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sexta-feira, 12 de junho de 2015

Teologia de Gênero (02) - Eva, a auxiliadora


por Sofia Matzarioti-Kostara

A palavra "auxiliadora" já pressupõe que Adão necessita de auxílio para fazer alguma coisa. O único trabalho a que o texto se refere é proteger e cultivar o Paraíso. Os primeiros intérpretes do texto sagrado entendiam que o trabalho no Paraíso não era manual, mas espiritual, significando um labor para a perfeição. De acordo com vários escritores cristãos, a pessoa humana foi criada fisicamente perfeita, mas espiritualmente imperfeita. St. Ireneus de Lyons acreditava que o primeiro homem e a primeira mulher não eram moralmente perfeitos desde o início porque, se fossem, suas ações não teriam qualquer significado moral (1). "Embora tenham sido criados à imagem e semelhança como potencialidade, eles se tornam a image e semelhança através do trabalho espiritual e da sua livre-escolha(2). "E a ordem de trabalhar não se refere a nenhum outro labor que não seja cumprir os mandamentos de Deus"(3). A mulher, portanto, foi criada para trabalhar junto com Adão para o crescimento espiritual de ambos. Por isso, de acordo com os Pais, é que Eva recebeu como punição ser governada pelo homem em Gên 3:16(4). Isto é, ao invés de auxiliar o desenvolvimento espiritual de Adão, ela se tornou uma tentadora e causou sua queda. " 

Depois da criação da mulher, Adão regozijou-se de que finalmente (νῦν) encontrara a ajuda que Deus lhe havia prometido. Ele então proclamou e profetizou o destino dessa unidade dos dois (5). Homem e mulher devem ser uma só carne, remoldando a face da humanidade para o que Deus originalmente desejava - uma natureza humana. Temos aqui a instituição do casamento com algumas intuições sociológicas inovadoras. No antigo Oriente Médio, a mulher devia deixar sua família e se juntar à do marido. Opondo-se a esse costume, Adão ordena que os homens deixem tudo e sigam suas esposas. Mesmo assim, essa unidade em uma só "carne" contém um elemento de transiência porque a "carne" é temporária e mortal. Portanto, o casamento é uma instituição deste mundo presente e não se estende a próxima vida. Para São João Crisóstomo, o homem e a mulher são partes do todo da humanidade; ambos são incompletos à sua própria maneira. Eles precisam um do outro com o fim de serem completos e sua perfeição depende da unidade dos dois(6). Na tipologia bíblica, Deus é o νυμφαγωγός(7) do primeiro casal e de todos os casais de todas as épocas. 

A Septuaginta continuou fiel ao texto hebraico original e traduziu a palavra adam (de adama, que significa chão, terra) com a palavra ἂνθρωπος (pessoa humana). Os autores mudam para o nome próprio Ἀδάμ (Adão) apenas no capítulo 2:16 porque desse ponto em diante a história da criação da mulher começa com o plano de Deus de que o homem não deveria ficar só. De acordo com alguns intérpretes, no texto hebreu, a palavra adam não é usada como nome próprio, mas como seu sentido literal de "humanidade" ou "pessoas"(8). Sendo assim, a mulher não teria sido criada do lado do homem (Adão) mas do lado da primeira pessoa humana. Assim, a proclamação de Adão de que a mulher (issa) fora criada do homem (is) faz parecer que isso é uma influência sociológica inserida no texto(9). Esse obstáculo para os intérpretes do texto hebreu deu origem a idéia de que a primeira pessoa humana fora criada como um ser andrógino, mas tal conceito jamais foi adotado pela teologia cristã. 

A criação singular da pessoa humana com imagem e semelhança de Deus é uma grande honra concedida por Deus à humanidade, mas é uma questão difícil para os intérpretes do texto. Embora a expressão dupla "besalmenu kidemutenu" em Gên 1:26 conecte a descritiva saelaem (figura plástica, imagem) com a abstrata demut (similaridade, semelhança)(10) apesar de terem sentidos diferentes, a tradução da Septuaginta indica o uso dos termos "imagem" e "semelhança" como intercambiáveis (11). A interpretação patrística, no entanto, compreende "imagem" como algo dado no ato da criação, enquanto "semelhança" é algo que tem que ser conquistado pela vontade humana trabalhando junto com Deus. O uso da palavra descritiva saelaem no texto não deve nos levar a dizer que se trata de uma tentaiva de antropormofização de Deus, mas ao contrário é uma teomorfização da pessoa humana(12). O ponto principal da narrativa é que a pessoa humana não é auto-sustentável, mas vem de Deus e vive uma vida transparente na sua presença. A humanidade veio a existir, compartilhando algo com Seu criador (Seu sopro(13)) e representando Deus nesse mundo de acordo com sentido original da palavra saelaem.(14) 

Depois da Bíblia, Tatiano foi o primeiro dos escritores cristãos a utilizar os temos "imagem e semelhança", e os compreendia como se referindo ao Espírito Santo o qual fez o homem compartilhar a imortalidade de Deus. Depois da queda, os seres humanos separaram-se do Espírito de Deus e se tornaram mortais(15). "Pois o homem foi feito de uma natureza intermediária, nem completamente mortal, nem inteiramente imortal, mas capaz de ambas"(16). De acordo com o professor John Romanides: "Perfeição moral e imortalidade (...) constituem toda a base da compreensão da imagem e semelhança de Deus e da antiga doutrina cristã da queda e da salvação"(17). A despeito de várias interpretações sobre a imagem e semelhança de Deus, nós podemos entendê-la como uma cruz com a dimensão horizontal se referindo à unidade da natureza humana (18) e a dimensão vertical se referindo a nossa relação com Deus (19). 

