segunda-feira, 24 de junho de 2019

Aristóteles na Teologia Bizantina

Filósofos Gregos
Filósofos Gregos representados como precursores do Messias no ícone "A Árvore de Jessé", Bucovina, Romênia

Qualquer tentativa de pesquisar o lugar de Aristóteles na teologia bizantina deve começar com o reconhecimento de que a categoria "teologia bizantina" é ela mesma um construto moderno. Os bizantinos não se pensavam como bizantinos, mas como romanos. Esse fato não é uma questão de mera nomeclatura, mas um lembrete do forte senso de continuidade com o passado clássico e o cristianismo primitivo. Quanto à teologia, em particular, os bizantinos não viam nenhuma divisão entre seu próprio tempo e a era de fundação do Cristianismo. Embora reconhecessem a autoridade dos Pais da Igreja, eles não pensavam em termos de uma "era dos Pais da Igreja" fechada e completa(1). Os santos e teóforos(NT) Pais, como os "bizantinos" os chamavam, não estavam limitados a um tempo ou lugar, mas incluíam todos que tinham fielmente recebido e explicado a Verdadeira Fé, particularmente como resposta à heresia. Do ponto de vista "bizantino", que ainda é o da Igreja Católica Ortodoxa hoje em dia, tais pessoas nunca deixaram de existir dentro da Igreja, pois eles constituem o selo vivo de seu guiamento pelo Espírito Santo.

Para compreender o papel de Aristóteles na teologia bizantina, portanto, temos que começar com uma visão de seu papel no pensamento dos primeiros séculos do cristianismo. Esse papel era bem mínimo. Aristóteles nunca fora considerado, por cristãos ou pagãos, como um guia da vida espiritual da ordem de Pitágoras ou Platão. Vários dos Pais da Igreja achavam os escritos destes dois últimos tão impressionantes que chegavam a supor que eles deviam ter lido os livros de Moisés durante suas viagens ao Egito.(2) Nunca ninguém sugeriu algo sequer semelhante sobre Aristóteles. Quando ele é mencionado pelos Pais, frequentemente é com o propósito de denunciar certos ensinamentos seus que consideravam ímpios, tais como a mortalidade da alma, a restrição da providência divina aos céus, e a visão da felicidade humana como dependente de objetos externos.(3) Ocasionalmente ele era criticado por defender que o universo seria eterno e incriado, embora como esse entendimento era difundido na antiguidade, nem sempre associavam-no especificamente a Aristóteles. Além de seus ensinos errôneos, Aristóteles era também visto com suspeita por ter fundado a lógica, uma disciplina ordinariamente usada e abusada pelos hereges, tais como o "neo-ariano" Aécio no século IV. Quando Gregório de Nazianzo ressalta que escreve "como um pescador e não como Aristóteles", quer dizer duas coisas: indica tanto que falou de modo direto e sem tecnicalidades desnecessárias, e que falou com honestidade, sem engodos sofisticados.(4)

Porém essa não é a história toda. A despeito de sua antipatia quanto a Aristóteles, os autores cristãos antigos eram participantes de uma cultura na qual as idéias de Aristóteles já de muito haviam tornado-se lugares comuns. E eles estavam perfeitamente confortáveis em utilizar essas idéias, tipicamente sem reconhecimento, e talvez sem consciência, de sua origem aristotélica. Sem que tentemos algo como um catálogo completo, vale destacar alguns poucos exemplos de empréstimos indiretos antes de entrarmos na era bizantina. Isso ajudará tanto como forma de explorar as variedades da influência aristotélica quanto porque as idéias em questão continuaram vitalmente importante para os bizantinos.

Um exemplo relativamente simples é a análise dos seres criados como matéria e forma. Ao tempo dos Pais da Igreja, esse tipo de análise tornara-se parte do conjunto de idéias compartilhadas nas classes educadas. Já no segundo século, encontramos Tatiano asseverando que Deus é o criador tanto da matéria quanto da forma, uma fórmula que se tornou padrão da afirmação da criação ex nihilo.(5) Os pais geralmente pressupunham, em boa forma aristotélica, que a matéria é necessária para que haja mudança e diversidade numérica.  Aplicar essa premissa em sua crença decididamente não-aristotélica na imortalidade da alma, assim como em sua crença em anjos, levou a uma teoria conhecida como "hilomorfismo pneumático", o qual é o entendimento que todas as criaturas, incluindo anjos e almas, são compostos de forma e matéria, embora obviamente a matéria dos anjos e almas seja altamente refinada em comparação com a dos corpos sensíveis. Essa visão parece ter sido mais ou menos universalmente aceita na Igreja primitiva, especialmente porque aplicava-se bem a passagens bíblicas como a parábola de Lázaro e as diversas aparições de anjos.(6) Continuou a ser o entendimento comum dos bizantinos, que geralmente entendiam daí que devem existir gradações de materialidade. João Damasceno, por exemplo, afirma que os anjos são "incorpóreos e imateriais" em relação aos seres humanos, mas "densos e materiais" em relação a Deus.(7)

Prof. David Bradshaw, trecho de seu ensaio “The Presence of Aristotle in Byzantine Theology” in The Cambridge Intellectual History of Byzantium, KALDELLIS, Anthony e SINIOSSOGLOU, Niketas (Cambridge: Cambridge University Press, 2017).


[1] Veja o Capítulo 17.

[2] Justino Mártir, Apologia I 59–60; pseudo-Justino, Exortação aos Gregos 22, 25–27, 29, 31–33;Clemente de Alexandria, Stromata 1.15, 1.25, 5.14; Eusébio de Cesaréa, Preparação para o Evangelho 10.4, e livros 11–12; Cirilo de Alexandria, Contra Juliano 1.18.

[3] Festugière 1932: 221–263; Runia 1989.

[4] Gregório de Nazianzo, Oração 23 12.

