terça-feira, 15 de julho de 2014

O Papel dos Esposos na Igreja Ortodoxa: Moisés e Tobias 3/3

Moisés





Ouvindo, pois, Faraó este caso, procurou matar a Moisés; mas Moisés fugiu de diante da face de Faraó, e habitou na terra de Midiã, e assentou-se junto a um poço. E o sacerdote de Midiã tinha sete filhas, as quais vieram tirar água, e encheram os bebedouros, para dar de beber ao rebanho de seu pai. Então vieram os pastores, e expulsaram-nas dali; Moisés, porém, levantou-se e defendeu-as, e deu de beber ao rebanho. E voltando elas a Reuel seu pai, ele disse: Por que hoje tornastes tão depressa? E elas disseram: Um homem egípcio nos livrou da mão dos pastores; e também nos tirou água em abundância, e deu de beber ao rebanho. E disse a suas filhas: E onde está ele? Por que deixastes o homem? Chamai-o para que coma pão. E Moisés consentiu em morar com aquele homem; e ele deu a Moisés sua filha Zípora, a qual deu à luz um filho, a quem ele chamou Gérson, porque disse: Peregrino fui em terra estranha. - Êxodo 2:15-22

Diferente de Jacó, Moisés não teve nenhuma instrução ao sair de casa, fugindo da punição pelo assassinato que cometera. Mas o próprio Deus o guiava e cuidou para que ele seguisse o caminho determinado. Sem saber, ele já se colocara perto da casa de sua futura esposa. Agora reparem uma coisa. Antes mesmo de estar comprometido com sua esposa, antes mesmo de sequer saber que ela existia, guiado pela inspiração de Deus, Moisés defende a família dela, nas pessoas de suas irmãs. Reuel, pai de Zípora, não hesita em dar a mão de sua filha em casamento a Moisés, e isso porque ele viu que Moisés não era homem de promessas. Ele não era mais um dizendo que, no futuro, depois dela provar que estava disposta a fazer-lhe concessões, aí então, ele a defenderia, a protegeria. Ele já tinha defendido a família dela, e por extensão a ela mesmo. Ele não disse que ia fazer. Ele já tinha feito. Moisés não pediu nada, não prometeu nada, mas já entregara tudo que demonstrava seu caráter.

Assim como Deus em Jesus Cristo, o Qual não explica muito o que ele ia fazer para nosso bem. Ele dá sinais, não faz segredo exatamente, mas também não alardeia. Ele simplesmente faz, e só promete quando é necessário *para nós,* para que nos sintamos seguros. Assim deve agir o esposo em relação à esposa. Ele não promete que vai amá-la, defende-la, habitar em seu mundo. Ele simplesmente o faz. E o pai de Zípora, sabendo disso, não vai procurar um homem que promete que, no futuro, vai amar, proteger e se arriscar por sua filha, mas depois dela mostrar obediência e vontade de fazer concessões para ele. Ele identifica e abençoa a união com o homem que na prática e concretamente, sem promessas, já se arriscara, já se protegera e já demonstrara amor, ainda que de forma indireta através das irmãs. Para Reuel, estava claro que, mesmo sem saber, aquele homem era o marido de sua filha, guiado por Deus até ali. E depois de tudo isso, mais uma vez, Moisés não chama Zípora para seu mundo de origem, o Egito. Ele vai morar na casa do pai dela. Ele não pede para ela deixar de trabalhar na tribo do pai,o que iria enfraquece-la tornando-a sombra dele. Ele é que se torna pastor lá, fortalecendo o casal. Com isso ele deixa para trás definitivamente o mundo em que nascera, e onde era príncipe, mas consente em ser pastor no mundo e na vida dela, assim como Cristo, rei do universo, sai das riquezas da Eternidade e nasce entre pastores, em meio a nossa pobreza, para se unir à sua amada, a Igreja. 

Finalmente, reparem que ao defender as irmãs de sua esposa, sem saber ainda, Moisés está lutando por ela. É da psicologia do homem o gostar de lutar, conquistar, vencer. Infelizmente, alguns homens pensam que lutar por uma mulher é lutar contra ela, contra o coração dela. Ele percebe que o natural dela é não estar com ele, que ela possui inclinações, e tendências que a afastam dele e "luta" contra esses atributos naturais de sua alma, "por ela" para forçá-la a pertencer a ele. Isso não é lutar por uma mulher, mas contra ela. É desejar tê-la, e não desejar o bem dela. O foco é o próprio homem que deseja se servir dela. A luta correta que um homem deve realizar por uma mulher é contra as *circunstâncias* negativas que naturalmente sobrevém a qualquer pessoa ou casal, representada ali pelos maus pastores. Crises econômicas, doenças, circunstâncias externas. Se de início Moisés tivesse que sequestrar e amarrar Zípora, ele seria um traficante de escravos e não um marido. Lutar por alguém, mesmo fora do contexto de casamento, é sempre contra externalidades, nunca com a pessoa em si.

Tobias



É importante lembrar que nada disso que temos falado até agora, isenta o homem dos seus deveres de honrar seus próprios pai e mãe. Claro que ele continua devedor deles e deve assisti-los. Com certeza, haverá dificuldades para o homem em harmonizar o cuidar de sua família de nascimento e da família que formou, estando mais afastado da primeira. Mas se o homem quer ter algum desafio para sua autoafirmação, esta é a prova que Deus lhe oferece: “Honre seus pais, mas vá para a casa de sua esposa”. 

Tanto é assim que no livro de Tobias, o personagem central promete aos pais que ficaria com eles até a morte de sua mãe. Guiado pelo arcanjo Rafael, ele vai até a casa de seus futuros sogros, conhece e casa-se com sua esposa, voltando com ela para a casa de seus pais. Essa medida, porém é temporária, e assim que sua mãe falece, com a promessa cumprida, Tobias retorna com a esposa para a casa dos sogros, onde passa o resto da vida, conforme os mandamentos de Deus.

Outro ensinamento importante do livro de Tobias é que não adianta forçar a realização de casamentos que não são abençoados por Deus, nos quais os noivos não cumprem os papéis conforme explicamos e que provêm dos mandamentos dados por Deus.

Sara, a esposa de Tobias, já havia se casado sete vezes, e em todas elas o esposo morrera na própria noite de núpcias. Mais tarde, o arcanjo de Deus, Rafael, explica que um dos motivos para aquilo ter ocorrido é que o marido que Deus lhe havia destinado era Tobias e nenhum outro. Não sendo o casamento que Deus queria, nenhum dos sete poderia ter dado certo. 

O casamento não é um fim em si mesmo, e sem Deus, não sendo cumprimento da vontade de Deus, sempre trará mais dor e tragédia do que paz e alegrias. De fato, o pecado dos pais de Sara e dela própria foi de terem realizados casamentos apenas pelo afã de resolver o “problema” de uma filha em idade casadoira, mas sem noivo. Enquanto não havia chegado o noivo destinado por Deus, todos os casamentos deram errado. Na verdade, por horrível que tenham sido seus sete casamentos com viuvez, o pior que poderia ter acontecido seria um dos tais casamentos ter “dado certo”, e quando Tobias chegasse a encontrasse comprometida com um homem que não era o que Deus queria para ela. Sendo homem de Deus, Tobias não iria interferir no casamento de Sara por mais que a amasse, e ela, também sendo fiel a Deus, não consideraria divorciar-se para ficar com Tobias. Por Graça de Deus, houve a libertação, e o errado não deu certo. O pecado havia sido ter começado aqueles casamentos, para começo de conversa, pois demonstrava falta de paciência e confiança em Deus por parte dos envolvidos.

Isso também representa como toda nossa fé, amor e devoção, entregues a espíritos, deuses, valores, ideologias, dinheiro, prestígio, ambição, luxúria, comodismo, desespero, não tem nenhum valor em si simplesmente por serem fé, amor e devoção. Eles tem que ser entregues à realização da vontade do Senhor. Os sete maridos de Sara podem ser entendidos como os sete pecados a que se entrega a alma, e Tobias, é o Cristo, o noivo destinado pelo Pai para habitar com nossa alma, representada pela própria Sara.

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Lembremos enfim irmãos, que como cristãos não devemos seguir os exemplos e sabedoria do mundo. 

A fé cristã é muito caluniada no mundo por ensinamentos que sequer são os seus. Nossa fé não ensina que as pessoas tem que casar simplesmente porque chegaram a uma certa idade, ou porque o "namoro já foi longo demais", não ensina que o casamento é um fim em si mesmo e que a nossa felicidade depende de outra pessoa (na verdade S. Paulo diz até que a vida monástica é melhor que a de casado!), não ensina que o papel do homem seja dar presentes, dominar a mulher seja de que forma for, não ensina maus-tratos e desrespeito às mulheres, não ensina que elas devem ser “obedientes” aos homens no sentido vulgar e mundano da palavra. Ao contrário, exige dos homens nada menos que a bravura e a maturidade de se sacrificarem por suas amadas, de amarem-nas tanto que deem até suas vidas físicas por elas, se necessário for. Ensina que a "condução" do homem e a "obediência" da mulher é semelhante ao que ocorre na dança de casal, onde ela ocorre com suavidade, concordância de ambos, a mulher sabendo que poderá se deixar cair e ele vai segurá-la, que ela poderá saltar, e ele irá ergue-la; e sob o ritmo de uma força maior - no casamento a música é a vontade de Deus. 

Ensina também que o mais saudável, psicológica e espiritualmente, para ambos, é que o homem é que saia do seu “mundo” - homens *precisam* sair de "casa" para amadurecer - e passe a fazer parte do “mundo” dela, para que ambos possam se erguer, pois isso é parte de servir a mulher que ama, como Cristo serve a Igreja.

Lembremos que o “Noivo” dá a vida pela “noiva”, que o homem deve ter sempre Jesus Cristo como exemplo e modelo de amor por sua mulher, sua irmã de espírito e amiga, não de momentos e diversões, mas de toda a sua jornada, agindo conforme disse Nosso Senhor, “Amor maior que este não há: dar a sua vida por seus amigos.” (S. Jo. 15:13)

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O Papel dos Esposos na Igreja Ortodoxa: O Cântico, Adão e Jacó 2/3

O Cântico dos Cânticos

Mal passara por eles, encontrei aquele que meu coração ama. Segurei-o, e não o largarei antes que o tenha introduzido na casa de minha mãe, no quarto daquela que me concebeu. Can. 3:4

Também as mulheres devem ter em mente que o melhor para os dois, para a maturidade pessoal dela e do marido, é que ele vá viver no mundo dela.