As criaturas amadas foram colocadas no Paraíso para desfrutarem da felicidade com apenas uma restrição. Havia um fruto que lhes era proibido. A árvore do “conhecimento do bem e do mal” é mencionada apenas no Gênese em mais nenhum lugar nas Escrituras. São Téofilo de Antioquia diz: “...a árvore do conhecimento em si era boa, seu fruto era bom. Pois não era a árvore, como alguns pensam, mas a desobediência que continha morte em si. Pois nada havia no fruto senão conhecimento; o conhecimento, porém, é bom quando é usado com discernimento”(20). No Antigo Testamento, o conhecimento não é teórico, distante do sujeito, mas inclui o sujeito (21) algumas vezes de um modo bem material como quando Adão conhece Eva “conheceu Adão a sua esposa Eva, e ela concebeu e deu à luz Cain”(22). Da mesma forma, no Antigo Testamento, conhecer Deus é ser conhecido por Deus e pressupõe uma relação mútua. Assim, o conhecimento de Deus significa a característica pessoal de um reconhecimento mútuo. O mesmo se aplica no caso do bem e do mal, e de como o pecado e o mal entraram na vida humana. 



[1] J. Romanides, The Ancestral Sin, (Ridgewood, 2002), 126.



[2] Irenaeus, Refutação citada em Romanides, The Ancestral Sin, 158.



[3] St. Theophilus of Antioch, To Autolycus, in Romanides, The Ancestral Sin, 125.



[4] «πρός τόν ἂνδρα σου ἡ ἀποστροφή σου, καί αὐτός σου κυριεύσει» Gên 3:16.



[5] «τοῦτο νῦν ὀστοῦν ἐκ τῶν ὀστέων μου καί σάρξ ἐκ τῆς σαρκός μου ‘ αὓτη κληθήσετε γυνή, ὃτι ἐκ τοῦ ἀνδρός αὐτῆς ἐλήφθη αὓτη’ ἓνεκεν τούτου καταλείψει ἂνθρωπος τόν πατέρα αὐτοῦ καί τήν μητέρα καί προσκολληθήσεται πρός τήν γυναῖκα αὐτοῦ, καί ἒσονται οἱ δύο είς σάρκα μίαν» Gên 2:23,24.



[6] Mais sobre a interpretação de Crisóstomo sobre o casamento em S. Papadopoulos, “Ὁ Γάμος: Μυστήριο Ἀγάπης καί Μυστήριο «εἰς Χριστόν» (Θεολογική προσέγγιση τοῦ μυστηριακοῦ χαρακτήρα τοῦ Γάμου)” no livro Ιερά Σύνοδος της Εκκλησίας της Ελλάδος, Ὁ Γάμος στήν Ὀρθόδοξη Ἐκκλησία, (Αθήνα, 2004).



[7] O que leva o noivo até a noiva.



[8] Pentiuc, Jesus the Messiah, 8.



[9] Ibid., 21.



[10] W. Zimmerli, Ἐπίτομη Θεολογία τῆς Παλαιᾶς Διαθήκης, Μετάφραση Π. Στογιάννος, Β΄ Έκδοση, (Αθήνα, 2001), 42.



[11] Pentiuc, Jesus the Messiah, 9.



[12] Zimmerli, Ἐπίτομη Θεολογία, 43.



[13] «καί ἐνεφύσησεν εἰς τό πρόσωπον αὐτοῦ πνοήν ζωῆς, καί ἐγένετο ὁ ἂνθρωπος εἰς ψυχήν ζῶσαν» Gên 2:7.



[14] C. Westermann, Genesis 1-1: A Commentary, trans. John Scullion (Minneapolis, 1984), 147-155.



[15] Romanides, The Ancestral Sin, 147.



[16] St. Theophilus of Antioch, To Autolycus, in Romanides, The Ancestral Sin, 125.



[17] Romanides, The Ancestral Sin, 111.



[18] Estamos todos conectados aos outros porque todos compartilhamos a imagem de Deus.



[19]Precisamos estar em comunhão com nosso Criador. Ver Pentiuc, Jesus the Messiah, 6, 13.



[20] St. Theophilus of Antioch, To Autolycus, in Romanides, The Ancestral Sin, 125



[21] Zimmerli, Ἐπίτομη Θεολογία, 185.



[22] «Ἀδάμ δέ ἒγνω Εὒαν τήν γυναῖκα αὐτοῦ καί συλλαβοῦσα ἒτεκε τόν Κάϊν» Gên 4:1.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Teologia de Gênero (01) - A Narrativa da Criação


Sofia Matzarioti-Kostara
Original: Pemptousia (http://pemptousia.com/2015/05/the-theology-of-gender-1-the-story-of-creation/)

A narrativa da criação apresenta os princípios básicos da vida e comportamento humanos. É a principal referência para o entendimento cristão das questões existenciais da humanidade. No livro de Gênesis, desdobra-se a relação peculiar dos seres humanos com seu Criador. Nele está contido o mistério do propósito do mundo, assim como o destino de nossa existência.

De acordo com o Gênese, Deus criou tudo no mundo para servir sua amada criatura, a pessoa humana. Os seres humanos são o propósito de toda a criação. Deus criou um ambiente perfeito para Sua criatura mais preciosa e queria compartilhar com ela Sua vida Divina. A criação da humanidade é um ato criador especial de Deus e que foi feito em estágios (1) em contraste com a criação de todas as outras coisas, que foram feitas imediatamente com uma só palavra. A importância da criação do homem é indicada pelo fato de que esse ato é precedido por um pensamento divino, de acordo com o qual o homem é criado segundo a imagem de Deus (2). Nenhum outro ser na história da criação é comparável com o cuidado especial que o Criador teve por essa criatua amada.