[5] Taciano, Aos Gregos 4–5. Veja também Ireneu, Contra Heresias 2.10, 2.16.3, 4.20.1; Orígenes, Dos Primeiros Princípios 2.1.4; Basílio de Cesaréa, Hexameron 2.2.

[6] P.ex. Justino Mártir, Diálogo com Trifo 5; Taciano, Aos Gregos  4, 12–13; Ireneu, Contra Heresias 2.34; Atanásio, Vida de Antão 31; Basílio de Cesaréa, Carta 8 (provavelmente por Evágrio); Gregório de Nazianzo, Orações 28.31, 38.9; veja a discussão em Jacobs 2012.

[7] João Damasceno, Exposição da Fé Ortodoxa 17 (p. 45); cf. seus Três Tratados sobre as Imagens Divinas 3.24–25.

(NT) Teóforo - portador de Deus, aquele que carrega Deus dentro de si.

Traduzido de 
https://byzantinephilosophy.blogspot.com/2019/06/the-presence-of-aristotle-in-byzantine.html

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Monte Athos e o Concílio Pan-Ortodoxo 2016


Entre as muitas reações, entre elas da Igreja da Geórgia, da Bulgária, de padres, bispos e teólogos da Grécia, do clero da Moldávia e tantos outros, contra os excessos ecumenistas dos documentos pré-conciliares, temos agora acesso às cartas do Monte Athos para os patriarcas repudiando inúmeras crenças não ortodoxas contidas nos documentos.

Os Santos Mosteiros do Monte Atos responderam aos documentos e metodologias pré-conciliares do Concílio Pan-Ortodoxo com reações pontuais e agudas. As Cartas dos Mosteiros Atonitas, enviadas à Santa Comunidade do Monte Athos, foram liberadas para o público. Foram escritas como uma resposta aos documentos Pan-Ortodoxos enviados aos mosteiros pelo Patriarca de Constantinopla. 

Por conta da seriedade da matéria, foi unanimemente decidido que os textos preparados para aprovação no Concílio sejam examinados em uma reunião extraordinária chamada Reunião dos Representantes e Abades dos Santos Mosteiros, que deve ocorrer na Semana Luminosa após a Páscoa. 

Os Pais Atonitas chamam atenção para o perigo representado pelo Concílio Pan-Ortodoxo, na forma em que este vem sendo tratado. Especificamente, entre outros problemas, eles notam:

1) a conciliaridade da Igreja é solapada e uma teologia que apoia a primazia está sendo promovida (devido à participação limitada dos bispos e uma autoridade excessiva sendo dada aos primazes de cada igreja local);

2) uma ambiguidade inaceitável nos textos pré-conciliares, permitindo interpretações que divergem do dogma ortodoxo;

3) a fundamentação como base dos diálogos de "uma fé e tradição da antiga Igreja e dos Sete Concílios Ecumênicos", como se a história subsequente da Igreja Ortodoxa parecesse de alguma forma deficiente ou debilitada;

4) uma tentativa por parte de alguns de obter uma confirmação pan-ortodoxa de textos completamente escandalosos e inaceitáveis aprovados no Concílio Mundial de Igrejas;

5) e o inaceitável uso do termo "igreja" para cismas e heresias.

As carta em grego no link:

http://aktines.blogspot.com.cy/2016/04/blog-post_899.html

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Igreja da Geórgia Sobre o Concílio Pan-Ortodoxo

Patriarca-Católicos Ilia II da Geórgia, em conversa com o Patriarca Ecumênico Bartolomeu


Abaixo está a carta-resposta do representante da Igreja Ortodoxa da Geórgia, Sua Eminência Metropolita Andrew de Gkori e Ateni, para um artigo escrito pelo Arcipreste do Patriarcado Ecumênico (George Tsetsi) entitulado "Um Verdadeiro Evento ou Provocação, a decisão da Igreja da Geórgia?" (Fonte das duas cartas: amen.gr)

A resposta de Sua Eminência é detalhada, direta e muito revaladora tanto de como a Igreja da Geórgia tem sido consistente e direta todo o tempo, enquanto ao mesmo tempo mostrava grande auto-controle e paciência em nome da unidade da Ortodoxia, e, por outro lado, como o Patriarcado Ecumênico tem agido com autoritarismo, pressão e desconsideração não apenas quanto a Igreja da Geórgia, mas também com o Patriarcado de Antioquia.

A carta também confirma que a Igreja da Geórgia e o Patriarcado de Antioquia tem se recusado a assinar o texto "O Mistério do Casamento e seus Impedimentos". Também declara que o texto "Relações da Igreja Ortodoxa com o Resto do Mundo Cristão" foi severamente analizado e criticado pelo Santo Sínodo da Igreja da Geórgia em sua última reunião, depois do encontro dos Primazes em Genebra.

Igualmente, o bispo contradiz o posicionamento do arcipreste quanto o princípio de unanimidade e pergunta ao arcipreste se a decisão tomada pelos primazes de guiar o Grande e Santo Sínodo por tal princípio está agora sendo questionado. Isso nos lembra recente pronunciamento do Patriarca Bartolomeu onde ele redefinia a unanimidade de forma a essencialmente negá-la, dizendo que se uma ou duas Igrejas não aceitassem um texto, isso seria registrado, mas o texto passaria.

Embora a carta inteira seja valiosa e reveladora, esta é a parte que creio ser mais necessária.

