Uma Mulher vestida de Sol

No fim de sua vida, no exílio na ilha de Patmos, o Apóstolo João teve uma visão. "Um grande sinal apareceu no céu: uma mulher vestida de sol, com a lua sob seus pés e uma coroa de doze estrelas na sua cabeça" (Rev. 12:1). A maioria dos comentaristas fala desta imagem do livro do Apocalipse como se referindo à Igreja, ou aos sobrantes de Israel. Alguns, porém, vêem uma imagem de Maria, especialmente já que ela é a filha de Sião, e tipifica a Igreja. Alguns vêem mesmo a imagem de sua assunção corpórea.

"Um grande sinal apareceu no céu: uma mulher vestida de sol" (Apo. 12:1). No "translado" corporal da Virgem, a Igreja reconhece um "grande sinal". Um sinal profético, que fala de nosso destino do significado da morte, de corpos, de relações humanas.

Esse sinal nos diz: a morte não é o fim do ser humano. Não somos apenas, como o filósofo Heidegger pensou, "seres-para-a-morte". O tempo finito e a morte não são nosso horizonte final. A mãe de Jesus foi "transladada para a vida".

Esse sinal nos diz: um "céu" de seres puramente espirituais não é o nosso estado final. Cristãos não são platonistas. O corpo não é a prisão da alma, um casulo para ser deixado para trás enquanto nosso "verdadeiro eu" emerge como uma borboleta. Platão estava errado: nosso verdadeiro eu, como Deus o desejou, não é apenas alma, mas também corpo. A salvação da pessoa significa também a salvação do corpo.

Esse sinal nos diz: através da ressurreição de Jesus, cada um de nós irá ressuscitar também em nosso próprio corpo, restaurado, conforme ele foi concebido no útero de nossa mãe, como homem ou mulher. E um grande sinal apareceu no céu: uma mulher vestida de sol (Rev. 12:1). Ressuscitada em glória, Maria ainda é uma mulher.

Alguns antigos hereges, chamados gnósticos, acreditavam que o aqui e o agora era algo que tínhamos que superar: no reino do céu, não haveria homem ou mulher, ou talvez todas as mulheres "evoluíssem" para se tornarem homens (de acordo com o pseudo-Evangelho de São Tomé, logion 114). Esses gnósticos desprezavam o casamento, e especialmente a procriação. Eles buscavam libertar-se dos laços da natureza.

Ainda temos nossos gnósticos hoje. Nossos gnósticos gostariam que pensássemos que homem e mulher, mãe e pai, são identidades fluidas, intercambiáveis: não o desenho bom e definitivo do Criador,  mas invenções da sociedade, ou auto-construções plásticas.

Mas hoje a  Igreja nos pede que guardemos uma visão diferente. É um sinal de nossa época, "um sinal de contradição" (Lc. 2:34). "Fostes transladada para a vida, Ó Mãe de Deus". Esse sinal nos diz: ressuscitada em glória, Maria ainda é mãe. Na glorificação corporal de Maria, recebemos uma imagem, uma parcela, da glória do Reino que temos esperança de herdar. É uma glória totalmente corpórea, onde a beleza da diferença conforme criada se preserva. Uma glória onde laços naturais de amor nunca se dissolvem. Uma glória na qual cada um de nós continuará sendo mãe ou pai, e filho ou filha, de alguém. E para todos os que, como o discípulo mado, descançaram sua cabeça no peito do Senhor, ou ficaram ao pé da Sua cruz em oração, Cristo dirá: "Filho, eis aí tua Mãe" (Jo. 19:27).

Não existe nenhuma pessoa humana mais exaltada que a Virgem Maria, a Panaguía. E não há título maior para ela em nosso vocabulário teológico do que "Mãe". Isso deveria nos dizer alguma coisa. Essa palavra, "mãe", se estende muito além do parto físico. A palavra "mãe" nomeia uma preocupação humana abrangente, um laço espiritual, um chamado de Deus. A maternidade espiritual, além da relação de sangue, é um dom e um chamado de toda mulher: casada ou não; tenha dado à luz a muitos, um ou nenhum filho. É um dom, que cada um de nós - toda a humanidade - recebemos como benção e benefício.  Esse é um excelente dom de nosso Criador, não uma invenção nossa. E como a festa de hoje nos lembra, não termina com a morte.

terça-feira, 23 de junho de 2015

O Império Bizantino e a Península Ibérica


Um dos mais ambiciosos planos do Imperador Justiniano (527-565) era resgatar a Península Ibérica dos Visigodos e dos Suevos, a Itália dos Ostrogodos, e a África dos Vândalos; o Imperador Heráclios (610-41) é que finalmente desistiria de todo o plano. As relações entre o oriente grego e a Ibéria eram multifacetadas e íntimas, especialmente durante o século VI (01). Surpreendentemente, não foi na Espanha Visigótico-Bizantina, mas no distante noroeste da Península, habitada pelos Suevos(NT02), que ocorreu tradução de literatura. Ao mesmo tempo, ou pouco depois, foram compostas ali traduções dos Apopthegmata e compilações similares, por ordem do Apóstolo dos Suevos, Martinho de Braga (d.ca. 580). Um certo Paschasius traduziu partes de um codex chamado Vitas Patrum Grecorum que lhe fora dado com esse mesmo exato propósito. A tradução ficou conhecida como Liber Geronticon (02). O próprio Martinho, que havia morado na Palestina antes de fundar o mosteiro de Dume entre os Suevos e se tornar arcebispo na cidade real sueva de Braga, traduziu uma coleção chamada de Setentiae Patrum Aegyptiorum. Também é-lhe atribuída uma coleção de cânones gregos.

Na segunda metade do sétimo século, quando o reino suevo foi incorporado à monarquia visigótica, o Abade Valerius de Bierzo produziu na Galícia uma edição do Vitas Patrum, a qual continha traduções de vidas de santos gregos; não é claro se eram o trabalho da escola de tradutores galegos fundada por Martinho de Braga ou se vinha da Itália.(03)

A população católico-românica e os godos arianos do reino visigótico reconciliaram-se com o Bispo Leandro de Sevilha (578-99), que viera da cidade bizantina de Cartágena (NT03). O sucessor no bispado de Sevilha foi o irmão mais novo de Leandro, Isidoro (599-636), que, no fim das contas, tornou-se o mais famoso autor latino da Espanha.

Seu curto tratado, De ortu et obitu patrum (Migne PL 83, cols. 129-59) contém um núcleo com vidas de profetas, traduzido do grego, dentro de uma série de oitenta e seis rascunhos biográficos de figuras do Antigo e Novo Testamentos; ver Τ. Schermann, Prophetarum vitae fabulosae(Leipzig 1907), and Propheten- und Apostellegenden nebst Jüngerkatalogen des Dorotheus und verwandter Texte, TU 31/g (Leipzig 1907); Α Vaccari, "Una fonte del 'de ortu et obitu Patrum' di S. Isidoro," in Miscellanea Isidoriana (Rome 1936), pp. 165-75.

O principal trabalho de Isidoro é o Etymologiae (Orígenes), o qual serviu o Ocidente por séculos. Como um segundo Varro, ele tentou, em vinte livros curtos, resumir conceitualmente o trivium, o quadrivium, a medicina, o direito, a teologia, a história, a filosofia, a zoologia, a geografia, a produção de livros, a arquitetura, a mineralogia, a metalurgia, a agricultura, questões militares, jogos públicos e privados, construção de navios, e outras áreas de conhecimento e tecnologia. Como geralmente era o caso na antiguidade, o conhecimento transmitido por Isidoro era primariamente grego, via intermediários latinos dos quais ele obtinha essas informações. Vários dados gregos foram preservados nos trabalhos de Isidoro. Ele utiliza palavras gregas, que são escritas em alfabeto grego e incorporadas ao texto latino de acordo com a prática antiga (04). O alfabeto grego é explicado historicamente - segundo os modelos antigos - no início das obras. Além disso ele inclui a importante doutrina da litterae mysticae, que era típica da avaliação medieval do grego: (05)

Cadmus, o filho de Agenor, primeiramente trouxe dezessete letras gregas para a Grécia desde a Fenícia: Α Β Γ Δ Ε Ζ 1 Κ Λ Μ Ν Ο Π Ρ C T Φ. Palamedes acrescentou três mais durante a Guerra de Tróia: Η Χ Ω. Depois, o poeta lírico Simonides acrescentou mais três letras: Ψ Ξ Θ. Pitágoras de Samos primeiramente desenvolveu a letra Y tendo como modelo a vida humana: o traço de baixo significa os anos da infância, ainda incertos, e que não se entregaram ainda ao vício ou virtude. A bifurcação, porém, inicia-se na adolescência: seu braço direito é abrupto, mas leva a uma vida abençoada; o esquerdo é mais fácil e leva ao desastre e à destruição. Persius diz sobre essa letra: "E a letra que estende os braços samianos, revela a trilha ascendente na mão direita" [III 56].