No livro Cântico dos Cânticos a mulher está plenamente consciente que o destino do esposo é que ele vá para a casa da mãe dela, uma vez mais, que ele viva o mundo dela, da forma mais profunda possível, simbolizada por um dia eles dois dormirem juntos no quarto que um dia foi dos pais dela. Como símbolo, guarda outro ensinamento. Nossa época valoriza muito a tal da "adolescência estendida", que invade a vida adulta até os 30 anos e às vezes até passa. Mas isso é extremamente prejudicial para a mente e o espírito. Que o menino se torne o pai e patriarca da casa, que a menina se torne a mãe e matriarca, se tornando responsáveis por suas famílias, tanto os mais velhos quanto os mais novos, é o natural, e não uma vida de diversões adolescentes sem fim. "Entrar no quarto dos pais" é "tornarem-se os pais". Claro que existem casos de pais perversos, nos quais todo um trabalho na alma das pessoas tem que ser feito para que elas se tornem pais diferentes dos seus próprios, mas é antes exceção do que regra.

O livro ensina também que a mulher deve ter cuidado ao escolher. Veja que ela conhece vários homens (não sexualmente!), mas segura apenas aquele que sabe que irá para a sua própria casa. Ela deve evitar o homem que não deseja fazer isso. Ele ou tem más intenções, querendo encurralá-la em um ambiente ou situação em que ela se fragiliza sem sua rede de proteção, ou é imaturo e egoísta, ainda não está preparado para de fato ser marido e pai. Ainda age como um menino mimado que deseja ser agradado, servido e protegido, ao invés de assumir o papel de homem que protege, ama, se expõe e se sacrifica pela mulher que ama e deseja.

O livro Cântico dos Cânticos costuma ser descaracterizado do seu sentido imediato de um poema de amor esposal, para ser ensinado exclusivamente como um símbolo da relação de Deus com a Igreja. A questão é que ele é um símbolo desta relação precisamente porque fala do casamento, e ensina não apenas como um esposo deve tratar sua esposa, mas até sobre como olhar para ela e vice-versa.

Toda a conversa sobre o homem ser “o cabeça” da esposa, e ela ser “obediente” a ele, está exemplificada ali, e se tem algo que não está presente são relações de subserviência, de submissão, de apagamento de qualquer um dos dois. Nem o esposo nem a esposa são empregados um do outro. O esposo se doa completamente a esposa, olha para ela com absoluto encantamento, em uma mistura de carinho, desejo sexual, amor, respeito, amizade e admiração, tudo ao mesmo tempo e também ela olha para ele dessa forma. A “obediência” dela é antes gratidão natural pelo tanto que ele a ama em sentimentos *E* em ações. Veja como a esposa fala de seu esposo nesta Santa Escritura:

3.Como a macieira entre as árvores da floresta, assim é o meu amado entre os jovens; gosto de sentar-me à sua sombra, e seu fruto é doce à minha boca. 4. Ele introduziu-me num celeiro, e o estandarte, que levanta sobre mim, é o amor. 5. Restaurou-me com tortas de uvas, fortaleceu-me com maçãs, porque estou enferma de amor. 6. Sua mão esquerda está sob minha cabeça, e sua direita abraça-me.
10. Meu bem-amado disse-me: Levanta-te, minha amiga, vem, formosa minha.

O esposo é para ela como a macieira que a acolhe no dia de sol, e os seus frutos, as ações que ele realiza por ela, são todos doces, bons. Não há aí agressão, inveja, exigências esdrúxulas, apenas o desejo do bem dela. Ele estava frágil e cansada e ele a colocou em um celeiro, mais uma vez protegendo-a, e o estandarte que levanta sobre ela não é o de um rei cruel e exigente, sempre a desejar o sacrifício de seus servos, mas o estandarte do amor que se doa. Ele não a fere, ele a restaura. Ele não a enfraquece, ele a fortalece. Com sua mão esquerda a protege, com a direita a ama carinhosamente. Finalmente, o esposo não diz “curva-te”, mas diz “levanta-te”, chama-a não de “serva”, alguém que vive para o bem dele, mas de “minha amiga”, alguém que é igual a ele. Quando diz “vem”, é para enfatizar o “levanta-te”, pois nas horas de queda, ele está lá para ajuda-la a lembrar-se que é capaz. E acima de tudo, ela é a beleza da vida dele, “formosa minha”.

Não existe livro melhor no mundo para educar os esposos no trato e sentir um com outro do que Cântico dos Cânticos. Vale ler o livro inteiro.

Adão

Nas Santas Escrituras vemos a recomendação de o homem entrar no mundo da mulher desde o Gênese. Vejam a passagem:

E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão. E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada. Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne. - Gênesis 2:22-24

Reparem que assim que Deus forma a mulher, antes mesmo da Queda, Deus já define o papel do homem conforme explicamos aqui: o homem deixará o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher. Vejam que Adão nem tinha pai e mãe, mas o papel futuro de todos os homens já está definido nele: é o homem que tem que deixar sua família para ficar com sua mulher. Ele é que tem que sair “da barra da saia da mãe” e ir viver a vida e o mundo social e familiar da sua esposa, como Deus deixou os céus para viver em nosso mundo. Nunca o contrário. Já ali vemos uma prefiguração da Encarnação e da Salvação, na descrição do papel de homem no casamento. 

Jacó

E Isaque chamou a Jacó, e abençoou-o, e ordenou-lhe, e disse-lhe: Não tomes mulher de entre as filhas de Canaã; Levanta-te, vai a Padã-Arã, à casa de Betuel, pai de tua mãe, e toma de lá uma mulher das filhas de Labão, irmão de tua mãe; E Deus Todo-Poderoso te abençoe, e te faça frutificar, e te multiplique, para que sejas uma multidão de povos; E te dê a bênção de Abraão, a ti e à tua descendência contigo, para que em herança possuas a terra de tuas peregrinações, que Deus deu a Abraão. - Gênesis 28:1-4

Isaque ordena que Jacó se vá para evitar futuras brigas com seu irmão Esaú. Mas não apenas isso. Ele especificamente ordena que ele vá para a casa de sua futura esposa. No caso, por hábitos culturais da região e da época, o pai ordena a Jacó que ele vá se casar com uma de suas primas e more na casa de seu sogro e tio. 

Hoje em dia, não só a relação entre primos é reconhecida como inapropriada, mas dificilmente o homem vai morar com os pais de sua esposa, e nem seria isso conveniente. O importante é aplicarmos o princípio da coisa, o “espírito” da lei: o homem é que sai de seu “ambiente” para participar mais do ambiente familiar e social da esposa, mesmo que morem em casa própria. Além de ser a correta ordem espiritual, tem inúmeras vantagens psicológicas e sociais. Primeiramente defende a mulher. Dificilmente um homem cometerá algum tipo de injustiça ou violência sob as vistas dos pais, irmãos, parentes e amigos da mulher. De fato, estudos mostram que homens egoístas ou até francamente agressivos, tendem a afastar a mulher o máximo possível do seu ambiente de segurança. Ele exige que ela frequente mais seus amigos que os dela, não raro ao ponto que ela conviva mais com os círculos dele do que com os dela. Isso, claro, apenas a deixa vulnerável, pois os familiares, amigos e colegas dele tenderão a ficar do lado dele nas disputas, infelizmente até nas traições e violências, jogando todas as culpas sobre ela.

Quando Deus pede que o homem O imite e saia do seu círculo para o círculo da mulher, está cuidando também da saúde, segurança e bem-estar dela. Do ponto de vista psicológico, é mais comum que as mulheres tenham a sua realização pessoal mais ligada à família do que os homens. Inclusive é por isso que ele pode fazer essa transição com alguma tranquilidade, pois boa parte da realização pessoal do homem inclui, mas não depende tão fortemente do contato físico e constante com o círculo familiar. Um homem que saia de seu círculo familiar e de amigos para entrar no da mulher, consegue manter-se melhor, porque isso não constitui sua identidade de forma tão intensa quanto a dela. Repare que é muito mais comum para mulheres sofrerem do trauma do “ninho desfeito”, quando ela vê ser desfeita sua família original, ou a família que formou. Naturalmente que isso também abala os homens, mas o impacto na alma feminina tende a ser mais profundo e mais grave, podendo até refletir-se em doenças físicas. 

Ao ordenar aos homens que convivam com a família de sua esposa, Ele protege o coração da mulher, que verá de forma bem próxima ambos os núcleos familiares, o que ela nasceu e o que ela está formando. E quando, pela ordem natural das coisas, o núcleo familiar em que ela nasceu for desaparecendo por morte dos pais, ela terá a sensação de dever cumprido por ter estado perto deles, e terá ainda o novo núcleo ao seu lado dando apoio.

terça-feira, 8 de julho de 2014

O Papel dos Esposos na Igreja Ortodoxa 1/3



Uma das coisas mais deprimentes de se ver é um homem que busca apagar a mulher que diz amar para que ela se torne apenas mais um dos elementos de sua realização pessoal. Além de um bom emprego, um bom carro, uma boa casa, ela entra como uma boa amante, uma boa mãe dos filhos dele, uma boa dona de casa, uma boa mulher para mostrar em sociedade e provar que conseguiu a "presa" mais valiosa do grupo, mas tudo isso é só um serviço para ele mesmo. Ele não ama a ela em particular, mas a qualidade dos "serviços" que ela pode lhe prestar.

Ele pede, com “jeitinho” se for minimamente educado, ou com violência se for um animal, que ela se dedique prioritariamente a contribuir, a ceder sempre, agora só um pouquinho, depois mais um pouquinho; e no fim o pouquinho se torna o tempo inteiro, a vida toda. A missão da mulher se reduz a realizar a vida dele, sem que ela tenha tempo de se ocupar com o que Deus pôs em seu próprio coração. A ela cabe sacrificar sua família, seus sonhos, sua realização pessoal, ou ao menos coloca-los entre parênteses, para que ele se realize em primeiro lugar, e, se der tempo, quem sabe ela possa até ter um trabalhinho para ganhar um trocado e não ficar tão ranzinza, negando sexo ou não sendo perfeitinha o tempo inteiro, não é? Mas desde que isso não atrapalhe a vida *dele*, a qual, essa sim, não pode ceder em nada, não pode se abalar em nada, não pode se desviar em nada. Naturalmente, esse "homem" pode sê-lo em idade, fisicamente, socialmente, financeiramente mas tem o coração de moleque ainda.