Pe. Peter Heers
2. Chegando à conclusão da Comissão Especial Inter-Ortodoxa [designada em 2014 e concluindo seus trabalhos no segundo trimestre de 2015, e tendo sido informado dos seus resultados pelos seus representantes, o Santo Sínodo da Igreja da Geórgia enviou uma carta, em nome do Patriarca Católico Elias para Sua Santidade, o Patriarca Ecumênico, na qual, entre outras coisas, expressou os seguintes pensamentos e observações concernentes aos textos, os quais haviam sido enviados para a 5a reunião do Comitê Pré-Sinodal [Oct. 2015] para revisão e confirmação:
a) "Os textos que estão sendo preparados para o Grande e Santo Concílio devem enfatizar claramente e sem ambiguidades que a Igreja ortodoxa é a única Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica na qual há Sucessão Apostólica, verdadeiro Batismo, Divina Eucaristia e os outros Santos Mistérios da Fé Cristã."
b) "Deve ser proclamado de forma clara, que de acordo com sua natureza ontológica é impossível para a única Igreja ser quebrada, que a Igreja tenha divisões. É sempre por essa razão que a Igreja Ortodoxa conduz diálogos com as várias confissões: com o objetivo de que retornem ao seio da Igreja."
c) " O texto ´Relações da Igreja Ortodoxa com o Resto do Mundo Cristão´ deve conter uma avaliação dos diálogos bi-laterais que tem acontecido entre as várias confissões cristãs, pois a responsabilidade de determinar o caminho que seguirão é da alçada específica do Grande e Santo Concílio.
d) "Consideramos inaceitável a inscrição dos textos, 'A Questão do Calendário Comum', e 'Impedimentos ao Casamento', na sua presente forma, para o Grande Concílio, pois eles estão em oposição à Tradição Canônica da Igreja Ortodoxa".
3. Com tal direcionamento de nossa Igreja e com a disposição de trabalhar para o fortalecimento da Igreja, nós, os representantes da Igreja Ortodoxa da Geórgia, fomos à 5a. Reunião Pré-Sinodal (em Outubro de 2015). Ainda assim, surpresas nos esperavam lá também. Quando o trabalho começou, Sua Eminência, o Presidente (Metropolita John Zizoulas), afirmou que, em sua opinião, a reunião não tinha autoridade de fazer mudanças aos textos das reuniões Pré-Sinodais de 1982 e 1986, mas apenas de fazer mudanças às mudanças que nós mesmos fizéramos enquanto Comitê Especial Inter-Ortodoxo!

Quando finalmente chegamos ao exame do texto "Relações da Igreja Ortodoxa com o Resto do Mundo Cristão", revogou-se os direitos dos Santíssimos representantes das Igrejas da Geórgia e de Antioquia de expressarem suas opiniões (garantidos pelos Estatutos Pan-Ortodoxos) com a desculpa de que não haviam sido feitas propostas por escrito com respeito às mudanças sugeridas nos textos.

Então, o direito de participação equânime dos representantes das Igrejas da Geórgia e de Antioquia foi colocado a voto por todo o corpo da Reunião. Sentimo-nos extremamente insultados. No fim, o direito de falar nos foi "dado", embora já não houvesse como aproveitá-lo para melhora de todo o texto.

Se este nosso posicionamento pode ser chamado de 'comportamento escolástico e teimoso' [como o Arcipreste do P.E. George Tsetsi escreveu em seu artigo, ao qual esta carta responde], então como deveríamos caracterizar a atitude do Presidente do Comitê Especial [Met. John Zizoulas] que, por 7 horas (!) tentou "convencer" os representantes da Igreja a aceitar a mudança de um só parágrafo de acordo com sua preferência?"

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Teólogo Grego Faz Novas Críticas a Documentos Ecumenistas


Professor Dr. Demétrios Tselengides

Uma Segunda Intervenção-Confissão de Fé por parte do Dr. Demétrios Tselengides, Professor da Escola de Teologia na Universidade Aristóteles de Tessalônica, em face do Grande Concílio.

Com uma nova carta endereçada aos Hierarcas da Igreja da Grécia, o Dr. Demétrios realça e enfatiza os trechos problemáticos do documento nomeado "Organização e Procedimento de Trabalho do Santo e Grande Concílio", assim como de outros documentos.

12 de fevereiro de 2016

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Vossa Beatitude, santo Presidente do Santo Sínodo,

Vossas Eminências, santos Hierarcas,

Em vista da iminente convocação do Santo e Grande Sínodo, eu gostaria de mais uma vez respeitosamente apresentar alguns pensamentos de natureza teológica, que espero venham a ser úteis.

Na pesquisa em que realizei, fiquei negativamente surpreso ao descobrir que a Igreja da Grécia, desde 1961, ano em que começaram as Conferências Pré-Conciliares Pan-Ortodoxas para o Grande Sínodo, não havia tratado das decisões de tais conferências no nível do Sínodo Hierárquico. A consequência disso é termos chegado na situação eclesiástica desagradável em que estamos hoje.

Isto é, estamos prestes a tomar decisões eclesiásticas em questões críticas em um Sínodo Pan-Ortodoxo, mas para isso existe uma séria falta de tratamento sinodal no sínodo local de hierarcas, falta essa aliás, com a qual as Conferências Pré-Conciliares já contavam.

Nesse momento nos encontramos eclesiasticamente no penúltimo estágio das decisões finais do Grande Sínodo Pan-Ortodoxo. Eu creio que o problema - a despeito de sua excepcional severidade - ainda são curáveis. Como é bem sabido, o sistema sinodical de nossa Igreja Ortodoxa compraz uma operação eclesiástica guiada pelo Espírito, não apenas quanto a questões administrativas e Sua vida, mas também quanto à expressão precisa de Seu ensino dogmático. 

Mais especificamente, creio que as falhas sinodicais dos últimos 55 anos com certeza podem ser corrijidas agora, garantindo que as decisões do vindouro Sínodo dos Hierarcas, em conexão com os agentes do vindouro Grande Sìnodo da Ortodoxia, estará em concordância com a auto-consciência da Igreja e com a experiência guiada pelo Espírito de Sua Sagrada Tradição.

Outra coisa também de interesse e excepcional severidade. Eu cuidadosamente li o recém-publicado, "Organização e Procedimentos de Trabalho do Santo e Grande Sínodo" e tenho que apresentar-lhes uma observação minha de caráter teológico-dogmático.