Os gregos possuem cinco letras de mistério. A primeira é o Y, a qual significa a vida humana, e da qual acabamos de falar. A segunda é o Θ, que significa morte, posto que juízes colocam-na ao lado dos nomes daqueles que condenam à pena de morte. E theta significa ΑΠΟ ΤΟΥ ΘΑΝΑΤΟΥ, i.e. "da morte". Por essa razão, ela também possui um cabo no meio, que é o símbolo da morte. Já foi dito: "Theta, és a mais desgraçada das letras". A terceira, T, significa a cruz do Senhor; por isso é traduzida para o hebraico como "sinal". Sobre essa letra, é dito ao anjo em Ezequiel (9:4): "Vá ao centro de Jerusalém e trace um tau na fronte dos homens que lamentam e suspiram". As duas letras restantes são o Α e o Ω , que foram reclamadas como primeira e última pelo próprio Cristo, pois Ele mesmo diz: "Eu sou o Alfa e o Ômega". Quando essas duas letras movem-se uma para a outra, A move-se para o Ω e o Ω, por sua vez, move-se para o A; de forma que o Senhor quer dizer que o fluir do início para o fim e o retorno do fim para o início está nEle. Mas todas as letras gregas formam palavras e números. Pois a letra chamada alfa significa um, a que se chama beta significa dois, e onde escrevem gama, ela é chamada três, e delta é quatro, e assim todas as letras possuem valores numéricos. Os latinos não usam letras por números, mas delas formam apenas palavras, com exceção de I e X, cujas figura também significa a cruz e tem o valor numérico de dez.

Em outra passagem do trabalho, Isidoro designa a língua grega como uma das três línguas sagradas(06)

Existem três línguas sagradas: hebraico, grego e latim, que são as mais distintas em toda a terra. Pois foi com essas línguas que Pilatos escreveu a sentença do Senhor sobre a cruz. Portanto, é também por obscuridade das Santas Escrituras que um conhecimento dessas três línguas é necessário, para que se possa consultar uma ou outra quando o texto em um língua gerar dúvida sobre um nome ou uma tradução. Ainda assim, o grego é considerada uma língua especialmente esplêndida entre as nações. Pois é mais ressonante que o latim e que todas as demais línguas. Suas variedades classificam-se em cinco componentes: primeiro, o Koiné, isto é "misturada" ou "comum", que todos usam; segundo, o Ático, nomeadamente, a língua de Atenas, que todos os autores gregos utilizaram; terceiro, o dórico, usada por egípcios e sírios; quarto o Iônico e quinto o Aélico. Existem várias características distintas a serem observadas nas línguas gregas. Assim está dividida sua língua.

Uma grande parte dessa explicação é derivada de trabalhos mais antigos, como geralmente é o caso na Etymologiae: Isidoro elogia a beleza da língua grega segundo o modelo de Quintiliano. A doutrina da língua sacra é desenvolvida a partir das afirmações de Agostinho sobre as linguae principales (07). Mas aquele que não apenas usa mas também lê Isidoro, observará que existe uma "linha interna... que conecta todos esses trechos aparentemente desconexos" ("innere Linie ...die sich durch alle diese scheinbar gedankenlosen Excerpte zieht")(08). A vitória de Isidoro no que concerne o conhecimento medieval do grego se dá pelo foco no material fundamental e claramente organizado: a litterae mysticae e a linguae sacrae eram schemata de um novo arcaísmo bem adaptado às recém-cristianizadas nações do Ocidente.

01. P. Goubert, "L' Espagne Byzantine. Influences Byzantines sur l' Espagne Wisigothique, " Revue des Études Byzantines 4 (1946) 111-33.

02. Rosweyde, Vitae Patrum. lib. VII (Migne PL 73, cols. 1052-62). New edition by J.G. Freire, A versão latina por Pascásio de Dume dos Apophegmata Patrum (Coimbra 1971), I/2 (I, 159 ff. Liber Geronticon de octo principalibus vitiis). Freire editou uma outra tradução do Apophtegmata do século VI em Commonitiones sanctorum patrum. Uma nova colecção de apotegmas (Coimbra 1974). Essa coleção é quase idêntica à publicada por Rosweyde no terceiro livro do seu Vitae Patrum sob o nome de Rufinus.

03. Rosweyde incluiu essa tradução no apêndice do seu Vitae Patrum. New edition by C.W. Barlow, Martini episcopi Bracarensis opera omnia(New Haven 1950), pp. 30-51; A coleção de cânones, ibid., pp. 123-44. Cf. K. Schäferdiek, Die Kirche in den Reichen der Westgoten und Suewen(Berlin 1967), pp.120 ff.

04. D. de Bruyne, "L' héritage littéraire de l'abbé Saint Valère, "RB 32 (1920), 1-10. Sobre a Vita S. Mariae Aegyptiacae na compilação, uma das mais antigas traduções de "caráter expressivo", ver Kunze, Studien zur Legende der heiligen Maria Aegyptiaca, pp. 28 ff.; cf. W. Berschin, in Mittellateinisches Jahrbuch 10 (1975),310.

05. "As raízes e etimologias gregas no trabalho de Isidoro, as quais estão corrigidas e impressas em grego na edição de Lindsay, são em muitos casos escritas com alfabeto latino nos manuscritos e geralmente são transmitidas de forma quase ilegível, já que nem sempre exibem as formas linguísticas clássicas mesmo no texto original."; Bischoff, in Latin Script and Letters A.D. 400-900, Festschrift Bieler, p. 209. Na mesma passagem, Bischoff mostra como a palavra latina bannita = syllaba, littera saiu da transcrição do Graeca em Etym. I 16, 1: "nam syllaba dicta est ΑΠΟ ΤΟΥCΥΛΛΑΜΒΑΝΕΙΝ ΤΑ ΓΡΑΜΜΑΤΑ."

06. Etym. I 3.

07. Etym. IX 1.

08. J. Fontaine's Isidore de Séville et la culture classique dans l' Espagne Wisigothique (Paris 1959), I/2 (pp. 58-61) sobre o trecho concernente ao alfabeto grego) contém uma análise detalhada das fontes.

NT01 No original o autor refere-se à "Espanha" como um nome para toda a Península Ibérica, incluindo mesmo as terras de Portugal, indistinção essa que é um erro comum na língua inglesa. Como o público leitor de língua portuguesa preserva uma memória mais precisa da história da Península, e sabendo que é a ela que o autor original se refere, utilizei o termo mais comum em português "Península Ibérica" para a região que o autor do original tem em mente ao escrever "Espanha". 

NT02 O "noroeste da Espanha" no original é claramente a região centro-norte de Portugal, possivelmente alcançando a Galícia, que é precisamente a área que era ocupada pelos suevos, tanto que S. Martinho de Braga (uma das mais tradicionais cidades portuguesas), mencionado logo em seguida, é patrono da fé ortodoxa lusitana.

NT03 Trata-se da mesma Cartagena da Espanha.