A perspectiva de Gênesis, a qual é a história primitiva do destino humano em todas as épocas, tem sido interpretada de modos diferentes, com pontos fortes e fracos em cada interpretação. Apesar do método de examinar o texto - linguístico, histórico, teológico, sociológico - e tentando sermos justos com o texto, quando o autor se refere aos princípios da vida humana ou das características humanas em geral, ele utiliza a palavra ἂνθρωπος (humano) sem distinção de gênero. Assim aprendemos que a humanidade (ἂνθρωπος) foi criada com bipolaridade de gênero (3). Ele(4) foi criado do pó, e recebeu o sopro de Deus em suas narinas (5). Deus pôs Sua criatura no Paraíso e pediu que ele o protegesse e cultivasse (6). Deus então ordenou a Adão que eles (7) não comessem da árvore do "conhecimento do bem e do mal", porque fazê-lo o mataria (8).

Em uma segunda perspectiva da criação, é realizada uma descrição detalhada da criação da mulher do lado de Adão. A criação da mulher é também precedida por um pensamento divino: Adão não deve ficar sozinho; Deus irá dar-lhe uma auxiliadora(10). Essa auxiliadora, de acordo com alguns intérpretes, reflete a vontade de Deus de ajudar Sua criatura e deve ser vista como uma providência divina e um cuidado por sua criação (11). Ainda assim, para outros, a palavra "auxiliadora", junto com a expressão "em harmonia com ele" (κατ᾿ αὐτόν), é interpretada como um argumento para apoiar a opinião de que a mulher foi criada para atender as necessidades do homem. Tal opinião não é fiel ao texto porque nas Escrituras a palavra "auxiliadora" pode se referir a alguém superior (Deus, anjos), inferior (animais) ou iguais (outro ser humano) à pessoa necessitada de ajuda (12). De fato, a mulher deve ser entendida como uma auxiliadora do homem, um ser de igual hierarquia, e ambos compartilham a responsabilidade de trabalhar juntos. Essa visão é apoiada pelo próprio texto, já que Adão buscava por uma auxiliadora que fosse "igual" a ele (ὃμοιοs)(14) entre as criaturas vivas que Deus colocara à sua frente. Essa mesma interpretação é dada por S. João Crisóstomo (15) que escreveu longos comentários sobre o Gênese e sobre o casamento.

[1] Veja mais em E. Pentiuc, Jesus the Messiah in the Hebrew Bible, (Mahwah, 2006), 5.

[2] «καί εἶπεν ὁ Θεός΄ποιήσωμεν ἂνθρωπον κατ΄ εἰκόνα ἡμετέραν καί καθ’ ὁμοίωσιν» Gên 1:26.

[3]«..καί ἐποίησεν ὁ Θεός τόν ἂνθρωπον, κατ’ εἰκόνα Θεοῦ ἐποίησεν αὐτόν, ἂρσεν καί θῆλυ ἐποίησεν αὐτούς» Gên 1: 27.

[4] "Ele" não se refere ao gênero masculino, mas expressa a palavra masculina "ἂνθρωπος" que se refere a todos os humanos.

[5] «καί ἒπλασεν ὁ Θεός τόν ἂνθρωπον, χοῦν ἀπό τῆς γῆς, καί ἐνεφύσησεν εἰς τό πρόσωπον αὐτοῦ πνοήν ζωῆς, καί ἐγένετο ὁ ἂνθρωπος εἰς ψυχήν ζῶσαν» Gên 2:7.

[6] «Καί ἒλαβε Κύριος ὁ Θεός τόν ἂνθρωπον, ὃν ἒπλασε, καί ἒθετο αὐτόν ἐν τῷ παραδείσω τῆς τρυφῆς, ἐργάζεσθαι αὐτόν καί φυλάσσειν» Gên 2:15.

[7] Mudado para o plural por que refere-se tanto ao homem quanto à mulher.

[8] «καί ἐνετείλατο Κύριος ὁ Θεός τῷ Ἀδάμ λέγων’ ἀπό παντός ξύλου τοῦ ἐν τῷ παραδείσω βρώσει φαγῇ, ἀπό δέ τοῦ ξύλου τοῦ γινώσκειν καλόν καί πονηρόν, οὐ φάγεσθε ἀπ’ αὐτοῦ’ ᾓ δ᾿ ἂν ἡμέρα φάγητε ἀπ᾿ αὐτοῦ, θανάτω ἀποθανεῖσθε» Gên 2:16-17.

[9] «καί ἒλαβε μίαν τῶν πλευρῶν αὐτοῦ καί άνεπλήρωσε σάρκα ἀντ᾿ αὐτῆς. Καί ᾠκοδόμησεν ὁ Θεός τήν πλευράν, ἣν ἒλαβεν ἀπό τοῦ Ἀδάμ, εἰς γυναῖκα καί ἢγαγεν αὐτήν πρός τόν Ἀδάμ» Gên 2:21,22.

[10] «Καί εἶπε Κύριος ὁ Θεός΄οὐ καλόν εἶναι τόν ἂνθρωπον μόνον΄ποιήσωμεν αὐτῷ βοηθόν κατ᾿ αὐτόν» Gên 2:18.

[11] Pentiuc, Jesus the Messiah, 15.

[12] Theodosios Haralampopoulos, Περί της Θέσεως της Γυναικός Έναντι του Ανδρός κατά την Ορθόδοξον Χριστιανικήν Εκκλησίαν καί περί Φόβου Θεού (Αθήνα: 2004), 7-9.

[13] É isso que significa a expressão “κατ᾿ αὐτόν”.

[14] «τῷ δέ Ἀδάμ οὐχ εὑρέθη βοηθός ὃμοιος αὐτῷ» Gên 2:20.

