sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A Igreja nas Terras de Sangue


A Ucrânia foi dividida pela luta civil. Os meses do inverno de 2014 testemunharam protestos anti-governo de três meses na praça de Kyiv conhecida como Maidan, os quais levaram à renúncia forçada do presidente ucraniano Viktor Yanukovych, após quatro anos no cargo. A esse fato, seguiu-se a anexação da Criméia pela Rússia e à guerra de fato no leste do país, que segue enquanto escrevo.

Estes eventos são mais que políticos. Eles tocam em experiências mais fundamentais de consciência e dignidade, refletindo um despertar da sociedade civil - e uma reação que busca um retorno a uma vida pública dominada pelo estado. 

O futuro do país está em jogo: tanto a sobrevivência política da minha nação quanto o caráter moral e espiritual do meu povo. O que é necessário hoje, não apenas na Ucrânia mas em todos os países pós-soviéticos, é uma liderança eclesiástica com ideias claras a respeito dos perigos de uma relação próxima demais entre o testemunho cristão e o poder do estado, a qual resulta na substituição da teologia pela ideologia. O único grande imperativo é encorajar e engajar a sociedade civil.

A Igreja Ortodoxa Ucraniana em comunhão com o Patriarcado de Moscou (IOU-PM) é a maior igreja do país, e a única reconhecida pela irmandade das igrejas ortodoxas mundiais. A segunda maior é o Patriarcado de Kyiv (IOU-PK), que foi fundado em 1992. A menor delas é a Igreja Ortodoxa Ucraniana Autocéfala (IOUA), fundada em 1918 logo após a Revolução Russa. Finalmente, há a Igreja Greco-Católica Ucraniana, uma igreja em união com bispo de Roma e que segue o rito oriental.

Desde o fim da União Soviética, nenhuma dessas igrejas fez muito para encorajar a sociedade civil. Em anos recentes todas elas estavam, em maior ou menor medida, colaborando com o regime de Yanukovych. Nenhuma se afastou muito do padrão de relações entre a Igreja e o estado comum na Ortodoxia pós-imperial que ainda busca os sonhos de uma sinfonia bizantina, o ideal da igreja e o estado trabalhando juntos. 

Esse padrão trata o poder do estado como meio indispensável para os líderes da igreja influenciarem a sociedade. Também encoraja uma mentalidade de acordos cooperativos que opera sobre as mentes das pessoas: se apoiarmos suas ambições políticas, você apoiará nossos projetos de construção da igreja e outras ambições espirituais para a nação. Algumas das igrejas, como a IOU-PM, são mais alinhadas com o estado; outras como a IOU-PK, são menos. Até a Igreja Greco-Católica, mais avançada tanto na sua ação quanto educação social, não perturba o estado com seus ensinos morais. Em resumo: o cristianismo ucraniano tem apoiado amplamente uma pressuposição tradicional ortodoxa de que o estado é o único parceiro viável para a Igreja. A sociedade civil tem sido efetivamente ignorada.

Entretanto, a Maidan forçou todas as igrejas a reconsiderarem essa abordagem. Um grande número de pessoas de diferentes setores da sociedade reuniram-se para expressar suas identidades como cidadãos acima e contra os aparelhos de estado dominados por Yanukovych e sua companheirada. Uma nova forma de identidade social passou a existir. Os manifestantes da Maidan constituíram a si mesmos como um corpo social capaz de ação contra o estado por amor da aspiração de cada ser humano por dignidade. Estavam dando à luz uma sociedade civil independente com a qual deve-se tratar em seus próprios termos. Diante de uma sociedade civil emergente, as igrejas não poderiam mais pressupor que poderiam encontrar sua posição na sociedade tratando apenas com oficiais do governo.

A igreja mais ativa no apoio ao despertar social foi a Igreja Greco-Católica Ucraniana. O Patriarcado de Kyiv (IOU-PK) foi mais relutante em alinhar-se com os manifestantes mas acabou apoiando-os com firmeza, oferecendo-lhes o Mosteiro de S. Miguel como hospital e abrigo para refugiarem-se da polícia de choque. A Igreja Ortodoxa sob o Patriarcado de Moscou tentou manter neutralidade, mas alguns de seus padres colocaram-se ao lado da Maidan. No fim, com a queda do regime, a IOU-PM mudou de posição e apoiou o governo interino.

A resposta lenta da IOU-PM, minha própria igreja, reflete o fato de que é o maior e mais bem estabelecido braço da Ortodoxia na Ucrânia. Ela tem se beneficiado de uma posição de influência social desde o colapso da União Soviética e se tornou acomodada com uma relação próxima com o poder estatal. Esse paradigma é comum nas sociedades pós-soviéticas, mas também é perigoso. Quando uma sociedade se emancipa do estado, como está acontecendo na Ucrânia, a Igreja corre o risco de ficar isolada. Como parceira íntima do regime, a Igreja se torna associada com seus crimes. Quando o regime cai, a Igreja e os cristãos ficam desacreditados.

Foi isso que ocorreu com Igreja Ortodoxa da Grécia depois da Junta Militar de 1967-1974. Os regimes de Yanukovych e dos coronéis gregos eram diferentes, mas seus métodos de estabelecer uma ditadura foram similares. Ambos usurparam o poder, mudaram a constituição, corromperam as cortes e dependiam da polícia para suprimir a dissidência. A Junta na Grécia forçou a renúncia do velho e doente Arcebispo de Atenas, Crisóstomos II Hatzistaurou, promovendo em seu lugar o jovem arquimandrita Hyeronymos Kotsonas; substituiu o sínodo canônico da Igreja com o não-canônico sínodo "Aristindin"; e substituiu os bispos que os desagradavam pelos seus preferidos.

Os paralelos com a Ucrânia são notáveis. A Junta grega chegou ao fim com a insurgência de estudantes na Universidade Politécnica de Atenas de Novembro de 1973, e a Maidan se tornou ativa depois que estudantes de Kyiv foram agredidos na noite de 30 de novembro de 2013, exatamente 40 anos depois. Tanto a Junta grega como o governo de Yanukovych se declaravam próximos da Igreja e protetores de seus interesses, mas ambos violaram seus ensinos básicos.

No curso da primeira campanha presidencial em 2004, Yanukovych dependia pesadamente do apoio da Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscou. Ele perdeu a eleição por causa da Revolução Laranja, o levante social que forçou o anulamento dos resultados produzidos pela corrupção e fraude eleitorais. Em 2009, ele ganhou e declarou seu apoio à IOU-PM. Mas em 2012, enquanto se direcionava para a reeleição, ele começou a intervir nas questões da Igreja. Ele decidiu substituir o primaz, Metropolita Volodymyr Sabodan, por alguém mais leal a si mesmo. O primaz, entretanto, não se curvou e manteve sua posição. Frustrado, mas ainda determinado, Yanukovych apontou um companheiro para atuar como "supervisor" da IOU-PM. E isso era parte de um programa maior de instalar observadores não-oficiais para monitorar todas as áreas da sociedade ucraniana. Era um "modelo mafioso" que permitiria a qualquer homem de negócios leal a Yanukovych intrometer-se nas questões da igreja.

Outras igrejas, especialmente a Igreja Greco-Católica, sofreram o mesmo destino. Já em maio de 2010, a Universidade Católica Ucraniana de Lviv estava sob pressão. Em janeiro de 2014, o Ministro da Cultura enviou uma carta ao Arcebispo Sviatoslav Shevchuk avisando-o de que a Igreja Greco-Católica Ucraniana estava em perigo de perder seu registro estatal. Na medida em que Yanukovych estabeleceu seu controle sobre a sociedade, tornando-a uma extensão do aparelho estatal, as igrejas que outrora se viam como parceiras, tornaram-se vítimas do regime - e todas possuíam motivos para condená-lo.

Nem todas o fizeram imediatamente. Por um longo tempo, a Igreja Ucraniana do Patriarcado de Moscou demonstrou pouca insatisfação com o regime. Isso continuou sendo verdade mesmo quando os capangas de Yanukovych começaram a agredir os manifestantes.

Tristemente, este comportamento ecoa exemplos anteriores da Igreja da Grécia, que fingiu não ver as inúmeras violações das leis e dos direitos humanos, crendo ser mais prudente apoiar a Junta. Como resultado, depois do colapso do governo, a Igreja Grega perdeu sua credibilidade na sociedade grega. Mesmo depois de quarenta anos, ela ainda é acusada de colaboracionismo com a ditadura. Eu temo que a IOU-PM possa sofrer o mesmo destino na Ucrânia nos anos por vir. Tal resultado, porém, não é inevitável. Um futuro mais positivo é possível para a IOU-PM, se ela inspirar-se pela Maidan e transformar a tradicional parceria Igreja-estado em uma visão de Igreja que se relaciona primariamente com a sociedade civil, e através desta relação é que influencia o estado.

Hoje, porém, a IOU-PM está apenas piorando a situação. Suas paróquias e mosteiros estão apoiando as milícias rebeldes no leste da Ucrânia, algumas vezes abertamente, algumas vezes acobertadamente, de modo codificado. Oficialmente, minha igreja defende a integridade do país e condena toda forma de violência. Ela não disciplina, porém, de forma significativa os padres e outros que justificam e mesmo encorajam o separatismo e o terrorismo. 

Existe mais em jogo aqui do que princípios morais, por mais importantes que sejam. A "primavera russa" no leste é a revolução do paternalismo. Seu ideal, frequentemente não-expresso, é de um sistema de organização social abrangente, direcionado para o estado, que protege os indivíduos dos riscos da liberdade. Ela reflete a nostalgia por uma época em que o estado assumia a responsabilidade por todos os aspectos da vida, uma época quando o estado *era* a sociedade. Seria errado interpretar esta nostalgia como um simples desejo de restaurar o antigo sistema soviético. A ideologia neo-soviética é bem diferente da antiga ideologia comunista que esposava um ateísmo oficial. A nostalgia por um passado seguro e estável também toma algo da já distante ideologia da Rússia imperial.

Isso fica evidente na rebelião em curso, patrocinada pelo estado russo, que se expressa com símbolos e palavras-chave do Cristianismo Ortodoxo. A ideologia do "mundo russo" se tornou uma força mobilizadora para os separatistas matarem e torturarem. Há um vídeo no Youtube, por exemplo, no qual um monge ensina soldados recém-recrutados do "Exército Russo Ortodoxo" porque e como usar suas armas: "O anticristo está vindo para a Santa Rússia. O que estamos vendo agora é primariamente uma guerra espiritual, porque o Anticristo vem para a Santa Rússia, contra a Ortodoxia". Então o monge passa a lições práticas sobre como ganhar a guerra contra o Anticristo, o qual ele aparentemente associa com o Ocidente e com os cristãos ortodoxos ucranianos que buscam manter a integridade territorial de seu país: "Eu vou ensinar para vocês como carregar os cartuchos - para que as balas possam voar até o objetivo e destruir o inimigo". Ele continua, "Então os Santos Padres nos ensinam que ao pegarmos os cartuchos e carregarmos nossas armas devemos orar assim: Bendita Mãe de Deus, salva-nos. Santo Padre Nicolau, orai por nós. Santo Tsar Nicolau, orai por nós..."