Se o infeliz tiver acesso a fontes cristãs, pode ainda abusar de trechos que falam da “obediência” da mulher, do papel dela como “auxiliadora” do homem e várias outras. Pior ainda se a mulher mesma cai nessa armadilha ou se acredita nisso.

O modelo cristão, porém, diz que o casamento é ícone da relação de Deus com a Igreja. O esposo deve agir em relação à esposa como Deus (o Deus cristão), age em relação à Igreja: saindo da sua origem, "encarnando-se" no mundo da amada, morrendo por ela, e dando-lhe a força de sua própria vida.

O Noivo - O Rei da Glória - Extrema Humildade
Modelo de Namorado, Noivo e Marido
E se tivermos preguiça de ler as Santas Escrituras, basta participarmos das cerimônias da Semana Santa que antecedem a Páscoa para entendermos o que a Igreja exige dos maridos. Entre elas existe a Cerimônia do Noivo (O Nymphios - Ο Νυμφιος). Ali temos o ícone de “Cristo, o Noivo”, também chamado de ícone da Suprema Humildade. O ícone remete à parábola das Dez Virgens em S. Mat 25, mas o a imagem em si mostra o Cristo no momento da Paixão, coroa de espinhos na cabeça, manto nas costas, o corpo coberto de feridas. O significado teológico é riquíssimo, mas vamos nos ater ao assunto do artigo. O ícone e a cerimônia do Noivo são também um recado aos homens, no seu papel de namorados, noivos e maridos: você tem que ser por ela como Cristo no caminho para o Calvário. É você tem que morrer pela mulher que ama. É você que se coloca em risco, que não teme ser ferido por muito amá-la, não apenas fisicamente, mas integralmente até a alma. Por ela você aceitará a ingratidão, a traição, a calúnia, a injustiça, surras do mundo, perseguições, infâmias, e por amor dela e de sua salvação você subirá voluntariamente na cruz, mesmo que tivesse os meios de evitar esse destino. O verdadeiro heroísmo, a verdadeira luta, é suportar as dores do mundo por ela. O herói, o "cabeça" não pede nem exige que a noiva é que se sacrifique por ele - e evidentemente *nunca* a agride, situação em que ele representa o demônio e não Deus. Você é que se sacrifica por ela.

Como Cristo deixou sua amada mãe para subir na Cruz por amor da Igreja, como Cristo deixou os céus para viver na terra com sua Igreja, como Cristo abdicou do uso de Sua onipotência para compartilhar de nossa vida, você, homem, tem o dever de abdicar da sua vida pela sua esposa. É você quem deve se sacrificar por ela sem esperar retribuição. É você que sai da sua zona de conforto por ela, que muda seus planos e modo de vida por ela. É você que abdica das suas coisas pelas coisas dela. É você que se preocupa mais com a realização pessoal dela do que com a sua. É verdade que a Igreja diz que a mulher deve ser obediente e devotada ao marido, mas não a qualquer marido, e sim a esse marido que descrevemos. O marido que coloca a esposa em primeiro lugar, que a honra e ama, a ponto de abdicar da glória pessoal para exaltá-la. Que se une a ela e a tem como igual (lembram que Cristo-Deus chama os Apóstolos de “amigos” e “irmãos”?)

Apenas a um tal homem que deseja o bem o tempo inteiro à amada, que só pensa em glorifica-la e vê-la nos céus, que se sacrifica por ela o tempo inteiro, apenas a um tal homem é que ela pode dedicar sua confiança e sua obediência, segui-lo e se tornar sua auxiliadora, inclusive porque ela o auxilia naquilo que é a principal meta dele: amá-la, desejar o seu bem, engrandece-la. É assim que Deus age com a Igreja. É assim que o marido deve agir com a esposa. Ele não pede que ela se crucifique por ele, ele se crucifica por ela. E apenas se, diante dos problemas da vida, ele for crucificado pelos perversos ou pelas circunstâncias, é que ela o acompanha, como Maria estava ao pé da Cruz de seu Filho, como os santos acompanham o martírio do Cristo. Mas Cristo *nunca* pediria à mãe ou à Igreja que fizesse aquilo que era dever dEle fazer. Em plena Cruz, ao invés de pensar em Si, ele estava providenciando para Sua mãe um protetor terreno na figura de Seu primo e discípulo S. João, e não pedindo que eles dois se crucificassem para que Ele pudesse viver, sob a desculpa dEle ser o Cabeça (que Ele era de fato) e eles lhe deverem obediência (que eles realmente deviam). Esse é o único papel digno da expressão “ser esposo”.

Este é o teste definitivo para um homem saber se realmente ama uma mulher: Você sente alegria em desistir de tudo que é seu por direito por ela? Você se sente extremamente feliz em ser o “cabeça” da vida dela através da dedicação da sua própria vida em ajuda-la a realizar seus sonhos e alegrias, a vê-la brilhar? Você se sente realmente feliz de vê-la forte e no local de seu próprio coração, ou isso te dá insegurança, ciúme e uma sensação de que ela não está se dedicando o suficiente a você? Quando você diz a ela “eu te amo” isso significa que ela é o centro da sua vida, ou o que você ama são as coisas que ela pode te oferecer: sexo, prestígio, elogios dos outros, segurança?

Se a sua resposta for não para uma dessas perguntas, ou se escolheu a segunda opção da última pergunta; ou pior, se você sente que se dedicando a ela em primeiro lugar estará desistindo de algo muito importante para você, então você não a ama. E tenha cuidado, porque se você percebe que servindo a esta mulher você estará se anulando ou desistindo de algo importante na sua vida, é porque esta *não* é a mulher que Deus reservou para você e você não é o homem que Deus reservou para ela. Pois quando encontrar a mulher que Deus reservou para você, é fazendo tudo isso por ela que você se sentirá realizado como esposo, e isso poderá mudar sua vida, mas não vai abalar seu coração nem sua alma. E você, como homem, reconheça o quanto é indigno que sua segurança e força dependam de outras pessoas, ainda mais do apagamento de uma mulher. É uma covardia e um bullying. Como homem, sua força, caráter e estabilidade emocional tem que vir de Deus em primeiro lugar e de sua própria força interior em segundo. Você não suga sua força dela. É você quem empresta sua força a ela. Você não a usa para ter a honra da sociedade. Você tem o dever de conquistar essa honra por suas próprias forças, sem depender dela para isso. Seja homem! É você que empresta sua honra para ela.

Talvez você sinta desejo por essa mulher, talvez você sinta amizade, talvez você tenha algum tipo de dependência emocional em relação a ela, talvez você esteja só possessivo e tendo visto que ela é preciosa de alguma forma (por ser bela, ou inteligente, ou estilosa, ou atende algum ideal social de “boa esposa”) deseja tê-la para si, querendo que ela sirva seus propósitos, mas definitivamente não a ama, pelo menos não como esposo. Deus não pede nada impossível para nós. Se Ele ordenou que nós seguíssemos a vocação que Ele mesmo pôs em nossos corações e, ao mesmo tempo, ordenou que o homem sirva à sua mulher e que a mulher seja obediente ao seu marido, então não será a relação que Deus quis se a relação entre vocês dois impede a vocação de um dos dois, ou se a relação entre os dois não é harmônica nos termos que Deus ordenou e acabamos de explicar.

Se você não ama o mundo dela, no qual você deve entrar, então você não a ama. Infelizmente, alguns homens acham que "lutar" por uma mulher consiste em lutar para tirá-la do mundo dela, e condicioná-la ao seu mundo. Não é assim para o cristão ao menos. Repito: seguimos o exemplo de Cristo-Deus, o marido é que deixa o seu mundo e se "encarna" no mundo dela, se tornando parte dele. E deixe-me te dar uma dica. Se você não gosta do "mundo" dela, tirá-la de lá não vai adiantar nada, porque ela sempre vai trazer esse mundo em seu coração, ela sempre estará lá. É verdade que alguns homens percebendo isso trabalham para apagar ou mudar o que elas trazem na sua alma, mas esses são homens por força de expressão apenas. Não passam de covardes.

Por outro lado, se esse mundo é ruim ou desagradável para você, e se você tem a decência de não tentar destruir isso nela, nem mudar nada, você é que vai terminar com uma mulher que te irrita, ou te ignora, ou te despreza. Em algum momento vão descobrir a tal "incompatibilidade de gênios" ou os tais "santos que não batem". O conselho de Deus para que você entre no mundo dela, além de proteger a ela, protege você também. Te permite saber no que você está entrando, literalmente ver a alma dela nos elementos externos que a cercam; e nós homens somos muitos visuais, nós precisamos disso. Se a mulher possui um círculo cultural, intelectual, social, familiar ou de amigos que você não se encaixa, então tenha certeza, ela não se encaixa na sua vida também. Não vai adiantar você afastá-la de lá.

Nós dois próximos artigos da série, veremos o papel do esposo nas Santas Escrituras, começando pelo livro Cântico dos Cânticos, por excelência o livro dos casados, e depois com alguns exemplos de esposos na Bíblia e como Deus ordenou aos esposos saírem do seu "mundo" para se dedicarem ao “mundo” de suas esposas.

sábado, 21 de junho de 2014

Livro do Patriarcado de Moscou condena Dugin

Abaixo, para colocar um ponto final na lenda de que Dugin teria alguma coisa de cristão ortodoxo, a tradução do capítulo do livreto do Patriarcado de Moscou que denuncia todas as heresias e seitas ocultistas que assombram a Rússia. Dugin ganhou um capítulo inteiro só para ele. Herege, pagão e apóstata, nada tem de ortodoxo. Anátema, anátema, anátema!



A doutrina de Aleksandr DUGIN. “Novas associações religiosas da Rússia de caráter destrutivo e oculto: um guia / Departamento missionário do Patriarcado de Moscou da Igreja Ortodoxa Russa”.
Boletim informativo e analítico Nº1 – Belgorod, 2002, 3º edição, aumentada, 4.9 A doutrina de Aleksandr DUGIN.
( Link para referência ao livro no Google Books: http://is.gd/462IoK )

Guia.

Aleksandr DUGIN.