[15] «…Τό μέλλον δημιουργεῖσθαι ζῶον τοῦτό ἐστι περί οὗ ἒλεγε΄ “ποιήσωμεν αὐτῷ βοηθόν κατ᾿ αὐτόν”, ὃμοιον αὐτῷ φησι, τῆς αὐτῆς αὐτῷ οὐσίας, ἂξιον αὐτοῦ, μηδέν αὐτοῦ λειπόμενον…Οὐκέτι γάρ εἶπε “ἒπλασεν” ἀλλ᾿ “ᾠκοδόμησεν” ΄ἐπειδή ἐκ τοῦ ἢδη πλασθέντος τό μέρος ἒλαβε ΄καί, ὡς ἂν εἲποι τις, τό λεῖπον ἐχαρίσατο…καί τέλειον καί ὁλόκληρον καί ἀπηρτισμένον κατασκευάσαι, τό δυνάμενον καί προσδιαλέγεσθαι καί τῇ τῆς οὐσίας κοινωνία πολλήν αὐτῷ τήν παραμυθίαν εἰσφέρειν» “Εἰς Γέν., Ὁμιλία ΙΕ” PG 53, 120-122.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Asceticismo e a Sociedade Livre





Na última sexta-feira tive a oportunidade de apresentar um trabalho na conferência anual do Instituto Sophia, no Union Theological Seminary. O tópico deste ano era "Casamento, Família, e Amor na Tradição Ortodoxa". O título do meu trabalho foi "O que constitui uma sociedade?" e focava, no contexto do casamento e da família, no desenvolvimento de uma resposta cristã ortodoxa para a questão. As respostas católico-romanas e neo-calvinistas, respectivamente subsidiariedade e esfera de soberania, embora não mutuamente exclusivas, recebem atenção frequente no PowerBlog, mas, até onde sei, nenhuma resposta ortodoxa foi claramente articulada, e por isso pode ser difícil saber onde começar. Estou convicto, porém. que, conforme o tópico da minha pesquisa, que uma resposta ortodoxa historicamente razoável para essa questão pode ser encontrada no conceito de asceticismo, corretamente entendido.

Embora eu não vá reproduzir meu trabalho aqui, pretendo resumir brevemente dois de seus pontos fundamentais que podem ser de interesse geral. Primeiramente, o que é asceticismo? Em segundo lugar, como pode o asceticismo ser visto como um princípio organizacional da sociedade? Finalmente, tenciono explorar rapidamente a relevância deste princípio para uma sociedade livre, tema que vai além do escopo do meu trabalho.

Considerando a primeira questão, é muito importante reconhecer que existem muitas formas de asceticismo. A palavra vem do grego "askesis" e significa basicamente "exercício". Aplicada a nossas vidas espirituais, possui a conotação de recusar confortos para o corpo com o fim de treinar nossas almas através de oração, jejum, doação de esmolas, etc. Mais frequentemente, entretanto, as pessoas lembram apenas dos sentidos negativos quando escutam a palavra, como, por exemplo, o tipo de asceticismo que S. Paulo denuncia na Epístola aos Colossenses dizendo: 

Se em Cristo estais mortos aos princípios deste mundo, por que ainda vos deixais impor proibições, como se vivêsseis no mundo?
Não pegues! Não proves! Não toques!,
proibições estas que se tornam perniciosas pelo uso que delas se faz, e que não passam de normas e doutrinas humanas.
Elas podem, sem dúvida, dar a impressão de sabedoria, enquanto exibem culto voluntário, de humildade e austeridade corporal. Mas não têm nenhum valor real, e só servem para satisfazer a carne. 
Colossenses 2:20-23

O problema com este tipo de asceticismo era que ele confundia os meios com os fins. As disciplinas ascéticas (oração, jejum, esmolas, simplicidade, etc) não são um fim em si mesmas, não para o cristão ao menos. A atitude correta pode ser vista em muitos dos ditos dos pais do deserto, nos quais, por exemplo, eles criticam os que recusam hospitalidade em nome do jejum.

Ao invés, de acordo com S. Moisés, o Etíope, estas disciplinas "devem ser degraus de uma escada na qual o coração ascende ao perfeito amor". E de acordo com o Pe. George Florovsky, "o verdadeiro asceticismo é inspirado não pelo desdém, mas pelo desejo de transformação". O corpo não é visto como algo mau e que merece ser mal-tratado, mas como um instrumento para melhorarmos nossas almas, exercitando-nos nas virtudes e, em última instância, no amor. É o meio pelo qual mortificamos nossos membros na terra e colocamos nossas mentes nas coisas que são de cima (cf. Colossenses 3:1-11). Desta forma, o asceticismo cristão tem, na verdade, uma visão excepcionalmente elevada do corpo: ele não é mau, nem sem valor espiritualmente, mas essencial para nosso desenvolvimento espiritual.

Mas como pode o asceticismo, de ordinário associado exclusivamente com monges e místicos, ser um princípio social? Como escrevi em meu trabalho,

Podemos confirmar isto refletindo nos hábitos cotidianos da família. Não chamamos de disfuncional a família na qual as crianças podem comer sorvete no café-da-manhã, onde a família não passa nenhum tempo juntos voluntariamente, e a desobediência nunca é disciplinada? Não chamamos, com razão, de irresponsáveis os pais que abandonam seus filhos, recusando-se a sacrificarem-se para prover a eles, e que, ao invés, buscam uma existência egoísta? Famílias saudáveis, por outro lado, têm refeições juntas de acordo com as limitações dietéticas auto-impostas ("coma seus legumes, depois pode comer a sobremesa", por exemplo); eles compartilham espaços e tempo uns com os outros; os pais sacrificam seu tempo e desejos para trabalhar para prover para seus filhos; os filhos tem o dever de realizar tarefas domésticas para contribuir com a casa, e assim por diante. A sociedade simplesmente não "funciona" sem a auto-renúncia ascética.

Em meu trabalho, clarifico: "É verdade, tal asceticismo pode ser considerado leve por qualquer padrão e não a corporificação perfeita do ideal, mas o princípio básico deve, mesmo assim, estar presente." Compreendido desta forma, não há sociedade que possa sobreviver sem algum grau de asceticismo.