Este uso perverso da oração ilustra como a ideologia do "mundo russo" adota as poderosas tradições do cristianismo ortodoxo, mas de uma forma completamente antitética ao seu gênio cristão. Demonstra como a fé foi instrumentalizada e politizada. A longa tradição ortodoxa de crítica à teologia ocidental, da qual alguns aspectos são legítimos e outros exagerados, foi transformada em uma simplória agenda anti-ocidental. Essa ideologia de Oriente contra Ocidente encoraja o sacrifício de vidas humanas pela causa de uma agenda geopolítica. Infelizmente, muitos hierarcas da igreja na Ucrânia e em outros lugares participam dessa agenda e hesitam em articular uma adequada avaliação moral da guerra no leste de meu país.

As consequências têm sido letais. Têm ocorrido inúmeros sequestros e assassinatos de cristãos não-ortodoxos na região de Donbass ao leste da Ucrânia, onde o conflito armado continua. O padre Greco-Católico Tikhon Kulbaka, secretário do Conselho Regional de Igrejas, foi sequestrado e torturado pelo tal "Exército Ortodoxo Russo" até ser liberto por uma campanha popular em seu favor. Menos sorte tiveram quatro membros da igreja protestante Transfiguração do Senhor, que foram sequestrados no dia 8 de junho e assassinados no dia seguinte. Em uma revelação notável, o conselheiro-mor da assim chamada "República Popular de Donetsk", Igor Druz, disse à BBC que as forças rebeldes haviam executado pessoas desarmadas, afirmando que tal atrocidade ajudaria a construir um novo "estado social" baseado em "valores cristãos". Tal retórica lamentavelmente se assemelha a afirmações recentemente promulgadas pela igreja oficial.

O Grande Inquisidor de Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski representa o típico governante do estado neo-soviético. Ele liberta seus súditos do peso da liberdade. Até agora, a maioria das pessoas nas sociedades pós-soviéticas parecem felizes em continuar sob a direção da mão pesada do estado. As igrejas frequentemente abençoam as práticas coercitivas dos "grandes inquisidores" pós-soviéticos. Eles ensinam que a liberdade é frequentemente abusada, e para limitar os abusos da liberdade, rapidamente acrescentam que a própria liberdade deve ser desencorajada. Isso fortalece o autoritarismo e sacraliza a cultura de impunidade e de controle governamental que permitiu o florescimento de uma cleptocracia. Depois da Maidan, porém, as igrejas na Ucrânia devem retornar ao ensino do Evangelho, ou pelo menos ao de Dostoiévski, sobre a liberdade. Precisam declarar que a recusa da liberdade é um pecado. Essa recusa destrói nossa relação com Deus e com o nosso próximo. Também leva a inúmeras violações de direitos e dignidades. As igrejas pós-soviéticas devem se tornar "escolas de liberdade", que ensinam os cidadãos a exercerem sua liberdade de um modo responsável que leve a uma confiança e propósito comum com a sociedade civil.

No dia 03 de janeiro de 2014, o jornal The Guardian publicou uma carta, assinada por muitos dos principais intelectuais do mundo. "Hoje a Maidan ucraniana representa a Europa no seu melhor - aquilo que muitos pensadores no passado e no presente entendem ser os valores europeus fundamentais". A carta segue sugerindo que "a Ucrânia precisa de algo como um Plano Marshall que garanta sua transformação em uma democracia completa e uma sociedade com direitos civis assegurados". É importante lembrar que o Plano Marshall original continha mais do que ajuda financeira. Ele pressupunha a condenação de todas as ideologias que levaram ao fascismo e ao nazismo. A Ucrânia de hoje precisa de uma condenação semelhante das práticas cleptocráticas do neo-sovietismo e de sua ideologia de uma sociedade civil controlada pelo estado.

Isso não será fácil de se alcançar em um país que primeiro foi degradado pelo comunismo e depois desmoralizado por duas décadas de corrupção, companheiragem e ideologias neo-soviéticas. No seu livro Aufbrüche zu neuen Ufern (Avanço para uma Nova Dimensão), Heike Springhart aponta o caminho para frente em um contexto social profundamente comprometido pelo passado. Ela descreve o papel que as igrejas cristãs tiveram na reeducação da sociedade alemã no pós-guerra. Embora a maioria das igrejas alemãs tenham colaborado com o partido nazista, no fim da guerra, elas eram a única instituição no país que tinha o potencial de curar as feridas infligidas pelo nazismo. Elas representavam o pouco de "espaços limpos" que havia sobrado na alma alemã. Na Ucrânia, as igrejas podem desempenhar o mesmo papel. Elas podem servir como "espaços limpos" na psiquê ucraniana onde um novo futuro pode ser imaginado. A questão é se irão fazê-lo ou não.

Nota: “Terras de Sangue” faz alusão ao livro não-traduzido para o português "Bloodlands: Europe Between Hitler and Stalin", no qual o historiador Tymothy D. Snyder demonstra como os regimes nazista e soviético colaboraram no extermínio de mais de 14 milhões de pessoas na região da Polônia, Ucrânia, Bielorrússia, Rússia e estados bálticos. 

O Pe. Cyril Hovorun é pesquisador na Universidade de Yale. Serviu como presidente do Departamento de Relações Exteriores da Igreja Ortodoxa Ucraniana e como primeiro vice-presidente do Comitê Educacional do Patriarcado de Moscou. É acadêmico em patrística e eclesiologia. 

Publicado na revista First Things, Outubro 2014, p. 41-44.


Tradução: Leitor Fabio Lins Leite

terça-feira, 15 de julho de 2014

O Papel dos Esposos na Igreja Ortodoxa: Moisés e Tobias 3/3

Moisés





Ouvindo, pois, Faraó este caso, procurou matar a Moisés; mas Moisés fugiu de diante da face de Faraó, e habitou na terra de Midiã, e assentou-se junto a um poço. E o sacerdote de Midiã tinha sete filhas, as quais vieram tirar água, e encheram os bebedouros, para dar de beber ao rebanho de seu pai. Então vieram os pastores, e expulsaram-nas dali; Moisés, porém, levantou-se e defendeu-as, e deu de beber ao rebanho. E voltando elas a Reuel seu pai, ele disse: Por que hoje tornastes tão depressa? E elas disseram: Um homem egípcio nos livrou da mão dos pastores; e também nos tirou água em abundância, e deu de beber ao rebanho. E disse a suas filhas: E onde está ele? Por que deixastes o homem? Chamai-o para que coma pão. E Moisés consentiu em morar com aquele homem; e ele deu a Moisés sua filha Zípora, a qual deu à luz um filho, a quem ele chamou Gérson, porque disse: Peregrino fui em terra estranha. - Êxodo 2:15-22

Diferente de Jacó, Moisés não teve nenhuma instrução ao sair de casa, fugindo da punição pelo assassinato que cometera. Mas o próprio Deus o guiava e cuidou para que ele seguisse o caminho determinado. Sem saber, ele já se colocara perto da casa de sua futura esposa. Agora reparem uma coisa. Antes mesmo de estar comprometido com sua esposa, antes mesmo de sequer saber que ela existia, guiado pela inspiração de Deus, Moisés defende a família dela, nas pessoas de suas irmãs. Reuel, pai de Zípora, não hesita em dar a mão de sua filha em casamento a Moisés, e isso porque ele viu que Moisés não era homem de promessas. Ele não era mais um dizendo que, no futuro, depois dela provar que estava disposta a fazer-lhe concessões, aí então, ele a defenderia, a protegeria. Ele já tinha defendido a família dela, e por extensão a ela mesmo. Ele não disse que ia fazer. Ele já tinha feito. Moisés não pediu nada, não prometeu nada, mas já entregara tudo que demonstrava seu caráter.

Assim como Deus em Jesus Cristo, o Qual não explica muito o que ele ia fazer para nosso bem. Ele dá sinais, não faz segredo exatamente, mas também não alardeia. Ele simplesmente faz, e só promete quando é necessário *para nós,* para que nos sintamos seguros. Assim deve agir o esposo em relação à esposa. Ele não promete que vai amá-la, defende-la, habitar em seu mundo. Ele simplesmente o faz. E o pai de Zípora, sabendo disso, não vai procurar um homem que promete que, no futuro, vai amar, proteger e se arriscar por sua filha, mas depois dela mostrar obediência e vontade de fazer concessões para ele. Ele identifica e abençoa a união com o homem que na prática e concretamente, sem promessas, já se arriscara, já se protegera e já demonstrara amor, ainda que de forma indireta através das irmãs. Para Reuel, estava claro que, mesmo sem saber, aquele homem era o marido de sua filha, guiado por Deus até ali. E depois de tudo isso, mais uma vez, Moisés não chama Zípora para seu mundo de origem, o Egito. Ele vai morar na casa do pai dela. Ele não pede para ela deixar de trabalhar na tribo do pai,o que iria enfraquece-la tornando-a sombra dele. Ele é que se torna pastor lá, fortalecendo o casal. Com isso ele deixa para trás definitivamente o mundo em que nascera, e onde era príncipe, mas consente em ser pastor no mundo e na vida dela, assim como Cristo, rei do universo, sai das riquezas da Eternidade e nasce entre pastores, em meio a nossa pobreza, para se unir à sua amada, a Igreja. 

Finalmente, reparem que ao defender as irmãs de sua esposa, sem saber ainda, Moisés está lutando por ela. É da psicologia do homem o gostar de lutar, conquistar, vencer. Infelizmente, alguns homens pensam que lutar por uma mulher é lutar contra ela, contra o coração dela. Ele percebe que o natural dela é não estar com ele, que ela possui inclinações, e tendências que a afastam dele e "luta" contra esses atributos naturais de sua alma, "por ela" para forçá-la a pertencer a ele. Isso não é lutar por uma mulher, mas contra ela. É desejar tê-la, e não desejar o bem dela. O foco é o próprio homem que deseja se servir dela. A luta correta que um homem deve realizar por uma mulher é contra as *circunstâncias* negativas que naturalmente sobrevém a qualquer pessoa ou casal, representada ali pelos maus pastores. Crises econômicas, doenças, circunstâncias externas. Se de início Moisés tivesse que sequestrar e amarrar Zípora, ele seria um traficante de escravos e não um marido. Lutar por alguém, mesmo fora do contexto de casamento, é sempre contra externalidades, nunca com a pessoa em si.