Fonte: "Early Byzantine Italy and the Maritime Lands of the West"  

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Teologia de Gênero (02) - Eva, a auxiliadora


por Sofia Matzarioti-Kostara

A palavra "auxiliadora" já pressupõe que Adão necessita de auxílio para fazer alguma coisa. O único trabalho a que o texto se refere é proteger e cultivar o Paraíso. Os primeiros intérpretes do texto sagrado entendiam que o trabalho no Paraíso não era manual, mas espiritual, significando um labor para a perfeição. De acordo com vários escritores cristãos, a pessoa humana foi criada fisicamente perfeita, mas espiritualmente imperfeita. St. Ireneus de Lyons acreditava que o primeiro homem e a primeira mulher não eram moralmente perfeitos desde o início porque, se fossem, suas ações não teriam qualquer significado moral (1). "Embora tenham sido criados à imagem e semelhança como potencialidade, eles se tornam a image e semelhança através do trabalho espiritual e da sua livre-escolha(2). "E a ordem de trabalhar não se refere a nenhum outro labor que não seja cumprir os mandamentos de Deus"(3). A mulher, portanto, foi criada para trabalhar junto com Adão para o crescimento espiritual de ambos. Por isso, de acordo com os Pais, é que Eva recebeu como punição ser governada pelo homem em Gên 3:16(4). Isto é, ao invés de auxiliar o desenvolvimento espiritual de Adão, ela se tornou uma tentadora e causou sua queda. " 

Depois da criação da mulher, Adão regozijou-se de que finalmente (νῦν) encontrara a ajuda que Deus lhe havia prometido. Ele então proclamou e profetizou o destino dessa unidade dos dois (5). Homem e mulher devem ser uma só carne, remoldando a face da humanidade para o que Deus originalmente desejava - uma natureza humana. Temos aqui a instituição do casamento com algumas intuições sociológicas inovadoras. No antigo Oriente Médio, a mulher devia deixar sua família e se juntar à do marido. Opondo-se a esse costume, Adão ordena que os homens deixem tudo e sigam suas esposas. Mesmo assim, essa unidade em uma só "carne" contém um elemento de transiência porque a "carne" é temporária e mortal. Portanto, o casamento é uma instituição deste mundo presente e não se estende a próxima vida. Para São João Crisóstomo, o homem e a mulher são partes do todo da humanidade; ambos são incompletos à sua própria maneira. Eles precisam um do outro com o fim de serem completos e sua perfeição depende da unidade dos dois(6). Na tipologia bíblica, Deus é o νυμφαγωγός(7) do primeiro casal e de todos os casais de todas as épocas. 

A Septuaginta continuou fiel ao texto hebraico original e traduziu a palavra adam (de adama, que significa chão, terra) com a palavra ἂνθρωπος (pessoa humana). Os autores mudam para o nome próprio Ἀδάμ (Adão) apenas no capítulo 2:16 porque desse ponto em diante a história da criação da mulher começa com o plano de Deus de que o homem não deveria ficar só. De acordo com alguns intérpretes, no texto hebreu, a palavra adam não é usada como nome próprio, mas como seu sentido literal de "humanidade" ou "pessoas"(8). Sendo assim, a mulher não teria sido criada do lado do homem (Adão) mas do lado da primeira pessoa humana. Assim, a proclamação de Adão de que a mulher (issa) fora criada do homem (is) faz parecer que isso é uma influência sociológica inserida no texto(9). Esse obstáculo para os intérpretes do texto hebreu deu origem a idéia de que a primeira pessoa humana fora criada como um ser andrógino, mas tal conceito jamais foi adotado pela teologia cristã. 

A criação singular da pessoa humana com imagem e semelhança de Deus é uma grande honra concedida por Deus à humanidade, mas é uma questão difícil para os intérpretes do texto. Embora a expressão dupla "besalmenu kidemutenu" em Gên 1:26 conecte a descritiva saelaem (figura plástica, imagem) com a abstrata demut (similaridade, semelhança)(10) apesar de terem sentidos diferentes, a tradução da Septuaginta indica o uso dos termos "imagem" e "semelhança" como intercambiáveis (11). A interpretação patrística, no entanto, compreende "imagem" como algo dado no ato da criação, enquanto "semelhança" é algo que tem que ser conquistado pela vontade humana trabalhando junto com Deus. O uso da palavra descritiva saelaem no texto não deve nos levar a dizer que se trata de uma tentaiva de antropormofização de Deus, mas ao contrário é uma teomorfização da pessoa humana(12). O ponto principal da narrativa é que a pessoa humana não é auto-sustentável, mas vem de Deus e vive uma vida transparente na sua presença. A humanidade veio a existir, compartilhando algo com Seu criador (Seu sopro(13)) e representando Deus nesse mundo de acordo com sentido original da palavra saelaem.(14) 

Depois da Bíblia, Tatiano foi o primeiro dos escritores cristãos a utilizar os temos "imagem e semelhança", e os compreendia como se referindo ao Espírito Santo o qual fez o homem compartilhar a imortalidade de Deus. Depois da queda, os seres humanos separaram-se do Espírito de Deus e se tornaram mortais(15). "Pois o homem foi feito de uma natureza intermediária, nem completamente mortal, nem inteiramente imortal, mas capaz de ambas"(16). De acordo com o professor John Romanides: "Perfeição moral e imortalidade (...) constituem toda a base da compreensão da imagem e semelhança de Deus e da antiga doutrina cristã da queda e da salvação"(17). A despeito de várias interpretações sobre a imagem e semelhança de Deus, nós podemos entendê-la como uma cruz com a dimensão horizontal se referindo à unidade da natureza humana (18) e a dimensão vertical se referindo a nossa relação com Deus (19). 

As criaturas amadas foram colocadas no Paraíso para desfrutarem da felicidade com apenas uma restrição. Havia um fruto que lhes era proibido. A árvore do “conhecimento do bem e do mal” é mencionada apenas no Gênese em mais nenhum lugar nas Escrituras. São Téofilo de Antioquia diz: “...a árvore do conhecimento em si era boa, seu fruto era bom. Pois não era a árvore, como alguns pensam, mas a desobediência que continha morte em si. Pois nada havia no fruto senão conhecimento; o conhecimento, porém, é bom quando é usado com discernimento”(20). No Antigo Testamento, o conhecimento não é teórico, distante do sujeito, mas inclui o sujeito (21) algumas vezes de um modo bem material como quando Adão conhece Eva “conheceu Adão a sua esposa Eva, e ela concebeu e deu à luz Cain”(22). Da mesma forma, no Antigo Testamento, conhecer Deus é ser conhecido por Deus e pressupõe uma relação mútua. Assim, o conhecimento de Deus significa a característica pessoal de um reconhecimento mútuo. O mesmo se aplica no caso do bem e do mal, e de como o pecado e o mal entraram na vida humana. 



[1] J. Romanides, The Ancestral Sin, (Ridgewood, 2002), 126.



[2] Irenaeus, Refutação citada em Romanides, The Ancestral Sin, 158.



[3] St. Theophilus of Antioch, To Autolycus, in Romanides, The Ancestral Sin, 125.



[4] «πρός τόν ἂνδρα σου ἡ ἀποστροφή σου, καί αὐτός σου κυριεύσει» Gên 3:16.



[5] «τοῦτο νῦν ὀστοῦν ἐκ τῶν ὀστέων μου καί σάρξ ἐκ τῆς σαρκός μου ‘ αὓτη κληθήσετε γυνή, ὃτι ἐκ τοῦ ἀνδρός αὐτῆς ἐλήφθη αὓτη’ ἓνεκεν τούτου καταλείψει ἂνθρωπος τόν πατέρα αὐτοῦ καί τήν μητέρα καί προσκολληθήσεται πρός τήν γυναῖκα αὐτοῦ, καί ἒσονται οἱ δύο είς σάρκα μίαν» Gên 2:23,24.



[6] Mais sobre a interpretação de Crisóstomo sobre o casamento em S. Papadopoulos, “Ὁ Γάμος: Μυστήριο Ἀγάπης καί Μυστήριο «εἰς Χριστόν» (Θεολογική προσέγγιση τοῦ μυστηριακοῦ χαρακτήρα τοῦ Γάμου)” no livro Ιερά Σύνοδος της Εκκλησίας της Ελλάδος, Ὁ Γάμος στήν Ὀρθόδοξη Ἐκκλησία, (Αθήνα, 2004).



[7] O que leva o noivo até a noiva.



[8] Pentiuc, Jesus the Messiah, 8.



[9] Ibid., 21.



[10] W. Zimmerli, Ἐπίτομη Θεολογία τῆς Παλαιᾶς Διαθήκης, Μετάφραση Π. Στογιάννος, Β΄ Έκδοση, (Αθήνα, 2001), 42.