Eu acho esta perspectiva particularmente adequada à tradição ortodoxa porque ainda existe uma expectativa de que todos pratiquem o asceticismo em certa medida. Quartas e sextas são dias de jejum, e os períodos do Advento e da Quaresma, entre outros, são épocas nas quais maior ênfase é dada, não apenas ao jejum, mas também à oração, esmolas, simplicidade, arrependimento, etc. O asceticismo intencional é ainda um elemento fundamental do ethos ortodoxo, e a tradição ortodoxa está cheia de sabedoria sobre o modo ascético de vida.

Tudo isto está bem e é bom, mas o que significa para uma sociedade livre? De acordo com Edmund Burke,

A sociedade não pode existir, a menos que um poder que controle a vontade e o apetite seja colocado em algum lugar, e quanto menos exista interiormente, mais dele existirá exteriormente. Está ordenado na constituição eterna das coisas, que homens de mentes intemperantes não podem ser livres. Suas paixões forjam seus próprios grilhões.

O asceticismo é historicamente o meio pelo qual os cristãos esmerilham-se, em cooperação com a Graça, para colocar um "poder que controle a vontade e o apetite". Quanto mais autodomínio as pessoas tiverem dentro de si, mais limitado o governo delas pode ser. Quanto mais austeras as próprias pessoas forem, mais terão para dar ao próximo, reduzindo a necessidade de assistência do governo. É assim que a austeridade no governo requer uma cultura de austeridade e generosidade.

Em nossa nação hoje em dia (o autor refere-se aos EUA), ambos são largamente necessários. Temos um problema com o débito que apenas se torna maior a cada dia, e uma parcela significativa disto é devido a termos realizado promessas às gerações futuras que não podemos realisticamente manter se nossas atitudes e práticas em relação a dívidas e déficits não mudarem. Estamos, ao mesmo tempo, prometendo às nossas crianças todo tipo de direitos, muitos dos quais louváveis e que valeriam preservar, mas os quais, postos todos ao mesmo tempo, são economicamente insustentáveis em nosso atual estado. Se quisermos que nosso governo torne-se mais austero em prol da responsabilidade fiscal - e devemos querer isso - então também temos que encorajar uma cultura mais ascética, na qual a austeridade é realizada por generosidade e amor, ou seja, o verdadeiro asceticismo. O asceticismo deve ser visto como um modo de vida, que mantém a sociedade coesa, e por meio do qual somos verdadeiramente livres. De outra forma, seremos prisioneiros de nossas paixões que "forjam nossos grilhões", e precisaremos apenas olhar no espelho para sabermos a quem devemos culpar.

domingo, 23 de dezembro de 2012

O Mistério do Natal




Com seu nascimento em uma humilde manjedoura, o Criador de Todas as Coisas, inicia a consumação do seu amoroso plano de salvação da humanidade. Descendo da Eternidade para o mundo físico, Jesus se torna um de nós, um ser de carne e histórico. E por que o Filho de Deus faria isto? Não poderia ele em sua onipotência realizar nossa Salvação sem submeter-se às dores da carne, sem os suores, as ingratidões, infâmias, traição e morte que viriam em seguida? Não é Deus o Senhor, cuja Palavra fez existir todo o universo e um mero sopro tornou um boneco de barro em uma criatura viva e inteligente à sua própria imagem e semelhança? Qual é o mistério da Encarnação do Filho de Deus no Natal?

A resposta, meus caros, é que realmente Deus não estava e não está forçado por nenhuma necessidade ou imperativo para realizar o que fez e ainda faz hoje em dia, pois nada há maior do que Ele. Sendo assim, em absoluta liberdade para fazer outra coisa que não nos salvar, ou realizar a salvação sem dor alguma para si, Deus escolhe encarnar-se como um de nós, exclusivamente por amor. Os ensinos, o que aprendemos do exemplo, tudo isso, por importante que seja, é secundário em face da experiência intensa do amor de Deus por nós, iluminando nossos corações e almas. Deus não veio apenas para ensinar, apenas para profetizar, apenas para educar. Veio para amar. Amar os que iriam amá-lo de volta, amar os que não o compreenderiam, amar até os que iriam odiá-lo. De fato, diz-nos a Santa Escritura que Ele já nos amava quando nós o odiávamos. E odiamos a Deus quando queremos fazer as coisas a nossa maneira, quando queremos que Ele apenas subscreva a nossa vontade como se fosse um mordomo dos nossos desejos. Mas Ele nos ama primeiramente, mesmo assim, pois o Amor verdadeiro não ama virtudes, qualidades, histórias, que nada mais são que abstrações, por belas que sejam. Ama pessoas concretas, seres humanos inteiros, ama-os mais que às suas virtudes e a despeito de seus defeitos.

O Amor de Deus é o amor verdadeiro. Não é um sentimento. Não se satisfaz em sentir amor, não é uma história romântica que montada na cabeça fica aguardando as pessoas que melhor vão interpretar os papéis pré-determinados no roteiro imaginado e que, por vezes, tentamos fazer acontecer "na marra". Não é a expectativa de um bem-estar ou de conforto. O Verdadeiro Amor, como vemos no nascimento de Cristo é união, presença intensa, doação, pois ali a natureza humana e a natureza divina unem-se, sem mistura e sem perder suas peculiaridades, na pessoa de Jesus Cristo, o Qual, por isto, é chamado de completamente Deus e completamente Homem, dupla natureza que representamos com os dois dedos dobrados durante o sinal da Cruz.