Em particular, o Artigo 12, no tópico "Votação e Aprovação dos Textos", faz a importante seguinte nota: 

"O voto nos resultados de uma discussão ou revisão de um texto do Concílio sobre um item da agenda:
1. será dado por cada Igreja Ortodoxa autocefálica, e não por cada membro particular das delegações representadas no Concílio, de acordo com a decisão unânime do Encontro dos Primazes das Igrejas Ortodoxas;
2. a votação de uma Igreja no Concílio, não um membro de uma delegação, não exclui a possibilidade de que um ou alguns hierarcas na delegação de uma Igreja autocefálica particular possa tomar um posicionamento negativo em relação a emendas ou a um texto no geral. O fato da discordância será registrado nas Atas do Concílio;
3. a avaliação de tal discordância é um problema interno daquela Igreja a qual pertence o hierarca. A Igreja pode votar desde o princípio de maioria interna expressa por seu primaz e por essa razão deve acordar o local e o tempo necessário para considerar a questão com a delegação"

Vemos nesse artigo que o consenso do Grande Sínodo está limitado a um voto para cada Igreja Autocéfala Local. Desentendimentos individuais, se for o caso de constituirem uma minoria dentro das Igrejas Locais, são deixadas à parte como "problema interno daquela Igreja", algo que é eclesiologicamente inaceitável em particular no Sínodo Pan-Ortodoxo, quando, de fato o desentendimento for sobre um assunto de natureza doutrinal. E é bem provável que isso ocorra. Por exemplo, o assunto de auto-consciência e identidade da Igreja que é tratado no documento "Relações da Igreja Ortodoxa com o Resto do Mundo Cristão", é matéria eclesiológica; em outras palavras, eminentemente teológica. Consequentemente, não é teologicamente permissível para um documento recomendado para adoção que, por um lado, essencialmente recomende a "teoria de ramos" protestante, legitimando pela aceitação ali da existência de muitas igrejas com muitas diferentes doutrinas - enquanto por outro lado, as "Regras de Organização e Operação do Sínodo", na prática ignora a inevitável minoria dos hierarcas das Igrejas Locais Individuais e não leva em consideração as preocupações de suas consciências episcopais.

E aqui surge uma bem apropriada questão dogmático-teológica: como irá a fé una da Igreja, "com uma só boca e um só coração" ser confessada nesse caso? Como os Pais do Sìnodo serão capazes de dizer, "pareceu bom ao Espírito Santo e a nós"? Como irão demonstrar que possuem a "mente de Cristo", como fizeram os Pais portadores-de-Deus dos Concílios Ecumênicos da Igreja?

Vossa Beatitude,

Quando chegamos na matéria de dogma, como é bem sabido, a verdade não se encontra no voto da maioria dos Hierarcas do Sínodo. A verdade é em si mesma uma maioria, pois na Igreja a verdade é uma realidade hipostática. Por essa razão, quem quer que não concorde com ela, é separado da Igreja e é deposto e excomungado conforme o caso. O Santo e Grande Sínodo não tem permissão de deixar para corpos sinodais menores um assunto de tão excepcional gravidade como a inevitável discordância do voto minoritário dos bispos sobre matéria de dogmas. Como o mais alto corpo sinodal, ele tem que tratar desse assunto diretamente, ou de outra forma existe um perigo real de cisma na Igreja, precisamente no momento quando esse Grande Sìnodo aspira reafirmar a unidade visível da nossa Igreja.

Com o mais profundo respeito,

Beijando sua mão direita,

Demétrios Tselengides

Professor da Escola de Teologia da Universidade Aristóteles de Tessalônica


Traduzido para o inglês por Pe. Kristian Akselberg

Traduzido para o português por Fabio L. Leite

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Metropolita de Limassol Critica Documento de Teor Ecumenista

Metropolita Atanásios de Limassol



Metropolita de Limassol: “De que tipo de unidade estamos falando? Os que deixaram a Igreja são hereges e cismáticos”

Fonte: Romfea

11 de fevereiro de 2016

Existem sérias lacunas nas discussões teológicas e canônicas do vindouro encontro do Sínodo Pan-Ortodoxo, assinala o Metropolita Atanásio de Limassol.

Em uma carta, da qual alguns trechos foram publicados pela agência de notícias religiosas Romfea.gr, o eminente hierarca não considera que haja qualquer problema quanto a restauração da unidade dos cristãos, já que tal unidade, em sua opinião, jamais foi perdida. Ao invés, certos cristãos escolheram caminhos diferentes ao que seguimos, o da verdade ortodoxa original.

Não existem igrejas ou confissões. Ao invés, foram eles que se desligaram da Igreja e devem ser considerados hereges e cismáticos, ressalta Sua Eminência, dizendo-se confuso por não saber porque algo tão importante foi deixado de fora.

"A afirmação de Sua Eminência, que invoca o direito de cada hierarca de expressar sua opinião sobre assunto tão importante, certamente irá causar discussões e debates dentro da Ortodoxia.
“Já que, em concordância com as regulamentações que nos foram enviadas a respeito da organização e realização do Santo e Grande Sínodo da Igreja Ortodoxa, e em particular o artigo 12, parágrafos 2 e 3, indica que temos o direito de expressar nossos pontos de vista nos Sínodos locais, eu, tendo examinado minha consciência, humildemente submeto ao Santo e Sagrado Sínodo de nossa Santa Igreja, meus posicionamentos e opiniões sobre as matérias seguintes,” sublinhou o Reverendíssimo Metropolita Atanásio em sua carta.

