quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

As Três Formas de Conhecimento


  1. Informacional, quando você aprende e compreende racionalmente a respeito de alguma coisa.
  2. Empírica, quando você tem ou testemunha a experiência da coisa conhecida.
  3. Participativa, quando você participa da energia da coisa conhecida.
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  • Relacionado a Deus, o conhecimento informacional é o típico da doutrina e do dogma.
  • O conhecimento empírico é o que alguns místicos e abençoados da Graça têm em caráter excepcional para benefício de todos, seja em êxtases, visões ou profecias.
  • O conhecimento participativo de Deus, ironicamente, é o mais acessível a qualquer um, o mais intenso, o conhecimento final para o qual Deus encarnou-Se e o mais difícil de manter.

O Valor do Arrependimento

Eu fico um pouco triste por ver que nossa sociedade entende o arrependimento como uma forma de fraqueza. 

"Eu não me arrependo de nada" é um slogan de uma sociedade que morre de medo da dor de compreender seus próprios erros, que se acovarda perante a necessidade de reconhece-los publicamente, e se atemoriza diante do esforço para corrigir o que puder ser corrigido.

Só que sem arrependimento, inclusive dos erros que nos foram prazerosos, dos erros que nos ensinaram algo, dos erros que no fim "trouxeram coisas boas", sem sentirmos a dor aguda dos desvios mesmos quando estes nos beneficiaram de alguma forma, nossos olhos jamais verão a verdade, nosso caráter, personalidade e atitude jamais serão autênticos, porque ao invés de lermos a narrativa da nossa vida tal como ela se apresenta, impomos-lhe um sentido que consideramos mais digno e honrado, ou de alguma forma mais desejável.

Antes da vinda de Jesus Cristo - o Caminho, a Verdade e a Vida - tínhamos João Batista que bradava "Arrependei-vos! Endireitai os vossos caminhos!" O arrependimento, o reconhecimento do desperdício de tempo e energia de vida no que era errado, o reconhecimento de que até o que foi "bom para mim" é ruim quando não é harmônico com os caminhos do Senhor, e sentir dor com isso, é condição incontornável para amarmos e sermos amados de verdade.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Sobre Ser Feliz




Desde a época de João Batista até o presente, o Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam. 

Mateus 11:12
Eu vim lançar fogo à terra, e que tenho eu a desejar se ele já está aceso? 

Lucas 12:49
Porque nosso Deus é um fogo devorador. 

Hebreus 12:29
Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca. 

Apocalipse 3:16


Existe uma felicidade "morna" e que é falsa. Trata-se de uma felicidade que alguns chamam de burguesa mas acomete também os pobres e os bilionários além da burguesia. É a felicidade da ausência de problemas, da "paz" que no trajeto do herói é uma das tentações que podem fazê-lo desviar-se da jornada heroica se ele não resistir. Não viemos ao mundo para uma vida de mais ou menos. Viemos para felicidade esfuziante, e para isso, às vezes, temos que abdicar do que é meramente "certo" no sentido de que não causa problemas, para até, se for o caso, comprar brigas e problemas em uma estrada mais gloriosa e brilhante.


Estava ouvindo uma das aulas do Seminário de Filosofia do Olavo de Carvalho e ele cita o Louis Lavelle que diz algo mais ou menos assim, que temos que nos afastar até do círculo das pessoas com quem cultivamos simpatias e empatias naturais para conviver com aquelas com quem teremos a oportunidade de realizar nossas verdadeiras vocações espirituais, ou seja, realizar a nós mesmos, nos tornarmos aquilo para que Deus nos criou. Podemos combinar isso com a primeira citação do Lavelle que o Olavo fez, sobre apenas em momentos isolados termos perfeita clareza do sentido de tudo na nossa vida e que de ordinário nossos sentimentos e visão se fecham para isso e somos envoltos novamente nas trevas. Manter a memória desses momentos, mesmo apesar do cinismo que diz que eles são ilusões, mesmo apesar da dor que nos causa não os termos conosco e nos seduz a racionalizarmos que podemos ficar sem dor se apenas desistirmos dessa felicidade esfuziante é um exercício constante, e que só pode ser realizado precisamente com aquelas tais pessoas com quem podemos realizar nossa vocação espiritual. A felicidade morna não se sustenta e necessariamente se desfaz, decaindo novamente no inferno como vemos na citação do Apocalipse acima. O "violento" é o que luta pelo Reino de Deus, a grande felicidade na nossa vida, para viver uma vida de fogo e intensidade. É necessário resistir à tentação da felicidade morna para conquistarmos a felicidade brilhante.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Asceticismo e a Sociedade Livre





