sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Intercomunhão com Roma III: O que precisaria mudar para poder haver intercomunhão?

Este artigo foi escrito a convite pelo Pe. Thomas Hopko, para uma conferência que ocorreu em Washington, D.C., em 2005, realizada pela Igreja Católica Romana, pelo Instituto Teológico de Woodstock e a Universidade de Georgetown sobre "o que os não-católicos exigiriam da Igreja de Roma e do Papa de Roma para entrar em comunhão sacramental com a Igreja Católica Romana".
Pe. Thomas Hopko

Notem que a conferência inteira é fundada no conhecimento elementar de que é errada a intercomunhão antes da união da fé, que todos estão cientes de que existem diferenças significativas das fés entre suas igrejas e Roma – inclusive entre a Igreja Católica Ortodoxa e a Igreja Católica Romana, e que portanto é necessário delinearmos quais as mudanças necessárias para que a intercomunhão seja possível.

Essa conferência contava ainda com várias igrejas não-romanas: episcopais, luteranos, metodistas, batistas, calvinistas, sociedade dos amigos, e quakers, além claro, dos ortodoxos. O Pe. Thomas Hopko fora convidado por ser teólogo, professor de teologia dogmática e reitor-emérito do Seminário Teológico Ortodoxo de S. Vladimir, tendo sido reitor entre os anos de 1992 e 2002.

Outras autoridades poderiam compilar listas um pouco diferentes de ações práticas requeridas para que ortodoxos e romanos pudessem tomar comunhão na igreja um do outro, entretanto nenhuma negaria que as diferenças correntemente existentes na fé, nas estruturas eclesiásticas e de autoridade episcopal são impendimentos sérios para a intercomunhão. De todo modo, fiquemos com a análise do Pe. Thomas Hopko. 



O que Roma Precisaria Fazer para restaurarmos a Comunhão Sacramental? 
 
Por Pe. Thomas Hopko (1939-2015+)
http://www.ancientfaith.com/podcasts/hopko/what_does_rome_need_to_do_part_2

Primeiro de tudo, acredito que os ortodoxos insistiriam – ou deveriam insistir – que o bispo de Roma confesse a fé ortodoxa preservada pela Igreja Católica através da história e ensine e defenda a verdadeira doutrina cristã. Isso significa que o Papa teria que fazer várias coisas específicas, principalmente, em minha opinião, as seguintes. Isto é o que creio que os ortodoxos pediriam: 

Primeiro, o bispo de Roma teria que confirmar o texto original do Símbolo de Fé Niceno-Constantinopolitano e defender seu uso em todas as igrejas, a começar com a sua própria. Pelo menos, caso por questões pastorais algumas igrejas recebessem a permissão de manter o filioque no seu Credo, o bispo de Roma teria que insistir que se explicasse o filioque de modo a deixar claro que o Espírito Santo “procede do Filho” apenas em relação a dispensação salvífica de Deus no mundo, em economia, por outras palavras, o Espírito Santo que procede eternamente do Pai é dado ao mundo através do Filho, para que se preserve o entendimento próprio das relações entre as Pessoas da Trindade. O Papa teria que garantir que nenhum cristão seria tentado a acreditar que o Espírito Santo procede em essência do Pai e do Filho juntamente, e certamente não “de ambos como de um – ab utroque sicut ab uno” a qual é uma posição tradicional da Igreja Romana a partir de uma época posterior, quando o filioque foi discutido entre o Oriente e o Ocidente. 

Em outras palavras, o Credo sem o filioque teria que ser subscrito. Se por alguma razão, em alguns lugares, a Igreja Romana mantivesse o filioque no Credo, teria que deixar claro aos que quisessem entender que isso não significa uma processão eterna do Espírito Santo desde o Pai e o Filho, e nem mesmo do Pai e do Filho “como que de um”; isso não seria aceitável pela Ortodoxia. 

Também, o bispo de Roma, o Papa, teria que ensinar que o Pai e o Filho e o Espírito Santo são três pessoas ou hipóstases distintas e não simplesmente “relações subsistentes” dentro do Deus uno, o qual é identificado com a una natureza divina. Ele teria que insistir e garantir que o Verdadeiro e Um Deus da fé cristã não é a Santíssima Trindade entendida como um sujeito quase unipessoal que se revela como Pai, Filho e Espírito, o que, para o cristianismo tradicional, é inaceitável e de fato seria entendido como uma versão do modalismo, ou seja, que há um Deus, que é Pai, que é Filho e que é Espírito Santo – não! 

Há um que é o Pai, um que é o Filho, Um que é o Espírito Santo. Sua unidade é perfeita, Sua divindade é perfeita, mas a divindade do Filho e do Espírito deriva eternamente, antes da fundação do mundo, antes do tempo e do espaço, da Pessoa do Pai. O Pai comunica toda sua divindade ao Seu Filho desde toda a Eternidade e Deus, para os Cristãos, é tri-Pessoal, tri-hipostáticamente divindade, tri-hipostaticamente divino. 

O Papa também teria que insistir que os seres humanos podem ter comunhão real com Deus através das divinas ações e energias incriadas em relação com as criaturas, as quais vêm do Pai, através do Filho e no Espírito Santo. Esse pequeno parágrafo significa que o palamismo teria que ser aceito, pois foi conciliarmente recebido por todas as igrejas Ortodoxas, de que realmente existe uma distinção entre a essência e as energias de Deus: a Divinidade incogniscível e supra-essencial que é oculta, e as atividades de Deus nas quais nós criaturas realmente participamos através da revelação do Pai, através do Filho no Espírito Santo. 

O bispo de Roma, o Papa, teria que dizer oficialmente que a imaculada conceição da Mãe de Deus, Maria, desde seus pais, e a glorificação total de Maria em Cristo ressuscitado à direita do Pai, foi explicada de modo impróprio nas bulas papais que acompanharam originalmente os dogmas ex cathedra da Igreja Romana sobre esses dois artigos da fé. O papa precisaria explicar que a concepção de Maria por seus pais foi pura e santa, sem necessidade de que Deus aplique extraordinariamente “os méritos de Cristo” ao ato sexual de Joaquim e Ana para conceber sua filha com o fim de libertá-la “da mancha do pecado original”. O Papa também deveria deixar claro que Maria realmente morreu e não foi assunta corporalmente aos céus antes de aniquilar a morte com sua própria morte, por fé em seu Filho, Jesus Cristo. 

Eis o que quero dizer: a Igreja Ortodoxa afirma que Maria foi concebida imaculadamente de seus pais, Joaquim e Ana, mas isso não precisou de nenhum ato excepcional ou especial da parte de Deus para mantê-la livre da mancha do pecado original desde a concepção. Devemos notar que algumas igrejas Ortodoxas, que são bem anti-romanas, ainda têm uma versão deste ensinamento, e elas diriam que a mancha do pecado original foi retirada na Anunciação, e não na concepção de Joaquim e Ana. Em todo caso, deveria haver uma explicação da Imaculada Conceição, e da Dormição, da Assunção de Maria, corporalmente, à presença de Deus, que se conformasse com a prática litúrgica e com a doutrina Ortodoxa. 

Além disso, o Papa também deveria dizer oficialmente, afirmando de modo claro, que, embora haja uma purificação e limpeza do pecado no processo da morte humana, não há um estado ou condição de purgatório depois da morte onde o pecador paga a punição temporária que alegadamente ele deveria a Deus por seus pecados. O Papa cessaria também a prática de indulgências através das quais, através de certas atividades piedosas, os cristãos supostamente reduziriam os “dias” de sofrimento purgatorial para eles mesmos e para outros. 

Aqui, claro, isso significa que a alegoria dos pedágios da tradição Ortodoxa, a qual creio ser um ensino ortodoxo tradicional, não diz que os pecadores tem que ser punidos pelos pegados que cometeram na terra antes de morrer, nos 22 pedágios que foram formulados no segundo século em Constantinopla, mas que eles devem libertar-se das paixões e purificados delas com o fim de entrar no reino de Deus, e portanto a oração pelos mortos, rogando a misericórdia de Deus, assim como a graça de que as pessoas aceitem Cristo, e portanto libertas de seus pecados. Esse é que seria, creio, o entendimento que deveria ser compartilhado por Roma sobre essa questão. 

O Papa deveria deixar claro que a crucificação de Cristo não foi um pagamento do débito de punição que os homens supostamente devem a Deus por seus pecados. O bispo de Roma iria ensinar, ao invés, com seus co-bispos do patriarcado ocidental, que o auto-sacrifício de Cristo ao Seu Pai foi o pagamento salvífico, redentor e reparador de uma dívida de amor perfeito, justiça, obediência, gratidão e glória perfeitas que os seres humanos devem a Deus, que Deus deve receber dos seres humanos para nossa salvação do pecado e libertação da morte e que agora, realmente obtivemos por causa da morte redentora, em total amor a Deus e a humanidade, de Jesus, o Cristo crucificado, que é o novo e último Adão. 

Em outras palavras, teria que haver uma explicação de porque a morte de Cristo na Cruz é reparadora, e a explicação não poderia ser que os humanos têm que ser punidos e Cristo recebe essa punição. Ao invés, é que os humanos precisam ser bons e santos e guardar a lei de Deus, o que apenas Cristo consegue fazer, e portanto pela fé nEle podemos ter nossos próprios pecados perdoados e nosso caminho para a restauração e o paraíso garantidos. 

O Papa teria que garantir a todos os cristãos que o bispo de Roma nunca fará ou ensinará nada de sua própria autoridade, por si mesmo, ou de si mesmo e sem o consenso da Igreja. “Ex sese et non ex consenso ecclesiae,” em latim. O bispo de Roma teria que prometer servir em sua presidência unicamente como porta-voz de todos os bispos em sucessão apostólica, que governam comunidades de crentes que os escolheram para servir como bispos, e cuja validade e legitimidade como bispos depende unicamente na sua fidelidade ao Evangelho e a fé de uma vez por toda entregue aos santos, em comunhão com seus predescessores no ofício arquisacerdotal e arquipastoral e um com o outro. 

Claro que isso significa que a doutrina da infalibilidade do papa, conforme formulada no Vaticano I e defendida no Vaticano II, teria que ser rejeitada ou radicalmente modificada para que os Ortodoxos ficassem comunhão com Roma. 