Doutrina:

Dentre as doutrinas neopagãs, as opiniões de A. DUGIN ocupam uma posição à parte. Em particular, isto se explica pelo status do autor, chefe do movimento “Eurásia” (pelo fato de ser um dos conhecidos ideólogos do movimento “Rússia”), por sua colaboração ativa com o Comitê Islâmico e por ser um político ambicioso.

Seus ensinamentos, transformados harmoniosamente na ideologia do movimento Eurásia, não podem ser examinados separados da concepção do mundo de seu mentor espiritual René GUÉNON, em cuja biografia estão contidos alguns dados que nos permitem de maneira mais objetiva avaliar o lado espiritual da doutrina de A. DUGIN.

Além disso, ficam também esclarecidos o papel e a posição da Igreja Ortodoxa, elaborados por A. DUGIN em documentos programáticos e outros escritos relacionados com a organização da OPOD (Movimento Pan-russo Social e Político) Eurásia e com a criação da futura União da Eurásia.

Todos os documentos utilizados para a preparação desta seção foram publicados em órgãos periódicos públicos de informação. As opiniões de A. DUGIN, de seus mentores e de seus seguidores foram tiradas de monografias, almanaques, dos órgãos de informação de massa por ele dirigidos e de outras edições, distribuídas basicamente por empresas comerciais controladas pelo movimento Eurásia e por outras estruturas dependentes do autor.

Sobre o autor da doutrina:

Aleksandr Gelevitch DUGIN [1] nasceu em 1962 no distrito de Tcheliabinsk. Seu pai foi um general que trabalhou na administração central do sistema de informações do Estado Maior das Forças Armadas da URSS. O papai general colocou o filho, que não concluíra a Escola de Aviadores de Moscou, no arquivo da KGB. DUGIN conhece cerca de 10 línguas europeias, e domina a língua hebraica. As pretensões de A. DUGIN o tornaram, aos 35 anos, o homem número 2 do Partido Nacional Bolchevique de Eduard LIMONOV. Entusiasmou-se pela maçonaria e pelo fascismo. Foi inimigo do “Império Soviético”. Atualmente, defende opiniões totalmente opostas.

Em 1991 foi publicado seu primeiro livro “Caminho do Absoluto” onde estão expostos os fundamentos de sua orientação religiosa. Em 1992 começa a editar a revista “Elementos”. Em 1993 publica o best-seller “Teoria da Conspiração” que se tornou o equivalente do livro de ação inglês “Caça aos Espiões”. No livro “Teoria da Conspiração” foi desenvolvido o tema das relações secretas entre a CIA e a KGB.

Segundo sua própria confissão, A. DUGIN na juventude intitulava-se “um fascista místico” e hoje em dia modificou esta denominação para “fascista ortodoxo”.

A. DUGIN considera o esotérico francês da primeira metade do século vinte René GUÉNON (15.11. 1886 – 07.01. 1951) como seu mestre, como autoridade reconhecida e incontestável, como emissário autêntico da teoria escatológica, considerando-o a figura chave desse período. Escreve: “René GUÉNON é o emissário do supremo centro para a última época, para o período de Kali Yuga, e os princípios da Tradição por ele formulados (o conjunto dos “conhecimentos não humanos transmitidos de uma geração à outra pela casta dos sacerdotes ou por outras instituições semelhantes) servirão de baluarte de salvação para aqueles que terão que, lutar contra “este Mundo” e seu “Príncipe”, fazer renascer a Tradição na sua dimensão autêntica, não humana e “angélical” e, fechando o ciclo, elaborar os fundamentos sagrados da Idade do Ouro que se aproxima.” [2]

Um dos objetos fundamentais das pesquisas de GUÉNON é uma versão da metafísica, na qual as concepções do hinduísmo exerceram uma grande influência.

Na tentativa de justificar GUÉNON (e, por conseguinte, suas próprias concepções sobre cristianismo), A. DUGIN diz que “a particularidade do tradicionalismo de GUÉNON faz às vezes com que os membros conservadores da Igreja considerem erroneamente o esoterismo e a síntese a que ele se refere como ocultismo e sincretismo.”[3]

E, 1912 GUÉNON se converteu ao Islamismo e adotou o nome árabe de Abd-el-Vakhed-Iakhia – Servidor Único.

Mais adiante [4], todavia, DUGIN indica que “GUÉNON recebeu iniciação maçônica do neo-rosacruz Theodor REUSS, que foi amigo, companheiro de armas e responsável pela iniciação de A. CROWLEY”. [5]

Lembremos que GUÉNON constitui uma autoridade incontestável para A. DUGIN.

O Neopaganismo à luz das concepções metafísicas de R. GUÉNON e de A. DUGIN
As primeiras pesquisas religiosas de A. DUGIN datam do início dos anos 90 do século passado e estão ligadas à fundação do almanaque “Anjo Gentil”, em cujas publicações são examinadas as fontes espirituais dos ensinamentos de um novo messias. Eis o que escreve a equipe de redação nesta edição [6]:

“Nossa tarefa fundamental ... constitui a restauração da tradição integral em toda a sua dimensão total ... O almanaque ‘Anjo Gentil’ combate a favor da restauração do espírito medieval, da forma de pensar medieval , da religiosidade medieval e da concepção de estado medieval.” Entretanto, como veremos a seguir, A DUGIN interpreta estes conceitos “medievais” do ponto de vista do neopaganismo.

Dentro dos limites da Tradição mencionada, DUGIN reconhece a primazia do não ser: “qualquer metafísica tradicional de pleno valor reconhece a prioridade do não ser sobre o ser”. [7] Aqui está uma das posições (respostas) da gnose escatológica de A. DUGIN: “O ser apareceu como prova de que o não ser que o continha antes de sua aparição não é a última instância, e de que, além de seus limites está presente o Outro, que não coincide nem com o ser, nem com o não ser[8]. Do seu ponto de vista o ser “não pode também afirmar sua própria primazia sobre o não ser, pois contradiria a verdade, já que o ser puro não é outra coisa senão a tradução na realidade, sob sua forma lógica, das possibilidade do não ser que o precedeu.”[9]
De maneira generalizada a doutrina espiritual de A. DUGIN está concentrada no almanaque “O Fim do Mundo. Escatologia e Tradição” (Moscou, Ed. Arktogaia, 1998). O próprio A. DUGIN denomina esta publicação de “manual de historia da religião”. Todavia, os aspectos históricos das várias crenças contidas neste trabalho são apresentados sob seu ponto de vista próprio (e totalmente peculiar). Isto contradiz definição do livro como obra histórica e lhe confere um aspecto dogmático. A mistura de concepções cristãs, runologia, conceitos pagãos, várias teorias da cosmogonia é só uma pequena lista das liberdades de um diletante para com os materiais da coletânea.

Ao inserir na coletânea histórica [10] um capítulo do livro “Caminho do Absoluto”, (”Gnose Escatológica”), A. DUGIN constata assim que sua doutrina religiosa já está formada.

Justificando o surgimento de novas religiões e cultos dentro dos limites da Tradição, A. DUGIN escreve literalmente o seguinte: “As normas e as estruturas esotéricas da Tradição se transformam em conformidade com a situação do ambiente cósmico, e, por conseguinte, aparecem novas religiões e tradições, novas redações do culto e novas práticas.”[11]

Esta afirmação tem consequências de longo alcance. Se o ambiente cósmico constitui o não ser que gera o ser, então o surgimento de novas religiões e cultos (possível somente nos limites do ser) é um fato objetivo (do ponto de vista metafísico) e isto significa que cedo ou tarde uma nova religião nos limites do Estado da Eurásia irá aparecer e além disso será absurdo resistir-lhe.

É de se notar que esta afirmação está inserida na seção do “manual” consagrada à analise dos ensinamentos religiosos de A. CROWLEY.

Desta forma, podemos desde já definir a doutrina religiosa de A. DUGIN como uma interpretação da metafísica do hinduísmo combinada a conceitos do marxismo ortodoxo. Sob o aspecto linguístico, esta doutrina reveste a forma de uma terminologia pseudocientífica, extremamente atraente para diletantes que, como o próprio A. DUGIN, não concluíram um curso universitário, e que compartilham dos ideais da ideologia comunista.

(Nota do blog - by Saulo: Acho que na época o Dugin não tinha se formado em nada ainda - será que ele dá aulas na Universidade de Moscou sem ter concluído um curso universitário? - "Dugin se apresenta como um acadêmico e filósofo, alegando dois títulos de PhD, mas quem e como lhe concedeu tais diplomas permanece um segredo cuidadosamente guardado [ http://en.metapedia.org/Alexander_Dugin ] )

A Ortodoxia na interpretação de A. DUGIN

DUGIN faz uma análise da Ortodoxia a partir da posição tradicionalista de GUÉNON, avançando a tese: “A Igreja Cristã ... se seguir uma orientação tradicionalista e conservadora, em regra geral, na melhor das hipóteses, constitui o apoio fundamental para a conservação do aspecto esotérico, ritualístico e dogmático... . A Igreja ou limita sua atividade não litúrgica por um moralismo simplificado, ou , o que é pior, tenta ocupar-se da apologética baseada em teorias fundamentalmente profanas, contemporâneas e antitradicionalistas, ou ainda, o que é terrível, tende ao sincretismo, ao ecumenismo e mesmo ao neoespiritualismo mais baixo....”. [12]

Nas obras de A. DUGIN manifesta-se claramente o efeito da lei da dicotomia. Por exemplo, a tentativa de pesquisar as crenças pré-cristãs e pré-ortodoxas da Rússia leva A. DUGIN a conclusões paradoxais. Eis uma delas: “O Cristianismo não substituiu, mas elevou e consolidou a fé antiga pré-cristã.” [13

Escreve: “Quando temos diante de nós uma tradição realmente importante e autêntica, podemos quase sempre descobrir nela seu transcendentalismo e seu caráter imanente, sendo que esta última característica constitui sua parte interior e esotérica.”[14], ou seja, para A. DUGIN o paganismo é também uma suposta Ortodoxia, todavia melhor e mais original. “O aspecto imanente” é a concepção mística do mundo de A. DUGIN e de seus seguidores. Esta concepção provém em particular do fato de que basta pensar em uma “conspiração” e a ideia de conspiração já se torna realidade e, na medida, que sou “eu” que penso, então isto é uma realidade bem mais importante do ponto de vista metafísico do que a realidade concreta [15]

O “aspecto imanente” não distingue ideias que tem seu fundamento na vida quotidiana e também as ideias nominais (ou ordinariamente fictícias), e dá preferência às fictícias. A incapacidade da tentativa de associar o “aspecto imanente” ao Cristianismo manifesta-se de maneira particularmente visível na tentativa de interpretação do Credo, tentada por A. DUGIN, onde ele geralmente descamba para uma franca heresia[14]. Assim, ele afirma que o Credo de Niceia é uma profissão de fé com “uma pequena concessão a preconceitos cristãos”. Além disso, A. DUGIN geralmente chama o Credo de “Fórmula da Fé [16]. Ao fazer isto, considera que os primeiros três membros (ou, na terminologia de A. DUGIN, pontos) fornecem uma imagem absoluta e acabada da metafísica [17]

Nas suas “obras” [18] A. DUGIN simplesmente blasfema ao afirmar certo aspecto real (existencial ou ontológico) da Trindade. Ele nega a revelação de que Deus é o criador do mundo e que este sempre transcende qualquer aspecto material.