Mencionei antes que o Amor verdadeiro não acontece "na marra", por mera força do querer através de ações impositivas. Deus é onipotente, porém Ele não nos obriga, nem mesmo a vivenciarmos seu Amor se não quisermos, muito menos nos força a amar outras pessoas. Sabemos disso através de outra consumação da perfeição, esta perfeição já relativa e humana, que é a presença doce, humilde e majestosa da jovem Maria, Nossa Senhora, a Teotókos. Maria ali representa toda a humanidade. Deus não a força a participar de seu plano. Deus não aparece impondo-se em toda Seu poder infinito. Ao contrário, Ele envia um amigo, um anjo, para levar à Maria um pedido: "Eu gostaria de fazer isto, por amor de todos vocês. Você me permite?" Vejam, amigos que é o "Senhor dos Exércitos", o Criador, Deus Poderoso, Luz do Mundo, Primeiro e Último, Rei das Nações, Senhor da Glória,o Sol Nascente, O Senhor dos mortos e dos vivos, O Eterno forte e poderoso, o Eterno poderoso na batalha, O Sol da justiça, O justo juiz dos vivos e dos mortos, que, diante de uma moça de 14 ou 15 anos, gentilmente pede-lhe permissão de executar a Salvação de todo o universo, simplesmente porque todo ato de amor começa com uma escolha em liberdade. Para a realização do amor, da união de Deus com a Humanidade, o "sim" livremente escolhido é a porta de entrada. Assim como pelo "não" de Eva toda a humanidade caiu, pelo "sim" de Maria todos nós fomos salvos. É o Inimigo quem tenta enredar suas vítimas com palavras e atos envolventes, forçando situações e sentimentos. É este Inimigo que busca que sua vontade e desejos realizem-se "na marra". Isto não é amor. O Amor começa com o "sim" de Maria, cresce na união, na presença, na participação na vida do amado, como Jesus participou da nossa vida, comendo, bebendo, crescendo, trabalhando, suando, ferindo-se, conhecendo nossas alegrias e nossas dores. E consuma-se, como veremos mais tarde, na entrega total da vida, novamente voluntária e por livre escolha como Jesus fez na Cruz, transfigurando assim, a própria escuridão da morte em Vida ressuscitada, luminosa e eterna.

Digamos sim com Maria para a vontade de Deus em nossas vidas, para que Cristo Deus, nasça na manjedoura de nossos corações, iluminando os animais que ali habitam e representam nossos instintos; iluminando São José, ancião protetor da jovem menina e que representa a fé, a honradez e nossas virtudes; recebendo a visita dos pastores que representam a humildade; recebendo a visita dos anjos e que representam a graça de Deus; e a visita dos Reis Magos, que representam a sabedoria, a inteligência, a riqueza e o poder que se curvam em adoração obediente perante o Menino Deus.

sábado, 23 de julho de 2011

Amy Winehouse e a Incoerência

As pessoas reclamam de vivermos em uma época que preza o ter acima do ser, e que mede as pessoas como objetos pelo que elas podem oferecer e fazer ao invés do que pelo que são.

Pois bem. Morre uma pessoa que no quesito ser era auto-destrutiva, abusava do poder que tinha (talento e beleza são formas de poder), e recusava toda ajuda. Sua única qualidade redentora era... cantar bem, uma qualidade puramente técnica. E porque essas músicas eram agradáveis todo o resto do que ela foi não importa.

Ele é corrupto, mas ajuda a gente, ela é auto-destrutiva e um exemplo corruptor, mas é bonita e canta bem, ele é promíscuo e desrespeita as mulheres, mas é bom ator, ela é burra e superficial, mas tem um corpão. Oras, meu povo, mais critério e coerência

Que Deus se apiede de sua alma, não lhe impute suas faltas porque todos somos miseráveis e pecadores! Senhor tem piedade da alma de tua criatura, vira Tua face das acusações do inimigo, e que Teus anjos a protejam!

Foto de Amy Winehouse quando era criança, antes das opções que acabaram com sua vida. Que seja assim que ela seja recebida por Deus, mas que tenhamos o discernimento de não seguir o seu exemplo nem glamurizar seus erros. Como disse o padre ortodoxo americano Moisés, quando ele vê mulheres se prostituindo na rua, pessoas se drogando, bandidos de todo matiz na prisão, a forma que ele tem de estimular o amor por eles é lembrar que "um dia, todos estes eram crianças brincando no parquinho". Algo deu errado no meio do caminho. Que Deus tenha piedade!

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Verdade. Beleza. Cristo.


O cristianismo ortodoxo ensina que existe uma clara diferença entre Deus, que é incriado, e o mundo, que é criado. Deus é bom, e porque Deus criou o mundo, o mundo é bom; mas o mundo também é caído, e como resultado disso surgem novas diferenças: entre o velho e o novo, morte e vida, o profano e o sagrado, todos os tons de sombras e a própria Luz. A salvação pode ser entendida como o crescimento da pessoa humana, saindo das categorias anteriores para as posteriores – do velho, do morto, do profano, e das sombras para o novo, para a vida, o sagrado e para a luz. Esta jornada de salvação nos é apresentada de modo profundo nos estilos e formas tradicionais do culto cristão.

Considere, por exemplo, o uso da língua litúrgica. A língua que utilizamos em nossos ofícios de culto contém um estilo elevado que é digno da mensagem elevada que pretende transmitir – a mensagem da salvação. Então, a língua litúrgica é feita para reforçar no adorador a percepção da distinção entre o mundo dos homens que ele deixa para trás, e o mundo de Deus que ele é chamado a entrar. E não é só a linguagem: a arquitetura da igreja, a música, a iconografia, as vestimentas, cada uma destas é, dentro da Igreja, um modo de expressão único que é divinamente inspirado.

Existem os que crêem que o ofício de culto não deveria reforçar a distinção entre o sagrado e o profano. Para eles, a estética da igreja deve imitar a estética secular – bandas de rock contemporâneas ao invés de música litúrgica, cartazes inspiracionais ao invés de ícones, “células” ao invés de sacramentos. Mas tudo isso pode ter uma conseqüência perigosa: o mundo de Deus desaparece.