Nessa carta, a qual o Romfea.gr teve acesso exclusivo, Sua Eminência Atanásios fala sobre o texto da 5a. Conferência Pré-Conciliar que ocorreu em Chambesy em outubro e intitulada “Decisão – Relações da Igreja Ortodoxa com o resto do mundo Cristão”, onde ele afirma o seguinte:

“Estou em total concordância com os três primeiros artigos do texto. Entretanto, do artigo 4 em diante, tenho as seguintes observações: “A Igreja Ortodoxa sempre orou “pela união de todos” - e acredito que isto signifique o retorno para e união com Ela de todos aqueles que se desligaram e se distanciaram dela, dos hereges e cismáticos, que uma vez que tenham renunciado sua heresia e cisma e afastem-se de tais coisas com arrependimento e integrem-se – unam-se – com a Igreja Ortodoxa de acordo com os ensinamentos dos cânones sagrados,” ressalta Sua Eminência Atanásios. 

Sua Eminência continua: “A Igreja Ortodoxa de Cristo nunca perdeu a “unidade da fé e da comunhão do Espírito Santo” e não aceita a teoria de restauração da unidade daqueles que “acreditam em Cristo”, porque acredita que a unidade daqueles que crêem em Cristo já existe na unidade de todos os que são filhos da Igreja pelo batismo, entre eles mesmos e com Cristo, na fé correta da Igreja, unidade onde não estão presentes os hereges ou os cismáticos, e por quem a Igreja ora por seu retorno arrependido à Ortodoxia.

Sua Eminência completa sua carta, da qual Romfea.gr publicou alguns trechos, dizendo: “Creio que o que é afirmado no artigo 5 sobre a 'unidade perdida dos cristãos' é incorreto, porque a Igreja como povo de Deus, unidos entre si e com a Cabeça da Igreja que é Cristo, nunca perdeu sua unidade e portanto não tem necessidade de redescobri-la ou buscá-la, porque ela sempre existiu, existe e existirá assim como a Igreja de Cristo nunca deixou ou deixará de existir.”

Sua Eminência Atanásios acrescenta que, “o que aconteceu foi que grupos, povos ou indivíduos deixaram o corpo da Igreja e a Igreja ora, como é necessário tentar por sua missão, que arrependidos retornem para a Igreja Ortodoxa pela via canônica. Em outras palavras, não existem outras Igrejas, apenas heresias e cismas, se quisermos ser mais precisos em nossas definições.”

“A expressão 'na direção da restauração da unidade cristã' é incorreta porque a unidade dos cristãos – os membros da Igreja de Cristo – nunca foi quebrada, enquanto eles permaneceram unidos à Igreja. Separação da Igreja e abandono da Igreja de fato infelizmente ocorreram inúmeras vezes devido a heresias e cismas, mas nunca houve uma perda da unidade interna da Igreja”, sua Eminência continua na sua carta.

Em outro ponto, Sua Eminência Atanásios declara: “Questiono porque o texto contém múltiplas referências à 'Igrejas' e 'Confissões'? Que diferenças e que elementos permitem-nos chamar alguns de igrejas e outros de confissões? Qual é uma Igreja e qual é uma heresia e qual um grupo cismático ou confissão? Nós confessamos uma Igreja e que todas as outras são cismas e heresias. Eu sustento que dar o título de 'Igreja' a comunidades heréticas ou cismáticas é inteiramente incorreto de uma perspectiva teológica, dogmática e canônica porque a Igreja de Cristo é uma, como também afirmado no Artigo 1, e não podemos nos referir a uma comunidade ou grupo heréticos ou cismáticos fora da Igreja Ortodoxa como 'Igrejas' “.

“Em nenhum ponto esse texto afirma que o único caminho que leva à união com a Igreja é apena o retorno contrito dos heréticos e cismáticos à Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica de Cristo, a qual, de acordo com o Artigo 1, é nossa Igreja Ortodoxa. A referência ao “entendimento da tradição da antiga Igreja' dá a impressão de que existe uma diferença ontológica entre a antiga Igreja dos Sete Concílios Ecumênicos e a genuína continuação da mesma até o dia presente, ou seja, nossa Igreja Ortodoxa. Acreditamos que não existe absolutamente nenhuma diferença entre a Igreja do século 21 e a Igreja do 1o século, porque um dos atributos da Igreja é o fato de que nós também confessamos no Símbolo da Fé, especificamente que é Apostólico”, enfatizou o Metropolita de Limassol.

O Bispo subsequentemente sublinha que no Artigo 12, é dada a impressão de os ortodoxos estão buscando restaurar a fé correta e a unidade, o que gera um posicionamento inaceitável.

“O artigo 12 afirma que o propósito comum dos diálogos teológicos é “a restauração final da unidade na fé correta e no amor'. Isso dá a impressão de que nós ortodoxos estamos buscando nossa restauração para corrigirmos a fé e a unidade do amor, como se tivéssemos perdido a fé correta e estivéssemos buscando descobri-la através dos diálogos ecumênicos com os heterodoxos. Eu sustento que essa teoria é teologicamente inaceitável para todos nós”, sublinha o Metropolita Atanásios.

Em outro lugar, Sua Eminência expressa objeções ao texto, enfatizando que “a referência do texto ao 'Conselho Mundial de Igrejas' me dá oportunidade de fazer uma reclamação contra ocasionais eventos sincretísticos que aconteceram ali, mas também contra seu nome, já que considera a Igreja Ortodoxa como 'uma das Igrejas' ou um ramo da Igreja Una que busca sua realização no Conselho Mundial de Igrejas. Para nós, entretanto, a Igreja de Cristo é uma e única, como confessamos no Símbolo da Fé, e não várias.”

Sua Eminência declara ainda: “O ponto de vista de que a preservação da genuína fé ortodoxa é garantida apenas através do sistema sinodal como a “única e final autoridade em questões de fé” é exagerada e ignora a verdade de que muitos sínodos ao longo da história da Igreja ensinaram e esposaram doutrinas heréticas e incorretas, e que foi o povo fiel quem rejeitou-os e preservou a fé ortodoxa e defendeu a confissão ortodoxa. Nem um sínodo sem um povo fiel, a plenitude da Igreja, nem o povo sem um sínodo de bispos são capazes de considerar-se como o Corpo de Cristo e a Igreja de Cristo e corretamente expressarem a experiência e doutrina da Igreja”.