Creio também que em questões doutrinárias e morais não decididas – questões abertas, por assim dizer – o Papa de Roma teria que usar sua autoridade presidencial para garantir que todos, clero e leigos, seria encorajado a livremente apresentar seus argumentos concernentes ao ensino e prática cristã, conforme testemunhado nos documentos formais de testemunhos da fé e vida cristã, isto é, as escrituras canônicas (a Bíblia), as liturgias tradicionais, os concílios e cânones cristãos universalmente recebidos, e o testemunho e escritos dos santos canonizados – não por tudo que os santos tenham dito e feito, mas especificamente pelas razões que esses santos foram glorificados na Igreja e seu ensino foi aceito pela Igreja universal. 

Então, o dever do Papa é garantir que a devida atividade sinodal e conciliar ocorra entre os bispos e o povo com o fim de a Igreja alcançar uma decisão sobre questões doutrinais e morais. 

Finalmente, o Papa de Roma utilizaria sua autoridade presidencial para garantir um espírito de liberdade, abertura, respeito e amor nas e entre todas as igrejas e todos os Cristãos e, de fato, todos os seres humanos, de modo que o Espírito Santo, o único “Vigário de Cristo na terra”, possa nos relembrar o que Cristo disse e guia o povo até toda a verdade (Jo. 14:25, 16:13). O Papa seria dessa forma verdadeiramente o grande construtor de pontes, o pontifex maximus. 

O ponto é que o Papa garantiria, asseguraria, promoveria, defenderia e pastorearia um espírito de liberdade, abertura, respeito e amor entre todas as igrejas, cristãos e todo o povo, de modo que o Espírito Santo, que é o único “vigário de Cristo na terra”, possa trazer a lembrança do que Cristo disse, com atos, então, através de todo o corpo junto. 

Continuo agora falando da Liturgia. Para que o Papa de Roma possa exercitar sua “presidência em amor” entre as igrejas e a liderança cristã no mundo, sua igreja, a Igreja de Roma, teria que dar o exemplo de uma correta adoração cristã. Também isso significaria para os ortodoxos algumas coisas bem específicas. Primeiro de tudo, creio, o bispo de Roma teria que insistir que, exceto por razões pastorais extraordinárias, o batismo deve ser feito por imersão na água em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. 

E ele também afirmaria que os recém-batizados fossem imediatamente crismados com o selo do dom do Espírito Santo e trazidos à comunhão com Cristo por participação na Santa Eucaristia. Isso inclui os infantes que entram na vida sacramental da Igreja por virtude da fé dos adultos que cuidam deles. A prática de uma ação posterior com o bispo impondo suas mãos para confirmar a fé do batizado – que hoje é chamada de Crisma - poderia ser permitida em igrejas que desejassem continuar com essa prática piedosa por razões de costumes. 

Sobre a participação na Santa Eucaristia, o papa também deveria insistir que os fiéis recebam a Santa Comunhão dos Dons – isto é, o pão e o vinho – que são oferecidos na Liturgia Eucarística que estão celebrando. Os fiéis não receberiam a Comunhão em Liturgias Eucarísticas a partir de Dons que são guardados exclusivamente para os que estão incapacitados de participar na Liturgia por boas razões (normalmente doença ou enfermidade, ou porque estão envolvidos em serviços ao próximo e portanto perdem a Liturgia da Igreja). 

O ponto aqui é que não tem como você ter a Missa e comungar o povo com o sacramento de reserva que é mantido no cibório do altar. O pão tem que ser oferecido e consagrado e erguido no altar da Liturgia para a comunhão do povo presente, que participa junto da Liturgia. 

O ponto seguinte é que o Papa também teria que garantir que os fiéis também participem do vinho consagrado, o sangue de Cristo, durante a Santa Comunhão. Como isso será feito na prática pode variar em diferentes igrejas, mas deve ser feito sem exceção. Quanto ao pão, biscoitos não fermentados poderiam ser usados por razões pastorais em igrejas com essa prática pastoral, mas o papa afirmar o pão fermentado, o artos, como normativo para a Eucaristia Cristã. 

O Papa deveria insistir na celebração da Santa Eucaristia com os salmos, leituras das Escrituras e sermões exegéticos de acordo com as práticas eclesiásticas locais como forma normativa de culto conjunto para cristãos no domingo e nas festas litúrgicas de Igreja. Ele, com seus colegas bispos, proibiria celebrações eucarísticas privadas para celebrar intenções particulares e para fins pietísticos particulares, políticos ou ideológicos. Ele apoiaria a celebração também das orações das horas: vésperas, completas, matinas e horas – nas igrejas. Ele restauraria a prática de ter o celebrante sacerdotal voltado para o altar – em outras palavras, voltado para o Oriente – junto com os fiéis durante as orações e ofertas Eucarísticas na Divina Liturgia. Ele também consideraria resgatar a antiga prática ascética e penitencial de proibir a celebração da Santa Eucaristia em igrejas cristãs nos dias da semana da Grande Quaresma, exceto na festa da Anunciação. 

Os ortodoxos defenderiam que mudanças estruturais e administrativas devem ocorrer se o Papa de Roma quiser ser aceito e reconhecido como o bispo que exerce sua presidência em amor entre as igrejas, sendo o bispo da Igreja de Roma, igreja que preside em amor – não o homem, mas a Igreja tem a presidência em amor – e que o bispo dessa igreja, o Papa de Roma, serviria como o líder mundial do Cristianismo. 

Um “colégio de cardeais” constituído de homens de todo o mundo, e designado pelo papa e tendo ministérios nominais em Roma, simplesmente não existiria mais. Em outras palavras, não seriam cardeais apontados pelo papa que elegeriam o próximo papa, mas seriam os líderes das igrejas ortodoxas afirmando e confirmando o que a própria Igreja Romana fez ao eleger seu próprio bispo. Assim a eleição seria pela Igreja de Roma, a confirmação seria pelos primazes das outras igrejas regionais da Terra. 

O Papa não selecionaria nem designaria os bispos em quaisquer igrejas, como ele faz hoje. Ele iria, ao invés, confirmá-los em seus ministérios, e poderia fazê-lo até de alguma maneira formal, já que cada bispo é chamado a confirmar seus irmãos com quem ele exerce o episcopado uno in solidum. Essa é uma referência a S. Cipriano de Cartago, que disse, “Episcopatus unus est, o espicopado é um e todos os bispos o exercem in solidum, juntos em unidade”. 

O Papa certamente teria o direito e o dever de questionar a escolha do candidato para o episcopado, especialmente de uma presidência regional (isso significa os primazes das igrejas locais) que ele considere inadequados ou indignos da cátedra. Ele pode até ter a oportunidade de avaliar os candidatos e oferecer sua opinião antes que a eleição ocorra, especialmente a de um bispo presidente de uma igreja territorial. Mas o papa faria isso como qualquer outro bispo ou primaz de uma igreja regional. Ele não teria o direito ou o poder de interferir nas questões internas de qualquer igreja ou diocese, além das suas próprias. 

O Papa, o bispo de Roma, iria designer comissões e departamentos compostos por homens e mulheres competentes vindos de todas as igrejas em comunhão com Roma para assisti-lo em suas atividades como líder mundial e principal porta-voz da Cristandade. Ele também organizaria encontros regulares dos primazes das igrejas do mundo para apoiá-lo na sua missão global como o líder universal da Igreja Cristã na terra. O Papa teria uma comissão para tratar da doutrina da igreja, a doutrina cristã, e do pensamento teológico nas várias igrejas do mundo, mas não haveria nenhum departamento com a autoridade de tomar ação disciplinadora em questões doutrinais, as quais, quando necessárias, seriam tratadas pelo bispo local. Os bispos da Igreja, e não uma equipe de teólogos em Roma, designados pelo papa e falando em seu nome – é que constituiriam o magistério formal da Igreja. Obviamente, isso significa que estamos falando do fim do Santo Ofício, e mesmo da Cúria, de que haja corpos conciliares em Roma, vivendo lá, representando todas as igrejas do mundo e trabalhando juntos nessas áreas. 

Cada bispo supervisionaria os membros de seu rebanho. Ele teria que prestar especial atenção aos membros intelectuais, carismáticos e ativistas da sua igreja, e teria que exercitar orientação, direcionamento e disciplina pastorais adequadas. O bispo local proibiria a Santa Comunhão para membros que neguem as doutrinas e/ou práticas cristãs que ele e seus irmãos-bispos, com o papa Romano como seu líder, são chamados e consagrados para proclamar e defender. 

Caso um bispo seja acusado de ensinar doutrinas falsas (heresias) ou de se envolver em comportamento imoral, ou de permitir que aqueles sob seus cuidados o façam, ele deve ser julgado pelo sínodo de bispos ao qual ele pertence, isto é, o sínodo regional que irá discipliná-lo ou depô-lo. Em outras palavras, ele não seria julgado diretamente pelo Vaticano ou Roma; a questão será tratada pelo sínodo a que pertence, mesmo que ele seja o presidente do mesmo. Se for culpado do mal-feito, seu próprio sínodo irá discipliná-lo ou depô-lo. Se ele quiser apelar seu caso, ele pode buscar o bispo que exerce a presidência entre as igrejas da sua região, e como último recurso, ele pode apelar ao bispo de Roma, como o mais alto presidente da Igreja, o tribunal de última instância por assim dizer. 

O Papa não teria poder de tomar decisões jurídicas ou jurisdicionais autoritativas, mas exerceria o ministério de intercessão e reconciliação. O mesmo direito de apelação às presidências regionais e mesmo ao bispo de Roma estaria, naturalmente, disponível a todo membro da igreja, clero ou leigo, que fosse acusado de ensino errado ou algum mal-feito. 

O bispo de Roma também deixaria de ser um chefe de estado oficial. Como líder global do Cristianismo, entretanto, ele teria que viver em um lugar com o mínimo de riscos de interferências governamentais e políticas em seu ministério. E isso é muito importante para os ortodoxos, cujos bispos estão sempre sofrendo algum tipo de controle ou tentativa de controle por parte dos países em que vivem. Então diríamos que seria bom se ele não fosse um chefe de estado e vivesse em um lugar com riscos mínimos de interferência governamental e política no seu ministério. O local onde o Papa viveria, e onde as comissões intereclesiásticas e departamentos também estariam localizados, seriam governados por um leigo, designado pela Igreja Romana. Os chefes de estado se relacionariam com o papa apenas enquanto bispo e líder espiritual, e não como chefe de estado. Em outras palavras, ainda existiria um lugar como a Cidade do Vaticano, mas seu líder político e secular seria um leigo, escolhido pela Igreja. Não seria o Papa, que teria uma função especificamente eclesiástica, espiritual, pastoral e doutrinal. 