DUGIN introduz uma inovação na doutrina da imortalidade da alma. Escreve em particular: “A Alma, uma forma sutil, tecida de substâncias da atmosfera, sobrevive ao corpo no qual ela passou sua vida terrena e pode viver de modo independente mesmo depois da morte corporal ... Mas o caminho para o céu do espírito ... é impossível para a alma individual, pois, este mundo, por definição não admite em si seres revestidos de forma”.[19] Entretanto, de acordo com a doutrina ortodoxa, Deus cria a alma pelo seu sopro criador [20].

DUGIN em um sentido puramente teosófico insiste na “descoberta dentro da personalidade humana” de uma substância radicalmente diferente do velho “eu” habitual do indivíduo. Afirma que esta descoberta se passa durante o batismo [21]. E nisso A. DUGIN vê uma saída para a “salvação” do ser humano.

Tal afirmação contradiz diametralmente a definição de João Damasceno: “a alma é uma substância viva, simples e incorpórea, por natureza invisível aos olhos humanos, imortal, dotada de entendimento e inteligência e não possui uma imagem (forma) determinada”. Ela age com auxílio do corpo orgânico e comunica-lhe vida, crescimento, sentimento e força de geração. A inteligência ou o espírito pertence à alma não como algo diverso, separado dela, mas como sua mais pura parte. O que são os olhos para o corpo, assim é a inteligência para a alma. A alma é um ser livre, dotado de capacidade de vontade e ação. Ela é “suscetível de mudança por parte da vontade”. [22]

As concepções e declarações errôneas e por vezes francamente heréticas de A. DUGIN são complementadas pela runologia, pela doutrina sobre o caráter cíclico das fases cósmicas e pelas demais crenças pagãs.

De acordo com a mencionada lei da dicotomia, utilizada por A. DUGIN largamente para elaborar os seus trabalhos, chega à conclusão inevitável de que existem dois tipos de hinduísmo segundo GUÉNON – um bom e um mau. O “mau” é o ocidental e o “bom”, o oriental, supostamente ortodoxo. A. DUGIN vê “um futuro brilhante” para a ortodoxia com a combinação do princípio esotérico da Igreja (isto é, com a organização eclesiástica) com a gnose esotérica pagã. Esta abordagem, como ele descreve, abre “possibilidades ilimitadas para uma compreensão profunda e inesperada da ortodoxia russa”[23]. Assim, A. DUGIN afirma que na pessoa dos “heréticos gnósticos” já existe um fundo de ortodoxia, faltando somente o aparato metafísico. Por isso, o único caminho consiste em adotar a religião tradicional e, em seguida, tentar, no âmbito desta religião, penetrar pela prática espiritual, ritual e intelectual nos seus aspectos esotéricos interiores, nos seus mistérios” [24]. A. DUGIN aconselha que, “para que os gnósticos não se submetam à influência das ideias cristãs, estes devem aspirar a minimizar a dimensão humana, terrena e secular da Igreja ..., é indispensável a despeito de tudo insistir na totalidade mística e na perfeição da Igreja, destacando seu aspecto atemporal, benéfico e transformador”[25]. Além disso, pensa que: “ a tarefa fundamental para se aplicar os princípios do tradicionalismo integral ao cristianismo e, em particular, para a ortodoxia, pressupõe tornar-se um seguidor imediato e ortodoxo de GUÉNON” [26].

Isto nada mais é que um apelo à criação dentro da ortodoxia de uma nova tendência (seita), isto é, uma tentativa de um simples cisma.

A. DUGIN evidentemente desconhece que a mantenedora da verdadeira tradição – a Igreja – se protege e se protegerá com antecedência contra sociedades secretas no seu seio. Ele apresenta a situação de tal forma que pelo seu desejo pode juntar à Igreja suas convicções pagãs.

Segundo a opinião audaz de A. DUGIN, “Se nós fomos resgatados pelo Cristo, então, em princípio em nós não há pecado, e é necessário ir corajosamente para o mundo da deificação e não contar meticulosamente suas imperfeições” [27]. Pela mesma razão coloca-se em dúvida um lado fundamental da vida espiritual como o arrependimento, como a confissão, em outras palavras, o leitor é de fato conclamado a uma recusa voluntária de participar nos mistérios mais importantes da Igreja, que constituem uma parte obrigatória da vida ortodoxa.

“A revolução religiosa é vista por DUGIN como a preservação de todos os aspectos dogmáticos, rituais, doutrinários e simbólicos da fé ortodoxa. Esta revolução, porém, destrói aquelas contribuições intelectuais, de caráter nobre e protestante ou de soviético conformista, e mais frequentemente de fundo liberal, que erroneamente são assimilados hoje em dia com a Igreja e que afastam dela muitas pessoas dignas, fortes e nobres de tendência revolucionária” [28].

Por seus objetivos, A. DUGIN aproxima-se dos chamados modernistas, adeptos de Kotchetkov, de Men, de Borisov e de Jeludkov - e semelhantes. Ele tenta de modo persistente “assimilar” a ortodoxia ao paganismo, e os modernistas acima citados vão ao seu encontro, expondo a ortodoxia dentro deles, e também no espírito e na alma de seus adeptos. “Este homem se colocou fora da Divindade e da lei humana, escolheu para si um ponto de vista fora do bem e do mal, acima da lei e da felicidade” [29]. E se os representantes das correntes renovadoras acima enumeradas seguem o caminho de uma suposta simplificação, DUGIN, ao contrário, com todas as suas forças esforça-se para tornar o evidente incompreensível e ambíguo, utilizando para tanto o aparato conceptual e linguístico da metafísica.

Podemos supor que as doutrinas religiosas de A. DUGIN constituem uma compilação de crenças ocidentais (protestantes) e orientais (hindus). Não possuem nenhum fundamento espiritual da ortodoxia e não podem ser consideradas uma doutrina religiosa completa no sentido atribuído a este conceito pelos homens de ciência – teólogos e filósofos.

Posição de A. DUGIN com relação ao Islamismo

Uma das primeiras medidas oficiais tomadas pelo movimento “Eurásia” foi uma conferência sobre o Islamismo “Ameaça do Islã e ameaça para o Islã”. A conferência realizou-se no dia 29 de junho de 2001 no prédio do “Hotel-Presidente” sob a presidência do porta-voz da Câmara de Deputados, G. Seleznev, do grão mufti da Rússia Talgat Tadjuddin e de A. Dugin (nesta época ele tinha-se tornado conselheiro de Seleznev para questões de geopolítica). Um número especial da “Revista da Eurásia” foi consagrado às relações do Movimento com o Islã. A Divisão de relações exteriores da igreja ortodoxa do Patriarcado de Moscou publicou nas páginas desta edição um artigo do padre Vsevolod (Tchaplin), artigo este que ocupa apenas um pouco mais de 5% do volume total da revista.

Cabe notar que em todos os artigos sobre o Islã não há qualquer referência às numerosas manifestações extremistas dos pseudomuçulmanos. Além disso, no artigo [31] do autor permanente do jornal, Khoj-Akhed Nukhaev, propõe-se a criação “no território da Chechênia meridional uma casa comum da Eurásia, uma organização construída segundo os princípios da doutrina dos cãs tártaros (reunião dos muçulmanos, cristãos e judeus e todos os homens de boa vontade, prontos para submeter-se a esta organização em torno de uma missão comum de revitalização da Terra e cura da alma da humanidade contemporânea).
As ideias de Kh-A. Nukhaev estão bem próximas das de DUGIN. Por exemplo, ele propõe construir o Estado da Eurásia em duas etapas:

Na primeira etapa será fundada a CUEA – Confederação Unificada dos Estados Autoritários.

Na segunda, ela se transformará na Casa Comum da Eurásia.

Podemos imaginar que o Islamismo é mais próximo de DUGIN como fundamento espiritual da ideia de Eurásia. São interessantes as reflexões de DUGIN a respeito da “terceira capital” [32]. Ao examinar o papel desempenhado pelas cidades de Kiev, Moscou e São Petersburgo na história da Rússia, ele, notando o fato de que na Rússia moscovita a etnia torna-se particularmente grã-russa, designa este estado, todavia, como turco-eslavo. Do seu ponto de vista, a capital ideal da Eurásia seria Kazan. Para confirmar suas palavras, escreve: “Ivan o Grande (Terrível) apresenta-se com o legítimo herdeiro da vontade geopolítica da Horda de Ouro, como um tzar especialmente grão-russo, no qual as raízes eslavas se unem com o sangue tártaro sob o estandarte da ortodoxia bizantina”. Ele considera que “o Tartastan representa o modelo de uma entidade federativa da Eurásia. Graças ao impulso tártaro, turco, os russos se conscientizaram como grão-russos, separando-se para sempre do modelo pequeno-russo de Estado. O elemento tártaro é o fator mais importante tanto para a etno-gênese dos grão-russos como para a forma de governo – para a gênese da própria Rússia – Eurásia”. E, finalmente, a afirmação mais interessante: ”O Islamismo dos cãs tártaros é valioso para a Eurásia não como “uma forma incompleta de ortodoxia”, mas como a variedade ortodoxa do Islamismo. E, inversamente, para o Islamismo ortodoxo não há tradição mais próxima do que a Igreja Ortodoxa” [33].