“Dirigindo-se ao Arcebispo de Chipre e aos membros do Santo Sínodo, o Metropolita de Limassol enfatiza: “O uso de linguajar duro ou insultuoso não pode ser feito em encíclicas eclesiásticas desse tipo, nem acho que alguém deseje usar essa forma de expressão. Entretanto, a verdade deve ser expressa com precisão e clareza, embora naturalmente com discernimento pastoral e genuíno amor para com todos. Devemos aos nossos irmãos que se encontram na heresia e no cisma que sejamos inteiramente honestos com eles, e com amor e dor que oremos e façamos todo o possível para fazer com que voltem para a Igreja de Cristo.

“Eu humildemente sustento que textos de tal importância e prestígio como os que serão utilizados no Santo e Grande Sínodo da Igreja Ortodoxa devem ser cuidadosamente formulados com precisão teológica e canônica para que tais ambiguidades e termos teológicos não testados não dêem margem a expressões incorretas que poderiam levar a mal-entendidos e distorções da atitude correta da Igreja Ortodoxa. Além disso, para que um Sínodo seja válido e canônico, não deve afastar-se de modo algum do espírito e ensinamento dos Santos Sínodos que o precederam, o ensino dos Santos Padres e das Santas Escrituras, e deve estar livre de quaisquer ambiguidades na expressão precisa da fé correta,” acrescenta Sua Eminência Atanásios.

Em outra parte, mencionando os Santos Pais, Sua Eminência Atanásios declarou: “Nunca os Santo Pais, nem mesmo nos santos cânones ou ordenamentos dos sagrados Sínodos Ecumênicos ou locais, referem-se aos grupos heréticos ou cismáticos como igrejas. Se os hereges são de fato igrejas, onde está de fato a Igreja Una de Cristo e dos Apóstolos?”

O Metropolita de Limassol também expressou sua forte oposição, enfatizando que aqueles que não têm direito de votar e participar no Sínodo são meramente ornamentais.

“Eu humildemente expresso minha discordância com o fato de que a prática de todos os Santos Sínodos até agora de permitir que cada bispo vote seja abolida. Nunca antes houve um sistema de 'uma Igreja, um voto', o que torna os membros do Santo e Grande Sínodo, com exceção dos primazes, meros itens decorativos, repelindo seus direitos de votos,” Sua Eminência afirmou em sua carta.

Em conclusão, o Hierarca da Igreja de Chipre afirma que: “Eu não quero perturbar ninguém com o que escrevi, nem quero ser visto como estar ensinando a meus irmãos e pais em Cristo como exercer julgamento. Eu simplesmente quero expressar o que minha consciência exige de mim.”

Para ler a carta completa do Metropolita, veja o site da Sé Metropolitana de Limassol.

Traduzido para o inglês por Pe. Kristian Akselberg
Traduzido para o português por Lr. Fabio L. Leite
Romfea

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Teólogo Grego Critica Documento de Teor Ecumenista

Dr. Dimitrios Tselengidis

Professor da Escola Teológica da Universidade Aristóteles de Tessalônica, o Dr. Dimitrios Tselengidis enviou suas primeiras observações teológicas aos hierarcas ortodoxos de diversas Igrejas Ortodoxas Locais (incluindo, as da Grécia, Rússia, Sérvia, Geórgia, Bulgária, Alexandria, e Antioquia) a respeito do documento: "Relações da Igreja Ortodoxa com o Resto do Mundo Cristão".

Tessalônica, 03 de fevereiro de 2016

O texto demonstra recorrentes inconsistências e contradições teológicas. Assim, no primeiro artigo ele proclama a identidade eclesiástica da Igreja Ortodoxa, considerando-a, muito corretamente, como a "Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica". No artigo seis, porém, existe uma contradição com respeito à formulação no artigo acima (1). Ele registra caracteristicamente que "a Igreja Ortodoxa reconhece historicamente a existência de outras igrejas cristãs e confissões que não estão em comunhão com Ela".

Aqui surge uma razoável questão teológica: Se a Igreja é "Una", de acordo como nosso Credo e a auto-identidade da Igreja Ortodoxa (art. 1), então como pode haver menções de outras igrejas cristãs? É claro que tais igrejas são heterodoxas.

"Igrejas" heterodoxas, porém, não podem de modo algum serem chamadas de "Igrejas" pela Ortodoxia. Considerando-se as coisas por uma perspectiva dogmática, não é possível falar-se de uma pluralidade de "Igrejas" com diferentes dogmas, os quais até mesmo dizendo respeito a diferentes questões teológicas. Consequentemente, enquanto essas "Igrejas" permanecerem firmes nas crenças errôneas de suas fés, não existe justificativa teológica para conceder-lhes reconhecimento eclesiológico - e estão oficialmente - fora da "Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica".

No mesmo artigo (6), existe uma outra contradição teológica. No início do artigo o seguinte foi escrito: "De acordo com a natureza ontológica da Igreja, é impossível que Sua unidade seja quebrada". No fim desse mesmo artigo, entretanto, está escrito que, pela Sua participação no Movimento Ecumênico, a Igreja Ortodoxa tem como "sua meta objetiva a pavimentação do caminho que leva à unidade".

Fica assim posta a questão: dado que a unidade da Igreja é um fato reconhecido, que tipo de unidade das Igrejas está sendo buscado no contexto do movimento ecumênico? Será por acaso o retorno dos cristãos ocidentais para a Igreja UNA e única? Tal significado, entretanto, não surge na carta, ou no espírito de todo o texto. Ao contrário, de fato, a impressão dada é que existe uma divisão longamente estabelecida na igreja e que os prospectos dos diálogos (ecumênicos) focam na unidade perdida da Igreja.