[11] Pentiuc, Jesus the Messiah, 9.



[12] Zimmerli, Ἐπίτομη Θεολογία, 43.



[13] «καί ἐνεφύσησεν εἰς τό πρόσωπον αὐτοῦ πνοήν ζωῆς, καί ἐγένετο ὁ ἂνθρωπος εἰς ψυχήν ζῶσαν» Gên 2:7.



[14] C. Westermann, Genesis 1-1: A Commentary, trans. John Scullion (Minneapolis, 1984), 147-155.



[15] Romanides, The Ancestral Sin, 147.



[16] St. Theophilus of Antioch, To Autolycus, in Romanides, The Ancestral Sin, 125.



[17] Romanides, The Ancestral Sin, 111.



[18] Estamos todos conectados aos outros porque todos compartilhamos a imagem de Deus.



[19]Precisamos estar em comunhão com nosso Criador. Ver Pentiuc, Jesus the Messiah, 6, 13.



[20] St. Theophilus of Antioch, To Autolycus, in Romanides, The Ancestral Sin, 125



[21] Zimmerli, Ἐπίτομη Θεολογία, 185.



[22] «Ἀδάμ δέ ἒγνω Εὒαν τήν γυναῖκα αὐτοῦ καί συλλαβοῦσα ἒτεκε τόν Κάϊν» Gên 4:1.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Teologia de Gênero (01) - A Narrativa da Criação


Sofia Matzarioti-Kostara
Original: Pemptousia (http://pemptousia.com/2015/05/the-theology-of-gender-1-the-story-of-creation/)

A narrativa da criação apresenta os princípios básicos da vida e comportamento humanos. É a principal referência para o entendimento cristão das questões existenciais da humanidade. No livro de Gênesis, desdobra-se a relação peculiar dos seres humanos com seu Criador. Nele está contido o mistério do propósito do mundo, assim como o destino de nossa existência.

De acordo com o Gênese, Deus criou tudo no mundo para servir sua amada criatura, a pessoa humana. Os seres humanos são o propósito de toda a criação. Deus criou um ambiente perfeito para Sua criatura mais preciosa e queria compartilhar com ela Sua vida Divina. A criação da humanidade é um ato criador especial de Deus e que foi feito em estágios (1) em contraste com a criação de todas as outras coisas, que foram feitas imediatamente com uma só palavra. A importância da criação do homem é indicada pelo fato de que esse ato é precedido por um pensamento divino, de acordo com o qual o homem é criado segundo a imagem de Deus (2). Nenhum outro ser na história da criação é comparável com o cuidado especial que o Criador teve por essa criatua amada.

A perspectiva de Gênesis, a qual é a história primitiva do destino humano em todas as épocas, tem sido interpretada de modos diferentes, com pontos fortes e fracos em cada interpretação. Apesar do método de examinar o texto - linguístico, histórico, teológico, sociológico - e tentando sermos justos com o texto, quando o autor se refere aos princípios da vida humana ou das características humanas em geral, ele utiliza a palavra ἂνθρωπος (humano) sem distinção de gênero. Assim aprendemos que a humanidade (ἂνθρωπος) foi criada com bipolaridade de gênero (3). Ele(4) foi criado do pó, e recebeu o sopro de Deus em suas narinas (5). Deus pôs Sua criatura no Paraíso e pediu que ele o protegesse e cultivasse (6). Deus então ordenou a Adão que eles (7) não comessem da árvore do "conhecimento do bem e do mal", porque fazê-lo o mataria (8).

Em uma segunda perspectiva da criação, é realizada uma descrição detalhada da criação da mulher do lado de Adão. A criação da mulher é também precedida por um pensamento divino: Adão não deve ficar sozinho; Deus irá dar-lhe uma auxiliadora(10). Essa auxiliadora, de acordo com alguns intérpretes, reflete a vontade de Deus de ajudar Sua criatura e deve ser vista como uma providência divina e um cuidado por sua criação (11). Ainda assim, para outros, a palavra "auxiliadora", junto com a expressão "em harmonia com ele" (κατ᾿ αὐτόν), é interpretada como um argumento para apoiar a opinião de que a mulher foi criada para atender as necessidades do homem. Tal opinião não é fiel ao texto porque nas Escrituras a palavra "auxiliadora" pode se referir a alguém superior (Deus, anjos), inferior (animais) ou iguais (outro ser humano) à pessoa necessitada de ajuda (12). De fato, a mulher deve ser entendida como uma auxiliadora do homem, um ser de igual hierarquia, e ambos compartilham a responsabilidade de trabalhar juntos. Essa visão é apoiada pelo próprio texto, já que Adão buscava por uma auxiliadora que fosse "igual" a ele (ὃμοιοs)(14) entre as criaturas vivas que Deus colocara à sua frente. Essa mesma interpretação é dada por S. João Crisóstomo (15) que escreveu longos comentários sobre o Gênese e sobre o casamento.

[1] Veja mais em E. Pentiuc, Jesus the Messiah in the Hebrew Bible, (Mahwah, 2006), 5.

[2] «καί εἶπεν ὁ Θεός΄ποιήσωμεν ἂνθρωπον κατ΄ εἰκόνα ἡμετέραν καί καθ’ ὁμοίωσιν» Gên 1:26.

[3]«..καί ἐποίησεν ὁ Θεός τόν ἂνθρωπον, κατ’ εἰκόνα Θεοῦ ἐποίησεν αὐτόν, ἂρσεν καί θῆλυ ἐποίησεν αὐτούς» Gên 1: 27.

[4] "Ele" não se refere ao gênero masculino, mas expressa a palavra masculina "ἂνθρωπος" que se refere a todos os humanos.

[5] «καί ἒπλασεν ὁ Θεός τόν ἂνθρωπον, χοῦν ἀπό τῆς γῆς, καί ἐνεφύσησεν εἰς τό πρόσωπον αὐτοῦ πνοήν ζωῆς, καί ἐγένετο ὁ ἂνθρωπος εἰς ψυχήν ζῶσαν» Gên 2:7.

[6] «Καί ἒλαβε Κύριος ὁ Θεός τόν ἂνθρωπον, ὃν ἒπλασε, καί ἒθετο αὐτόν ἐν τῷ παραδείσω τῆς τρυφῆς, ἐργάζεσθαι αὐτόν καί φυλάσσειν» Gên 2:15.

[7] Mudado para o plural por que refere-se tanto ao homem quanto à mulher.

[8] «καί ἐνετείλατο Κύριος ὁ Θεός τῷ Ἀδάμ λέγων’ ἀπό παντός ξύλου τοῦ ἐν τῷ παραδείσω βρώσει φαγῇ, ἀπό δέ τοῦ ξύλου τοῦ γινώσκειν καλόν καί πονηρόν, οὐ φάγεσθε ἀπ’ αὐτοῦ’ ᾓ δ᾿ ἂν ἡμέρα φάγητε ἀπ᾿ αὐτοῦ, θανάτω ἀποθανεῖσθε» Gên 2:16-17.

[9] «καί ἒλαβε μίαν τῶν πλευρῶν αὐτοῦ καί άνεπλήρωσε σάρκα ἀντ᾿ αὐτῆς. Καί ᾠκοδόμησεν ὁ Θεός τήν πλευράν, ἣν ἒλαβεν ἀπό τοῦ Ἀδάμ, εἰς γυναῖκα καί ἢγαγεν αὐτήν πρός τόν Ἀδάμ» Gên 2:21,22.

[10] «Καί εἶπε Κύριος ὁ Θεός΄οὐ καλόν εἶναι τόν ἂνθρωπον μόνον΄ποιήσωμεν αὐτῷ βοηθόν κατ᾿ αὐτόν» Gên 2:18.

[11] Pentiuc, Jesus the Messiah, 15.

[12] Theodosios Haralampopoulos, Περί της Θέσεως της Γυναικός Έναντι του Ανδρός κατά την Ορθόδοξον Χριστιανικήν Εκκλησίαν καί περί Φόβου Θεού (Αθήνα: 2004), 7-9.

[13] É isso que significa a expressão “κατ᾿ αὐτόν”.

[14] «τῷ δέ Ἀδάμ οὐχ εὑρέθη βοηθός ὃμοιος αὐτῷ» Gên 2:20.