Como líder dos cristãos do mundo, o papa viajaria bastante. Ele tiraria o máximo proveito dos meios de transporte e comunicação contemporâneos. Ele dominaria a mídia eletrônica para servir seu ministério em proclamar o Evangelho de Cristo, propagando a fé cristã, promovendo o comportamento ético, protegendo os direitos humanos e buscando a justiça e a paz para todos os povos. Ele seria o servo da unidade entre todos os seres humanos, e o primeiro de todos os seus irmãos cristão, não como um episcopus espiscoporum singular (essa é uma expressão de S. Cipriano), não como um bispo de outros bispos, pois não existe um bispo de bispos, como foi decretado no Concílio de Cartago no terceiro século, mas como um igual a todos os bispos. Ele não seria um bispo de bispos, mas seria o primeiro bispo, aquele que o Papa S. Gregório Magno chamou de servus servorum Dei, o servo dos servos de Deus, entre todos os bispos cristãos do mundo. 

Agora, grande boa-vontade, energia e tempo seriam necessários para remodelar o papado para que o Papa de Roma se tornasse o líder mundial do Cristianismo como o bispo cuja igreja preside em amor entre todas as igrejas católicas do mundo que preservam e ensinam a fé ortodoxa. Como papas recentes insistiram, um arrependimento radical também seria necessário, começando por Roma, cujo chamado como primeira entre as igrejas cristãs é de dar o exemplo. 

Certamente também as igrejas ortodoxas deveriam sujeitar-se a muitas mudanças humildantes nas suas atitudes, estrutura e comportamento para entrar em comunhão sacramental com a Igreja Romana e reconhecer sua presidência entre as igrejas na pessoa do papa, seu bispo. Mudanças tremendas também deveriam acontecer na Ortodoxia. 

Os ortodoxos certamente teriam que superar suas querelas internas, a despeito e contra privilégios e poderes eclesiásticos, porque os bispos ortodoxos de hoje mal podem concordar onde devem sentar-se em uma mesa se realizassem um concílio. É um escândalo, de verdade. E os ortodoxos teriam que candidamente admitir suas contribuições pecaminosas para as divisões e falta de união cristãs ao longo da história, e se arrepender sinceramente dessas coisas. Também teriam que abandonar todo desejo e exigência de que outras igrejas se arrependam publicamente de seus erros e pecados passados. Eles teria que estar dispostos a permitir que Deus coloque tudo no passado e no esquecimento pelo amor da realização da reconciliação e reunião dos cristãos no tempo presente. 

Aqui devemos mencionar também a prática de termos igrejas organizadas de acordo com etnias e culturas, como gregos, russos, sírios. Isso teria que ser radicalmente alterado, para ser entendido de forma apropriada. 

Em outras palavras, os ortodoxos teriam que sacrificar tudo exceto a própria fé por amor de construir um futuro comum com cristãos que estejam dispostos e capazes de fazê-lo com eles sob a liderança de um Papa Ortodoxo de Roma. O que precisamos é um Papa Ortodoxo de Roma. Como os católicos romanos e os protestantes, os ortodoxos teriam que estar dispostos a morrer com Cristo para si mesmos em seus interesses pessoais, culturais, étnicos, eclesiásticos e políticos por amor de uma plena unidade com todos que desejam ser salvos pelo Senhor crucificado e dentro da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, a qual é, de acordo com as Escrituras, o Corpo de Cristo, a plenitude dele que completa tudo em todos (Ef. 1:23). A Igreja que é “casa de Deus”, a Igreja do Deus Vivo, o pilar e sustentáculo da Verdade (I Tim 3:15) 

Com a firme convicção de que com Deus todas as coisas são possíveis, podemos ousar imaginar, talvez até fantasiar, com uma unidade global dos cristãos na fé que foi de uma vez por todas entregue aos santos sob a presidência de Igreja Ortodoxa de Roma. 

Era isso que tinha para dizer nesse artigo e o apresento para discussão sobre o que nós ortodoxos gostaríamos de ver na Igreja de Roma ou que precisaríamos ver para poder haver comunhão sacramental. 

Que Deus abençoe nosso caminho, o Deus para Quem todas as coisas são possíveis.

Veja o artigo anterior na série aqui: http://vidaortodoxa.blogspot.com/2015/08/intercomunhao-com-roma-ii-relacao.html

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Intercomunhão com Roma II: A relação melquita-antioquena


Continuando o trabalho do último artigo, daremos voz aos documentos e autoridades eclesiais de ambas as igrejas sobre o problema de intercomunhão Roma-Ortodoxia através das igrejas melquita e antioquena, buscando focar no que trata diretamente do assunto em pauta.

Da parte de Roma

Carta da Congregação para as Igrejas Orientais Prot. No. 251/75
11 de Junho de 1997
Sua Beatitude Máximos V Hakim
Patriarca Católico Greco-Melquita de Antioquia e todo o Oriente, Alexandria e Jerusalém
Sua Beatitude
As novidades do projeto de "reaproximação" entre o Patriarcado Católico Greco-Melquita e o Patriarcado Ortodoxo de Antioquia deu margem a vários ecos e comentários na opinião pública.
A Congregação para Doutrina da Fé, a Congregação para Igrejas Orientais, e o  Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos realizaram um esforço para estudar e examinar de perto as áreas que enquadram-se em suas competências nesse domínio; e os líderes desses Dicastérios foram incumbidos pelo Santo Padre de expressar algumas considerações a Sua Beatitude.
(...)
Os Discatérios envolvidos apreciam muitíssimo as iniciativas pastorais comuns que são tomadas por católicos e ortodoxos, de acordo com as instruções encontradas no Diretório para aplicação dos princípios e normas para o Ecumenismo, especialmente nas áreas de formação cristã, de educação, um esforço comum na caridade e de compartilhar oração quando possível.
Quanto a experiências de natureza teológica, é necessário laborar pacientemente e prudentemente, sem precipitação, com o fim de auxiliar ambos os lados a viajarem na mesma estrada.
O primeiro nível neste partilhar trata da linguagem e das categorias empregadas no diálogo: deve-se ter muito cuidado para que o uso da mesma palavra ou do mesmo conceito não seja usado para expressar diferentes pontos de vista e interpretações de uma natureza histórica e doutrinal, nem que se prestem a simplificações excessivas.
Um segundo nível de envolvimento requer que o partilhar de conteúdo no diálogo não seja limitado apenas aos dois participantes: os Patriarcados dos Católicos Greco-Melquitas e os Ortodoxos de Antioquia, mas que envolva as confissões com quem os dois patriarcados estão em plena comunhão, a comunhão católica para o primeiro e a ortodoxa para o segundo. Mesmo as autoridades eclesiásticas ortodoxas do Patriarcado de Antioquia levantaram uma preocupação semelhante. Esse envolvimento global também permitirá evitar o risco de que algumas iniciativas, que buscam promover a plena comunhão no nível local, dêem margem a uma falta de compreensão ou suspeitas além da generosidade das intenções.
Consideremos agora os elementos contidos na profissão de fé de sua Excelência Kyr Elias Zoghby, Arcebispo Emérito dos Católicos Greco-Melquitas de Baalbek, e assinada em fevereiro de 1995, e a qual numerosos hierarcas do Sínodo Católico Greco-Melquita aderiram.
É claro que esse Patriarcado é uma parte integral do Oriente Cristão cujo patrimônio ele compartilha. Quanto aos Católicos Greco-Melquitas que declaram sua completa adesão ao ensino da Igreja Ortodoxa, é necessário considerar o fato de que ela não está hoje em plena comunhão com a Igreja de Roma, e que essa adesão, portanto, não é possível enquanto não houver uma plena correspondência na profissão e exercício da fé pelos dois grupos. Além disso, a correta formulação da fé necessita de uma referência não apenas a uma Igreja particular, mas a toda Igreja de Cristo, que não conhece fronteira, nem no espaço, nem no tempo.
Na questão da comunhão com os Bispos de Roma, sabemos que a doutrina concernente ao primado do Pontífice Romano passou por desenvolvimentos ao longo do tempo dentro do quadro de explicação da fé da Igreja, e ele tem que ser preservado integralmente, o que significa de sua origem até nossos dias. Basta pensar sobre o que afirmou o Concílio Vaticano I e o que o Concílio Vaticano II declarou, particularmente a Constituição Dogmática Lumen Gentium Num. 22 e 23, e no Decreto sobre ecumenismo Unitatis Redintegratio Número 2.
Quanto as modalidades para o exercício do ministério Petrino em nosso tempo, uma questão que é diferente do aspecto doutrinal, é verdade que o Santo Padre recentemente quis lembrar-nos de como "podemos buscar - juntos, naturalmente - as formas nas quais este ministério pode realizar um serviço de amor reconhecido por todos os envolvidos" (Ut unum sint, 95); entretanto, se é legítimo lidar com isso também no nível local, é também um dever fazê-lo sempre em harmonia com uma visão da Igreja universal. Tocando nessa questão, é apropriado lembrar que em todo caso, "A Igreja Católica, tanto na sua práxis, quanto em seus documentos solenes afirma que a comunhão das igrejas particulares com a Igreja de Roma, e de seus Bispos com o Bispo de Roma, é - no plano de Deus - um requisito essencial da plena e visível comunhão" (Ut unum sint, 97).
Quanto aos vários aspectos da communicatio in sacris, é necessário afirmar um diálogo constante com o fim de compreender o significado da regulamentação correntemente vigente, sob a luz de pressuposições teológicas subjacentes; iniciativas unilaterais e prematuras devem ser evitadas, onde os resultados eventuais podem não ter sido suficientemente considerados, podendo produzir consequências sérias para outros católicos orientais, especialmente os que vivem na mesma região.
Em resumo, o diálogo fraternal realizado pelo Patriarcado Católico Greco-Melquita servirá melhor ao diálogo ecumênico na media em que busque envolver toda a Igreja Católica, a qual pertence, no amadurecimento de novas sensibilidades. Existem bons motivos para crer que os ortodoxos em geral partilham das mesmas preocupações, devido também às obrigações de comunhão dentro de seu próprio corpo.
Os Discastérios envolvidos estão prontos para colaborar com o fim de aprofundar a troca de verificações e ecos; eles expressam sua satisfação por esses encontros que ocorreram sobre o assunto com os representantes da Igreja Católica Greco-Melquita, e esperam e desejam que esses encontros continuem e se intensifiquem no futuro. 
Sem duvidar que Sua Beatitude desejaria partilhar essas ideias, imploramos que aceite a expressão de nossas saudações cordiais e fraternais. 
Joseph Card. Ratzinger (posteriormente SS Papa Bento XVI)
Achille Card. Silvestrini
Edward Card. Cassidy

Do lado da Igreja Ortodoxa de Antioquia, temos:

Em outubro de 1996, o Santo Sínodo do Patriarcado Ortodoxo Antioqueno emitiu uma declaração que incluía as questões com a proposta melquita:

"Sobre esse assunto, nossa Igreja questiona a unidade da fé que os católicos melquitas acham que se tornou possível. Nossa Igreja crê que a discussão dessa unidade com Roma ainda está em seu estágio primitivo. O primeiro passo para a união no nível doutrinal, é não considerar como ecumênicos os concílios ocidentais locais que a Igreja de Roma convocou, separadamente, incluindo o Concílio Vaticano I.
Em segundo lugar, os católicos melquitas não deveriam ser obrigados a aceitar tais concílios. Sobre a intercomunhão agora, nosso Sínodo crê que a intercomunhão não pode ser separada da unidade da fé. Além disso, a intercomunhão é o último passo na jornada para unidade, e não o primeiro."