A. DUGIN considera que os métodos metafísicos servem não só para o estudo da ortodoxia, mas também para o do Islamismo. Assim, ele cita a coincidência da opinião do conhecido metafísico muçulmano Gueidar Djemal com a sua própria: “O Fim é mais fundamental do que o começo ... A Negação é a mais fundamental de todas as realidades”[34]. É revelador que este artigo de A. DUGIN foi por ele publicado no jornal dos comunistas russos “Amanhã” nº 21 (338) no ano 2000. Ao fazê-lo, A. DUGIN revelou um total desconhecimento com um documento analítico com “Jiad do povo tártaro na Rússia”[35], no qual a “proximidade” agressiva do Islã com a ortodoxia foi refletida em mais de uma acepção.

Se levarmos em conta o apelo de A. DUGIN para a superioridade da união com os estados muçulmanos, e a possível tomada do poder por eles da União Européia, surge então a seguinte pergunta:

Qual mecanismo A. DUGIN propõe utilizar para prevenir a repetição da situação que hoje em dia se formou no Afeganistão (tem-se em vista o julgamento de missionários cristãos pelos talibãs)?
Levando-se em conta que, segundo as palavras do Cheiq-ul-Islam Talgat Tadjuddin, a população muçulmana manifesta seu pleno apoio ao presidente Putin, podemos com segurança considerar que ela também assim procederá para com a A. DUGIN, que abertamente demonstrou uma posição favorável em relação às ações do dirigente do país.

Posição em relação à maçonaria contemporânea

Na concepção de A. DUGIN, a maçonaria é em princípio “um movimento iniciático bom, dividido pela influência de forças exteriores num ramo ruim “egípcio” e num bom, cristão e escocês”[36]. Por esta afirmação, A. DUGIN revela sua total incompreensão da teoria maçônica, que nega qualquer religião como base da existência espiritual da sociedade.

Apesar disso, oferece certo interesse a conversa que teve A. DUGIN (ele neste caso se apresentou como autor do almanaque “Anjo Gentil” – AG) com o chefe do ramo francês da “Ordem dos Templários Orientais” (mais tarde reformada por A. CROWLEY), um tal irmão Marcion (Christophe Bouchet) [37] quando da sua chegada na Rússia.

Examinando a ação dos maçons no decurso de alguns séculos, o irmão Marcion analisa o lado oculto da ação da SS na Alemanha de Hitler, considerando que “a maioria dos trabalhos dedicados à pesquisa do nacional-socialismo são simplificações vulgarizadoras que aspiram a apresentá-lo como o um mal absoluto”. Ele, baseado nas publicações de Savitri Devi Mukherji, esposa do brâmane Mukherji, considera que “no interior no Nacional-socialismo existiu uma evidente tendência messiânica”.

Nesta mesma passagem, o irmão Marcion afirma que “tudo o que se diz ter-se passado nos campos de concentração nazistas (e também nos stalinistas) não passa de um enorme exagero”. (Evidentemente o irmão Marcion desconhece os materiais do julgamento de Nurenberg).

Segundo a confissão do irmão Marcion, seções de lojas maçônicas existem em muitos países da Europa Ocidental, incluindo a Iugoslávia, onde, há alguns anos, o número dos seguidores de Crowley era muito grande. À pergunta relacionada com a fé dos maçons ele responde literalmente assim: “Eles creem no poder e na necessidade de dominar, subjugar e governar a si próprios”.

As teorias de Crowley à luz do enfoque metafísico de A. Dugin

A tentativa mal dissimulada de conciliar a ortodoxia com crenças que lhe são opostas deve-nos por de sobreaviso. Neste sentido, A. DUGIN até tenta demonstrar que A. Crowley não é perigoso para qualquer crença como geralmente é descrito. O autor produz uma série de citações que justificam Crowley, tentando provar que ele é somente um dos mais importantes pesquisadores (filósofos) dos nossos tempos. Tal atitude para com o “messias” do satanismo é mais do que reveladora, como também o fato de que, analisando a doutrina de Crowley, ele põe a palavra “satanismo” entre aspas. Exteriormente tenta tomar a posição de um analista independente das diversas crenças, sobre as quais a coletânea contém informações. Na base das reflexões de A. DUGIN também se encontram aqui as concepções metafísicas de Guénon, bem conhecidas por ele. Opondo iniciação e contra-iniciação, ele pensa que “as mais terríveis e sérias deturpações e dessacralizações cabem às pessoas com as melhores intenções, convencidas que são ortodoxas e portadoras do bem mais evidente”. E mais adiante: “Na maioria das vezes os não conformistas religiosos ( “hereges” , “satanistas”) buscam a plenitude da experiência sagrada, que os representantes da ortodoxia não podem lhes oferecer. Não é culpa deles, mas seu infortúnio, e a verdadeira culpa cabe àqueles que permitiram que sua autêntica tradição se transformasse em uma fachada superficial detrás da qual não há simplesmente nada. E talvez precisamente estas forças e grupos suspeitos caminham para a realidade profunda, enquanto que os profanos que permanecem na periferia por todos os meios criam obstáculos” [38].

Por meio de reflexões corriqueiras, A. DUGIN chega mais adiante à conclusão de que o papel “dos satanistas” (ou da Ordem de Seth) na divisão das igrejas ortodoxa, católica e protestante é simplesmente insignificante: pois a formação de A. Crowley se deu no seio da irmandade protestante de Plymouth, cujo propagador foi seu pai. É interessante a seguinte afirmação de A. DUGIN: “todas as vezes que Crowley acentuava o seu “satanismo”, só expressava uma clara compreensão do valor de sua posição diante do campo metafísico que ele conscientemente abandonara. E nada mais”. Desta forma, a doutrina espiritual de A. Crowley se reduz somente a uma negação dos dogmas do protestantismo. Por este mesmo raciocínio, deixa entender que desconhece algo de maléfico nos satanistas russos e na atividade de seitas semelhantes em muitos países do mundo. Mais do que isso, propõe considerar A. Crowley como “herege da heresia”, “um Anticristo no seio do anti-cristianismo”, e que é especialmente indispensável levar em conta, ao se avaliar Crowley, seu autêntico significado para a Rússia [39].

Em outras palavras, A. DUGIN culpa o próprio cristianismo pelo aparecimento das concepções anti-cristãs de A. Crowley: a identificação que Crowley faz de si próprio com o “Anticristo” “não era para ele a expressão do caráter destrutivo de sua missão, mas tão somente uma assimilação de denominações e títulos para provocar, no contexto cultural cristão; títulos estes que os profetas cristãos atribuem, no âmbito de seu contexto religioso (a religião de um Deus que morreu e ressuscitou) a “profetas de uma nova era” [40] que lhes são incompreensíveis”. E de maneira geral, do ponto de vista de A. DUGIN, o próprio A. Crowley de modo “reflexo” e irônico descreve sua magia sexual em termos de Anticristo. Isto é, toda a doutrina de Crowley se reduz a um gracejo! Neste ponto é oportuno lembrar algumas formulações de Crowley em um de seus livros relativo aos sacrifícios humanos: “dependendo dos objetivos místicos devem ser executados esfaqueamentos, espancamentos até a morte, afogamentos, envenenamentos, decapitações, estrangulamentos, autos da fé etc.” [41], ou ainda “O sangue lunar é o melhor, também o é o menstrual, o sangue fresco de uma criança e um fragmento da hóstia sagrada, em seguida, o sangue dos inimigos, depois o de um sacerdote ou de um crente e, em último lugar, o sangue de um animal qualquer” [42]. A. Crowley também recomenda: “O objeto mais conveniente para estes casos é uma criança de sexo masculino, inocente e intelectualmente desenvolvida (“Apontamentos mágicos do irmão “Perturabo” – pseudônimo litúrgico de A. Crowley)”. Dá entender que no período entre 1912 e 1928 ele executou tais sacrifícios numa média de até 150 ao ano [43].

E a parte final do artigo. “Impossível excluir a possibilidade de que o seu negativismo mais repulsivo e evidente, sua antinomia e sua “natureza maléfica” estejam mais próximos da verdade e nos ajudem a adquirir orientações espirituais corretas, pois, não é verdade que o caminho do paraíso esta revestido de maus pensamentos”?[44].

Ao que foi dito não é possível acrescentar mais nada. É verdade, ainda, que no livro “O Fim do Mundo” foi integrada totalmente a obra fundamental de A. Crowley “O Livro da Lei”, o que pode ser considerado uma forma de propaganda para os seguidores de A. DUGIN.

Tentemos formular as posições religiosas de A. DUGIN a partir da breve análise dos materiais acima examinados:
  1. Visão do mundo contrária à Ortodoxia, baseadas na primazia do não ser sobre o ser, com emprego do aparato conceptual e linguístico da metafísica.
  2. Presença na sua doutrina de concepções diretamente ligadas à visão do mundo hindu (tantrismo, metafísica indiana), e também com elementos da Teosofia que refletem as opiniões de R. Guénon (iniciado na Maçonaria, supostamente na Ordem reformada dos Templários Orientais – ou Ordo Templi Orientis, a O.T.O.).
  3. Apelos para “uma reforma” da Ortodoxia, em particular por meio da erosão da Ortodoxia como verdadeira crença, da introdução no interior da Igreja de seus inimigos, da liquidação das tradições ortodoxas, da sua submissão ao Islã e, no final das contas, sua destruição pelo emprego do aparelho administrativo da famigerada União da Eurásia. Como etapa intermediária, uma utilização conjuntural da Ortodoxia para atingir seus próprios objetivos políticos no confronto com os partidários da aliança atlântica na marcha para uma real dominação do mundo.
  4. Uma evidente preferência pelo Islã em detrimento das outras crenças religiosas, no seio de uma relação condescendente para com a maçonaria e o satanismo.
  5. A crença religiosa de A. DUGIN ao contrário das outras doutrinas religiosas tradicionais está dirigida para uma classe social de elite. Para sua compreensão exige-se um preparo específico, em particular de natureza filosófica. E isto coloca esta crença na categoria das ideologias ocultistas e místicas em função da critica que faz das posições conceptuais das principais religiões do mundo.
  6. A arbitrariedade na interpretação dos postulados fundamentais do Cristianismo e uma difusão deste tipo de material através de fontes de informação publicamente acessíveis colocam A. DUGIN fora dos muros da Igreja.
O centro de distribuição da doutrina de A. DUGIN é a loja “Transilvânia” (sita em Moscou, à Rua Tverskaia 6/1 5, telefone 229-87-86/33-45, site www.arktogaia.com). Citemos o conteúdo deste site publicado no jornal:

  • Filosofia
  • História das religiões
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  • Sociologia
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  • Psicologia das profundezas
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  • Teoria da conspiração
  • Análise dos acontecimentos correntes
  • Versão na rede das publicações periódicas da Eurásia, links para mensagens, fórum.
Nas instalações da “Transilvânia” se encontra também a loja “Artogaia-2”, onde estão expostos praticamente todos os trabalhos de A. DUGIN, bem como obras fundamentais sobre um vasto círculo de problemas de teologia, política e economia (em particular as obras de G. Wirth, A. Crowley e outros apologistas das crenças anticristãs, os documentos programáticos do movimento “Eurásia” e suas publicações periódicas).