[15] «…Τό μέλλον δημιουργεῖσθαι ζῶον τοῦτό ἐστι περί οὗ ἒλεγε΄ “ποιήσωμεν αὐτῷ βοηθόν κατ᾿ αὐτόν”, ὃμοιον αὐτῷ φησι, τῆς αὐτῆς αὐτῷ οὐσίας, ἂξιον αὐτοῦ, μηδέν αὐτοῦ λειπόμενον…Οὐκέτι γάρ εἶπε “ἒπλασεν” ἀλλ᾿ “ᾠκοδόμησεν” ΄ἐπειδή ἐκ τοῦ ἢδη πλασθέντος τό μέρος ἒλαβε ΄καί, ὡς ἂν εἲποι τις, τό λεῖπον ἐχαρίσατο…καί τέλειον καί ὁλόκληρον καί ἀπηρτισμένον κατασκευάσαι, τό δυνάμενον καί προσδιαλέγεσθαι καί τῇ τῆς οὐσίας κοινωνία πολλήν αὐτῷ τήν παραμυθίαν εἰσφέρειν» “Εἰς Γέν., Ὁμιλία ΙΕ” PG 53, 120-122.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Ateísmo e Ortodoxia na Rússia Moderna


por Metropolita Hilarion (Alfeev)


Tradução Fabio L. Leite



Nesta fala, buscarei delinear a história do ateísmo na Rússia durante os últimos cem anos. Começarei apontando o tipo de ateísmo presente na Rússia antes da Revolução. Então direi alguma coisa sobre o desenvolvimento do ateísmo durante o período soviético. E finalmente concluirei com algumas observações concernentes à natureza do ateísmo russo pós-soviético.



Gostaria de iniciar com as seguintes questões. O que aconteceu para que o país conhecido como "Santa Rússia", com uma longa história de Cristianismo Ortodoxo, fosse transformado pelos bolsheviques em um período bem curto de tempo no "primeiro estado ateu do mundo?" Como é possível que as mesmas pessoas que aprenderam religão no ensino médio da década de 1910, com suas próprias mãos, destruíssem igrejas e queimassem santos ícones na década de 1920? Qual é a explicação para o fato de que a Igreja Ortodoxa, que era tão poderosa no Império Russo, fosse reduzida a quase zero pelos seus ex-membros?



Devo logo dizer que não posso interpretar o que aconteceu na Rússia de 1917 como um acidente, a tomada de poder por um pequeno grupo de vilões. Ao contrário, entendo a revolução russa como o resultado final de um processo que se desenvolvia no cerne da sociedade pré-revolucionária, e portanto, em medida considerável, dentro da Igreja russa, já que não há separação entre Igreja e sociedade. Eu alegaria que a revolução russa foi cria tanto da monarquia russa quanto da Igreja. As raízes do ateísmo pós-revolucionário devem ser buscadas na sociedade russa pré-revolucionária e na Igreja.



Já se disse que na Rússia houve batismo mas não houve iluminismo. De fato, no que tange ao século 19, fica claro que o iluminismo comumente estava em conflito com a religião: as massas de camponeses analfabetos mantinham suas crenças tradicionais, porém mais e mais pessoas educadas, até as que viviam em contexto puramente religioso, rejeitavam a fé e se tornavam atéias. Chernyshevsky e Dobroliubov são exemplos clássicos. Ambos vieram de famílias clericais, ambos tornaram-se ateus depois de estudarem em seminários teológicos. Para tipos como Dostoyevsky, a religião era algo que precisava ser redescoberta, depois de tê-la perdido como resultado de sua educação. Tolstói, por outro lado, chegou a um certo tipo de fé, mas continuou alienado da Igreja Ortodoxa. Fica claro quando estudamos o período pré-revolucionário, que havia uma enorme lacuna entre a Igreja e o mundo das pessoas educadas, a assim chamada intelligentsia, e tal lacuna apenas aumentava.



Mas às vésperas da revolução, tornava-se cada vez mais claro que o ateísmo tinha invadido também as massas das pessoas comuns. Berdyaev escreveu que naquela época, a baba(vovó) russa de vida simples, que supostamente devia ser religiosa, já não era realidade, mas um mito: a vovó era agora niilista e atéia. Eu gostaria de citar um pouco mais deste grande filósofo russo. Ele escreveu o seguinte em 1917, meses antes da revolução de Outubro:



"A nação russa sempre considerou-se cristã. Pensadores e artistas russos estavam inclinados até mesmo a tomá-la como uma nação que é cristã par excellence. Os eslavófilos pensavam que o povo russo vivia pela fé ortodoxa, a qual é a única fé verdadeira, contendo toda a verdade.. Dostoyevsky pregava isso. A nação russa é portadora de Deus... mas quando a revolução aconteceu... ela revelou o vazio espiritual do povo russo. Esse vazio era resultado de uma escravidão que tinha durado tempo demais, de um processo de degeneração do antigo regime que fora longe demais, de uma paralização da Igreja russa e uma degradação moral das autoridades eclesiásticas que durara demais. Já há muito tempo o sagrado fora exterminado da alma do povo tanto pela esquerda quanto pela direita, as quais prepararam essa atitude cínica em relação ao sagrado que agora se revela de modo tão grotesco".



Berdyaev culpa o regime czarista e a Igreja Ortodoxa pelo que aconteceu em 1917. Deixando de lado o primeiro, examinemos o papel da Igreja no período pré-revolucionário. Por um lado, ela ainda era a igreja do estado, extremamente poderosa e influente, penetrando em todos os níveis da vida em sociedade. Ainda existiam santos vivos, como João de Kronstadt e a vida espiritual florescia, pelo menos em alguns mosteiros. Por outro lado, a Igreja era governada por autoridades civis, ou até por figuras exóticas como Rasputin, e é verdade que estava paralizada em grande medida.



Recordo-me de ter lido um livro do Padre George Shavelsky, que fora protopresbítero das Forças Armadas Russas sob Nicolau II. Ele era membro sênior do Santo Sínodo, e dava seu testemunho de que o Sínodo estava realmente muito longe da vida do povo, que fazia muito pouco, se é que fazia, para evitar que a propaganda atéia se espalhasse entre as pessoas comuns. Para mostrar como era bem pouco o que restava da devoção tradicional do povo a Deus, Shavelsky cita o seguinte exemplo: quando um decreto imperial especial determinou que comparecer à Liturgia não era mais obrigatório para os soldados russos, apenas dez por cento deles continuaram indo à Igreja.



Outro testemunho do mesmo tipo é o do Metropolita Veniamin (Fedchenkov), que se tornou bispo do Exército Branco depois da revolução. Ele escreve que nenhum dos alunos da Academia Teológica de S. Petersburgo, onde ele havia estudado, sequer iam ver o Pe. João de Kronstadt, e que alguns de seus alunos eram ateus. Ele descreve uma atmosfera de frio espiritual dentro da Igreja Ortodoxa, uma falta de espírito profético. Ele diz quenão foi por acaso que surgiram pessoas como Rasputin: em um ambiente geral de indiferença quanto a religião, ele era uma figura carismática e assim foi aceito pelas autoridades eclesiásticas, que então o dirigiram até o palácio imperial.



O terceiro testemunho que gostaria de trazer aqui é de um tipo mais pessoal, é o do Pe. Sergei Bulgakov. Ele era filho de padre,e depois de estudar em um seminário teológico, tornou-se ateu, seguindo os passos de Chernyshevsky e Dobroliubov. Em suas notas autobiográficas, ele se pergunta como isso pôde acontecer, e responde: "Aconteceu, de alguma forma, quase de repente, e de maneira imperceptível, como algo tido por certo, quando a poesia da minha infância foi substituída pela prosa do seminário teológico... quando comecei a duvidar, meus pensamentos críticos não estavam satisfeitos com a apologética tradicional, mas ao invés, a consideravam escandalosa... minha revolta era fortalecida pela devoção compulsória: aqueles ofícios compridos com acátistos, e rituais devocionais no geral, não me davam satisfação nenhuma." O Pe. Bulgakov desistiu de sua religião facilmente, sem luta, e nem suas origens sacerdotais, nem sua educação teológica o ajudaram a resistir a tentação do ateísmo e do niilismo.