Além disso, o eminente Metropolita Philip Saliba (1931-+2014) da Arquidiocese Antioquena da América do Norte, subscrevendo o Sínodo Antioqueno, também emitiu o seguinte comunicado:

Por favor, estejam avisados que, enquanto oramos pela unidade de todos os Cristãos, não podemos e não iremos realizar comunhão com os não-ortodoxos até que antes alcancemos a unidade da fé. Enquanto essa unidade da fé não for realizada, não pode haver intercomunhão. Pedimos a todos que adiram às instruções que receberam de nosso escritório e de nossos hierarcas".
Ambos os comunicados estão registrados no site melquita:

https://web.archive.org/web/20111205203202/http://www.melkite.org/bishopQA.htm

Nesse mesmo site o Bispo melquita John, na área de perguntas e respostas, resume de forma muito sábia a questão:

Pergunta sobre participação nos ofícios ortodoxos: "Como católicos melquitas, podemos participar nos ofícios de oração (como o de Vésperas) de nossos colegas ortodoxos antioquenos? O que eu queria saber é: Quais são as regras?"

Resposta do Bispo João: Muito obrigado por sua pergunta sobre a participação nos ofícios com os ortodoxos antioquenos. O Vaticano II chama todos os católicos a familiarizarem-se com os cristãos ortodoxos orientais, já que existe tão pouco que os separa. O atual Santo Padre está bastante disposto a trabalhar por uma reunião dos católicos romanos e dos ortodoxos. Para nós como melquitas, a questão é ainda mais urgente, pois temos raízes familiares comuns - muitas de nossas famílias são inter-relacionadas, e temos tanto em comum. Você provavelmente reparou que a música e os ofícios são muito parecidos. Por isso, sim, por favor, participe dos ofícios com os ortodoxos antioquenos e ore com eles, assim como convidando-os aos ofícios em nossas igrejas melquitas. Entretanto, não restabelecemos a comunhão plena com eles ainda. No momento, nós nos abstemos de receber a Comunhão nas igrejas uns dos outros... não porque sejamos melhores do que eles, nem porque eles sejam melhores do que nós... nos abstemos como um reconhecimento de que ambos os lados tem que trabalhar mais duro pela reunião para que um dia possamos todos intercomungar e desfrutar aquela unidade pela qual Cristo Deus orou tão fervorosamente em Sua Última Ceia com os Apóstolos, quando ele nos deu a Divina Liturgia como uma celebração da comunhão plena com o Pai e uns com os outros através dEle no Espírito Santo.

Vale lembrar que se a proibição é efetiva entre melquitas e ortodoxos, é ainda mais forte entre ortodoxos e católicos latinos.

Veja o primeiro artigo da série: http://vidaortodoxa.blogspot.com.br/2015/08/intercomunhao-com-roma-o-elefante-na.html

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Intercomunhão com Roma: O Elefante na Sala da Ortodoxia Brasileira


No que diz respeito a artigos recentemente publicados anunciando que alegadamente Sua Santidade, o Patriarca Ecumênico Bartolomeu acreditaria que é possível para os Católicos de Rito Bizantino (Uniatas) terem uma "união dupla", em outras palavras, plena comunhão com Roma e ao mesmo tempo com Constantinopla, o Patriarcado Ecumênico refuta tal sentença incorreta e afirma que ela jamais foi pronunciada. O Patriarca Ecumênico reitera sua posição de que uma união plena da fé é um pré-requisito para a comunhão sacramental.
No Patriarcado, 5 de julho de 2008
Do Secretário-Chefe do Santo Sínodo (Ênfase minha)
Fonte: http://www.ec-patr.org/docdisplay.php?lang=gr&id=952&tla=en


A expressão "elefante na sala" se refere a um problema que todo mundo sabe existir, mas sobre o qual ninguém fala porque ninguém sabe como lidar com ele. Como tirar ele dali sem quebrar nada? Como foi que ele parou ali? Como a coisa é insólita e a solução é complicada, melhor agir como se ele não existisse, ou até encontrando justificativas e racionalizações para ele continuar na sala, mesmo que esbarrando em tudo o tempo todo.

No meio ortodoxo brasileiro, a intercomunhão com Roma é esse elefante na sala. Todos sabem que é errado, e mesmo assim acontece de forma cotidiana, sem questionamento ou justificativa. Aos olhos e ouvidos dos fiéis, não é sequer algo que necessite de explicação, é o "normal" do dia-a-dia. O que soa "estranho" é exatamente a prática normal da Igreja Ortodoxa em todo o mundo, a de não comungar não-ortodoxos, ao ponto que alguns locais até se escandalizam ao ser-lhes sugeridos que é assim.

A maioria sabe que a intercomunhão com Roma é uma prática condenada pela igreja - até alguns de seus defensores. Mesmo assim, as pessoas se calam para não "criar confusão", para "não escandalizar" ou começam a cair naquilo que o bispo romano Fulton Sheen dizia: "Se você não praticar o que acredita, acabará acreditando no que pratica".

Mesmo entre os mais proeminentes defensores no meio ortodoxo por uma possível reunião da Sé Romana com a Igreja Católica Ortodoxa , a intercomunhão é um objetivo final, o resultado dos esforços e diálogos, e não um meio de obter a união. Como dizemos aqui no Brasil, intercomunhão antes de haver união seria como pôr "o carro na frente dos bois".

A resposta mais comum que se ouve, é que se trataria de um ato de "economia", de misericórdia, sugerindo que negar a comunhão a um romano que se aproxima do cálice ortodoxo seria um "radicalismo", adjetivo que poderia ser utilizado também contra o ortodoxo que deixasse de comungar em uma igreja romana. Infelizmente, por tal conceituação, até mesmo um dos maiores promotores dos diálogos com Roma, o Patriarca Ecumênico, seria um "radical".

"A união plena da fé é um pré-requisito para a comunhão sacramental". 

Como a nota do Patriarcado Ecumênico aponta, não faz sentido, e é até profano, imitar o sinal visível da união, sem que esteja presente a substância invisível dela, a comunhão plena de fé. A nota foi dada em resposta precisamente a um artigo que erroneamente sugeria que seria lícito aos católicos de rito bizantino unirem-se eucaristicamente tanto a Roma quanto a Constantinopla, o que levaria a poderem comungar em ambas as igrejas. A resposta do Primeiro-Entre-Iguais é sucinta, em primeiro lugar porque intercomunhão com Roma não é uma questão em debate, ambígua. É conhecimento elementar e comum: é algo que não deve ser feito antes que Roma comungue da fé ortodoxa e o Papa reconheça a autoridade do Sínodo. Em segundo lugar, a nota é breve para não ir além do devido limite de reiterar esse misericordioso ensino, falando em um âmbito diplomático global de coisas bem-sabidas no mundo ortodoxo e que devem ser ensinadas aos visitantes e catecúmenos num ambiente que potencialize o entendimento. Vale ressaltar que se a nota diz que a intercomunhão não é aceitável com católicos de rito bizantino que seguem o mesmo rito litúrgico que nós, quanto mais vale para os católicos latinos.

Sua Eminência, bispo Kallistos Ware, ele mesmo um reconhecido apoiador do diálogo com Roma, escreveu um livro exclusivamente sobre o assunto, e que chama-se "Communion and Intercommunion". Uma das igrejas sob o Patriarcado de Constantinopla, a Igreja Grega de São Jorge, em Chicago, faz um resumo bastante claro da exposição da fé ortodoxa que o bispo Kallistos Ware escreveu em seu livro:
"A unidade da Igreja na Eucaristia não pode ser verdadeiramente manifesta e realizada a menos que estejam presentes, ao mesmo tempo, duas outras formas de unidade: unidade na fé, e unidade no bispo local. Essas três formas de unidades são complementares e interdependentes. Cada uma perde seu significado se divorciada das outras duas. A unidade eucarística, então, pressupõe, em primeiro lugar, a unidade na fé. Isso demonstra-se concretamente em cada Divina Liturgia pelo fato de que o Credo, a exposição da crença, é recitado pelos fiéis logo antes da recepção da Comunhão
Concernente a unidade no bispo, S. Inácio escreveu no início do século II, "Que ninguém pratique as coisas concernentes a Igreja sem o bispo". Ainda hoje, onde quer que o padre presida a Liturgia, ele o faz não por si mesmo, mas como delegado do bispo. É por isso que ele comemora o nome do seu bispo - não como um gesto de cortesia, mas como uma necessidade eclesiológica.
A eclesiologia eucarística implica, portanto, uma unidade tríplice: unidade eucarística, isto é a unidade em um pão e um cálice da Santa Comunhão; unidade dogmática, isto é, unidade em uma só fé; e unidade eclesial, isto é, unidade no bispo.
Portanto, a intercomunhão, ou o partilhamento dos sacramentos entre igrejas que não partilham da mesma fé e/ou bispo é virtualmente impossível. A Bíblia, os Pais da Igreja, e os Santos Cânones só conhecem duas alternativas: comunhão ou não-comunhão. É tudo ou nada. Admitir alguém à comunhão e aceitar a pessoa como membro da igreja são coisas idênticas. A igreja a que pertencemos é conhecida pelo local onde tomamos comunhão, ou onde somos admitidos na comunhão."
Fonte: http://stgeorgegoc.org/pastors-corner/communion-inter-communion

Estas afirmações são confirmadas no documento da Comissão Conjunta Internacional de Diálogo Teológico entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa: "Consequências Eclesiológicas e Canônicas da Natureza Sacramental da Igreja. Comunhão, Conciliaridade e Autoridade Eclesiástica" do encontro de 13 de outubro de 2007 em Ravena, o qual afirma:

"Portanto, assim como a comunhão nos sacramentos pressupõe comunhão na mesma fé (cfr. Documento de Bari, nn.29-33), também, para que haja plena comunhão eclesial, deve haver, entre nossas igrejas, recíproco reconhecimento das legislações canônicas nas suas legítimas diversidades"


Lembrando que esse trecho foi ali colocado para ressaltar que não existem ainda a comunhão na mesma fé, nem o "recíproco conhecimento das legislações canônicas nas suas legítimas diversidades", os quais são pré-requisitos para a comunhão eucarística.