Se a forma da arte da Igreja for igual à forma da arte do homem caído, então não haverá expressão material da nossa salvação, e a Igreja terá desistido do núcleo do seu testemunho na terra. Nossa salvação só é possível porque o Deus Imaterial assumiu a criação material (isto é, Deus que é Espírito, tomou sobre Si a carne e a natureza humanas). Portanto, a Igreja utiliza a criação material tanto para anunciar a verdade da Encarnação em sua plenitude, mas também para permitir nossa participação no Senhor que ascendeu ao Céu, carregando a Criação Consigo.

Os modos de expressão do homem são corrompidos, e portanto, inadequados para a tarefa de adquirir conhecimento a respeito de Deus, dado que fluem a partir de nosso estado pecaminoso. Já os modos de expressão da Igreja são divinamente inspirados e portanto um e outro não podem ser idênticos. As formas materiais particulares da Igreja não sugerem um Deus distante de nosso mundo caído, mas, ao contrário, proclamam Sua presença em nosso meio.

Considere duas realidades fundamentais da relação do homem com Deus: primeiro que caímos e ficamos longe de Deus; e em segundo lugar, que Deus veio nos restaurar para Ele. A Igreja proclama ambos, mas não o realiza amarrando Deus em nossa natureza partida, mas elevando o homem à perfeição que é Deus. O culto, para o cristão ortodoxo, não é o ato de fazer Deus ser real para nós – isto já foi realizado por Cristo – mas de fazermos nós mesmos sermos reais para Deus.

Cristo realiza a deificação do homem através de Sua participação na natureza humana criada, e o homem se apropria dessa deificação pela participação no Divino, especialmente através da vida sacramental da Igreja. Este encontro do humano com o divino é uma experiência física total, que não se limita ao intelecto, mas afeta tudo que é da natureza humana, incluindo seus cinco sentidos.  A arte secular exerce uma enorme influência na alma, precisamente porque o ser humano é uma unidade integrada de corpo e alma, do físico e do espiritual. A Igreja, então, utiliza a matéria – ou, por outra, a criação material – para produzir formas de arte espiritualizadas que adornam, expressam e clarificam os Mistérios Sacramentais da Igreja, tornando-as, assim, instrumentos da deificação do homem. A iconografia, o canto, os hinos, são Mistérios em si mesmos, porque, diferentemente da arte secular, possuem a capacidade de deificar.

Por esta razão, nossa linguagem e iconografia e canto devem ser diferentes das do mundo caído, e devemos nos conformar estritamente às normas estabelecidas pelos divinamente inspirados Pais da Igreja, cujas próprias almas estavam purificadas a ponto deles terem tornado-se límpidos canais da influência divina.

Considerando esta necessária relação entre a possibilidade da salvação e a arte sacra utlizada para proclamar esta possibilidade, podemos dizer que o modo pelo qual um grupo de cristãos cultua diz ao mundo o que ele acredita a respeito da encarnação de Cristo.

Adaptado de “The Pentecostarion”, publicado pelo Monastério da Santa Transfiguração, em Brookline, Massachusetts.

Artigo original em: http://www.antiochian.org/discover

segunda-feira, 4 de abril de 2011

São Martinho de Braga

Caríssimos,


como disse em recente entrevista o Patriarca Bartolomeu I, "Antes do Grande Cisma de 1054, toda a Europa era Ortodoxa. "


Portugal, a pátria-mãe do Brasil, e de onde onde herdamos a fé cristã, também era católico ortodoxo durante todo o primeiro milênio.


Um grande santo ortodoxo do século VI, foi São Martinho de Dume, ou São Martinho de Braga. Nascido na Panónia, região onde hoje é a Hungria, recebeu educação romaica (bizantina), tendo viajado para o Oriente Médio onde familiarizou-se com o monaquismo. Compreendendo ter um chamado missionário na região que hoje é o norte de Portugal e parte da Galícia, viajou ao extremo Ocidente. Ali, foi responsável pela conversão dos bárbaros suevos, que até então eram arianos, para o catolicismo ortodoxo, pela primeira tradução para o latim dos "Dizeres dos Padres do Deserto", entre inúmeros outros livros, além de ter sido responsável por criar os nomes dos dias da semana em português, sendo a única língua européia que não dá nome de deuses pagãos para estes dias.


Abaixo, vejam uma das obras deste grande santo, educando os pagãos da região, bem como os cristãos recém-convertidos e que ainda se entregavam a feitiçarias e superstições.