O quadro que temos quando lemos as memórias dos que viveram o período pré-revolucionário é de um profundo declínio na crença religiosa. Embora o Cristianismo Ortodoxo ainda fosse mantido como religião oficial da monarquia russa, tanto a sociedade como a Igreja estavam fatalmente contaminados pela descrença, pelo niilismo e pelo ateísmo. Até os seminaristas, futuros padres, oscilavam entre a religião e o ateísmo. Muitos cristãos comuns, se não a maioria, não tinha fé nenhuma, e foram eles que se voltaram contra a Igreja assim que a participação nela deixou de ser encorajada. A Igreja de uma só vez perdera a grande maioria de seus membros e continuou com um rebanho pequeno constituído dos que estavam dispostos a morrer por Cristo.



Sabemos o que aconteceu com tais fiéis da Igreja. Ou foram executados ou severamente perseguidos, e apenas alguns dentre eles sobreviveram.



Houve uma certa melhora na situação da Igreja durante e depois da II Guerra Mundial, mas a Igreja nunca recuperou a posição dentro da sociedade russa que ocupara antes.



Que tipo de ateísmo foi imposto ao povo russo pelo regime soviético? Não foi de fato descrença: foi, ao invés, uma crença muito forte na não-existência de Deus, em um futuro feliz nesta vida, na infalibilidade do partido comunista e de sua ideologia materialista. A figura quase-divina de Lênin (por muitos anos ao lado de Stálin, mas depois apenas ele) era dominante por toda parte, em todos os lugares, em todas as salas de todos os prédios públicos, fossem jardins de infância ou universidades, lojas ou hospitais. Lênin como deus, o partido único como única igreja, seus líderes (o Politbureau) como uma assembléia de santos, os trabalhos de Lênin como a Bíblia, etc. O povo soviético não recebeu ateísmo, mas uma pseudo-religião, uma religião do Anticristo. Assim Berdyayev estava bem correto em falar do caráter religioso do socialismo e ateísmo russos. Em que medida foi essa ideologia atéia aceita pelo povo, ou melhor, quantas pessoas aceitaram essa ideologia e qual porcentagem era capaz de resistir? Nas décadas de 1920 e 1930 o ateísmo russo viveu seu estágio mais militante: era muito ativo, agressivo e envolvia as massas do povo. No fim da década de 1960, porém, já tinha perdido muito do seu entusiasmo inicial: era tido como certo pela maioria, mas já não era seguido com fanatismo e zelo. Assim, em termos da qualidade do ateísmo russo, são os anos de 1930 que devem ser considerados seu clímax, mas quanto a números, acho que serão encontrados mais nas décadas de 1960 e 1970. Durante os 1930 ainda existiam as babushki (vovózinhas), que guardavam secretamente a fé que tinham herdado da época do tsar. Mas no fim dos 1970s, as vovós pré-revolucionárias já tinham na maioria morrido (com isso me refiro às que foram educadas antes da revolução), e seu lugar era tomado por aquelas que cresceram dentro do regime ateu.



Posso ilustrar o que disse sobre a qualidade do ateísmo russo com exemplos da minha própria família. Todos os meus avós nasceram antes da Revolução, mas foram educados depois dela: nenhum deles era um crente. Mesmo na década de 1980, quando quase todos os membros mais jovens da minha família, um depois do outro, vinham à Igreja para serem batizados, meus avós se mantiveram fora desse processo. Uma das minhas avós me disse uma vez: "Eu me sinto como Robinso Crusoé na sua ilha desabitada: todo mundo a minha volta vai à Igreja, e eu não." Ela tinha sido membro do Partido Comunista por mais de 50 anos e, suponho, na década de 20 deve ter sido uma atéia militante. Mas no início dos anos 80, de quando eu me lembro dela, ela não sentia nada contra a religião, mas nada em favor dela também. Seu ateísmo tinha se tornado completamente passivo: era tido como garantido e ela não pensava nisso.



Meus pais cresceram na sociedade atéia das décadas de 40 e 50 e nunca foram ateus militantes. Já em sua juventude rejeitaram a ideologia soviética e buscavam a verdade fora dela. Mas ainda existia uma pressão tremenda sobre eles por parte da sociedade na qual tinham que sobreviver, e tinham medo constante de que sua descrença na ideologia fosse descoberta e que eles seriam punidos. Minha mãe veio para o Cristianismo em meados da década de 70, mas não podia praticar sua religião abertamente. Ser abertamente religioso ainda significava ser expulso da sociedade atéia, e talvez perder o emprego. Foi em alguma casa secreta, e não em uma igreja, que eu fui batizado.



Eu cresci entre as décadas de 70 e 80, o qual certamente foi um período de declínio do ateísmo russo. Mas ainda era perigoso praticar a religião abertamente: por exemplo, eu teria sido expulso da minha escola, uma escola musical de elite, se tivessem descoberto que eu ia à igreja. Durante os onze anos de estudos naquela escola, eu não vi nenhum pupilo que fosse abertamente religioso. Era dado por certo que todo mundo era ateu.  Ao mesmo tempo, muitos dos meus colegas não compartilhavam a ideologia oficial e tinha idéias muito liberais: estavam afastados da Igreja, mas muitos deles também não acreditavam nas idéias comunistas também. Ainda era difícil acreditar abertamente em Deus, mas já era bem possível não acreditar na ideologia. A atmosfera na minha escola era bem tolerante, embora o nível oficial de ideologia comunista era mantido.



Assim, embora eu tenha crescido sob o regime ateu, eu nunca fui tão pressionado a ponto de não ser capaz de resitir: ao contrário, lembro de uma total ausência de medo e um maravilhoso sentimento de liberdade. Portanto, não fico surpreso que tenha sido predominantemente pessoas da minha geração que foram para as ruas de Moscou em agosto de 1991 para se despedir do regime comunista. Eles não estavam com medo porque cresceram durante o período de declínio e decomposição da ideologia comunista.



Uma das principais razões para a falência da ideologia atéia soviética foi que as pessoas simplesmente não acreditavam mais nela. Quando o ateísmo perdeu seu caráter religioso, tornou-se vazio e perdeu seu poder muito antes de ser oficialmente abandonado. 



E qual é agora, em resumo, a situação do ateísmo e da religião na Rússia, depois do colapso do sistema soviético?



Parece-me que, embora o número de crentes tenha aumentado enormemente nos últimos anos, a Rússia ainda está longe de ser um país cristão. Batizar-se, ser ortodoxo, tornou-se uma moda. Não me surpreenderia se a maioria das pessoas, quando perguntadas se são ortodoxas, dariam agora uma resposta positiva. Isso não significa, porém, que todas elas vão à Igreja. Significa apenas que a maioria deles adotou uma nova identidade exterior para se harmonizarem com o tal "reavivamente religioso". Eu lembro de perguntar uma adolescente que veio com sua mãe para ser batizada: "Você acredita em Deus?" "Não", foi o que ela respondeu. Tive então que perguntar, "Por que então você quer ser batizada?" "Bem, todo mundo tá se batizando hoje em dia", ela disse. Esse caso, um de muitos, ilustra que muitas pessoas vivem a religião de um modo muito superficial, às vezes até sem acreditar em Deus. Continuando interiormente ateus, tornam-se externamente ortodoxos.



A última pesquisa de opinião na Rússia mostra que embora exista um número relativamente pequeno de ateus convictos, cristãos praticantes estão longe de ser uma maioria. A maioria dirá "acredito em alguma coisa". Reconhecemos que existe algo "sobrenatural", mas também dizem que a fé religiosa não tem um papel muito importante em suas vidas. Existe um outro paradoxo: nem todas as pessoas que dizem ser ortodoxas acreditam em Deus. Alguns chegam a participar de organizações e movimentos ortodoxos sem praticar a religião.