Tobias



É importante lembrar que nada disso que temos falado até agora, isenta o homem dos seus deveres de honrar seus próprios pai e mãe. Claro que ele continua devedor deles e deve assisti-los. Com certeza, haverá dificuldades para o homem em harmonizar o cuidar de sua família de nascimento e da família que formou, estando mais afastado da primeira. Mas se o homem quer ter algum desafio para sua autoafirmação, esta é a prova que Deus lhe oferece: “Honre seus pais, mas vá para a casa de sua esposa”. 

Tanto é assim que no livro de Tobias, o personagem central promete aos pais que ficaria com eles até a morte de sua mãe. Guiado pelo arcanjo Rafael, ele vai até a casa de seus futuros sogros, conhece e casa-se com sua esposa, voltando com ela para a casa de seus pais. Essa medida, porém é temporária, e assim que sua mãe falece, com a promessa cumprida, Tobias retorna com a esposa para a casa dos sogros, onde passa o resto da vida, conforme os mandamentos de Deus.

Outro ensinamento importante do livro de Tobias é que não adianta forçar a realização de casamentos que não são abençoados por Deus, nos quais os noivos não cumprem os papéis conforme explicamos e que provêm dos mandamentos dados por Deus.

Sara, a esposa de Tobias, já havia se casado sete vezes, e em todas elas o esposo morrera na própria noite de núpcias. Mais tarde, o arcanjo de Deus, Rafael, explica que um dos motivos para aquilo ter ocorrido é que o marido que Deus lhe havia destinado era Tobias e nenhum outro. Não sendo o casamento que Deus queria, nenhum dos sete poderia ter dado certo. 

O casamento não é um fim em si mesmo, e sem Deus, não sendo cumprimento da vontade de Deus, sempre trará mais dor e tragédia do que paz e alegrias. De fato, o pecado dos pais de Sara e dela própria foi de terem realizados casamentos apenas pelo afã de resolver o “problema” de uma filha em idade casadoira, mas sem noivo. Enquanto não havia chegado o noivo destinado por Deus, todos os casamentos deram errado. Na verdade, por horrível que tenham sido seus sete casamentos com viuvez, o pior que poderia ter acontecido seria um dos tais casamentos ter “dado certo”, e quando Tobias chegasse a encontrasse comprometida com um homem que não era o que Deus queria para ela. Sendo homem de Deus, Tobias não iria interferir no casamento de Sara por mais que a amasse, e ela, também sendo fiel a Deus, não consideraria divorciar-se para ficar com Tobias. Por Graça de Deus, houve a libertação, e o errado não deu certo. O pecado havia sido ter começado aqueles casamentos, para começo de conversa, pois demonstrava falta de paciência e confiança em Deus por parte dos envolvidos.

Isso também representa como toda nossa fé, amor e devoção, entregues a espíritos, deuses, valores, ideologias, dinheiro, prestígio, ambição, luxúria, comodismo, desespero, não tem nenhum valor em si simplesmente por serem fé, amor e devoção. Eles tem que ser entregues à realização da vontade do Senhor. Os sete maridos de Sara podem ser entendidos como os sete pecados a que se entrega a alma, e Tobias, é o Cristo, o noivo destinado pelo Pai para habitar com nossa alma, representada pela própria Sara.

------------------------------------------------------------------------------------------------------------



Lembremos enfim irmãos, que como cristãos não devemos seguir os exemplos e sabedoria do mundo. 

A fé cristã é muito caluniada no mundo por ensinamentos que sequer são os seus. Nossa fé não ensina que as pessoas tem que casar simplesmente porque chegaram a uma certa idade, ou porque o "namoro já foi longo demais", não ensina que o casamento é um fim em si mesmo e que a nossa felicidade depende de outra pessoa (na verdade S. Paulo diz até que a vida monástica é melhor que a de casado!), não ensina que o papel do homem seja dar presentes, dominar a mulher seja de que forma for, não ensina maus-tratos e desrespeito às mulheres, não ensina que elas devem ser “obedientes” aos homens no sentido vulgar e mundano da palavra. Ao contrário, exige dos homens nada menos que a bravura e a maturidade de se sacrificarem por suas amadas, de amarem-nas tanto que deem até suas vidas físicas por elas, se necessário for. Ensina que a "condução" do homem e a "obediência" da mulher é semelhante ao que ocorre na dança de casal, onde ela ocorre com suavidade, concordância de ambos, a mulher sabendo que poderá se deixar cair e ele vai segurá-la, que ela poderá saltar, e ele irá ergue-la; e sob o ritmo de uma força maior - no casamento a música é a vontade de Deus. 

Ensina também que o mais saudável, psicológica e espiritualmente, para ambos, é que o homem é que saia do seu “mundo” - homens *precisam* sair de "casa" para amadurecer - e passe a fazer parte do “mundo” dela, para que ambos possam se erguer, pois isso é parte de servir a mulher que ama, como Cristo serve a Igreja.

Lembremos que o “Noivo” dá a vida pela “noiva”, que o homem deve ter sempre Jesus Cristo como exemplo e modelo de amor por sua mulher, sua irmã de espírito e amiga, não de momentos e diversões, mas de toda a sua jornada, agindo conforme disse Nosso Senhor, “Amor maior que este não há: dar a sua vida por seus amigos.” (S. Jo. 15:13)

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O Papel dos Esposos na Igreja Ortodoxa: O Cântico, Adão e Jacó 2/3

O Cântico dos Cânticos

Mal passara por eles, encontrei aquele que meu coração ama. Segurei-o, e não o largarei antes que o tenha introduzido na casa de minha mãe, no quarto daquela que me concebeu. Can. 3:4

Também as mulheres devem ter em mente que o melhor para os dois, para a maturidade pessoal dela e do marido, é que ele vá viver no mundo dela.

No livro Cântico dos Cânticos a mulher está plenamente consciente que o destino do esposo é que ele vá para a casa da mãe dela, uma vez mais, que ele viva o mundo dela, da forma mais profunda possível, simbolizada por um dia eles dois dormirem juntos no quarto que um dia foi dos pais dela. Como símbolo, guarda outro ensinamento. Nossa época valoriza muito a tal da "adolescência estendida", que invade a vida adulta até os 30 anos e às vezes até passa. Mas isso é extremamente prejudicial para a mente e o espírito. Que o menino se torne o pai e patriarca da casa, que a menina se torne a mãe e matriarca, se tornando responsáveis por suas famílias, tanto os mais velhos quanto os mais novos, é o natural, e não uma vida de diversões adolescentes sem fim. "Entrar no quarto dos pais" é "tornarem-se os pais". Claro que existem casos de pais perversos, nos quais todo um trabalho na alma das pessoas tem que ser feito para que elas se tornem pais diferentes dos seus próprios, mas é antes exceção do que regra.

O livro ensina também que a mulher deve ter cuidado ao escolher. Veja que ela conhece vários homens (não sexualmente!), mas segura apenas aquele que sabe que irá para a sua própria casa. Ela deve evitar o homem que não deseja fazer isso. Ele ou tem más intenções, querendo encurralá-la em um ambiente ou situação em que ela se fragiliza sem sua rede de proteção, ou é imaturo e egoísta, ainda não está preparado para de fato ser marido e pai. Ainda age como um menino mimado que deseja ser agradado, servido e protegido, ao invés de assumir o papel de homem que protege, ama, se expõe e se sacrifica pela mulher que ama e deseja.

O livro Cântico dos Cânticos costuma ser descaracterizado do seu sentido imediato de um poema de amor esposal, para ser ensinado exclusivamente como um símbolo da relação de Deus com a Igreja. A questão é que ele é um símbolo desta relação precisamente porque fala do casamento, e ensina não apenas como um esposo deve tratar sua esposa, mas até sobre como olhar para ela e vice-versa.

Toda a conversa sobre o homem ser “o cabeça” da esposa, e ela ser “obediente” a ele, está exemplificada ali, e se tem algo que não está presente são relações de subserviência, de submissão, de apagamento de qualquer um dos dois. Nem o esposo nem a esposa são empregados um do outro. O esposo se doa completamente a esposa, olha para ela com absoluto encantamento, em uma mistura de carinho, desejo sexual, amor, respeito, amizade e admiração, tudo ao mesmo tempo e também ela olha para ele dessa forma. A “obediência” dela é antes gratidão natural pelo tanto que ele a ama em sentimentos *E* em ações. Veja como a esposa fala de seu esposo nesta Santa Escritura:

3.Como a macieira entre as árvores da floresta, assim é o meu amado entre os jovens; gosto de sentar-me à sua sombra, e seu fruto é doce à minha boca. 4. Ele introduziu-me num celeiro, e o estandarte, que levanta sobre mim, é o amor. 5. Restaurou-me com tortas de uvas, fortaleceu-me com maçãs, porque estou enferma de amor. 6. Sua mão esquerda está sob minha cabeça, e sua direita abraça-me.
10. Meu bem-amado disse-me: Levanta-te, minha amiga, vem, formosa minha.

O esposo é para ela como a macieira que a acolhe no dia de sol, e os seus frutos, as ações que ele realiza por ela, são todos doces, bons. Não há aí agressão, inveja, exigências esdrúxulas, apenas o desejo do bem dela. Ele estava frágil e cansada e ele a colocou em um celeiro, mais uma vez protegendo-a, e o estandarte que levanta sobre ela não é o de um rei cruel e exigente, sempre a desejar o sacrifício de seus servos, mas o estandarte do amor que se doa. Ele não a fere, ele a restaura. Ele não a enfraquece, ele a fortalece. Com sua mão esquerda a protege, com a direita a ama carinhosamente. Finalmente, o esposo não diz “curva-te”, mas diz “levanta-te”, chama-a não de “serva”, alguém que vive para o bem dele, mas de “minha amiga”, alguém que é igual a ele. Quando diz “vem”, é para enfatizar o “levanta-te”, pois nas horas de queda, ele está lá para ajuda-la a lembrar-se que é capaz. E acima de tudo, ela é a beleza da vida dele, “formosa minha”.

Não existe livro melhor no mundo para educar os esposos no trato e sentir um com outro do que Cântico dos Cânticos. Vale ler o livro inteiro.

Adão

Nas Santas Escrituras vemos a recomendação de o homem entrar no mundo da mulher desde o Gênese. Vejam a passagem:

E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão. E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada. Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne. - Gênesis 2:22-24

Reparem que assim que Deus forma a mulher, antes mesmo da Queda, Deus já define o papel do homem conforme explicamos aqui: o homem deixará o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher. Vejam que Adão nem tinha pai e mãe, mas o papel futuro de todos os homens já está definido nele: é o homem que tem que deixar sua família para ficar com sua mulher. Ele é que tem que sair “da barra da saia da mãe” e ir viver a vida e o mundo social e familiar da sua esposa, como Deus deixou os céus para viver em nosso mundo. Nunca o contrário. Já ali vemos uma prefiguração da Encarnação e da Salvação, na descrição do papel de homem no casamento. 