Na última sexta-feira tive a oportunidade de apresentar um trabalho na conferência anual do Instituto Sophia, no Union Theological Seminary. O tópico deste ano era "Casamento, Família, e Amor na Tradição Ortodoxa". O título do meu trabalho foi "O que constitui uma sociedade?" e focava, no contexto do casamento e da família, no desenvolvimento de uma resposta cristã ortodoxa para a questão. As respostas católico-romanas e neo-calvinistas, respectivamente subsidiariedade e esfera de soberania, embora não mutuamente exclusivas, recebem atenção frequente no PowerBlog, mas, até onde sei, nenhuma resposta ortodoxa foi claramente articulada, e por isso pode ser difícil saber onde começar. Estou convicto, porém. que, conforme o tópico da minha pesquisa, que uma resposta ortodoxa historicamente razoável para essa questão pode ser encontrada no conceito de asceticismo, corretamente entendido.

Embora eu não vá reproduzir meu trabalho aqui, pretendo resumir brevemente dois de seus pontos fundamentais que podem ser de interesse geral. Primeiramente, o que é asceticismo? Em segundo lugar, como pode o asceticismo ser visto como um princípio organizacional da sociedade? Finalmente, tenciono explorar rapidamente a relevância deste princípio para uma sociedade livre, tema que vai além do escopo do meu trabalho.

Considerando a primeira questão, é muito importante reconhecer que existem muitas formas de asceticismo. A palavra vem do grego "askesis" e significa basicamente "exercício". Aplicada a nossas vidas espirituais, possui a conotação de recusar confortos para o corpo com o fim de treinar nossas almas através de oração, jejum, doação de esmolas, etc. Mais frequentemente, entretanto, as pessoas lembram apenas dos sentidos negativos quando escutam a palavra, como, por exemplo, o tipo de asceticismo que S. Paulo denuncia na Epístola aos Colossenses dizendo: 

Se em Cristo estais mortos aos princípios deste mundo, por que ainda vos deixais impor proibições, como se vivêsseis no mundo?
Não pegues! Não proves! Não toques!,
proibições estas que se tornam perniciosas pelo uso que delas se faz, e que não passam de normas e doutrinas humanas.
Elas podem, sem dúvida, dar a impressão de sabedoria, enquanto exibem culto voluntário, de humildade e austeridade corporal. Mas não têm nenhum valor real, e só servem para satisfazer a carne. 
Colossenses 2:20-23

O problema com este tipo de asceticismo era que ele confundia os meios com os fins. As disciplinas ascéticas (oração, jejum, esmolas, simplicidade, etc) não são um fim em si mesmas, não para o cristão ao menos. A atitude correta pode ser vista em muitos dos ditos dos pais do deserto, nos quais, por exemplo, eles criticam os que recusam hospitalidade em nome do jejum.

Ao invés, de acordo com S. Moisés, o Etíope, estas disciplinas "devem ser degraus de uma escada na qual o coração ascende ao perfeito amor". E de acordo com o Pe. George Florovsky, "o verdadeiro asceticismo é inspirado não pelo desdém, mas pelo desejo de transformação". O corpo não é visto como algo mau e que merece ser mal-tratado, mas como um instrumento para melhorarmos nossas almas, exercitando-nos nas virtudes e, em última instância, no amor. É o meio pelo qual mortificamos nossos membros na terra e colocamos nossas mentes nas coisas que são de cima (cf. Colossenses 3:1-11). Desta forma, o asceticismo cristão tem, na verdade, uma visão excepcionalmente elevada do corpo: ele não é mau, nem sem valor espiritualmente, mas essencial para nosso desenvolvimento espiritual.