Falar de um reavivamento religioso na Rússia contemporânea se tornou um lugar comum. Mas as pessoas divergem no entendimento do que significa esse reavivamento. Certamente há um reavivamento externo: muitas igrejas, mosteiros e escolas teológicas tem sido reabertas, os prédios estão sendo restaurados. Mas ainda é cedo para falar de uma restauração da alma russa. Não existe uma melhora da moral na Rússia contemporânea. Ao contrário, temos que admitir que os padrões morais tornaram-se ainda mais baixos do que costumavam ser sob os soviéticos. Não é isso uma indicação de que não existe um reavivamento interior da vida cristã, que as pessoas não adotam o cristianismo como uma norma de vida? Não é uma evidência gritante do fato de que o longamente esperado arrependimento, a metanóia como uma mudança de mentalidade para melhor, ainda não ocorreu na Rússia?



Alguns atribuem essa repentina degradação dos padrões morais à influência ocidental: é do Ocidente degenerado que vêm a pornografia, a prostituição e todo tipo de imoralidade. Esta é a nossa fuga: culpar a todo mundo, menos a nós mesmos. Mas a realidade é que, como Berdyaev disse em 1918, 'por amargo que seja... o povo russo é hoje menos religioso que muitos povos do ocidente... a cultura religiosa da alma nele é mais fraca.' Isso é verdade se por cultura religiosa entendermos não a participação em alguma organização ortodoxa de direita, mas primeiro de tudo viver de acordo com as normas da moralidade cristã.


Quando a 'perestroika' começou, a Igreja foi desafiada por expectativas muito altas da sociedade. Muitos acreditavam que a Igreja seria capaz de assumir o papel de liderança no reavivamento espiritual da nação. Temos que admitir que isso não aconteceu. A Igreja começou a "reviver" reconstruindo as paredes dos mosteiros (o que é uma tarefa realmente importante e difícil), mas não respondeu adequadamente à necessidade da iluminação moral e religiosa do povo. Os líderes da Igreja ganharam acesso às autoridades civis, mas até agora foram incapazes (com alguams exceções) de ganhar acesso ao povo comum, especialmente os que estão fora da Igreja. A Igreja Ortodoxa ainda está fechada em si mesma; ainda está mais ocupada com seus próprios problemas internos do que com as demandas espirituais da sociedade moderna.  No fim, as seitas protestantes ocidentais tomaram a iniciativa de iluminar os ex-ateus, e não é de surpreender que com sua atitude direta e algo insistente, estejam ganhando a simpatia de mais e mais pessoas comuns.



O ateísmo russo pode muito bem morrer algum dia, mas isso irá acontecer quando além de ter sido batizado, o país seja iluminado e nasça de novo. 



A Igreja Ortodoxa deve ter um papel central nesse renascimento espiritual. Mas isso só pode acontecer depois que ela se tornar verdadeiramente uma igreja da nação e não do estado, seja lá qual estado for. Ela deve ser uma igreja da nação, do povo. Para se tornar isso, a Igreja deve sair de sua concha, deve aprender a falar a língua que o povo fala, deve encarar as demandas da sociedade e respondê-las adequadamente.


No presente, nossa igreja luta para encontrar sua nova identidade na Rússia pós-comunista e pós-atéia. 



Existem, em minha opinião, dois perigos principais. O primeiro é o retorno a uma situação pré-revolucionária, onde havia uma Igreja do estado que se tornou cada vez menos uma igreja da nação. Se, em algum ponto do desenvolvimento da sociedade, tal papel for oferecido à Igreja pelo estado, seria um enorme erro aceitá-lo. Nesse caso, a Igreja será novamente rejeitada pela maioria da nação, como o foi em 1917. Os 70 anos de perseguição soviética foram uma experiência de fogo purgatorial para a Igreja russa, do qual ela deveria ter saído completamente renovada. O erro mais perigoso seria não aprender com o que aconteceu e retornar a uma situação pré-revolucionária, como alguns membros do clero desejam fazer hoje em dia.



O segundo erro é o da Ortodoxia militante, o que seria a contra-parte pós-atéia do ateísmo militante. Refiro-me a uma Ortodoxia que quer lutar contra judeus, contra maçons, contra a democracia, contra a cultura ocidental, contra o iluminismo. Esse tipo de Ortodoxia tem sido pregada até por membros chave da hierarquia, e tem muitos apoiadores.  Esse tipo de Ortodoxia, especialmente se ganhar apoio do estado, pode forçar o ateísmo russo para as catacumbas, mas temporariamente. Mas ele não desaparecerá até que haja uma transfiguração da alma, e a necessidade de viver de acordo com o Evangelho se torne a única mensagem da Igreja Ortodoxa russa.



Sua Eminência, o Reverendíssimo Metropolita Hilarion (Alfeyev) de Volokolamsk é bispo na Igreja Católica Ortodoxa russa, presidente do Departamento de Relações Exteriores da Igreja, membro permanente do Santo Sínodo do Patriarcado de Moscou, teólogo, historiador da Igreja e compositor. É também autor de diversos livros sobre teologia dogmática, patrística, e história da igreja, com artigos em várias  línguas, bem como compositor para coro e orquestra.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Por que tantos rituais?

por Michael Bressem, Ph.D.

Em resumo, a adoração ortodoxa é ritualística porque (1) Deus deseja que nossos ofícios sejam ordenados como um reflexo de Si mesmo; (2) Nosso Senhor deseja determinar um padrão de adoração para manter a unidade e evitar as divisões; 3) Os ofícios fazem com que nos disciplinemos a prestar atenção, lembrar e participar, para que nos aperfeiçoemos na fé; (4) A adoração é feita para ser trabalhosa, exigindo o melhor de nós para honrar a Deus.

Se compararmos aos cultos da maioria das igrejas protestantes e pós-Vaticano II das igrejas Católico-Romanas, o culto da Igreja Ortodoxa parecerá excessivamente formal, complicado e rígido nas suas rúbricas. Por que existem tantos rituais na Igreja Ortodoxa? Por que não há mais espontaneidade, criatividade e liberdade de expressão? Por que o ofício ortodoxo do Domingo – a Divina Liturgia – é essencialmente o mesmo semana após semana, ano após anos, por mais de mil e quinhentos anos? A maioria dos fiéis ortodoxos responderiam “Porque é a nossa Tradição”. Entretanto, entendemos porque é que a nossa Tradição é essa e por que os rituais são tão importantes para a nossa Fé Cristã? 

A Necessidade de Paz e Ordem

Na verdade, a Bíblia e os Pais da Igreja raramente usam a palavra “ritual” ou “rito” quando descrevem as práticas cerimoniais religiosas cristãs ou judaicas. As palavras mais frequentemente usadas são “ordenanças” e “observâncias”. Essas palavras descrevem melhor o que deveríamos estar fazendo. Para muitos, “ritos” são apenas uma série de comportamentos padronizados que as pessoas fazem sem entender o significado – talvez até tenha existido um motivo para o comportamento, mas agora as pessoas “só repetem”. 

Uma “ordenança” é um decreto de que uma atividade seja regulamentada (Hebreus 9:1), que seja mantida em uma sequência em particular ou dentro de certos limites. No que se refere aos ofícios de adoração, o Apóstolo Paulo afirmou, “todas as coisas devem ser feitas decentemente e em ordem” (I Cor. 14:40). A razão para isso foi dada em um versículo anterior: “pois Deus é um Deus não da desordem, mas da paz” (v.33). De fato, S. Paulo elogia a igreja em Colossos pelo quão ordenados (τάξιν) eles são (Col. 2:5). Dado que nossa atual Liturgia de S. João Crisóstomo é baseada na Liturgia do I século de São Tiago, que foi o primeiro bispo de Jerusalém, a Igreja ortodoxa sempre praticou uma forma ordenada e formal de culto. 

Ainda assim, a formalidade do culto se origina ainda antes, nas práticas judaicas que se iniciaram 13 séculos antes de Cristo com o Êxodo de Israel do Egito. Deus, através de Moisés, proveu detalhes claros sobre uma forma muito ordenada e elaborada de culto centrado no Tabernáculo ou Templo. Por que? Porque Deus sabe como é fácil para a humanidade argumentar sobre diferenças de culto ao ponto de gerar confusão (Atos 19:32), preconceito (S. Jo 4:20), e violência (Gên. 4:3-8). Não é difícil olhar a história da humanidade e descobrir guerras que foram ao menos em parte justificadas por disputas sobre crenças e práticas religiosas. Embora o conflito entre fés provavelmente continuará (S. Jo. 17:14), Deus quer evita-lo no seio da igreja (S. Jo. 17:22-23). Por isso é necessário que a Igreja esteja unificada em Suas práticas de adoração. A igreja ortodoxa manteve a unidade da fé, em parte, por causa da manutenção precisa da fórmula de seu culto. Ao fazê-lo, a Igreja evitou muito da dissensão que se aplacou sobre outros ramos do Cristianismo. 