Jacó

E Isaque chamou a Jacó, e abençoou-o, e ordenou-lhe, e disse-lhe: Não tomes mulher de entre as filhas de Canaã; Levanta-te, vai a Padã-Arã, à casa de Betuel, pai de tua mãe, e toma de lá uma mulher das filhas de Labão, irmão de tua mãe; E Deus Todo-Poderoso te abençoe, e te faça frutificar, e te multiplique, para que sejas uma multidão de povos; E te dê a bênção de Abraão, a ti e à tua descendência contigo, para que em herança possuas a terra de tuas peregrinações, que Deus deu a Abraão. - Gênesis 28:1-4

Isaque ordena que Jacó se vá para evitar futuras brigas com seu irmão Esaú. Mas não apenas isso. Ele especificamente ordena que ele vá para a casa de sua futura esposa. No caso, por hábitos culturais da região e da época, o pai ordena a Jacó que ele vá se casar com uma de suas primas e more na casa de seu sogro e tio. 

Hoje em dia, não só a relação entre primos é reconhecida como inapropriada, mas dificilmente o homem vai morar com os pais de sua esposa, e nem seria isso conveniente. O importante é aplicarmos o princípio da coisa, o “espírito” da lei: o homem é que sai de seu “ambiente” para participar mais do ambiente familiar e social da esposa, mesmo que morem em casa própria. Além de ser a correta ordem espiritual, tem inúmeras vantagens psicológicas e sociais. Primeiramente defende a mulher. Dificilmente um homem cometerá algum tipo de injustiça ou violência sob as vistas dos pais, irmãos, parentes e amigos da mulher. De fato, estudos mostram que homens egoístas ou até francamente agressivos, tendem a afastar a mulher o máximo possível do seu ambiente de segurança. Ele exige que ela frequente mais seus amigos que os dela, não raro ao ponto que ela conviva mais com os círculos dele do que com os dela. Isso, claro, apenas a deixa vulnerável, pois os familiares, amigos e colegas dele tenderão a ficar do lado dele nas disputas, infelizmente até nas traições e violências, jogando todas as culpas sobre ela.

Quando Deus pede que o homem O imite e saia do seu círculo para o círculo da mulher, está cuidando também da saúde, segurança e bem-estar dela. Do ponto de vista psicológico, é mais comum que as mulheres tenham a sua realização pessoal mais ligada à família do que os homens. Inclusive é por isso que ele pode fazer essa transição com alguma tranquilidade, pois boa parte da realização pessoal do homem inclui, mas não depende tão fortemente do contato físico e constante com o círculo familiar. Um homem que saia de seu círculo familiar e de amigos para entrar no da mulher, consegue manter-se melhor, porque isso não constitui sua identidade de forma tão intensa quanto a dela. Repare que é muito mais comum para mulheres sofrerem do trauma do “ninho desfeito”, quando ela vê ser desfeita sua família original, ou a família que formou. Naturalmente que isso também abala os homens, mas o impacto na alma feminina tende a ser mais profundo e mais grave, podendo até refletir-se em doenças físicas. 

Ao ordenar aos homens que convivam com a família de sua esposa, Ele protege o coração da mulher, que verá de forma bem próxima ambos os núcleos familiares, o que ela nasceu e o que ela está formando. E quando, pela ordem natural das coisas, o núcleo familiar em que ela nasceu for desaparecendo por morte dos pais, ela terá a sensação de dever cumprido por ter estado perto deles, e terá ainda o novo núcleo ao seu lado dando apoio.

terça-feira, 8 de julho de 2014

O Papel dos Esposos na Igreja Ortodoxa 1/3



Uma das coisas mais deprimentes de se ver é um homem que busca apagar a mulher que diz amar para que ela se torne apenas mais um dos elementos de sua realização pessoal. Além de um bom emprego, um bom carro, uma boa casa, ela entra como uma boa amante, uma boa mãe dos filhos dele, uma boa dona de casa, uma boa mulher para mostrar em sociedade e provar que conseguiu a "presa" mais valiosa do grupo, mas tudo isso é só um serviço para ele mesmo. Ele não ama a ela em particular, mas a qualidade dos "serviços" que ela pode lhe prestar.

Ele pede, com “jeitinho” se for minimamente educado, ou com violência se for um animal, que ela se dedique prioritariamente a contribuir, a ceder sempre, agora só um pouquinho, depois mais um pouquinho; e no fim o pouquinho se torna o tempo inteiro, a vida toda. A missão da mulher se reduz a realizar a vida dele, sem que ela tenha tempo de se ocupar com o que Deus pôs em seu próprio coração. A ela cabe sacrificar sua família, seus sonhos, sua realização pessoal, ou ao menos coloca-los entre parênteses, para que ele se realize em primeiro lugar, e, se der tempo, quem sabe ela possa até ter um trabalhinho para ganhar um trocado e não ficar tão ranzinza, negando sexo ou não sendo perfeitinha o tempo inteiro, não é? Mas desde que isso não atrapalhe a vida *dele*, a qual, essa sim, não pode ceder em nada, não pode se abalar em nada, não pode se desviar em nada. Naturalmente, esse "homem" pode sê-lo em idade, fisicamente, socialmente, financeiramente mas tem o coração de moleque ainda.

Se o infeliz tiver acesso a fontes cristãs, pode ainda abusar de trechos que falam da “obediência” da mulher, do papel dela como “auxiliadora” do homem e várias outras. Pior ainda se a mulher mesma cai nessa armadilha ou se acredita nisso.

O modelo cristão, porém, diz que o casamento é ícone da relação de Deus com a Igreja. O esposo deve agir em relação à esposa como Deus (o Deus cristão), age em relação à Igreja: saindo da sua origem, "encarnando-se" no mundo da amada, morrendo por ela, e dando-lhe a força de sua própria vida.

O Noivo - O Rei da Glória - Extrema Humildade
Modelo de Namorado, Noivo e Marido
E se tivermos preguiça de ler as Santas Escrituras, basta participarmos das cerimônias da Semana Santa que antecedem a Páscoa para entendermos o que a Igreja exige dos maridos. Entre elas existe a Cerimônia do Noivo (O Nymphios - Ο Νυμφιος). Ali temos o ícone de “Cristo, o Noivo”, também chamado de ícone da Suprema Humildade. O ícone remete à parábola das Dez Virgens em S. Mat 25, mas o a imagem em si mostra o Cristo no momento da Paixão, coroa de espinhos na cabeça, manto nas costas, o corpo coberto de feridas. O significado teológico é riquíssimo, mas vamos nos ater ao assunto do artigo. O ícone e a cerimônia do Noivo são também um recado aos homens, no seu papel de namorados, noivos e maridos: você tem que ser por ela como Cristo no caminho para o Calvário. É você tem que morrer pela mulher que ama. É você que se coloca em risco, que não teme ser ferido por muito amá-la, não apenas fisicamente, mas integralmente até a alma. Por ela você aceitará a ingratidão, a traição, a calúnia, a injustiça, surras do mundo, perseguições, infâmias, e por amor dela e de sua salvação você subirá voluntariamente na cruz, mesmo que tivesse os meios de evitar esse destino. O verdadeiro heroísmo, a verdadeira luta, é suportar as dores do mundo por ela. O herói, o "cabeça" não pede nem exige que a noiva é que se sacrifique por ele - e evidentemente *nunca* a agride, situação em que ele representa o demônio e não Deus. Você é que se sacrifica por ela.

Como Cristo deixou sua amada mãe para subir na Cruz por amor da Igreja, como Cristo deixou os céus para viver na terra com sua Igreja, como Cristo abdicou do uso de Sua onipotência para compartilhar de nossa vida, você, homem, tem o dever de abdicar da sua vida pela sua esposa. É você quem deve se sacrificar por ela sem esperar retribuição. É você que sai da sua zona de conforto por ela, que muda seus planos e modo de vida por ela. É você que abdica das suas coisas pelas coisas dela. É você que se preocupa mais com a realização pessoal dela do que com a sua. É verdade que a Igreja diz que a mulher deve ser obediente e devotada ao marido, mas não a qualquer marido, e sim a esse marido que descrevemos. O marido que coloca a esposa em primeiro lugar, que a honra e ama, a ponto de abdicar da glória pessoal para exaltá-la. Que se une a ela e a tem como igual (lembram que Cristo-Deus chama os Apóstolos de “amigos” e “irmãos”?)

Apenas a um tal homem que deseja o bem o tempo inteiro à amada, que só pensa em glorifica-la e vê-la nos céus, que se sacrifica por ela o tempo inteiro, apenas a um tal homem é que ela pode dedicar sua confiança e sua obediência, segui-lo e se tornar sua auxiliadora, inclusive porque ela o auxilia naquilo que é a principal meta dele: amá-la, desejar o seu bem, engrandece-la. É assim que Deus age com a Igreja. É assim que o marido deve agir com a esposa. Ele não pede que ela se crucifique por ele, ele se crucifica por ela. E apenas se, diante dos problemas da vida, ele for crucificado pelos perversos ou pelas circunstâncias, é que ela o acompanha, como Maria estava ao pé da Cruz de seu Filho, como os santos acompanham o martírio do Cristo. Mas Cristo *nunca* pediria à mãe ou à Igreja que fizesse aquilo que era dever dEle fazer. Em plena Cruz, ao invés de pensar em Si, ele estava providenciando para Sua mãe um protetor terreno na figura de Seu primo e discípulo S. João, e não pedindo que eles dois se crucificassem para que Ele pudesse viver, sob a desculpa dEle ser o Cabeça (que Ele era de fato) e eles lhe deverem obediência (que eles realmente deviam). Esse é o único papel digno da expressão “ser esposo”.

Este é o teste definitivo para um homem saber se realmente ama uma mulher: Você sente alegria em desistir de tudo que é seu por direito por ela? Você se sente extremamente feliz em ser o “cabeça” da vida dela através da dedicação da sua própria vida em ajuda-la a realizar seus sonhos e alegrias, a vê-la brilhar? Você se sente realmente feliz de vê-la forte e no local de seu próprio coração, ou isso te dá insegurança, ciúme e uma sensação de que ela não está se dedicando o suficiente a você? Quando você diz a ela “eu te amo” isso significa que ela é o centro da sua vida, ou o que você ama são as coisas que ela pode te oferecer: sexo, prestígio, elogios dos outros, segurança?