Já o documento de Bari citado ali trata especificamente da questão sacramental. Escrito pela mesma Comissão, mas em 1987, após ressaltar a necessidade de não limitar a fé a repetição mecânica de chavões teológicos, diz: 

"Essa questão* deve ser levantada para evitar uma abordagem deficiente do problema da fé como condição para unidade. Essa questão, porém, não deve ser usada para obscurecer o fato de que a fé é de fato condição, e que não há comunhão sacramental sem comunhão na fé, tanto no sentido mais amplo da palavra, quanto no sentido da formulação dogmática".
* De que a fé é mais do que apego a slogans teológicos.

Fonte: http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/ch_orthodox_docs/rc_pc_chrstuni_doc_19870616_bari_en.html

O documento segue falando sobre a necessidade da união da fé e fazendo comparações de práticas sacramentais, mas sem entrar no mérito de se as igrejas católicas ortodoxa e romana possuem ou não fés diferentes, até porque a própria existência e necessidade de uma comissão de diálogo teológico é efeito e fruto da realidade dessas fés diferentes. Se as fés fossem as mesmas, não haveriam comissões para reunião e diálogos.

Lembremos também o exemplo prático dos hierarcas que subscrevem esses documentos: nas Liturgias e Missas realizadas durante tais encontros, embora membros de cada igreja assistam o ofício de seus colegas, eles *nunca* tomam a comunhão no ofício do outro, porque sabem que suas palavras são declarações de intenção para uma futura reunião de fé, mas não são uma declaração de união de fé. Que contradição haveria se, tendo acabado de dizer que a intercomunhão só pode ocorrer pela união de fé, eles não comungassem juntos depois de escrever o que alguns maus leitores parecem entender como uma confissão de fé conjunta.

São documentos como esse que são usados para acusar de "legalista" precisamente quem, muitas vezes sem nem utilizar documento ou cânone algum, afirmam a tradição da Igreja de que podemos conviver em amor e fraternidade com nossos amigos de outras igrejas, e com eles vivenciar tudo que de fato temos em comum, especialmente a ética cristã em questões como o aborto, eutanásia, drogas, sexualidade, mas que a única coisa que não podemos fazer juntos é precisamente a comunhão eucarística. Não podemos ser aqueles que querem separar-se naquilo em que estamos unidos (questões éticas  e sociais) e profanar símbolos de união naquilo em que não estamos unidos (comunhão eucarística).

Não Chorar, Mas Limpar o Leite Derramado

Existe, porém, o problema do "fato consumado". A intercomunhão com Roma é um fato consumado na Ortodoxia brasileira, ao arrepio do amor aos catecúmenos em passar-lhes a tradição da Igreja ao invés de opiniões teológicas do nosso grupo, ao arrepio dos ensinos dos santos como S. Justino Popovich e S. Paisios, dos documentos dos diálogos intercristãos que reiteram que não existem condições para intercomunhão entre igrejas diferentes por semelhantes que sejam, dos cânones, das admoestações diretas de bispos e dos patriarcas como na nota inicial deste artigo, ao arrepio da misericórdia cristã para com ortodoxos e heterodoxos, mas acima de tudo pela suprema falta de caridade de colocar o nosso clero diante do dilema de ou parecerem "antipáticos" por terem que recusar comunhão a um romano que tenha chegado até o cálice por má-orientação, ou então cometerem o que sabem ser um desvio do terno ensino da Igreja, só para não escandalizar a comunidade que acha que a comunhão é um direito exigível de qualquer um que pertença a Ortodoxia ou Roma. 

Não é um problema fácil, nem rápido de resolver. Certamente não passa por retornar à prática ortodoxa da comunhão apenas para os ortodoxos de forma grosseira e antipática, sem dar explicações. Será um trabalho pelo menos de médio prazo, onde as pessoas primeiro devem ser educadas e informadas de que aceitar a comunhão ortodoxa (ou romana!) significa aceitar todo o ensino daquela igreja, aceitar a autoridade dos bispos daquela Igreja e que, a despeito das nossas muitas identidades e semelhanças, ainda somos igrejas diferentes e que as diferenças de crença sobre as relações das Pessoas e Energias de Deus e da ordem da Igreja são grandes, assim como as de autoridade episcopal ainda são bastante grandes e sérias, que apostolicidade não é pedigree passando "geneticamente" de um para outro pela mera imposição de mãos, mas também é fidelidade a fé ortodoxa, o que falta na Igreja Romana segundo os ortodoxos e falta na Igreja Ortodoxa segundo os romanos. Se a pessoa quer a comunhão ortodoxa, deve lembrar-se que ela é inseparável do batismo e/ou crisma ortodoxos, o mesmo valendo para a comunhão romana, que é inseparável do batismo e/ou crisma romanos. Querer um desses é querer todos.

Já o leigo que visita uma igreja que não é a sua, prática que aliás considero muito salutar, deve ter *respeito* pelo sacerdote e pela tradição daquela igreja não se colocando na fila da comunhão e se impondo ao sacerdote - em alguns casos até mesmo ao bispo - para receber uma comunhão que, se você quisesse de verdade, deveria ser complementada pelo batismo ou crisma naquela igreja. Quando você quer comunhão com uma igreja, tem que se entregar a ela por inteiro e não profanamente frequentar seus sacramentos como quem vai num supermercado pegar apenas o que lhe interessa.

Se já existem os problemas teológicos, consideremos também a questão ética e humana: comungar em uma igreja da qual não somos parte é um grande desrespeito para com essa igreja. Se a pessoa for tentada por um mal aconselhamento de um bom amigo, ou pior, até chamada pelo sacerdote ou bispo da outra igreja a comungar, sem pertencer a essa igreja, também não há cabimento em fazer escândalo ou ser ríspido. Agradeça com um sorriso, fazendo sinal que "dessa vez não, obrigado". Você *pode* e *deve* conjugar sua fidelidade com o respeito humano.

No caso dos ortodoxos que vivem onde não há nenhuma igreja ortodoxa, a prática ortodoxa não é de forma alguma passar a frequentar, ou pior, comungar, em uma igreja romana, mas montar um "cantinho dos ícones" e adotar uma regra de oração, com horários e dias determinados, se possível com orientação de um pai espiritual ortodoxo. E, mesmo que apenas uma vez por ano, peregrinar até a paróquia ortodoxa mais próxima para comungar lá, e apenas lá.

Normalmente, é um pecado não frequentar a comunhão se estiver preparado e houver uma igreja acessível. Mas, por economia, não se utiliza o mesmo rigor no caso de uma pessoa que more em um local sem igrejas. Inclusive, se for realmente inviável, Deus não terá sua falta em conta de pecado. Isso sim é que é economia, e não desvirtuar a pessoa para uma prática não ortodoxa. De nossa parte, se queremos ajudar essas pessoas, temos que providenciar traduções de regras de oração feitas para pessoas que não tem acesso a liturgia e facilitar e baratear o acesso a ícones, incensos e demais objetos de devoção doméstica.

Akrivia (Regra seguida de forma rigorosa)Comungar sempre que preparado através da oração, jejum e confissão. 
Economia (Flexibilização da regra em face de circunstâncias de exceção)
Na falta de paróquias ortodoxas acessíveis, regra de oração doméstica e peregrinação quando possível a uma igreja ortodoxa mais próxima. Assim como em outros casos similarmente excepcionais, a não participação no sacramento não é tida em conta de pecado simplesmente porque está além das possibilidades do fiel fazê-lo. Em caso de morte sem nenhum padre ortodoxo para ministrar os sacramentos, temos algo similar aos catecúmenos que morriam nas arenas sem receber o batismo. Seu martírio era considerado seu batizado, mas nenhum deles pediria o batismo de um sacerdote ariano ou nestoriano que estivesse ali do lado. Da mesma forma, na falta de um sacerdote ortodoxo para ministrar o sacramento e diante da morte imediata e de um desejo sincero pelo sacramento, Deus certamente terá a pessoa em conta como se o tivesse recebido em vida.
Desvio (Abandono ou distorção da regra)Na falta de igrejas ortodoxas ou sacerdotes ortodoxos intercomunhão com Roma ou outras heterodoxias. Roma emitiu unilateralmente uma permissão de que seus fiéis, no caso excepcional de falta de acesso a uma igreja romana, possam comungar em igrejas ortodoxas. A Igreja Ortodoxa, por outro lado, como mostra esta série de artigos, jamais assinou algum acordo ou produziu algum testemunho de que ela concordava com isso ou que dava permissão a romanos de comungarem nela. Ao contrário, a intercomunhão é reiteradamente denunciada como o pecado que é quando praticada antes da união das igrejas.



Quanto aos romanos que se aproximam do cálice, uma comunidade que venha ao longo dos anos sendo bem informada na prática ortodoxa do respeito à própria comunhão e à comunhão das outras igrejas, será a melhor educadora desses bem-vindos visitantes. As expectativas deles são geradas pelo que eles ouvem dos seus amigos e parentes ortodoxos, o que por sua vez depende o que eles (que somos nós) fazemos e aplicamos na nossa vida.

Posso garantir, por minha própria experiência com catecúmenos e muitas orientações que dei ao longo dos anos que 1) ninguém desiste de tornar-se ortodoxo por causa das explicações acima. Não precisamos sacrificar a verdade para manter as pessoas na igreja; 2) a pessoa se torna um ortodoxo mais firme na fé, aprende a respeitar e até a crescer espiritualmente com o que há de bom nas igrejas heterodoxas (e é muita coisa!), trabalhando com elas naquilo que de fato temos em comum (ética por exemplo) quando necessário, sem desrespeitar as outras igrejas, nem a sua própria; 3) pessoas que amam pertencer a igreja romana agradecem por alguém ter-lhes explicado a diferença, evitando assim que sem querer, abandonassem a igreja de sua fé. E continuam visitando a igreja ortodoxa mesmo assim. 