Tendo-se em conta as posições atuais de A. DUGIN, líder de um movimento social populista, podemos supor que, no futuro próximo, a base e a esfera de difusão de sua doutrina irá ampliar-se pelo uso das possibilidades oferecidas pela Câmara dos Deputados e pelo Conselho da Federação e por meio de suas possibilidades editoriais e gráficas. Sobretudo, deve-se esperar um visível apoio do governo para o conglomerado editorial “Arktogaia”, e o emprego de outros meios de informação de massa que deverão fazer propaganda da doutrina de A. DUGIN. Já hoje em dia a base gráfica, utilizada para a impressão dos trabalhos do movimento “Eurásia”, é o complexo de produção gráfica “VINITI”, um das mais modernas e poderosas empresas editoriais no sistema de distribuição de informação de caráter técnico-científico e social da Rússia.

BIBLIOGRAFIA.
Referente à seção: “A doutrina de Aleksandr DUGIN”:
  1. Serguei RIUTKIN. “O crítico Dugin”// Internet, www.russ.ru,9.06.98.
  2. “Anjo Gentil” – Moscou. Atogaia, tomo 1, 1991, pag. 10.
  3. Ibidem, pag. 29.
  4. A. Dugin. “O Fim do mundo. Escatologia e tradição”. Moscou. Artogaia, 1998, pag. 359.
  5. Ibidem, pag. 47.
  6. Ibidem, pag. 1.
  7. “Anjo Gentil”, Artogaia, Tomo 1, 1991, pag. 23.
  8. A. Dugin. O Fim do mundo. Escatoçogia e tradição”. Moscou. Artogaia, 1998, pag 19.
  9. Ibidem, pag. 19.
  10. Ibidem, pag.17.
  11. Ibidem, pag. 365.
  12. A. Dugin. “O Fim do mundo. Escatologia e tradição”. Seção “O tradicionalismo de Guénon” .
  13. A. Dugin. A Igreja cristã”. Moscou.Artogaia, 1998, pag. 29.
  14. A. Dugin. “O Mistério da Eurásia”. Moscou. Artogaia, 1996, pag. 19.
  15. A. Dugin “O grande problema metafísico e a tradição”. Anjo Gentil. Moscou. Artogaia, 1991, tomo 1, pag. 23.
  16. R. Verchillo. “Contra o novo paganismo” “Tver ortodoxa”, nº 7-8, 199.
  17. “O esoterismo cristão”. Anjo Gentil. Moscou. Artogaia, 1991, tomo 1, pag. 67.
  18. A. Dugin. “O Fim do mundo. Escatologia e tradição”. Moscou. Artogaia, 1998, pag. 225.
  19. “O esoterismo cristão” Anjo Gentil. Moscou. Artogaia, 1991, tomo 1, pag. 67.
  20. Ibidem, pag. 68.
  21. A. Dugin. “A metafísica da boa nova”. Moscou. Artogaia, 1996, pag. 12.
  22. Ibidem, pag. 33-34.
  23. Arquimandrita Alípio e arquimandrita Isaías. “Teologia dogmática – ciclo de conferências”. Mosteiro de Troitsko Serguievo, 2000.
  24. A. Dugin. “A metafísica da boa nova”. Moscou. Artogaia, 1996, pag. 148.
  25. A. Dugin. “O mistério da Eurásia”. Moscou. Artogaia, 1996, pag. 55.
  26. Ibidem, pag. 245-246.
  27. A. Dugin. “O fim do mundo. Escatologia e tradição”. Moscou. Artogaia, 1998, pag. 29.
  28. Ibidem, pag. 10.
  29. Ibidem, pag. 10.
  30. Roman Verchillo. “Contra o novo paganismo” (“A propósito das obras de A. Dugin”). Tver ortodoxa, nº 7-9, julho-agosto de 1999. (Mensageiro do centro de informações e análise do prelado Mark, bispo de Éfeso (fascículo 13).
  31. Khoj-Akhmed Nukhaev. “Não estamos interessados na derrota da Rússia”. Resenha sobre a Eurásia, fascículo especial, pag. 4.
  32. A. Dugin. “A terceira capital”. Na coletânea: “A doutrina da Eurásia: teoria e prática”. Moscou. Artogaia, 2001, pag. 39.
  33. Ibidem, pag. 44.
  34. A. Dugin. “O grande problema metafísico e a tradição”. Anjo Gentil, tomo 1, Artogaia, 1991, pag. 22.
  35. I. N. Lotfullin e F. G. Islaev. “O jiad do povo tártaro na Rússia”. Kazan, 1998, pag. 156.
  36. A. Dugin. “Teoria da conspiração”. Moscou. Artogaia, 1991, tomo 1, pag. 48.
  37. Ibidem.
  38. A. Dugin. “O fim do mundo. Escatologia e tradição”. Seção: “Teoria geral da conspiração”. Moscou. Artogaia, 1998, pag. 209.
  39. Ibidem, pag. 366.
  40. A. Dugin. “O fim do mundo. Escatologia e tradição”. Moscou. Artogaia, 1998, pag. 362.
  41. Ibidem, pag. 366.
  42. A. Crowley. “A magia – teoria e prática”. Tomo 1. Edições Lokid-Mif, pag. 167-177.
  43. Ibidem, pag. 384 (citação do livro de Crowley: “O livro das leis”, parte 3, versículo 24”.
  44. A. Crowley. “A magia – teoria e prática”. Tomo 1, Edições Lokid-Mif, pag. 17.

TRADUÇÃO: Luiz Heitor Guimarães
Obrigado ao amigo Saulo por disponibilizar a versão em português para este blog.

Esta condenação foi em 2002, de forma "indireta" através de uma publicação do Dep. Missionário do Patriarcado. Com o cara sendo protegido pelo Putin, infelizmente, uma excomunhão explícita talvez ainda demore. Mas o patriarcado já disse: tem bico de pato, pena de pato, pé de pato, rabo de pato, nada que nem pato, anda que nem pato e grasna que nem pato.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Não Há Moral na Igreja Ortodoxa


por Reverendíssimo Arquimandrita Padre Vassilios Papavassiliou 
Tradução: Leitor Fabio L. Leite

No cristianismo ortodoxo,não há moral. Eu sei que isso choca muitas pessoas, mas o digo por um bom motivo: porque a moral não é realmente uma ideia teológica, mas filosófica. A moral é normalmente compreendida como um senso de certo e errado, e acho que em certa medida todos o possuem, a despeito de cultura, religião ou época em que vive. Eu não acho que alguém já tenha considerado que o egoísmo ou a covardia sejam coisas boas. As pessoas não acham que seja bom ser horrível com quem foi bom com você, e é assim em qualquer religião que você creia, qualquer época em que viva, qualquer cultura de que participe. Existe um senso comum de certo e errado.

Mas há variações. Alguns diriam que é aceitável se vingar, e outros que não devemos fazê-lo de modo algum. Alguns diriam que um homem deve ter apenas uma esposa, outros diriam que ele pode ter várias. Alguns diriam que a gente deve ser bom com quem é bom conosco, outros diriam que devemos ser bons até com que não é bom conosco.

Então, se formos utilizar o termo “moral cristã”, poderíamos dizer que é simplesmente o princípio que governa o senso de certo e errado. Ele nos diz para não nos vingarmos, para sermos bons com os que nos odeiam, para amarmos nossos inimigos, para termos apenas uma esposa , e assim por diante. Mas isso ainda é apenas nada mais do que leis morais, as quais nadas nos dizem sobre porque essas coisas são certas ou erradas, e nem nos diz porque fazer as coisas certas é tão difícil, enquanto fazer as coisas erradas parecem tão fáceis. E isso porque nem chegamos ao cerne da questão, na essência do cristianismo, o qual é teologia, e não um conjunto de leis ou regras de conduta moral. 

Cristo não veio para iniciar uma nova religião, nem simplesmente para nos ensinar princípios pelos quais viver. Ele não era nem um filósofo, nem um professor de moral. Ele veio para nos dar a verdadeira vida, Sua Vida. E enquanto não entendermos que o cristianismo é sobre a verdadeira vida e não sobre moral, é sobre teologia e não filosofia, nunca entenderemos as noções de pecado e santidade, porque o cristianismo está enraizado não em um senso de certo e errado, que é compartilhado com pessoas de outras fés (e mesmo sem fé), mas no conhecimento de Deus e nosso relacionamento com Ele.

O erro de entendimento sobre o cristianismo fica bem claro quando as pessoas dizem coisas como: “Por que eu preciso de religião, ou por que eu preciso ir na igreja para ser uma pessoa boa?” E isso sempre me lembra a passagem na qual o jovem rico vai até Cristo e pergunta, “Bom mestre, o que devo fazer para ter a vida eterna?” E Cristo responde, “Por que Me chamais de ‘bom’? Só Deus é bom”. Esse é o princípio daquilo que muitos chamariam de moral cristã. 

Nós medimos a bondade não por algum padrão de comportamento social, ou por algum tipo de lei ou princípio ético, mas por Deus, que é o único bom. Não precisamos de religião ou de igreja para sermos o que muitos chamam de “bom”, quer dizer, alguém que mantém as regras sociais, que não mata nem rouba. Mas Cristo não está nos pedindo para simplesmente cumprirmos essas leis. Ele diz, “Sede perfeitos, como vosso Pai no céu é perfeito. Sede santos, pois Eu sou santo”.