Se a sua resposta for não para uma dessas perguntas, ou se escolheu a segunda opção da última pergunta; ou pior, se você sente que se dedicando a ela em primeiro lugar estará desistindo de algo muito importante para você, então você não a ama. E tenha cuidado, porque se você percebe que servindo a esta mulher você estará se anulando ou desistindo de algo importante na sua vida, é porque esta *não* é a mulher que Deus reservou para você e você não é o homem que Deus reservou para ela. Pois quando encontrar a mulher que Deus reservou para você, é fazendo tudo isso por ela que você se sentirá realizado como esposo, e isso poderá mudar sua vida, mas não vai abalar seu coração nem sua alma. E você, como homem, reconheça o quanto é indigno que sua segurança e força dependam de outras pessoas, ainda mais do apagamento de uma mulher. É uma covardia e um bullying. Como homem, sua força, caráter e estabilidade emocional tem que vir de Deus em primeiro lugar e de sua própria força interior em segundo. Você não suga sua força dela. É você quem empresta sua força a ela. Você não a usa para ter a honra da sociedade. Você tem o dever de conquistar essa honra por suas próprias forças, sem depender dela para isso. Seja homem! É você que empresta sua honra para ela.

Talvez você sinta desejo por essa mulher, talvez você sinta amizade, talvez você tenha algum tipo de dependência emocional em relação a ela, talvez você esteja só possessivo e tendo visto que ela é preciosa de alguma forma (por ser bela, ou inteligente, ou estilosa, ou atende algum ideal social de “boa esposa”) deseja tê-la para si, querendo que ela sirva seus propósitos, mas definitivamente não a ama, pelo menos não como esposo. Deus não pede nada impossível para nós. Se Ele ordenou que nós seguíssemos a vocação que Ele mesmo pôs em nossos corações e, ao mesmo tempo, ordenou que o homem sirva à sua mulher e que a mulher seja obediente ao seu marido, então não será a relação que Deus quis se a relação entre vocês dois impede a vocação de um dos dois, ou se a relação entre os dois não é harmônica nos termos que Deus ordenou e acabamos de explicar.

Se você não ama o mundo dela, no qual você deve entrar, então você não a ama. Infelizmente, alguns homens acham que "lutar" por uma mulher consiste em lutar para tirá-la do mundo dela, e condicioná-la ao seu mundo. Não é assim para o cristão ao menos. Repito: seguimos o exemplo de Cristo-Deus, o marido é que deixa o seu mundo e se "encarna" no mundo dela, se tornando parte dele. E deixe-me te dar uma dica. Se você não gosta do "mundo" dela, tirá-la de lá não vai adiantar nada, porque ela sempre vai trazer esse mundo em seu coração, ela sempre estará lá. É verdade que alguns homens percebendo isso trabalham para apagar ou mudar o que elas trazem na sua alma, mas esses são homens por força de expressão apenas. Não passam de covardes.

Por outro lado, se esse mundo é ruim ou desagradável para você, e se você tem a decência de não tentar destruir isso nela, nem mudar nada, você é que vai terminar com uma mulher que te irrita, ou te ignora, ou te despreza. Em algum momento vão descobrir a tal "incompatibilidade de gênios" ou os tais "santos que não batem". O conselho de Deus para que você entre no mundo dela, além de proteger a ela, protege você também. Te permite saber no que você está entrando, literalmente ver a alma dela nos elementos externos que a cercam; e nós homens somos muitos visuais, nós precisamos disso. Se a mulher possui um círculo cultural, intelectual, social, familiar ou de amigos que você não se encaixa, então tenha certeza, ela não se encaixa na sua vida também. Não vai adiantar você afastá-la de lá.

Nós dois próximos artigos da série, veremos o papel do esposo nas Santas Escrituras, começando pelo livro Cântico dos Cânticos, por excelência o livro dos casados, e depois com alguns exemplos de esposos na Bíblia e como Deus ordenou aos esposos saírem do seu "mundo" para se dedicarem ao “mundo” de suas esposas.

sábado, 21 de junho de 2014

Livro do Patriarcado de Moscou condena Dugin

Abaixo, para colocar um ponto final na lenda de que Dugin teria alguma coisa de cristão ortodoxo, a tradução do capítulo do livreto do Patriarcado de Moscou que denuncia todas as heresias e seitas ocultistas que assombram a Rússia. Dugin ganhou um capítulo inteiro só para ele. Herege, pagão e apóstata, nada tem de ortodoxo. Anátema, anátema, anátema!



A doutrina de Aleksandr DUGIN. “Novas associações religiosas da Rússia de caráter destrutivo e oculto: um guia / Departamento missionário do Patriarcado de Moscou da Igreja Ortodoxa Russa”.
Boletim informativo e analítico Nº1 – Belgorod, 2002, 3º edição, aumentada, 4.9 A doutrina de Aleksandr DUGIN.
( Link para referência ao livro no Google Books: http://is.gd/462IoK )

Guia.

Aleksandr DUGIN.

Doutrina:

Dentre as doutrinas neopagãs, as opiniões de A. DUGIN ocupam uma posição à parte. Em particular, isto se explica pelo status do autor, chefe do movimento “Eurásia” (pelo fato de ser um dos conhecidos ideólogos do movimento “Rússia”), por sua colaboração ativa com o Comitê Islâmico e por ser um político ambicioso.

Seus ensinamentos, transformados harmoniosamente na ideologia do movimento Eurásia, não podem ser examinados separados da concepção do mundo de seu mentor espiritual René GUÉNON, em cuja biografia estão contidos alguns dados que nos permitem de maneira mais objetiva avaliar o lado espiritual da doutrina de A. DUGIN.

Além disso, ficam também esclarecidos o papel e a posição da Igreja Ortodoxa, elaborados por A. DUGIN em documentos programáticos e outros escritos relacionados com a organização da OPOD (Movimento Pan-russo Social e Político) Eurásia e com a criação da futura União da Eurásia.

Todos os documentos utilizados para a preparação desta seção foram publicados em órgãos periódicos públicos de informação. As opiniões de A. DUGIN, de seus mentores e de seus seguidores foram tiradas de monografias, almanaques, dos órgãos de informação de massa por ele dirigidos e de outras edições, distribuídas basicamente por empresas comerciais controladas pelo movimento Eurásia e por outras estruturas dependentes do autor.

Sobre o autor da doutrina:

Aleksandr Gelevitch DUGIN [1] nasceu em 1962 no distrito de Tcheliabinsk. Seu pai foi um general que trabalhou na administração central do sistema de informações do Estado Maior das Forças Armadas da URSS. O papai general colocou o filho, que não concluíra a Escola de Aviadores de Moscou, no arquivo da KGB. DUGIN conhece cerca de 10 línguas europeias, e domina a língua hebraica. As pretensões de A. DUGIN o tornaram, aos 35 anos, o homem número 2 do Partido Nacional Bolchevique de Eduard LIMONOV. Entusiasmou-se pela maçonaria e pelo fascismo. Foi inimigo do “Império Soviético”. Atualmente, defende opiniões totalmente opostas.

Em 1991 foi publicado seu primeiro livro “Caminho do Absoluto” onde estão expostos os fundamentos de sua orientação religiosa. Em 1992 começa a editar a revista “Elementos”. Em 1993 publica o best-seller “Teoria da Conspiração” que se tornou o equivalente do livro de ação inglês “Caça aos Espiões”. No livro “Teoria da Conspiração” foi desenvolvido o tema das relações secretas entre a CIA e a KGB.

Segundo sua própria confissão, A. DUGIN na juventude intitulava-se “um fascista místico” e hoje em dia modificou esta denominação para “fascista ortodoxo”.

A. DUGIN considera o esotérico francês da primeira metade do século vinte René GUÉNON (15.11. 1886 – 07.01. 1951) como seu mestre, como autoridade reconhecida e incontestável, como emissário autêntico da teoria escatológica, considerando-o a figura chave desse período. Escreve: “René GUÉNON é o emissário do supremo centro para a última época, para o período de Kali Yuga, e os princípios da Tradição por ele formulados (o conjunto dos “conhecimentos não humanos transmitidos de uma geração à outra pela casta dos sacerdotes ou por outras instituições semelhantes) servirão de baluarte de salvação para aqueles que terão que, lutar contra “este Mundo” e seu “Príncipe”, fazer renascer a Tradição na sua dimensão autêntica, não humana e “angélical” e, fechando o ciclo, elaborar os fundamentos sagrados da Idade do Ouro que se aproxima.” [2]

Um dos objetos fundamentais das pesquisas de GUÉNON é uma versão da metafísica, na qual as concepções do hinduísmo exerceram uma grande influência.

Na tentativa de justificar GUÉNON (e, por conseguinte, suas próprias concepções sobre cristianismo), A. DUGIN diz que “a particularidade do tradicionalismo de GUÉNON faz às vezes com que os membros conservadores da Igreja considerem erroneamente o esoterismo e a síntese a que ele se refere como ocultismo e sincretismo.”[3]

E, 1912 GUÉNON se converteu ao Islamismo e adotou o nome árabe de Abd-el-Vakhed-Iakhia – Servidor Único.

Mais adiante [4], todavia, DUGIN indica que “GUÉNON recebeu iniciação maçônica do neo-rosacruz Theodor REUSS, que foi amigo, companheiro de armas e responsável pela iniciação de A. CROWLEY”. [5]

Lembremos que GUÉNON constitui uma autoridade incontestável para A. DUGIN.

O Neopaganismo à luz das concepções metafísicas de R. GUÉNON e de A. DUGIN
As primeiras pesquisas religiosas de A. DUGIN datam do início dos anos 90 do século passado e estão ligadas à fundação do almanaque “Anjo Gentil”, em cujas publicações são examinadas as fontes espirituais dos ensinamentos de um novo messias. Eis o que escreve a equipe de redação nesta edição [6]:

“Nossa tarefa fundamental ... constitui a restauração da tradição integral em toda a sua dimensão total ... O almanaque ‘Anjo Gentil’ combate a favor da restauração do espírito medieval, da forma de pensar medieval , da religiosidade medieval e da concepção de estado medieval.” Entretanto, como veremos a seguir, A DUGIN interpreta estes conceitos “medievais” do ponto de vista do neopaganismo.