Para finalizar, acrescento que a maioria que pratica intercomunhão o faz simplesmente porque "sempre foi assim" aqui no Brasil. Não existe uma substancial revolta contra o ensino da Igreja, ou algum tipo de má-intenção. Quando muito, uma compreensão bastante "abrasileirada" do conceito de economia e misericórdia, onde a nossa tendência natural a sermos inclusivos, fraternais e adaptáveis acaba por nos levar ao excesso de zelo para não escandalizar as pessoas. 

Aos que temem que afirmar tais divergências são um problema para o esforço do retorno de Roma à comunhão Ortodoxa, concluo como iniciei, com as palavras de Sua Santidade Patriarca Ecumênico Bartolomeu:

"Até mesmo a descoberta de discordâncias nos impele à busca da concordância".

Pronunciamento de Sua Santidade Patriarca Ecumênico Bartolomeu à Delegação da Igreja de Roma na Festa Tronal do Patriarcado Ecumênico, Fanar, 30 de novembr de 2012

Ao que reitero: é apenas tendo clara consciência de como e onde estamos separados, e expressando isso  de forma sincera e respeitosa em atos, é que haverá qualquer esperança de reunião.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Como discernir as verdadeiras experiências da Graça de Deus das falsas - Parte 01/02


Trecho da transcrição da palestra do Abade Arquimandrita George do Santo Mosteiro de São Gregório da Montanha Santa em Stratoni de Halkidiki, em 14 de janeiro de 1989, por convite do Reverendíssimo Nicodemus, Metropolita de Hierissou, da Montanha Santa e Ardameri. 

Original na revista "São Gregório" do Santo Mosteiro de São Gregório, da Montanha Santa

Fonte: http://www.impantokratoros.gr/2D843221.en.aspx

Tradução: Lr. Fabio L. Leite


Formas de Experiência da Graça de Deus

Quais são as experiências da graça que um cristão pode receber de forma que sua fé e vida cristã não sejam para ele algo mental e externo, mas um verdadeiro sentimento espiritual de Deus, uma comunhão com Deus, uma habitação de Deus na qual todo o seu ser participa?

É primeiro e antes de tudo uma informação interior de que através da fé em Deus, ele encontrará o verdadeiro significado da vida. Ele sente que sua fé em Cristo é uma fé que o conforta internamente; que ela dá sentido à sua vida, e o guia, que é uma luz forte que o ilumina. Quando ele percebe dessa forma a fé cristã em si, ele começa a viver a graça de Deus. Deus não é algo externo a ele.

Outra experiência da graça de Deus é recebida pelo homem quando ele ouve em seus coração o convite de Deus para arrepender-se de suas ações pecadoras e tenebrosas, para retornar ao modo cristão de vida, para confessar, para entrar no caminho que leva a Deus. Essa voz de Deus que ele ouve dentro de si é uma experiência preliminar da graça de Deus. Todos os anos que vivemos longe de Deus são anos em que não temos como entender nada.

Ele começa a se arrepender, ele confessa com seu confessor pela primeira vez na vida. Depois da confissão, ele sente uma grande paz e alegria como nunca sentiu antes. Então ele diz "Eu fui confortado". Esse consolo é a visitação da graça divina em uma alma que se arrependeu e que Deus deseja confortar.

As lágrimas de arrependimento de um cristão quando ele começa a orar e pede perdão a Deus ou quando ele confessa são lágrimas de contrição. São lágrimas muito confortadoras. Elas trazem muita paz à alma do homem. A pessoa sente então que elas são um dom e uma experiência da graça divina.

Quão mais profundo o arrependimento do homem, mais profundo será seu amor por Deus e rezará com um eros divino, quando então suas lágrimas de arrependimento tornam-se lágrimas de alegria, lágrimas de amor e de eros divino. As lágrimas que estão acima e além das lágrimas de arrependimento são também prova de uma visitação e experiência mais nobre da graça de Deus.

Nos aproximamos para comungar o Corpo e o Sangue de Cristo tendo arrependimento, confessado e com preparação espiritual através do jejum. Depois de receber a Santa Comunhão como nos sentimos? Profunda paz em nossa alma, e alegria espiritual. Também isso é uma visitação da graça divina e uma experiência de Deus.

Existem, porém, outras experiências ainda maiores de Deus. A experiência suprema de Deus é a visão da Luz Incriada. Foi essa luz que os discípulos do Senhor viram no Monte da Transfiguração. Eles viram Cristo brilhar como o sol, com uma intensa e divina luz, a qual não era uma luz material, criada, como a do sol ou de outras fontes luminosas da criação. Era a Luz Incriada, mais precisamente a Luz de Deus, a Luz da Santa Trindade. Aqueles que estão completamente limpos das paixões e pecados, e que oram com sinceridade e uma oração limpa, são os que são considerados dignos dessa grande experiência de ver a Luz de Deus ainda nesta vida. Essa é a Luz que irá brilhar na vida eterna. Eles não apenas a vêem desde já, mas também são eles mesmos vistos nessa Luz desde agora, pois essa Luz cobre os Santos. Não a vemos com nossos olhos, mas os de coração puro e os santos a vêem. O halo luminoso que é pintado ao redor da cabeça dos santos é a Luz da Santa Trindade que os iluminou e os santificou.

Na vida de São Basílio Magno, lemos que enquanto ele estava orando em sua cela, ele podia ser visto completamente envolto na Luz, e a cela inteiramente inundada pela Luz Incriada. Vemos a mesma coisa nas vidas de muitos santos.

Portanto, alguém ser considerado digno de ver a Luz Incriada, é ter uma das maiores experiências concedidas por Deus e não é dada a todos, mas a bem poucos - apenas àqueles que progrediram na vida espiritual. De acordo com Pai Isaac, em cada geração apenas uma pessoa, se tanto, chega a ver a Luz Incriada. Mesmo assim, até em nossos dias há cristãos considerados dignos dessa experiência única de Deus.

Claro que precisamos enfatizar que não basta ter visto alguma Luz para que realmente a pessoa tenha visto a Luz Incriada. O demônio pode enganar essas pessoas, e mostrar-lhes outras luzes - demoníacas ou psicológicas - enganando-os a crer que se trata da Luz Incriada, quando não é. Por essa razão, todo cristão que ouve alguma coisa, ou tem alguma experiência, não deve aceitá-la imediatamente como se viesse de Deus, porque ele pode estar sendo enganado pelo demônio. Ele deve confessar a experiência ao seu confessor que então irá dizer-lhe se é de Deus ou um engano dos demônios. É necessário muito cuidado em tais casos.

Identificando uma experiência pura da graça de Deus

Vamos examinar agora as condições que podem garantir se as diferentes experiências que temos são genuínas ou falsas.

A primeira condição é que devemos ser pessoas de arrependimento. Se não nos arrependemos de nossos pecados e nos limpamos de nossas paixões, não é possível que estejamos vendo Deus. Como o Senhor diz em suas bem-aventuranças, "Bem-aventurados os puros de coração pois eles verão a Deus". Quanto mais a pessoa purifica-se de suas paixões, se arrepende e retorna a Deus, mais ela sentirá e verá Deus.

Tentar alcançar essas experiências de Deus através de métodos e meios artificiais - como é feito no Hinduísmo, Yoga, etc, é um erro. Essas experiências não vem de Deus. São experiências alcançadas por meios psicológicos.

Os Santos Padres nos dizem: "Dê seu sangue para receber o espírito". Em outras palavras, se você não der o sangue do seu coração com seu arrependimento, oração, jejum, asceticismo, você não receberá a graça do Espírito Santo. As verdadeiras experiências espirituais são dadas aos que, por humildade, não pedem experiências espirituais mas pedem a Deus por arrependimento e salvação, são dadas aos que são humildes e dizem, "Meu Deus, não sou digno de receber a visitação da Tua graça, da Tua consolação celestial e divina, dos prazeres espirituais". Entretanto, aos que orgulhosamente pedem a Deus para lhes dar experiências, Ele não as concederá, devido ao orgulho delas. Assim, a segunda condição é humildade.

A terceira condição para receber uma verdadeira experiência espiritual é estarmos no seio da Igreja. Não fora da Igreja, porque fora dela o demônio irá nos enganar. Quando uma ovelha separa-se do rebanho, ela é devorada pelos lobos. Dentro do rebanho há segurança. O cristão só está seguro dentro da Igreja. Entretanto, quando ele abandona a Igreja, ele se expõe aos seus próprios enganos, aos enganos de outras pessoas e aos enganos do demônio. Temos incontáveis exemplos de muitas pessoas que não deram atenção à Igreja e ao seu estado espiritual e no fim caíram vítimas do engano. Elas até acreditavam terem visto Deus, ou que receberam visitações de Deus quando na verade as experiências que tiveram eram demoníacas e destrutivas. Também ajuda muitíssimo oferecer orações puras e fervorosas. A verdade é que é durante as horas de prece que Deus concede a maioria das experiências espirituais aos homens, e é por isso que os que oram amorosamente com zelo e paciência, recebem os dons do Espírito Santo e sentem a graça de Deus.

Como você talvez saiba, existe uma oração que rezamos na Montanha Santa e que você também rezar: "Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim, um(a) pecador(a)". Essa oração que se caracteriza por ser noética, sincera, incessante quando é dita com humildade, amor e persistência, traz ao coração do homem um sentimento da graça de Deus.

domingo, 16 de agosto de 2015

"Um Grande Sinal" (Apo 12:1) - Homilia sobre a Dormição da Teotókos


Por Pe. Matthew Baker
Tradução: Lr. Fabio Lins Leite

Hoje celebramos uma grandiosa e alegre solenidade: a dormição da Mãe de Deus em Jerusalém, e seu translado corporal em glória.

"A Plenitude do Mistério da Economia"

As leituras deste dia - de Gênesis, Ezequiel, e Provérbios - nos apresentam com uma série de imagens, todos com referências à Teotókos. Ela é a escada que ascende da terra ao céu, vista pelo patriarca Jacó em sua visão (Gen, 28:12). Ela é Beth-el, a casa de Deus, e os portões do céu (Gên. 28:17). Ela é o portão oriental do santuário do Templo, que permanece fechado - virginal: nenhum homem passa ali, "pois o Senhor, o Deus de Israel, passou por ele", como Ezequiel profetizou (Ez. 44:2). Ela é sabedoria, ou a casa da sabedoria, da qual o rei Salomão fala (Prov. 9:1).