Também provoca-se confusão teológica na ambiguidade do artigo 20, que diz: "os prospectos dos diálogos teológicos da Igreja Ortodoxa com outras igrejas e confissões cristãs será sempre determinado com base nos critérios canônicos Dela, de acordo com tradições eclesiásticas já estabelecidas (o cânone sete do Segundo Concílio Ecumênico e o cânone 95 do Concílio Quinissexto)."

Mas o cânone sete do Segundo Concílio Ecumênico e o Cânone 95 do Quinissexto tratam da recepção de hereges específicos que haviam demonstrado seu desejo de reunirem-se à Igreja Ortodoxa. Entretanto, é aparente na letra e no espírito do texto, quando analisado sob uma perspectiva teológica, que não há nenhuma discussão sobre retorno de heterodoxos à Igreja Ortodox, a única Igreja. Ao invés, no texto, o batismo dos heterodoxos é considerado como um fato aceito do inicio - e isso sem uma decisão Pan-Ortodoxa. Em outras palavras, o texto endossa a "Teologia Batismal". Simultaneamente, o texto deliberadamente ignora o fato histórico de que os heterodoxos contemporâneos do Ocidente (Romanos e Protestantes) não possuem apenas um, porém muitos dogmas que diferem da Igreja Ortodoxa (além do Filioque, graça criada nos sacramentos, o primado do Papa, infalibilidade papal, rejeição dos ícones, e rejeição de concílios ecumênicos, etc.

O artigo 21também levanta questões apropriadas, quando nota que "a Igreja Ortodoxa ... tem um ponto de vista favorável dos documentos adotados pela Comissão (referindo-se ao Comitê pela "Fé e Ordem")... para a reaproximação das Igrejas.' Aqui devemos observar que esses documentos (do Comitê) nunca foram avaliados pelos Hierarcas das Igrejas Ortodoxas locais.

Finalmente, no artigo 22, é passada a impressão de que o vindouro Santo e Grande Concílio está prejulgando a infalibilidade de suas decisões, já que considera que, "a preservação da autêntica fé ortodoxa é garantida apenas através do sistema sinodal, o qual foi sempre retestado na Igreja e o qual constitui-se o juiz final e apropriado de todas as questões da fé". Nesse artigo, é ignorado o fato histórico de que na Igreja Ortodoxa, o critério final é sempre a consciência dogmática viva da plenitude da Igreja, a qual no passado confirmou até Concílios Ecumênicos e outros como concílios "ladrões". O sistema sinodal por si só não garante mecanicamente a correção da fé ortodoxa. Isso só acontece quando o Sínodo dos Bispos têm o Espírito santo e o Caminho Hipostático, Cristo, trabalhando dentro de si, e portanto são na prática um "sy" - "odikoi", um caminhar juntos no caminho.


Avaliação Geral do Texto

Com tudo que está escrito e o que está claramente implicado no texto acima, é claro que seus iniciadores e autores estão tentando uma ratificação institucional e oficial do Sincretismo-Ecumenismo Cristão através do Sínodo Pan-Ortodoxo. Isso, porém, seria catastrófico para a Igreja Ortodoxa. Por essa razão, proponho humildemente sua completa retirada.
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Para concluir, uma observação teológica sobre o texto, "O Sacramento do Casamento e Seus Impedimentos" (ver: https://mospat.ru/en/2016/28/news127389 ). No artigo 5.i, ele anota: "O casamento de uma pessoa ortodoxa com uma heterodoxa não é permitido de acordo com a akrivia (regra) canônica (cânone 72 do Concílio Quinissexto de Trullo). Entretanto, é possível receber a benção através da condescendência e amor pelo homem sob a condição expressa de que a criança desse casamento seja batizada e criada na Igreja Ortodoxa."

Aqui, a condição expressa de que, "a criança desse casamento será batizada e criada na Igreja Ortodoxa" conflita com a garantia teológica do casamento como um sacramento da Igreja Ortodoxa. A razão para isso é que a criação dos filhos é levada a, junto com o batismo deles na Igreja Ortodoxa, a legitimar o ofício do casamento misto, algo claramente proibido pelo cânone de concílios ecumênicos (cânones 72 do Quinissexto). Em outras palavras, um sínodo que não é Ecumênico, como o vindouro Santo e Grande Concílio, explicitamente transforma uma decisão de um Concílio Ecumênico em algo relativo. Isso é inaceitável.

E finalmente isto: Se o casamento abençoado não gerar crianças, esse casamento será teologicamente legítimo simplesmente por conta da intenção do esposo heterodoxo de colocar qualquer possível na Igreja Ortodoxa?

Por questão de consistência teológica, o artigo 5.i precisa ser removido.

Tradução para o inglês do Rev. Pe. Matthew Penney, 7 de fevereiro de 2016, com ajuda do Pe. C.A. e editado pelo Pe. Peter Heers. Tradução para o português pelo Lr. Fabio L. Leite
Para o original grego, veja: http://epomeni-tois-agiois-patrasi.blogspot.gr/2016/02/blog-post_88.html

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O Que a Igreja Ortodoxa Não É - 06/11

Alexei Khomiakov



por Sua Eminência Jeremias (Foundas) de Gortyna e Megalópolis (Grécia)

Não ao Misticismo Russo e ao Anti-Hesicasmo Grego
Próximo: Não à Tese da Influência dos Filósofos Gregos sobre os Pais Gregos


Durante a metade do século 19, alguns intelectuais russos ficaram muito impressionados pelo hesicasmo ortodoxo da Montanha Santa (Monte Athos), que havia chegado na Rússia. Entretanto, eles não apreenderam sua profundidade, pois a incorporaram nas suas teorias de superioridade eslava. Isto é, eles diziam que o hesicasmo do tipo “gerondico” era uma característica sua e que era uma característica da tradição e mentalidades russas, e não pertenciam ao Cristianismo Latino ou ao Grego, como o chamavam. (15)