Dentro dos limites da Tradição mencionada, DUGIN reconhece a primazia do não ser: “qualquer metafísica tradicional de pleno valor reconhece a prioridade do não ser sobre o ser”. [7] Aqui está uma das posições (respostas) da gnose escatológica de A. DUGIN: “O ser apareceu como prova de que o não ser que o continha antes de sua aparição não é a última instância, e de que, além de seus limites está presente o Outro, que não coincide nem com o ser, nem com o não ser[8]. Do seu ponto de vista o ser “não pode também afirmar sua própria primazia sobre o não ser, pois contradiria a verdade, já que o ser puro não é outra coisa senão a tradução na realidade, sob sua forma lógica, das possibilidade do não ser que o precedeu.”[9]
De maneira generalizada a doutrina espiritual de A. DUGIN está concentrada no almanaque “O Fim do Mundo. Escatologia e Tradição” (Moscou, Ed. Arktogaia, 1998). O próprio A. DUGIN denomina esta publicação de “manual de historia da religião”. Todavia, os aspectos históricos das várias crenças contidas neste trabalho são apresentados sob seu ponto de vista próprio (e totalmente peculiar). Isto contradiz definição do livro como obra histórica e lhe confere um aspecto dogmático. A mistura de concepções cristãs, runologia, conceitos pagãos, várias teorias da cosmogonia é só uma pequena lista das liberdades de um diletante para com os materiais da coletânea.

Ao inserir na coletânea histórica [10] um capítulo do livro “Caminho do Absoluto”, (”Gnose Escatológica”), A. DUGIN constata assim que sua doutrina religiosa já está formada.

Justificando o surgimento de novas religiões e cultos dentro dos limites da Tradição, A. DUGIN escreve literalmente o seguinte: “As normas e as estruturas esotéricas da Tradição se transformam em conformidade com a situação do ambiente cósmico, e, por conseguinte, aparecem novas religiões e tradições, novas redações do culto e novas práticas.”[11]

Esta afirmação tem consequências de longo alcance. Se o ambiente cósmico constitui o não ser que gera o ser, então o surgimento de novas religiões e cultos (possível somente nos limites do ser) é um fato objetivo (do ponto de vista metafísico) e isto significa que cedo ou tarde uma nova religião nos limites do Estado da Eurásia irá aparecer e além disso será absurdo resistir-lhe.

É de se notar que esta afirmação está inserida na seção do “manual” consagrada à analise dos ensinamentos religiosos de A. CROWLEY.

Desta forma, podemos desde já definir a doutrina religiosa de A. DUGIN como uma interpretação da metafísica do hinduísmo combinada a conceitos do marxismo ortodoxo. Sob o aspecto linguístico, esta doutrina reveste a forma de uma terminologia pseudocientífica, extremamente atraente para diletantes que, como o próprio A. DUGIN, não concluíram um curso universitário, e que compartilham dos ideais da ideologia comunista.

(Nota do blog - by Saulo: Acho que na época o Dugin não tinha se formado em nada ainda - será que ele dá aulas na Universidade de Moscou sem ter concluído um curso universitário? - "Dugin se apresenta como um acadêmico e filósofo, alegando dois títulos de PhD, mas quem e como lhe concedeu tais diplomas permanece um segredo cuidadosamente guardado [ http://en.metapedia.org/Alexander_Dugin ] )

A Ortodoxia na interpretação de A. DUGIN

DUGIN faz uma análise da Ortodoxia a partir da posição tradicionalista de GUÉNON, avançando a tese: “A Igreja Cristã ... se seguir uma orientação tradicionalista e conservadora, em regra geral, na melhor das hipóteses, constitui o apoio fundamental para a conservação do aspecto esotérico, ritualístico e dogmático... . A Igreja ou limita sua atividade não litúrgica por um moralismo simplificado, ou , o que é pior, tenta ocupar-se da apologética baseada em teorias fundamentalmente profanas, contemporâneas e antitradicionalistas, ou ainda, o que é terrível, tende ao sincretismo, ao ecumenismo e mesmo ao neoespiritualismo mais baixo....”. [12]

Nas obras de A. DUGIN manifesta-se claramente o efeito da lei da dicotomia. Por exemplo, a tentativa de pesquisar as crenças pré-cristãs e pré-ortodoxas da Rússia leva A. DUGIN a conclusões paradoxais. Eis uma delas: “O Cristianismo não substituiu, mas elevou e consolidou a fé antiga pré-cristã.” [13

Escreve: “Quando temos diante de nós uma tradição realmente importante e autêntica, podemos quase sempre descobrir nela seu transcendentalismo e seu caráter imanente, sendo que esta última característica constitui sua parte interior e esotérica.”[14], ou seja, para A. DUGIN o paganismo é também uma suposta Ortodoxia, todavia melhor e mais original. “O aspecto imanente” é a concepção mística do mundo de A. DUGIN e de seus seguidores. Esta concepção provém em particular do fato de que basta pensar em uma “conspiração” e a ideia de conspiração já se torna realidade e, na medida, que sou “eu” que penso, então isto é uma realidade bem mais importante do ponto de vista metafísico do que a realidade concreta [15]

O “aspecto imanente” não distingue ideias que tem seu fundamento na vida quotidiana e também as ideias nominais (ou ordinariamente fictícias), e dá preferência às fictícias. A incapacidade da tentativa de associar o “aspecto imanente” ao Cristianismo manifesta-se de maneira particularmente visível na tentativa de interpretação do Credo, tentada por A. DUGIN, onde ele geralmente descamba para uma franca heresia[14]. Assim, ele afirma que o Credo de Niceia é uma profissão de fé com “uma pequena concessão a preconceitos cristãos”. Além disso, A. DUGIN geralmente chama o Credo de “Fórmula da Fé [16]. Ao fazer isto, considera que os primeiros três membros (ou, na terminologia de A. DUGIN, pontos) fornecem uma imagem absoluta e acabada da metafísica [17]

Nas suas “obras” [18] A. DUGIN simplesmente blasfema ao afirmar certo aspecto real (existencial ou ontológico) da Trindade. Ele nega a revelação de que Deus é o criador do mundo e que este sempre transcende qualquer aspecto material.

DUGIN introduz uma inovação na doutrina da imortalidade da alma. Escreve em particular: “A Alma, uma forma sutil, tecida de substâncias da atmosfera, sobrevive ao corpo no qual ela passou sua vida terrena e pode viver de modo independente mesmo depois da morte corporal ... Mas o caminho para o céu do espírito ... é impossível para a alma individual, pois, este mundo, por definição não admite em si seres revestidos de forma”.[19] Entretanto, de acordo com a doutrina ortodoxa, Deus cria a alma pelo seu sopro criador [20].

DUGIN em um sentido puramente teosófico insiste na “descoberta dentro da personalidade humana” de uma substância radicalmente diferente do velho “eu” habitual do indivíduo. Afirma que esta descoberta se passa durante o batismo [21]. E nisso A. DUGIN vê uma saída para a “salvação” do ser humano.

Tal afirmação contradiz diametralmente a definição de João Damasceno: “a alma é uma substância viva, simples e incorpórea, por natureza invisível aos olhos humanos, imortal, dotada de entendimento e inteligência e não possui uma imagem (forma) determinada”. Ela age com auxílio do corpo orgânico e comunica-lhe vida, crescimento, sentimento e força de geração. A inteligência ou o espírito pertence à alma não como algo diverso, separado dela, mas como sua mais pura parte. O que são os olhos para o corpo, assim é a inteligência para a alma. A alma é um ser livre, dotado de capacidade de vontade e ação. Ela é “suscetível de mudança por parte da vontade”. [22]

As concepções e declarações errôneas e por vezes francamente heréticas de A. DUGIN são complementadas pela runologia, pela doutrina sobre o caráter cíclico das fases cósmicas e pelas demais crenças pagãs.

De acordo com a mencionada lei da dicotomia, utilizada por A. DUGIN largamente para elaborar os seus trabalhos, chega à conclusão inevitável de que existem dois tipos de hinduísmo segundo GUÉNON – um bom e um mau. O “mau” é o ocidental e o “bom”, o oriental, supostamente ortodoxo. A. DUGIN vê “um futuro brilhante” para a ortodoxia com a combinação do princípio esotérico da Igreja (isto é, com a organização eclesiástica) com a gnose esotérica pagã. Esta abordagem, como ele descreve, abre “possibilidades ilimitadas para uma compreensão profunda e inesperada da ortodoxia russa”[23]. Assim, A. DUGIN afirma que na pessoa dos “heréticos gnósticos” já existe um fundo de ortodoxia, faltando somente o aparato metafísico. Por isso, o único caminho consiste em adotar a religião tradicional e, em seguida, tentar, no âmbito desta religião, penetrar pela prática espiritual, ritual e intelectual nos seus aspectos esotéricos interiores, nos seus mistérios” [24]. A. DUGIN aconselha que, “para que os gnósticos não se submetam à influência das ideias cristãs, estes devem aspirar a minimizar a dimensão humana, terrena e secular da Igreja ..., é indispensável a despeito de tudo insistir na totalidade mística e na perfeição da Igreja, destacando seu aspecto atemporal, benéfico e transformador”[25]. Além disso, pensa que: “ a tarefa fundamental para se aplicar os princípios do tradicionalismo integral ao cristianismo e, em particular, para a ortodoxia, pressupõe tornar-se um seguidor imediato e ortodoxo de GUÉNON” [26].

Isto nada mais é que um apelo à criação dentro da ortodoxia de uma nova tendência (seita), isto é, uma tentativa de um simples cisma.

A. DUGIN evidentemente desconhece que a mantenedora da verdadeira tradição – a Igreja – se protege e se protegerá com antecedência contra sociedades secretas no seu seio. Ele apresenta a situação de tal forma que pelo seu desejo pode juntar à Igreja suas convicções pagãs.

Segundo a opinião audaz de A. DUGIN, “Se nós fomos resgatados pelo Cristo, então, em princípio em nós não há pecado, e é necessário ir corajosamente para o mundo da deificação e não contar meticulosamente suas imperfeições” [27]. Pela mesma razão coloca-se em dúvida um lado fundamental da vida espiritual como o arrependimento, como a confissão, em outras palavras, o leitor é de fato conclamado a uma recusa voluntária de participar nos mistérios mais importantes da Igreja, que constituem uma parte obrigatória da vida ortodoxa.

“A revolução religiosa é vista por DUGIN como a preservação de todos os aspectos dogmáticos, rituais, doutrinários e simbólicos da fé ortodoxa. Esta revolução, porém, destrói aquelas contribuições intelectuais, de caráter nobre e protestante ou de soviético conformista, e mais frequentemente de fundo liberal, que erroneamente são assimilados hoje em dia com a Igreja e que afastam dela muitas pessoas dignas, fortes e nobres de tendência revolucionária” [28].