Essas leituras - de Gênesis, Ezequiel e Provérbios - representam as 3 divisões da Bíblia judaica: o Torah, Profetas e Escritos. Juntos, formam um "bouquet" representando todo o que nós chamamos de Velho Testamento. É como se disséssemos: Maria é o resultado para o qual toda a história de Israel estava apontando desde sempre. Ela é a filha de Sião, o ponto de virada da história da salvação. Nela se inicia a Nova Aliança.

Nas palavras de S. João de Damasco, "no nome da Teotókos está contida a plenitude do mistério da economia. "Economia", do grego oikonomia, como ouvimos em nossos hinos, refere-se à administração que Deus faz de sua "casa", sua governança da criação e da história de acordo com seu plano para nossa salvação e glorificação. Existe uma lógica no plano de Deus, e uma unidade de sentido. Essa unidade é revelada na pessoa da Virgem Santa.

O papel de Maria nessa economia, sua identidade como "Mãe", não termina com o seu parto ou depois de Jesus ter crescido. Não a vemos apenas na Anunciação e nascimento de Jesus, mas também em Seu primeiro milagre em Canã, ao pé da Cruz e com a Igreja no Pentecostes. Como S. João de Damasco disse, "a plenitude da economia".

No ciclo de festas de nosso ano litúrgico, que começa no dia 1 de setembro, a primeira grande festa é o nascimento da Teotókos, em 8 de setembro. A última grande festa é hoje, sua dormição e assunção corporal ao céu. Nossa memória litúrgica do trabalho de salvação de Cristo começa e termina com Maria. Nós começamos com seu nascimento, terminamos com sua glorificação. "No nome da Teotókos está contido todo o mistério da economia".

Uma Mulher vestida de Sol

No fim de sua vida, no exílio na ilha de Patmos, o Apóstolo João teve uma visão. "Um grande sinal apareceu no céu: uma mulher vestida de sol, com a lua sob seus pés e uma coroa de doze estrelas na sua cabeça" (Rev. 12:1). A maioria dos comentaristas fala desta imagem do livro do Apocalipse como se referindo à Igreja, ou aos sobrantes de Israel. Alguns, porém, vêem uma imagem de Maria, especialmente já que ela é a filha de Sião, e tipifica a Igreja. Alguns vêem mesmo a imagem de sua assunção corpórea.

"Um grande sinal apareceu no céu: uma mulher vestida de sol" (Apo. 12:1). No "translado" corporal da Virgem, a Igreja reconhece um "grande sinal". Um sinal profético, que fala de nosso destino do significado da morte, de corpos, de relações humanas.

Esse sinal nos diz: a morte não é o fim do ser humano. Não somos apenas, como o filósofo Heidegger pensou, "seres-para-a-morte". O tempo finito e a morte não são nosso horizonte final. A mãe de Jesus foi "transladada para a vida".

Esse sinal nos diz: um "céu" de seres puramente espirituais não é o nosso estado final. Cristãos não são platonistas. O corpo não é a prisão da alma, um casulo para ser deixado para trás enquanto nosso "verdadeiro eu" emerge como uma borboleta. Platão estava errado: nosso verdadeiro eu, como Deus o desejou, não é apenas alma, mas também corpo. A salvação da pessoa significa também a salvação do corpo.

Esse sinal nos diz: através da ressurreição de Jesus, cada um de nós irá ressuscitar também em nosso próprio corpo, restaurado, conforme ele foi concebido no útero de nossa mãe, como homem ou mulher. E um grande sinal apareceu no céu: uma mulher vestida de sol (Rev. 12:1). Ressuscitada em glória, Maria ainda é uma mulher.

Alguns antigos hereges, chamados gnósticos, acreditavam que o aqui e o agora era algo que tínhamos que superar: no reino do céu, não haveria homem ou mulher, ou talvez todas as mulheres "evoluíssem" para se tornarem homens (de acordo com o pseudo-Evangelho de São Tomé, logion 114). Esses gnósticos desprezavam o casamento, e especialmente a procriação. Eles buscavam libertar-se dos laços da natureza.

Ainda temos nossos gnósticos hoje. Nossos gnósticos gostariam que pensássemos que homem e mulher, mãe e pai, são identidades fluidas, intercambiáveis: não o desenho bom e definitivo do Criador,  mas invenções da sociedade, ou auto-construções plásticas.

Mas hoje a  Igreja nos pede que guardemos uma visão diferente. É um sinal de nossa época, "um sinal de contradição" (Lc. 2:34). "Fostes transladada para a vida, Ó Mãe de Deus". Esse sinal nos diz: ressuscitada em glória, Maria ainda é mãe. Na glorificação corporal de Maria, recebemos uma imagem, uma parcela, da glória do Reino que temos esperança de herdar. É uma glória totalmente corpórea, onde a beleza da diferença conforme criada se preserva. Uma glória onde laços naturais de amor nunca se dissolvem. Uma glória na qual cada um de nós continuará sendo mãe ou pai, e filho ou filha, de alguém. E para todos os que, como o discípulo mado, descançaram sua cabeça no peito do Senhor, ou ficaram ao pé da Sua cruz em oração, Cristo dirá: "Filho, eis aí tua Mãe" (Jo. 19:27).

Não existe nenhuma pessoa humana mais exaltada que a Virgem Maria, a Panaguía. E não há título maior para ela em nosso vocabulário teológico do que "Mãe". Isso deveria nos dizer alguma coisa. Essa palavra, "mãe", se estende muito além do parto físico. A palavra "mãe" nomeia uma preocupação humana abrangente, um laço espiritual, um chamado de Deus. A maternidade espiritual, além da relação de sangue, é um dom e um chamado de toda mulher: casada ou não; tenha dado à luz a muitos, um ou nenhum filho. É um dom, que cada um de nós - toda a humanidade - recebemos como benção e benefício.  Esse é um excelente dom de nosso Criador, não uma invenção nossa. E como a festa de hoje nos lembra, não termina com a morte.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

"55 Ações Simples para uma Vida Ortodoxa" por Pe. Thomas Hopko

Pe. Thomas Hopko

Original: http://myocn.net/55-maxims-for-christian-living-by-protopresbyter-thomas-hopko/

1. Esteja sempre com Cristo.
2. Ore como puder, não como você gostaria.
3. Tenha uma disciplina de oração realista e que você mantenha por dever.
4. Reze o Pai Nosso várias vezes ao dia.
5. Tenha uma oração curta que você possa repetir constantemente quando sua mente não estiver ocupada com outras coisas.
6. Faça algumas prostrações quando orar.
7. Se alimente bem e com moderação.
8. Siga os dias e regras de jejum da Igreja.
9. Passe algum tempo em silêncio todos os dias.
10. Faça atos de caridade em segredo.
11. Vá regularmente à Divina Liturgia.
12. Participe regularmente da confissão e da comunhão.
13. Caso surjam pensamentos ou sentimentos inapropriados não lhes dê atenção. Corte-os logo de início.
14. Compartilhe regularmente todos os seus pensamentos e sentimentos com alguém de confiança.
15. Leia as Santas Escrituras (Bíblia) regularmente.
16. Leia bons livros, um pouco de cada vez.
17. Cultive a comunhão com os santos.
18. Seja uma pessoa comum.
19. Seja educado com todos.
20. Mantenha limpeza e arrumação na sua casa.
21. Tenha um hobby saudável e  positivo.
22. Exercite-se regularmente.
23. Viva cada dia, e cada parte do dia, de cada vez.
24. Seja totalmente honesto, antes de tudo, consigo mesmo.
25. Seja fiel nas pequenas coisas.
26. Faça seu trabalho e então esqueça dele.
27. Faça a parte mais difícil e dolorosa primeiro.
28. Encare a realidade.
29. Seja grato em todas as coisas.
30. Seja alegre.
31. Seja simples, discreto, quieto e pequeno.
32. Nunca chame atenção para si.
33. Escute quando falarem com você.
34. Fique acordado e atento.
35. Não fale ou pense sobre as coisas mais do que o necessário.
36. Quando falar, fale com simplicidade, clareza, firmeza e seja direto.
37. Fuja de ficar imaginando, analisando coisas querendo entendê-las.
38. Fuja de coisas carnais e sexuais assim que surgirem.
39. Não fique reclamando, murmurando, resmungando, ou choramingando.
40. Não se compare com os outros.
41. Não busque ou espere elogio ou pena de ninguém.
42. Não julgue ninguém por nada.
43. Não tente convencer ninguém de nada.
44. Não fique se defendendo ou se justificando.
45. Lembre-se que apenas Deus te define e seu maior compromisso é com Ele.
46. Aceite a crítica com gratidão mas teste-a com senso crítico.
47. Só dê conselhos quando pedirem ou for obrigado a isso.
48. Não faça nada por ninguém que eles possam ou deveriam fazer por si mesmos.
49. Tenha uma agenda diária de atividades, evitando manhas e caprichos.
50. Seja misericordioso consigo e com os outros.
51. Não guarde nenhuma expectativa além de ser duramente tentado até seu último suspiro.
52. Foque exclusivamente em Deus e na luz, não nos pecados e escuridão.
53. Aguente a provação de ser você mesmo e de seus erros e pecados pacificamente, serenamente, porque você sabe que a misericórdia de Deus é maior do que a sua miséria.
54. Quando cair, se levante imediatamente e comece de novo.
55. Peça ajuda quando precisar, sem medo e sem vergonha.

terça-feira, 23 de junho de 2015

O Império Bizantino e a Península Ibérica


Um dos mais ambiciosos planos do Imperador Justiniano (527-565) era resgatar a Península Ibérica dos Visigodos e dos Suevos, a Itália dos Ostrogodos, e a África dos Vândalos; o Imperador Heráclios (610-41) é que finalmente desistiria de todo o plano. As relações entre o oriente grego e a Ibéria eram multifacetadas e íntimas, especialmente durante o século VI (01). Surpreendentemente, não foi na Espanha Visigótico-Bizantina, mas no distante noroeste da Península, habitada pelos Suevos(NT02), que ocorreu tradução de literatura. Ao mesmo tempo, ou pouco depois, foram compostas ali traduções dos Apopthegmata e compilações similares, por ordem do Apóstolo dos Suevos, Martinho de Braga (d.ca. 580). Um certo Paschasius traduziu partes de um codex chamado Vitas Patrum Grecorum que lhe fora dado com esse mesmo exato propósito. A tradução ficou conhecida como Liber Geronticon (02). O próprio Martinho, que havia morado na Palestina antes de fundar o mosteiro de Dume entre os Suevos e se tornar arcebispo na cidade real sueva de Braga, traduziu uma coleção chamada de Setentiae Patrum Aegyptiorum. Também é-lhe atribuída uma coleção de cânones gregos.