Dessa forma, os russos acreditavam que haviam superado os “gregos” e seu escolaticismo; haviam superado com seu hesicasmo russo. Graças à intensa propaganda russa no Ocidente, essa ideia de uma superioridade do escolaticismo e hesicasmo russos tornou-se parte da consciência heterodoxa, mas também em nossa terra, Grécia. Como resultado, temos a ignorância e mesmo deboche, mesmo na Grécia, por parte de algumas pessoas contra a teologia patrística e o hesicasmo ortodoxo. E chegamos na situação na qual até teólogos gregos buscam os estrangeiros para ter orientação porque eles, supostamente devido à sua identidade natural e idiossincrasias, entenderiam de teologia e hesicasmo melhor do que nós. Era exatamente isso que os eslavófilos proponentes de Alexis Khomiakov propagandeavam em altos brados: que eles, eslavos, devido a idiossincrasias e mentalidade naturais, tinham entedido o Cristianismo melhor do que os “Latinos” e os “Gregos”!

Errado! Os Pais Aguioritas (provindos do Monte Athos) entraram na Rússia através da Moldávia e levaram o hesicasmo para eles. Esses missionários eram Romanos de língua grega e não eslavos. Além disso, a Graça de Deus, que nos santifica e glorifica (teósis), não tem nenhuma relação com chauvinismos nacionalistas, mas ao invés, visita e fortalece todo homem que busca Deus, qualquer que seja sua nação, para que ele viva o Mistério de nossa fé e alcance a santidade. O que o professor Pe. John Romanides escreve sobre isso é muito bonito:

“O alicerce do hesicasmo é a teósis (deificação/glorificação), que triunfa sobre a natureza e torna os homens divinos pela graça. Tal é a fonte da mais alta compreensão possível da teologia, que transcende a natureza do logos (fala, razão) e do nous do homem . Ela não tem nada a ver com chauvinismos nacionalistas. O fato de que a maioria dos glorificados (os que atingiram a teósis) durante o curso histórico da Ecclesia terem sido Pais e Santos romanos de língua grega não significa que os fiéis de outras línguas e nacionalidades não podem igualmente tornarem-se portadores de Deus; mas também não significa que eles podem tornarem-se maiores teologicamente e espiritualmente. Certamente encontramos estágios mais avançados de Teósis tais como Ellamcis (iluminação), Thea (Visão), e Synechis Thea (Visão Continua); mas eles nada têm a ver com idiossincrasias étnicas. Os Apóstolos no Monte Tabor e durante o Pentecostes receberam a teósis no mais alto grau possível nesta vida, enquanto Moisés contemplou (teoria) a glória de Cristo no Monte Sinai por quarenta dias e noites. Não eram gregos, nem latinos, mas também não eram eslavos” (16).

O mesmo se aplica a Plevris (um conhecido politico nacionalista grego que renega o Velho Testamento porque é um “trabalho de judeus”), no que se refere às coisas blasfemas e não históricas que ele diz e escreve. Mas iremos lidar com tais blasfêmias não históricas em um estudo especial nosso.

Claro, teólogos gregos modernos não aceitaram o hesicasmo russo de forma absoluta, o assim chamado “misticismo russo”, e reagiram contra ele. Entretanto, ao invés de se voltarem para o verdadeiro e real hesicasmo de nossa Ecclesia, eles voltaram-se maravilhados, como uma contra-reação ao misticismo russo, para uma tradição que imaginavam ser não-hesicasta, e supostamente não ascética de grandes Pais que viveram antes de Fócios, e que imaginavam terem sido homens de ação e de contemplação filosófica (estocasmo) e não de misticismo. E esses lamentáveis gregos modernos acreditavam que pensando e agindo dessa forma estavam lutando contra o, de fato, equivocado misticismo russo; e que por outro lado estavam voltando para os Pais, os quais, porém, eles blasfemavam já que, por um lado davam por encerrada a era patrística com Fócio, o Grande, e por outro, já que tais gregos modernos não tinham experiência do hesicasmo, apresentavam os Pais como não-hesicastas, como homens sociais, homens de ação com estocasmo filosófico, mas certamente não como... monges inativos!

E o grande teólogo de nosso século, Pe. John Romanides, lamenta tal situação dizendo:

“Como resultado dos eventos acima completamente destrutivos para a Ortodoxia, temos que a teologia moderna dos russos e dos gregos modernos não apenas não contribui para integrar os jovens no monasticismo hesicasta tradicional, mas ao invés contribuiu para que alguns gregos modernos seguissem os russos no seu desprezo pelo monasticismo tradicional e na admiração pelas ordens monásticas francas. Dessa forma, as irmandades religiosas surgiram (na Grécia) com fortes sentimentos de inferioridade em relação ao Cristianismo Ocidental, cujos trabalhos eles traduziam e espalhavam entre a população ortodoxa helênica. A coisa estranha é que as irmandades religiosas reagiam instintivamente contra a teologia acadêmica dos gregos modernos, amava os Pais, mas ao mesmo tempo continuavam vítimas da percepção modernista dos Pais como apresentados acima, e imitavam uma imagem que tinham criado em suas mentes sobre eles, imagem que divergia do monasticismo hesicasta dominante durante a Turcocracia de uma maneira essencial. E isso acontecia porque eles aceitavam a questão da distinção entre os grandes Pais e os santos ascéticos de depois de Fócio, o grande, que supostamente não eram Pais.”(17)


15 Para entender melhor a importância da distinção feita por europeus e russos entre os cristianismos "latino" e "grego", veja o estudo do Pe. John Romanides "Romanity, Romania, Rumeli" Thessalonica 1975, Capítulo I.

16  Ibid p. 83

17 Ibid. p. 87, 88