Por seus objetivos, A. DUGIN aproxima-se dos chamados modernistas, adeptos de Kotchetkov, de Men, de Borisov e de Jeludkov - e semelhantes. Ele tenta de modo persistente “assimilar” a ortodoxia ao paganismo, e os modernistas acima citados vão ao seu encontro, expondo a ortodoxia dentro deles, e também no espírito e na alma de seus adeptos. “Este homem se colocou fora da Divindade e da lei humana, escolheu para si um ponto de vista fora do bem e do mal, acima da lei e da felicidade” [29]. E se os representantes das correntes renovadoras acima enumeradas seguem o caminho de uma suposta simplificação, DUGIN, ao contrário, com todas as suas forças esforça-se para tornar o evidente incompreensível e ambíguo, utilizando para tanto o aparato conceptual e linguístico da metafísica.

Podemos supor que as doutrinas religiosas de A. DUGIN constituem uma compilação de crenças ocidentais (protestantes) e orientais (hindus). Não possuem nenhum fundamento espiritual da ortodoxia e não podem ser consideradas uma doutrina religiosa completa no sentido atribuído a este conceito pelos homens de ciência – teólogos e filósofos.

Posição de A. DUGIN com relação ao Islamismo

Uma das primeiras medidas oficiais tomadas pelo movimento “Eurásia” foi uma conferência sobre o Islamismo “Ameaça do Islã e ameaça para o Islã”. A conferência realizou-se no dia 29 de junho de 2001 no prédio do “Hotel-Presidente” sob a presidência do porta-voz da Câmara de Deputados, G. Seleznev, do grão mufti da Rússia Talgat Tadjuddin e de A. Dugin (nesta época ele tinha-se tornado conselheiro de Seleznev para questões de geopolítica). Um número especial da “Revista da Eurásia” foi consagrado às relações do Movimento com o Islã. A Divisão de relações exteriores da igreja ortodoxa do Patriarcado de Moscou publicou nas páginas desta edição um artigo do padre Vsevolod (Tchaplin), artigo este que ocupa apenas um pouco mais de 5% do volume total da revista.

Cabe notar que em todos os artigos sobre o Islã não há qualquer referência às numerosas manifestações extremistas dos pseudomuçulmanos. Além disso, no artigo [31] do autor permanente do jornal, Khoj-Akhed Nukhaev, propõe-se a criação “no território da Chechênia meridional uma casa comum da Eurásia, uma organização construída segundo os princípios da doutrina dos cãs tártaros (reunião dos muçulmanos, cristãos e judeus e todos os homens de boa vontade, prontos para submeter-se a esta organização em torno de uma missão comum de revitalização da Terra e cura da alma da humanidade contemporânea).
As ideias de Kh-A. Nukhaev estão bem próximas das de DUGIN. Por exemplo, ele propõe construir o Estado da Eurásia em duas etapas:

Na primeira etapa será fundada a CUEA – Confederação Unificada dos Estados Autoritários.

Na segunda, ela se transformará na Casa Comum da Eurásia.

Podemos imaginar que o Islamismo é mais próximo de DUGIN como fundamento espiritual da ideia de Eurásia. São interessantes as reflexões de DUGIN a respeito da “terceira capital” [32]. Ao examinar o papel desempenhado pelas cidades de Kiev, Moscou e São Petersburgo na história da Rússia, ele, notando o fato de que na Rússia moscovita a etnia torna-se particularmente grã-russa, designa este estado, todavia, como turco-eslavo. Do seu ponto de vista, a capital ideal da Eurásia seria Kazan. Para confirmar suas palavras, escreve: “Ivan o Grande (Terrível) apresenta-se com o legítimo herdeiro da vontade geopolítica da Horda de Ouro, como um tzar especialmente grão-russo, no qual as raízes eslavas se unem com o sangue tártaro sob o estandarte da ortodoxia bizantina”. Ele considera que “o Tartastan representa o modelo de uma entidade federativa da Eurásia. Graças ao impulso tártaro, turco, os russos se conscientizaram como grão-russos, separando-se para sempre do modelo pequeno-russo de Estado. O elemento tártaro é o fator mais importante tanto para a etno-gênese dos grão-russos como para a forma de governo – para a gênese da própria Rússia – Eurásia”. E, finalmente, a afirmação mais interessante: ”O Islamismo dos cãs tártaros é valioso para a Eurásia não como “uma forma incompleta de ortodoxia”, mas como a variedade ortodoxa do Islamismo. E, inversamente, para o Islamismo ortodoxo não há tradição mais próxima do que a Igreja Ortodoxa” [33].

A. DUGIN considera que os métodos metafísicos servem não só para o estudo da ortodoxia, mas também para o do Islamismo. Assim, ele cita a coincidência da opinião do conhecido metafísico muçulmano Gueidar Djemal com a sua própria: “O Fim é mais fundamental do que o começo ... A Negação é a mais fundamental de todas as realidades”[34]. É revelador que este artigo de A. DUGIN foi por ele publicado no jornal dos comunistas russos “Amanhã” nº 21 (338) no ano 2000. Ao fazê-lo, A. DUGIN revelou um total desconhecimento com um documento analítico com “Jiad do povo tártaro na Rússia”[35], no qual a “proximidade” agressiva do Islã com a ortodoxia foi refletida em mais de uma acepção.

Se levarmos em conta o apelo de A. DUGIN para a superioridade da união com os estados muçulmanos, e a possível tomada do poder por eles da União Européia, surge então a seguinte pergunta:

Qual mecanismo A. DUGIN propõe utilizar para prevenir a repetição da situação que hoje em dia se formou no Afeganistão (tem-se em vista o julgamento de missionários cristãos pelos talibãs)?
Levando-se em conta que, segundo as palavras do Cheiq-ul-Islam Talgat Tadjuddin, a população muçulmana manifesta seu pleno apoio ao presidente Putin, podemos com segurança considerar que ela também assim procederá para com a A. DUGIN, que abertamente demonstrou uma posição favorável em relação às ações do dirigente do país.

Posição em relação à maçonaria contemporânea

Na concepção de A. DUGIN, a maçonaria é em princípio “um movimento iniciático bom, dividido pela influência de forças exteriores num ramo ruim “egípcio” e num bom, cristão e escocês”[36]. Por esta afirmação, A. DUGIN revela sua total incompreensão da teoria maçônica, que nega qualquer religião como base da existência espiritual da sociedade.

Apesar disso, oferece certo interesse a conversa que teve A. DUGIN (ele neste caso se apresentou como autor do almanaque “Anjo Gentil” – AG) com o chefe do ramo francês da “Ordem dos Templários Orientais” (mais tarde reformada por A. CROWLEY), um tal irmão Marcion (Christophe Bouchet) [37] quando da sua chegada na Rússia.

Examinando a ação dos maçons no decurso de alguns séculos, o irmão Marcion analisa o lado oculto da ação da SS na Alemanha de Hitler, considerando que “a maioria dos trabalhos dedicados à pesquisa do nacional-socialismo são simplificações vulgarizadoras que aspiram a apresentá-lo como o um mal absoluto”. Ele, baseado nas publicações de Savitri Devi Mukherji, esposa do brâmane Mukherji, considera que “no interior no Nacional-socialismo existiu uma evidente tendência messiânica”.

Nesta mesma passagem, o irmão Marcion afirma que “tudo o que se diz ter-se passado nos campos de concentração nazistas (e também nos stalinistas) não passa de um enorme exagero”. (Evidentemente o irmão Marcion desconhece os materiais do julgamento de Nurenberg).

Segundo a confissão do irmão Marcion, seções de lojas maçônicas existem em muitos países da Europa Ocidental, incluindo a Iugoslávia, onde, há alguns anos, o número dos seguidores de Crowley era muito grande. À pergunta relacionada com a fé dos maçons ele responde literalmente assim: “Eles creem no poder e na necessidade de dominar, subjugar e governar a si próprios”.

As teorias de Crowley à luz do enfoque metafísico de A. Dugin

A tentativa mal dissimulada de conciliar a ortodoxia com crenças que lhe são opostas deve-nos por de sobreaviso. Neste sentido, A. DUGIN até tenta demonstrar que A. Crowley não é perigoso para qualquer crença como geralmente é descrito. O autor produz uma série de citações que justificam Crowley, tentando provar que ele é somente um dos mais importantes pesquisadores (filósofos) dos nossos tempos. Tal atitude para com o “messias” do satanismo é mais do que reveladora, como também o fato de que, analisando a doutrina de Crowley, ele põe a palavra “satanismo” entre aspas. Exteriormente tenta tomar a posição de um analista independente das diversas crenças, sobre as quais a coletânea contém informações. Na base das reflexões de A. DUGIN também se encontram aqui as concepções metafísicas de Guénon, bem conhecidas por ele. Opondo iniciação e contra-iniciação, ele pensa que “as mais terríveis e sérias deturpações e dessacralizações cabem às pessoas com as melhores intenções, convencidas que são ortodoxas e portadoras do bem mais evidente”. E mais adiante: “Na maioria das vezes os não conformistas religiosos ( “hereges” , “satanistas”) buscam a plenitude da experiência sagrada, que os representantes da ortodoxia não podem lhes oferecer. Não é culpa deles, mas seu infortúnio, e a verdadeira culpa cabe àqueles que permitiram que sua autêntica tradição se transformasse em uma fachada superficial detrás da qual não há simplesmente nada. E talvez precisamente estas forças e grupos suspeitos caminham para a realidade profunda, enquanto que os profanos que permanecem na periferia por todos os meios criam obstáculos” [38].

Por meio de reflexões corriqueiras, A. DUGIN chega mais adiante à conclusão de que o papel “dos satanistas” (ou da Ordem de Seth) na divisão das igrejas ortodoxa, católica e protestante é simplesmente insignificante: pois a formação de A. Crowley se deu no seio da irmandade protestante de Plymouth, cujo propagador foi seu pai. É interessante a seguinte afirmação de A. DUGIN: “todas as vezes que Crowley acentuava o seu “satanismo”, só expressava uma clara compreensão do valor de sua posição diante do campo metafísico que ele conscientemente abandonara. E nada mais”. Desta forma, a doutrina espiritual de A. Crowley se reduz somente a uma negação dos dogmas do protestantismo. Por este mesmo raciocínio, deixa entender que desconhece algo de maléfico nos satanistas russos e na atividade de seitas semelhantes em muitos países do mundo. Mais do que isso, propõe considerar A. Crowley como “herege da heresia”, “um Anticristo no seio do anti-cristianismo”, e que é especialmente indispensável levar em conta, ao se avaliar Crowley, seu autêntico significado para a Rússia [39].