A perfeição implica em sermos inteiro, e é notável que Cristo nos pede isso, que sejamos perfeitos, no contexto do seu sermão do monte, quando Ele nos dá os mandamentos: “Ame os seus inimigos. Abençoe os que te amaldiçoam. Faça o bem aos que te odeiam. Se alguém tomar teu manto, dá-lhe também teu casaco. Se alguém te forçar a caminhar um quilômetro, acompanhe-o por dois. Se alguém te bater em uma face, dê-lhe a outra.” E Cristo nos dá o motivo pelo qual devemos fazer isso: “Pois Deus faz o sol brilhar sobre o justo e o injusto, e é gentil tanto com os bons quanto com os maus.” Isso não é moralidade, e continuo a repetir para as pessoas que se formos encontrar algum tipo de ética, de regra moral, no Cristianismo, nas Escrituras, seria nos Dez Mandamentos, que são uma lista de “não faça isso, não faça aquilo”, com alguns mandamentos afirmativos, claro. E muitas pessoas diriam, “Eu sou uma pessoa boa porque eu não mato, não roubo”. Ninguém lista um monte de mandamentos.

Mas quando você lê o sermão de Cristo no monte, quando você lê o Evangelho de Mateus, e escutamos que tudo que importa é o coração humano, que devemos amar quem nos odeia, abençoar e orar por quem nos persegue, dar a outra face, e também quando Jesus nos diz que é possível que estejamos fazendo o que parecem ser boas ações, mas pelos motivos errados, “Não reze ou dê esmolas para ser admirado pelos outros, ou não terás recompensa nos céus”, então isso nos leva muito além da moral. Isso não tem nada a ver com moral. É sobre o coração. É sobre nossa relação com Deus, que ocorre principalmente através de nossa relação com os outros.

Já que a moral cristão está enraizada no nosso relacionamento com Deus, a espiritualidade cristã utiliza uma linguagem diferente da utilizada pela sociedade quando falamos de certo e errado. O secularista tende a falar de valores ao invés de virtudes, de vícios ou crimes ao invés de paixões ou pecados. E a palavra “pecado” parece ser quase um palavrão hoje em dia, embora seja tão comum nas Escrituras e nos escritos da Igreja. Apesar disso muitos a desprezam e abandonam como um anacronismo. Ainda assim, é importante que preservemos nossa linguagem porque não estamos falando simplesmente de crimes, mas do homem interior.

Claro, também é notável que a palavra grega para “pecado”, “amartiya” significa “errar o alvo”. Não é simplesmente uma transgressão, uma quebra de regras, mas um fracasso em alcançar um ideal cristão: “Sede perfeitos como vosso Pai no céu é perfeito.”

Agora, por que achamos tão difícil fazer o que é certo ou termos motivos puros? S. Paulo resume o problema muito bem em sua epístola aos Romanos. Ele diz:
“Sabemos que a Lei é espiritual, mas eu sou da carne, vendido como escravo ao pecado. Não entendo o que faço, pois tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realiza-lo. O que faço não é o bem que desejo. Ao invés, o mal que não desejo, este eu continuo a fazer. E se faço o que não quero fazer, não sou mais eu quem o faz, mas o pecado vivendo em mim que o faz. Então, eu encontro esta lei em funcionamento: quando desejo fazer o bem, o mal está bem ali comigo. Pois em meu ser interior, alegro-me com a lei de Deus, mas vejo outra lei funcionando nos membros do meu corpo, fazendo guerra contra a lei de minha mente e fazendo-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros.”

Então, em outras palavras, temos este conflito entre o que sabemos ser correto e nossa natureza caída e nossos instintos. Por exemplo, se eu escutasse uma pessoa gritando por socorro, eu provavelmente sentiria duas coisas conflitantes: por um lado, um desejo de ajudar a pessoa, porque sabemos que isso é o certo e porque somos fundamentalmente bons e temos um impulso de querer ajudar as outras pessoas quando precisam. Mas também temos um instinto de auto-preservação, de cuidar de nós mesmos ao invés de ajudar outra pessoa. Então o que temos aqui é um conflito entre o que sabemos ser correto e nossos instintos.

Nossa vida espiritual, nossa vida ascética, servem exatamente para aprendermos a superarmos essas paixões e instintos que na prática costumam interferir com o que sabemos ser correto. É muito belo dizer, “amo a humanidade”, mas se firo as pessoas quando estou de mau-humor, e digo algo que realmente magoa, a despeito de quais sejam minhas intenções, então eu realmente não superei minha raiva e vou continuar machucando as pessoas concretas. De forma similar, seu não superar minha ganância, outros irão ficar sem, pois eu tenho mais do que preciso. Porque eu não controlo essas paixões, eu não consigo amar plenamente. Nossa batalha com o pecado é na prática uma aventura em busca do amor divino, de adquirir aquele amor perfeito, “sede perfeitos como vosso Pai no céu é perfeito”.

Existem duas coisas em particular sobre as quais quero falar hoje. Quero falar sobre a relação a pecado e a santidade, uma paixão ou pecado e uma virtude. A paixão sobre a qual quero falar hoje tem sido descrita pelos autores e pensadores cristãos ao longo dos séculos como o pior pecado de todos, e é o pecado do orgulho. E isso pode surpreender a vários. Por que é o pior pecado do mundo. Certamente o assassinato deveria ser pior, até a raiva e o ódio deveriam ser piores. Mas temos que entender que essa paixão é, na verdade, a raiz de muitos outros pecados, mesmo quando não vemos a relação.

O orgulho foi descrito por C.S. Lewis como o “estado mental completamente anti-Deus”, o que é uma afirmação interessante, mas acho que não é inteiramente precisa. De acordo com a tradição cristã, o orgulho foi de fato o pecado do demônio. Então, em um certo sentido, é o mais demoníaco dos pecados. Para um não-cristão, ou para pelo menos um ateu, pode parecer inofensivo, e ele pode achar que chamar isso de um grande pecado é um exagero. Porém, mesmo entre os anti-religiosos, não há pecado que perturbe as pessoas mais do que o orgulho. O tempo todo escuto as pessoas reclamarem que fulano é “tão cheio de si”, que certa pessoa é “tão metida”, que uma terceira “acha que é melhor do que os outros”, e assim por diante. As mesmas pessoas que dizem “Não importa o que você faz e acredita, desde que não machuque ninguém”, não aguentam o pecado do orgulho quando é visto nos outros. Se este orgulho e presunção não estão machucando ninguém, é difícil entender, desde o ponto de vista citado, qual seria o problema. Acho que bem no fundo, todos realmente entendem que existe um diferença entre pecado e virtude. 

Mas claro, odiamos o pecado quando o vemos nos outros, mas normalmente não o vemos em nós mesmos, porque essa é a natureza do orgulho. É amor-próprio. Fico chateado que *outra* pessoa seja o centro das atenções, porque *eu* queria ser o centro das atenções. Fico chateado que alguém seja bem-sucedido, porque eu acho que eu mereço mais que aquela pessoa. O orgulho é essencialmente competitivo. Está sempre te fazendo sentir-se melhor que os outros, ou que merece mais que os outros. Quando reconhecemos este pecado em nós mesmos, ou quando o apontam em nós, deixamos passar, na melhor das hipóteses, tentamos nos justificar, mas assim que o vemos nos outros, não temos nenhuma piedade.

O orgulho, portanto, contradiz o segundo grande mandamento, “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”, porque se realmente amássemos nossos próximos como a nós mesmos, então ninguém ficaria chateado pelo outro ser mais bem sucedido ou mais feliz, ou estar mais bem de vida do que nós, porque nós os amaríamos como a nós mesmos. Além disso, em sua forma mais pura, o orgulho também se opõe ao primeiro grande mandamento, “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua força e com toda a tua mente”, porque, como disse C.S. Lewis, “ o orgulhoso está sempre as coisas e as pessoas de cima para baixo, e quando você olha para baixo, você não consegue ver nada acima de si.” Em outras palavras, uma pessoa orgulhosa não consegue erguer os olhos para Deus. Na sua forma mais pura, é uma forma de negar a Deus, e, de fato, é o porquê este ser o pecado do demônio: ele queria ser maior do que Deus. Ele é, de fato, o estado de mente anti-Deus.

E a virtude oposta do orgulho é a humildade. E se o orgulho é o estado mental anti-Deus, se o orgulho é o pecado mais demoníaco, o pecado que nos faz mais semelhantes ao demônio, então a humildade é a virtude que mais nos torna semelhantes a Deus. Se o orgulho é o pecado que nos cega para a verdade, que torna impossível vermos as coisas como realmente são, ver nossas faltas, então a humildade é a virtude que vê a verdade, que vê as coisas como elas realmente são. Não deveria nos surpreender que ser humilde é ser como Deus, porque Deus é Ele mesmo humilde, e acho que talvez essa seja uma ideia que as pessoas não consigam entender, mas se você realmente olhar em volta para qualquer coisa que seja realmente bela, e maravilhosa, e nobre, e boa, ela também será, por natureza, humilde. Uma criança, rindo e brincando, é verdadeiramente humilde, belamente humilde. Um cisne no lago é realmente humilde e ainda assim, verdadeiramente belo. E não existe nada de pose sobre esses tipos de beleza.

O próprio Deus é humilde. Deus disse, “Aprendem comigo, pois sou meigo e humilde de coração.” Ele entrou no mundo como um bebê. Ele veio até nós como um homem humilde. Então humildade é realmente a virtude de Deus, porque o que é verdadeiramente bom e puro e belo não tem necessidade de se afirmar, não tem necessidade de provar algo a si mesmo. É o que é por natureza, e não precisa ser comparado a outra coisa para ser o que é. Da mesma forma, Deus não é Deus porque comparado a nós Ele é maior do que nós; Ele é Deus porque é naturalmente Deus.

Então Deus é humilde por natureza, e essa é também a virtude que torna o amor possível. Se o orgulho é o amor de si, a humildade é o que permite negar a nós mesmos pelo nosso próximo. É por isso que essa paixão e essa virtude são tão fundamentais na espiritualidade cristã. O orgulho é o que nos torna semelhantes ao demônio; a humildade é o que nos torna semelhantes a Deus. Nossa batalha com as paixões trata de dominarmos, superarmos o orgulho, e adquirir a humildade. Apenas quando fizermos isso, poderemos progredir em nossa vida espiritual. Apenas quando aprendermos a superarmos nossa raiva, nossa inveja, nossa preguiça, nossa fofoca, nossa calúnia dos outros, e apenas quando realmente aprendermos a amar nosso próximo como a nós mesmos. Apenas então, eu poderei ser perfeito como meu Pai no céu é perfeito. Apenas então serei santo como Deus é santo.

http://www.ancientfaith.com/podcasts/lifeoffaith/sin_and_morality_1#transcript