A Necessidade de Atenção e Memória

“Observância” denota a necessidade de prestarmos atenção e de nos lembrarmos. Seis vezes durante a Divina Liturga o padre ou diácono proclama a exortação “Estejamos atentos”. Deus não quer que a gente esteja distraído e falemos e participemos dos ritos com nossas mentes ocupados com trabalho, lista de supermercado ou com uma briga recente com esposo ou esposa. Essa adoração não seria “em espírito e em verdade” (S. Jo. 4:23-24). Deus deseja foco ao que cada palavra e gesto aludem durante a Divina Liturgia (e outros ofícios também). Isso exige disciplina de nossa parte, mas é precisamente através da disciplina que nos tornamos filhos e filhas justos de Deus (Hebreus 12:4-11). Observar a Divina Liturgia nos ajuda a “fixar nossos olhos em Jesus, o autor e aperfeiçoador de nossa fé” (Heb. 12:2). 

Apenas sendo atentos iremos adquirir entendimento (Prov. 4:1, 20; 5:1; 7:24; 22;17), escutarmos as orientações de Deus para nós (Exo. 23:20-21), e recebermos Sua benção (Deut. 7:12-13; 28:13). Seguirmos os ensinamentos da Igreja tanto através das Escrituras (2 Ped 1:19) quanto da Tradição (Heb. 2:1) nos protege de cairmos em heresia sem perceber. Uma definição bíblica de observância que é muito boa, e da qual podemos nos lembrar ao entrarmos em uma igreja é: “Mortal, olha de perto e escuta com atenção, e com coração atento olhai tudo que Eu (teu Deus) irei te mostrar, pois fora para te mostrar estas coisas que trouxe-te aqui” (Ezequiel 40:4, veja também Isaías 28:23; 34:1). 

A Bíblia está cheia de exortações não só para prestarmos atenção, mas para lembrarmos. Precisamos continuamente lembrar: de quem Deus é, como Deus nos salvou, dos milagres que dão testemunho do amor de Deus por nós, dos mandamentos que Deus nos ensinou, dos santos antigos que nos inspiram, e também lembrarmos daqueles que necessitam de auxílio de caridade ou intervenção divina. O ponto alto da Divina Liturgia é quando participamos do sacramento da comunhão, que foi dado por Deus para ser feito “em memória” de Cristo (S. Luc. 22:19; I Cor 11:24-25). Os ofícios ortodoxos de adoração, particularmente nas suas litanias e hinos, foram criados especialmente para nos ajudar a nos lembrarmos. 

A Necessidade de Crescimento e Transformação

Algumas pessoas podem dizer que é muito fácil perder a atenção durante os ofícios ortodoxos exatamente porque são tão repetitivos. Alguns podem acreditar que certos cultos modernos prendem melhor nossa atenção porque mudam toda semana e portanto são mais estimulantes. Primeiramente, note-se que os ofícios ortodoxos não são completamente repetitivos – as leituras, homilias e alguns hinos mudam toda semana. Em segundo lugar, a repetição é boa para nós: é assim que se aprende. Além de ser uma assembleia onde damos a Deus o que é Seu de direito – louvor e gratidão – o culto ortodoxo é uma sala de aula que nos instrui sobre como devemos crer e nos comportar corretamente. 

Parte do motivo pelo qual a adoração na Igreja Ortodoxa é tão ritualística é porque muita informação está condensada em um ofício de noventa minutos. É possível gastar décadas indo a Divina Liturgia todos os domingos e a pessoa não perceber todo o profundo e rico simbolismo de sentidos da cerimônia. A Divina Liturgia não muda porque sua fórmula nos ajuda a crescer em conhecimento e virtude e a nos tornarmos mais semelhantes a Cristo, que é o propósito de nossas vidas (Col. 1:28-29; 2 Ped. 3:18). Mesmo que nossa atenção se disperse de vez em quando (o que seria melhor evitar), acabamos absorvendo alguma coisa do ofício em nosso espírito e que abençoa nossas almas. A repetição é transformacional. Depois de um tempo, a Divina Liturgia se torna mas do que uma ordenação ou uma observância; se transforma em algo que é intimamente parte de nossas vidas – como o bater de nossos corações (e ninguém reclama que nossos corações repitam seus batimentos com o mesmo ritmo vivificante de sempre!). 

Os cultos não-ortodoxos contemporâneos podem ser bastante divertidos. Instrumentos eletronicamente amplificados, o louvor emocional dos corais, a pregação dramática, as apresentações multimídia, tudo isso pode tornar o culto mais agradável. No entanto, assistir TV, ir no cinema, ou a um show de música também podem ser agradáveis. Mas o quanto lembramos desses eventos? Quanto deles nos ajuda a crescer em maturidade na Fé (Heb 5:12-6:1)? Devemos nos perguntar se Deus em algum momento quis que o culto fosse divertido. Não deveria ser algo diferente do que aquilo que o mundo produz? Não deveria ser algo que reverencia a Deus ao invés de algo que regala a congregação? 

A Necessidade de um Culto Trabalhoso

“Liturgia” significa “trabalho do povo”. Deus deseja que O amemos com todo nosso coração, toda nossa alma, e com *toda nossa força* (Deut. 6:5, ênfase minha). Participar na Divina Liturgia não é uma experiência fisicamente confortável: temos que ficar de pé, nos ajoelhar, fazer prostrações. Ninguém assiste passivamente um ofício da Igreja ortodoxa (pelo menos não deveria). O povo é convidado a se envolver reverenciando os ícones, cantando junto os hinos, recitando o Credo, e juntando seus corações e vozes às orações. Se você não estiver um pouquinho cansado quando a Divina Liturgia tiver terminado, talvez você não tenha posto tudo de si na adoração do Senhor. 

Embora a adoração possa ser uma celebração alegre (Sal. 100:1-2), as Escrituras deixam claro que Deus deseja que a adoração seja também trabalhosa. O primeiro caso registrado de adoração foi a história de Caim e Abel, os filhos de Adão e Eva, quando Deus aceita o sacrifício de Abel mas rejeita o de Cain (Gên. 4:3-7). Deus explicou que não seria qualquer oferta que seria aceita, mas apenas quando dermos o melhor de nós nossa oferta receberá Sua aprovação. Os animais sacrificados a Deus tinham que ser sem defeitos e portanto eram os mais valiosos do rebanho (Lev. 1:3). A Divina Liturgia foi refinada ao longo dos séculos para que seja o melhor ofício de adoração que podemos oferecer a Deus. Ela permaneceu a mesma desde então porque nenhum teólogo ortodoxo conseguiu imaginar um modo de deixa-la ainda melhor do que a versão de S. João Crisóstomo do século IV. 

Em resumo, a adoração ortodoxa é ritualística porque (1) Deus deseja que nossos ofícios sejam ordenados como um reflexo de Si mesmo; (2) Nosso Senhor deseja determinar um padrão de adoração para manter a unidade e evitar as divisões; 3) Os ofícios fazem com que nos disciplinemos a prestar atenção, lembrar e participar, para que nos aperfeiçoemos na fé; (4) A adoração é feita para ser trabalhosa, exigindo o melhor de nós para honrar a Deus. “Portanto, já que estamos recebendo um reino que não pode ser abalado, sejamos gratos, oferecendo a Deus uma adoração aceitável com reverência e maravilhamento, pois de fato nosso Deus é um fogo que incendeia (Heb. 12:28-29). 

“Nos convêm realizar todas as coisas em ordem, como o Senhor nos comandou a fazer em tempos pré-ordenados. Ele nos mandou realizar ofertas e ofícios. E essas coisas não são realizadas distraidamente ou sem regularidade, mas nos tempos e horas determinados”.
S. Clemente de Roma 96 DC


Publicado originalmente em The Path of Orthodoxy, Vol. 42, Nos. 4/5, April/May 2008.

Traduzido de http://pemptousia.com/2015/04/why-all-the-rituals/