Mas como pode o asceticismo, de ordinário associado exclusivamente com monges e místicos, ser um princípio social? Como escrevi em meu trabalho,

Podemos confirmar isto refletindo nos hábitos cotidianos da família. Não chamamos de disfuncional a família na qual as crianças podem comer sorvete no café-da-manhã, onde a família não passa nenhum tempo juntos voluntariamente, e a desobediência nunca é disciplinada? Não chamamos, com razão, de irresponsáveis os pais que abandonam seus filhos, recusando-se a sacrificarem-se para prover a eles, e que, ao invés, buscam uma existência egoísta? Famílias saudáveis, por outro lado, têm refeições juntas de acordo com as limitações dietéticas auto-impostas ("coma seus legumes, depois pode comer a sobremesa", por exemplo); eles compartilham espaços e tempo uns com os outros; os pais sacrificam seu tempo e desejos para trabalhar para prover para seus filhos; os filhos tem o dever de realizar tarefas domésticas para contribuir com a casa, e assim por diante. A sociedade simplesmente não "funciona" sem a auto-renúncia ascética.

Em meu trabalho, clarifico: "É verdade, tal asceticismo pode ser considerado leve por qualquer padrão e não a corporificação perfeita do ideal, mas o princípio básico deve, mesmo assim, estar presente." Compreendido desta forma, não há sociedade que possa sobreviver sem algum grau de asceticismo.

Eu acho esta perspectiva particularmente adequada à tradição ortodoxa porque ainda existe uma expectativa de que todos pratiquem o asceticismo em certa medida. Quartas e sextas são dias de jejum, e os períodos do Advento e da Quaresma, entre outros, são épocas nas quais maior ênfase é dada, não apenas ao jejum, mas também à oração, esmolas, simplicidade, arrependimento, etc. O asceticismo intencional é ainda um elemento fundamental do ethos ortodoxo, e a tradição ortodoxa está cheia de sabedoria sobre o modo ascético de vida.

Tudo isto está bem e é bom, mas o que significa para uma sociedade livre? De acordo com Edmund Burke,

A sociedade não pode existir, a menos que um poder que controle a vontade e o apetite seja colocado em algum lugar, e quanto menos exista interiormente, mais dele existirá exteriormente. Está ordenado na constituição eterna das coisas, que homens de mentes intemperantes não podem ser livres. Suas paixões forjam seus próprios grilhões.

O asceticismo é historicamente o meio pelo qual os cristãos esmerilham-se, em cooperação com a Graça, para colocar um "poder que controle a vontade e o apetite". Quanto mais autodomínio as pessoas tiverem dentro de si, mais limitado o governo delas pode ser. Quanto mais austeras as próprias pessoas forem, mais terão para dar ao próximo, reduzindo a necessidade de assistência do governo. É assim que a austeridade no governo requer uma cultura de austeridade e generosidade.

Em nossa nação hoje em dia (o autor refere-se aos EUA), ambos são largamente necessários. Temos um problema com o débito que apenas se torna maior a cada dia, e uma parcela significativa disto é devido a termos realizado promessas às gerações futuras que não podemos realisticamente manter se nossas atitudes e práticas em relação a dívidas e déficits não mudarem. Estamos, ao mesmo tempo, prometendo às nossas crianças todo tipo de direitos, muitos dos quais louváveis e que valeriam preservar, mas os quais, postos todos ao mesmo tempo, são economicamente insustentáveis em nosso atual estado. Se quisermos que nosso governo torne-se mais austero em prol da responsabilidade fiscal - e devemos querer isso - então também temos que encorajar uma cultura mais ascética, na qual a austeridade é realizada por generosidade e amor, ou seja, o verdadeiro asceticismo. O asceticismo deve ser visto como um modo de vida, que mantém a sociedade coesa, e por meio do qual somos verdadeiramente livres. De outra forma, seremos prisioneiros de nossas paixões que "forjam nossos grilhões", e precisaremos apenas olhar no espelho para sabermos a quem devemos culpar.