Na segunda metade do sétimo século, quando o reino suevo foi incorporado à monarquia visigótica, o Abade Valerius de Bierzo produziu na Galícia uma edição do Vitas Patrum, a qual continha traduções de vidas de santos gregos; não é claro se eram o trabalho da escola de tradutores galegos fundada por Martinho de Braga ou se vinha da Itália.(03)

A população católico-românica e os godos arianos do reino visigótico reconciliaram-se com o Bispo Leandro de Sevilha (578-99), que viera da cidade bizantina de Cartágena (NT03). O sucessor no bispado de Sevilha foi o irmão mais novo de Leandro, Isidoro (599-636), que, no fim das contas, tornou-se o mais famoso autor latino da Espanha.

Seu curto tratado, De ortu et obitu patrum (Migne PL 83, cols. 129-59) contém um núcleo com vidas de profetas, traduzido do grego, dentro de uma série de oitenta e seis rascunhos biográficos de figuras do Antigo e Novo Testamentos; ver Τ. Schermann, Prophetarum vitae fabulosae(Leipzig 1907), and Propheten- und Apostellegenden nebst Jüngerkatalogen des Dorotheus und verwandter Texte, TU 31/g (Leipzig 1907); Α Vaccari, "Una fonte del 'de ortu et obitu Patrum' di S. Isidoro," in Miscellanea Isidoriana (Rome 1936), pp. 165-75.

O principal trabalho de Isidoro é o Etymologiae (Orígenes), o qual serviu o Ocidente por séculos. Como um segundo Varro, ele tentou, em vinte livros curtos, resumir conceitualmente o trivium, o quadrivium, a medicina, o direito, a teologia, a história, a filosofia, a zoologia, a geografia, a produção de livros, a arquitetura, a mineralogia, a metalurgia, a agricultura, questões militares, jogos públicos e privados, construção de navios, e outras áreas de conhecimento e tecnologia. Como geralmente era o caso na antiguidade, o conhecimento transmitido por Isidoro era primariamente grego, via intermediários latinos dos quais ele obtinha essas informações. Vários dados gregos foram preservados nos trabalhos de Isidoro. Ele utiliza palavras gregas, que são escritas em alfabeto grego e incorporadas ao texto latino de acordo com a prática antiga (04). O alfabeto grego é explicado historicamente - segundo os modelos antigos - no início das obras. Além disso ele inclui a importante doutrina da litterae mysticae, que era típica da avaliação medieval do grego: (05)

Cadmus, o filho de Agenor, primeiramente trouxe dezessete letras gregas para a Grécia desde a Fenícia: Α Β Γ Δ Ε Ζ 1 Κ Λ Μ Ν Ο Π Ρ C T Φ. Palamedes acrescentou três mais durante a Guerra de Tróia: Η Χ Ω. Depois, o poeta lírico Simonides acrescentou mais três letras: Ψ Ξ Θ. Pitágoras de Samos primeiramente desenvolveu a letra Y tendo como modelo a vida humana: o traço de baixo significa os anos da infância, ainda incertos, e que não se entregaram ainda ao vício ou virtude. A bifurcação, porém, inicia-se na adolescência: seu braço direito é abrupto, mas leva a uma vida abençoada; o esquerdo é mais fácil e leva ao desastre e à destruição. Persius diz sobre essa letra: "E a letra que estende os braços samianos, revela a trilha ascendente na mão direita" [III 56].

Os gregos possuem cinco letras de mistério. A primeira é o Y, a qual significa a vida humana, e da qual acabamos de falar. A segunda é o Θ, que significa morte, posto que juízes colocam-na ao lado dos nomes daqueles que condenam à pena de morte. E theta significa ΑΠΟ ΤΟΥ ΘΑΝΑΤΟΥ, i.e. "da morte". Por essa razão, ela também possui um cabo no meio, que é o símbolo da morte. Já foi dito: "Theta, és a mais desgraçada das letras". A terceira, T, significa a cruz do Senhor; por isso é traduzida para o hebraico como "sinal". Sobre essa letra, é dito ao anjo em Ezequiel (9:4): "Vá ao centro de Jerusalém e trace um tau na fronte dos homens que lamentam e suspiram". As duas letras restantes são o Α e o Ω , que foram reclamadas como primeira e última pelo próprio Cristo, pois Ele mesmo diz: "Eu sou o Alfa e o Ômega". Quando essas duas letras movem-se uma para a outra, A move-se para o Ω e o Ω, por sua vez, move-se para o A; de forma que o Senhor quer dizer que o fluir do início para o fim e o retorno do fim para o início está nEle. Mas todas as letras gregas formam palavras e números. Pois a letra chamada alfa significa um, a que se chama beta significa dois, e onde escrevem gama, ela é chamada três, e delta é quatro, e assim todas as letras possuem valores numéricos. Os latinos não usam letras por números, mas delas formam apenas palavras, com exceção de I e X, cujas figura também significa a cruz e tem o valor numérico de dez.

Em outra passagem do trabalho, Isidoro designa a língua grega como uma das três línguas sagradas(06)

Existem três línguas sagradas: hebraico, grego e latim, que são as mais distintas em toda a terra. Pois foi com essas línguas que Pilatos escreveu a sentença do Senhor sobre a cruz. Portanto, é também por obscuridade das Santas Escrituras que um conhecimento dessas três línguas é necessário, para que se possa consultar uma ou outra quando o texto em um língua gerar dúvida sobre um nome ou uma tradução. Ainda assim, o grego é considerada uma língua especialmente esplêndida entre as nações. Pois é mais ressonante que o latim e que todas as demais línguas. Suas variedades classificam-se em cinco componentes: primeiro, o Koiné, isto é "misturada" ou "comum", que todos usam; segundo, o Ático, nomeadamente, a língua de Atenas, que todos os autores gregos utilizaram; terceiro, o dórico, usada por egípcios e sírios; quarto o Iônico e quinto o Aélico. Existem várias características distintas a serem observadas nas línguas gregas. Assim está dividida sua língua.

Uma grande parte dessa explicação é derivada de trabalhos mais antigos, como geralmente é o caso na Etymologiae: Isidoro elogia a beleza da língua grega segundo o modelo de Quintiliano. A doutrina da língua sacra é desenvolvida a partir das afirmações de Agostinho sobre as linguae principales (07). Mas aquele que não apenas usa mas também lê Isidoro, observará que existe uma "linha interna... que conecta todos esses trechos aparentemente desconexos" ("innere Linie ...die sich durch alle diese scheinbar gedankenlosen Excerpte zieht")(08). A vitória de Isidoro no que concerne o conhecimento medieval do grego se dá pelo foco no material fundamental e claramente organizado: a litterae mysticae e a linguae sacrae eram schemata de um novo arcaísmo bem adaptado às recém-cristianizadas nações do Ocidente.

01. P. Goubert, "L' Espagne Byzantine. Influences Byzantines sur l' Espagne Wisigothique, " Revue des Études Byzantines 4 (1946) 111-33.

02. Rosweyde, Vitae Patrum. lib. VII (Migne PL 73, cols. 1052-62). New edition by J.G. Freire, A versão latina por Pascásio de Dume dos Apophegmata Patrum (Coimbra 1971), I/2 (I, 159 ff. Liber Geronticon de octo principalibus vitiis). Freire editou uma outra tradução do Apophtegmata do século VI em Commonitiones sanctorum patrum. Uma nova colecção de apotegmas (Coimbra 1974). Essa coleção é quase idêntica à publicada por Rosweyde no terceiro livro do seu Vitae Patrum sob o nome de Rufinus.

03. Rosweyde incluiu essa tradução no apêndice do seu Vitae Patrum. New edition by C.W. Barlow, Martini episcopi Bracarensis opera omnia(New Haven 1950), pp. 30-51; A coleção de cânones, ibid., pp. 123-44. Cf. K. Schäferdiek, Die Kirche in den Reichen der Westgoten und Suewen(Berlin 1967), pp.120 ff.

04. D. de Bruyne, "L' héritage littéraire de l'abbé Saint Valère, "RB 32 (1920), 1-10. Sobre a Vita S. Mariae Aegyptiacae na compilação, uma das mais antigas traduções de "caráter expressivo", ver Kunze, Studien zur Legende der heiligen Maria Aegyptiaca, pp. 28 ff.; cf. W. Berschin, in Mittellateinisches Jahrbuch 10 (1975),310.

05. "As raízes e etimologias gregas no trabalho de Isidoro, as quais estão corrigidas e impressas em grego na edição de Lindsay, são em muitos casos escritas com alfabeto latino nos manuscritos e geralmente são transmitidas de forma quase ilegível, já que nem sempre exibem as formas linguísticas clássicas mesmo no texto original."; Bischoff, in Latin Script and Letters A.D. 400-900, Festschrift Bieler, p. 209. Na mesma passagem, Bischoff mostra como a palavra latina bannita = syllaba, littera saiu da transcrição do Graeca em Etym. I 16, 1: "nam syllaba dicta est ΑΠΟ ΤΟΥCΥΛΛΑΜΒΑΝΕΙΝ ΤΑ ΓΡΑΜΜΑΤΑ."

06. Etym. I 3.

07. Etym. IX 1.

08. J. Fontaine's Isidore de Séville et la culture classique dans l' Espagne Wisigothique (Paris 1959), I/2 (pp. 58-61) sobre o trecho concernente ao alfabeto grego) contém uma análise detalhada das fontes.

NT01 No original o autor refere-se à "Espanha" como um nome para toda a Península Ibérica, incluindo mesmo as terras de Portugal, indistinção essa que é um erro comum na língua inglesa. Como o público leitor de língua portuguesa preserva uma memória mais precisa da história da Península, e sabendo que é a ela que o autor original se refere, utilizei o termo mais comum em português "Península Ibérica" para a região que o autor do original tem em mente ao escrever "Espanha". 

NT02 O "noroeste da Espanha" no original é claramente a região centro-norte de Portugal, possivelmente alcançando a Galícia, que é precisamente a área que era ocupada pelos suevos, tanto que S. Martinho de Braga (uma das mais tradicionais cidades portuguesas), mencionado logo em seguida, é patrono da fé ortodoxa lusitana.

NT03 Trata-se da mesma Cartagena da Espanha.

Fonte: "Early Byzantine Italy and the Maritime Lands of the West"