Em outras palavras, A. DUGIN culpa o próprio cristianismo pelo aparecimento das concepções anti-cristãs de A. Crowley: a identificação que Crowley faz de si próprio com o “Anticristo” “não era para ele a expressão do caráter destrutivo de sua missão, mas tão somente uma assimilação de denominações e títulos para provocar, no contexto cultural cristão; títulos estes que os profetas cristãos atribuem, no âmbito de seu contexto religioso (a religião de um Deus que morreu e ressuscitou) a “profetas de uma nova era” [40] que lhes são incompreensíveis”. E de maneira geral, do ponto de vista de A. DUGIN, o próprio A. Crowley de modo “reflexo” e irônico descreve sua magia sexual em termos de Anticristo. Isto é, toda a doutrina de Crowley se reduz a um gracejo! Neste ponto é oportuno lembrar algumas formulações de Crowley em um de seus livros relativo aos sacrifícios humanos: “dependendo dos objetivos místicos devem ser executados esfaqueamentos, espancamentos até a morte, afogamentos, envenenamentos, decapitações, estrangulamentos, autos da fé etc.” [41], ou ainda “O sangue lunar é o melhor, também o é o menstrual, o sangue fresco de uma criança e um fragmento da hóstia sagrada, em seguida, o sangue dos inimigos, depois o de um sacerdote ou de um crente e, em último lugar, o sangue de um animal qualquer” [42]. A. Crowley também recomenda: “O objeto mais conveniente para estes casos é uma criança de sexo masculino, inocente e intelectualmente desenvolvida (“Apontamentos mágicos do irmão “Perturabo” – pseudônimo litúrgico de A. Crowley)”. Dá entender que no período entre 1912 e 1928 ele executou tais sacrifícios numa média de até 150 ao ano [43].

E a parte final do artigo. “Impossível excluir a possibilidade de que o seu negativismo mais repulsivo e evidente, sua antinomia e sua “natureza maléfica” estejam mais próximos da verdade e nos ajudem a adquirir orientações espirituais corretas, pois, não é verdade que o caminho do paraíso esta revestido de maus pensamentos”?[44].

Ao que foi dito não é possível acrescentar mais nada. É verdade, ainda, que no livro “O Fim do Mundo” foi integrada totalmente a obra fundamental de A. Crowley “O Livro da Lei”, o que pode ser considerado uma forma de propaganda para os seguidores de A. DUGIN.

Tentemos formular as posições religiosas de A. DUGIN a partir da breve análise dos materiais acima examinados:
  1. Visão do mundo contrária à Ortodoxia, baseadas na primazia do não ser sobre o ser, com emprego do aparato conceptual e linguístico da metafísica.
  2. Presença na sua doutrina de concepções diretamente ligadas à visão do mundo hindu (tantrismo, metafísica indiana), e também com elementos da Teosofia que refletem as opiniões de R. Guénon (iniciado na Maçonaria, supostamente na Ordem reformada dos Templários Orientais – ou Ordo Templi Orientis, a O.T.O.).
  3. Apelos para “uma reforma” da Ortodoxia, em particular por meio da erosão da Ortodoxia como verdadeira crença, da introdução no interior da Igreja de seus inimigos, da liquidação das tradições ortodoxas, da sua submissão ao Islã e, no final das contas, sua destruição pelo emprego do aparelho administrativo da famigerada União da Eurásia. Como etapa intermediária, uma utilização conjuntural da Ortodoxia para atingir seus próprios objetivos políticos no confronto com os partidários da aliança atlântica na marcha para uma real dominação do mundo.
  4. Uma evidente preferência pelo Islã em detrimento das outras crenças religiosas, no seio de uma relação condescendente para com a maçonaria e o satanismo.
  5. A crença religiosa de A. DUGIN ao contrário das outras doutrinas religiosas tradicionais está dirigida para uma classe social de elite. Para sua compreensão exige-se um preparo específico, em particular de natureza filosófica. E isto coloca esta crença na categoria das ideologias ocultistas e místicas em função da critica que faz das posições conceptuais das principais religiões do mundo.
  6. A arbitrariedade na interpretação dos postulados fundamentais do Cristianismo e uma difusão deste tipo de material através de fontes de informação publicamente acessíveis colocam A. DUGIN fora dos muros da Igreja.
O centro de distribuição da doutrina de A. DUGIN é a loja “Transilvânia” (sita em Moscou, à Rua Tverskaia 6/1 5, telefone 229-87-86/33-45, site www.arktogaia.com). Citemos o conteúdo deste site publicado no jornal:

  • Filosofia
  • História das religiões
  • Geopolítica
  • Metafísica
  • Sociologia
  • Economia
  • Culturologia
  • Politologia
  • Oneirologia
  • Psicologia das profundezas
  • Runologia
  • Geografia sagrada
  • Teoria da conspiração
  • Análise dos acontecimentos correntes
  • Versão na rede das publicações periódicas da Eurásia, links para mensagens, fórum.
Nas instalações da “Transilvânia” se encontra também a loja “Artogaia-2”, onde estão expostos praticamente todos os trabalhos de A. DUGIN, bem como obras fundamentais sobre um vasto círculo de problemas de teologia, política e economia (em particular as obras de G. Wirth, A. Crowley e outros apologistas das crenças anticristãs, os documentos programáticos do movimento “Eurásia” e suas publicações periódicas).

Tendo-se em conta as posições atuais de A. DUGIN, líder de um movimento social populista, podemos supor que, no futuro próximo, a base e a esfera de difusão de sua doutrina irá ampliar-se pelo uso das possibilidades oferecidas pela Câmara dos Deputados e pelo Conselho da Federação e por meio de suas possibilidades editoriais e gráficas. Sobretudo, deve-se esperar um visível apoio do governo para o conglomerado editorial “Arktogaia”, e o emprego de outros meios de informação de massa que deverão fazer propaganda da doutrina de A. DUGIN. Já hoje em dia a base gráfica, utilizada para a impressão dos trabalhos do movimento “Eurásia”, é o complexo de produção gráfica “VINITI”, um das mais modernas e poderosas empresas editoriais no sistema de distribuição de informação de caráter técnico-científico e social da Rússia.

BIBLIOGRAFIA.
Referente à seção: “A doutrina de Aleksandr DUGIN”:
  1. Serguei RIUTKIN. “O crítico Dugin”// Internet, www.russ.ru,9.06.98.
  2. “Anjo Gentil” – Moscou. Atogaia, tomo 1, 1991, pag. 10.
  3. Ibidem, pag. 29.
  4. A. Dugin. “O Fim do mundo. Escatologia e tradição”. Moscou. Artogaia, 1998, pag. 359.
  5. Ibidem, pag. 47.
  6. Ibidem, pag. 1.
  7. “Anjo Gentil”, Artogaia, Tomo 1, 1991, pag. 23.
  8. A. Dugin. O Fim do mundo. Escatoçogia e tradição”. Moscou. Artogaia, 1998, pag 19.
  9. Ibidem, pag. 19.
  10. Ibidem, pag.17.
  11. Ibidem, pag. 365.
  12. A. Dugin. “O Fim do mundo. Escatologia e tradição”. Seção “O tradicionalismo de Guénon” .
  13. A. Dugin. A Igreja cristã”. Moscou.Artogaia, 1998, pag. 29.
  14. A. Dugin. “O Mistério da Eurásia”. Moscou. Artogaia, 1996, pag. 19.
  15. A. Dugin “O grande problema metafísico e a tradição”. Anjo Gentil. Moscou. Artogaia, 1991, tomo 1, pag. 23.
  16. R. Verchillo. “Contra o novo paganismo” “Tver ortodoxa”, nº 7-8, 199.
  17. “O esoterismo cristão”. Anjo Gentil. Moscou. Artogaia, 1991, tomo 1, pag. 67.
  18. A. Dugin. “O Fim do mundo. Escatologia e tradição”. Moscou. Artogaia, 1998, pag. 225.
  19. “O esoterismo cristão” Anjo Gentil. Moscou. Artogaia, 1991, tomo 1, pag. 67.
  20. Ibidem, pag. 68.
  21. A. Dugin. “A metafísica da boa nova”. Moscou. Artogaia, 1996, pag. 12.
  22. Ibidem, pag. 33-34.
  23. Arquimandrita Alípio e arquimandrita Isaías. “Teologia dogmática – ciclo de conferências”. Mosteiro de Troitsko Serguievo, 2000.
  24. A. Dugin. “A metafísica da boa nova”. Moscou. Artogaia, 1996, pag. 148.
  25. A. Dugin. “O mistério da Eurásia”. Moscou. Artogaia, 1996, pag. 55.
  26. Ibidem, pag. 245-246.
  27. A. Dugin. “O fim do mundo. Escatologia e tradição”. Moscou. Artogaia, 1998, pag. 29.
  28. Ibidem, pag. 10.
  29. Ibidem, pag. 10.
  30. Roman Verchillo. “Contra o novo paganismo” (“A propósito das obras de A. Dugin”). Tver ortodoxa, nº 7-9, julho-agosto de 1999. (Mensageiro do centro de informações e análise do prelado Mark, bispo de Éfeso (fascículo 13).
  31. Khoj-Akhmed Nukhaev. “Não estamos interessados na derrota da Rússia”. Resenha sobre a Eurásia, fascículo especial, pag. 4.
  32. A. Dugin. “A terceira capital”. Na coletânea: “A doutrina da Eurásia: teoria e prática”. Moscou. Artogaia, 2001, pag. 39.
  33. Ibidem, pag. 44.
  34. A. Dugin. “O grande problema metafísico e a tradição”. Anjo Gentil, tomo 1, Artogaia, 1991, pag. 22.
  35. I. N. Lotfullin e F. G. Islaev. “O jiad do povo tártaro na Rússia”. Kazan, 1998, pag. 156.
  36. A. Dugin. “Teoria da conspiração”. Moscou. Artogaia, 1991, tomo 1, pag. 48.
  37. Ibidem.
  38. A. Dugin. “O fim do mundo. Escatologia e tradição”. Seção: “Teoria geral da conspiração”. Moscou. Artogaia, 1998, pag. 209.
  39. Ibidem, pag. 366.
  40. A. Dugin. “O fim do mundo. Escatologia e tradição”. Moscou. Artogaia, 1998, pag. 362.
  41. Ibidem, pag. 366.
  42. A. Crowley. “A magia – teoria e prática”. Tomo 1. Edições Lokid-Mif, pag. 167-177.
  43. Ibidem, pag. 384 (citação do livro de Crowley: “O livro das leis”, parte 3, versículo 24”.
  44. A. Crowley. “A magia – teoria e prática”. Tomo 1, Edições Lokid-Mif, pag. 17.

TRADUÇÃO: Luiz Heitor Guimarães
Obrigado ao amigo Saulo por disponibilizar a versão em português para este blog.

Esta condenação foi em 2002, de forma "indireta" através de uma publicação do Dep. Missionário do Patriarcado. Com o cara sendo protegido pelo Putin, infelizmente, uma excomunhão explícita talvez ainda demore. Mas o patriarcado já disse: tem bico de pato, pena de pato, pé de pato, rabo de pato, nada que nem pato, anda que nem pato e grasna que nem pato.