De Correctione Rusticorum
Martinho de Braga – Carta ao Bispo Polémio
Ao digníssimo senhor e para mim muito querido irmão em Cristo, o bispo Polémio, Martinho, bispo.
[1] Recebi de sua santa caridade uma carta na qual me escreve que, para admoestação das gentes rurais, que continuam presas a antigas superstições de pagãos e prestam culto e veneram mais os demónios do que a Deus, te dirigisse por escrito algumas considerações, ao menos um resumo do muito que se poderia dizer, sobre a origem dos ídolos e das suas perversidades. Porém, porque se trata de proporcionar a jeito de exemplo, uma informação que para eles seja pertinente, ainda que breve, começando na criação do mundo, tornou-se-me necessário, em exposição condensada, de ligeiro resumo, abranger a floresta ingente dos momentos do passado e do que então aconteceu e preparar para gente rural alimento em linguagem rústica. Por isso mesmo, com a ajuda de Deus, será este o exórdio da tua pregação:
[2] Desejaríamos, filhos caríssimos, apresentar-vos, em nome do Senhor, algo de que ou nunca ouvistes falar, ou que, se porventura ouvistes, votastes ao esquecimento. Dirigimo-nos, por isso, à vossa caridade a fim de que, quanto vos é proposto para vossa salvação, o escuteis com a devida atenção. É verdade que é largo o desenvolvimento que segue pela via das Sagradas Escrituras, mas, para que retenhais ao menos alguma coisa na memória, dentre muitos ensinamentos confiamo-vos o pouco que se segue.
[3] Depois de, no princípio, ter Deus feito o céu e a terra, fez, naquela morada celeste, criaturas espirituais, isto é, os anjos, para estarem na sua presença e O louvarem. Um de entre eles, que, por ser o primeiro de todos, fora feito arcanjo, ao ver-se em tamanha glória, não prestou honra a Deus, seu criador, mas proclamou-se igual a Ele; foi por causa desta arrogância que, juntamente com outros anjos que lhe deram assentimento, foi derribado daquele assento celestial para o firmamento que fica debaixo do céu; e ele que antes era arcanjo perdeu a luz da sua glória e tornou-se em diabo tenebroso e horrível. De igual modo os outros anjos que lhe tinham dado assentimento foram com ele atirados para fora do céu e, perdendo o esplendor da sua glória, foram transformados em demónios. Porém, os restantes anjos, que se mantiveram submissos a Deus, continuam, na glória da sua claridade, na presença do Senhor, e são chamados anjos santos, enquanto aqueles que, com o seu príncipe Satã, pela sua arrogância foram expulsos, recebem o nome de anjos transviados ou demónios.
[4] Foi, portanto, depois desta queda dos anjos, que aprouve a Deus plasmar o homem do limo da terra; pô-lo no Paraíso e disse-lhe que, se observasse o preceito do Senhor, passaria, sem morrer, para aquele lugar celestial, de onde os anjos rebeldes tinham caído. Se, porém, transgredisse os mandamentos de Deus, teria morte certa. Vendo, pois, o diabo (ou os seus ministros, os demónios) que o homem tinha sido criado com um fim, que era o de ocupar o seu lugar, no reino de Deus de onde caíra, levado pela inveja, persuadiu o homem a transgredir as ordens de Deus. Por esta ofensa foi o homem expulso do Paraíso para o exílio deste mundo, onde haveria de padecer muitos trabalhos e dores.
[5] Ora, teve o primeiro homem o nome de Adão e sua mulher, que Deus criou da carne dele, recebeu o de Eva. Foi a partir destes dois seres humanos que se propagou o género humano. Esquecidos eles de Deus, seu Criador, praticaram muitos crimes e exasperaram a Deus até à indignação. Por tal motivo, Deus enviou o dilúvio e exterminou-os a todos, excepto a um homem justo, chamado Noé, a quem salvaguardou com seus filhos, para restabelecer o género humano. Ora, desde o primeiro homem, Adão, até ao dilúvio, decorreram dois mil duzentos e quarenta e dois anos.
[6] Após o dilúvio, de novo o género humano foi restabelecido pelos três filhos de Noé, preservados juntamente com suas mulheres. E, corno começasse a crescer a multidão, os homens, esquecendo-se outra vez de Deus criador do mundo, abandonaram o criador e começaram a prestar culto às criaturas. Uns adoravam o sol, outros a lua ou as estrelas, uns o fogo, outros a água profunda ou as fontes de água, julgando que todas estas coisas não tinham sido criadas por Deus para os homens delas se servirem, mas que elas próprias, criadas por si mesmas, eram deuses.
[7] Então o diabo e os seus ministros, os demónios, que tinham sido lançados fora do céu, vendo que os homens, na sua ignorância, haviam abandonado o seu Criador e andavam errantes pelas criaturas, começaram a aparecer-lhes em diversas formas, a falar com eles e a reclamar-lhes que lhes oferecessem sacrifícios no cimo dos montes e nas florestas frondosas e lhes prestassem culto como a Deus, disfarçando-se com nomes de homens criminosos, que tinham passado a sua vida em toda a sorte de crimes e delitos, de tal modo que um se dizia Júpiter, o qual tinha sido mago e tinha cometido tantos incestos que tivera por sua esposa a própria irmã, que se dizia Juno, violou as suas filhas, Minerva e Vénus, e, na sua torpeza, cometeu também incestos com netas e com todos os seus aparentados, enquanto que outro demónio se deu o nome de Marte e foi instigador de litígios e de discórdia. De seguida, outro demónio quis tomar para si o nome de Mercúrio, o qual foi um inventor astucioso, em tudo o que era de furto e de fraude; a este, qual deus do lucro, os homens gananciosos ao passarem pelas encruzilhadas, atiram pedradas e oferecem-lhe montões de pedras em sacrifício. Outro demónio ainda aplicou a si próprio o nome de Saturno, o qual, vivendo de todo o género de crueldades, devorava até os seus filhos logo ao nascerem. Outro demónio fingiu também que era Vénus, que tinha sido uma meretriz que não só se prostituiu com um sem número de homens, mas também com Júpiter, seu pai, e com Marte, seu irmão.
[8] Aí está quem foram, naquele tempo, esses homens desgraçados, aos quais, por seus expedientes mais que perniciosos, homens ignorantes dos campos honraram e cujos nomes, pois, os demónios se puseram a si próprios para lhes prestarem culto, como se fossem deuses, e imitarem as acções daqueles cujos nomes invocavam. Persuadiram-nos também os demónios a construírem-lhes templos, a colocarem aí imagens ou estátuas de homens criminosos e a levantarem-lhes altares onde lhes derramassem sangue não só de animais, mas até de seres humanos. Além disso, aliás, muitos demónios dos que foram expulsos do céu figuram como patronos, seja no mar seja nos rios seja nas fontes seja nas florestas, e há homens que, na sua ignorância de Deus, de modo semelhante, lhes prestam culto, como se fossem deuses e lhes oferecem sacrifícios. No mar, realmente, dão-lhes o nome de Neptuno, nos rios o de Lâmias nas fontes o de Ninfas, nos bosques o de Dianas, que tudo são demónios malignos e espíritos nefandos. São eles quem faz mal e atormenta os homens sem fé, que não sabem munir-se do sinal da cruz. Todavia, não lhes fazem mal sem permissão de Deus, porque Deus está irado com eles. E eles não crêem na fé de Cristo com todo o coração, mas vivem de tal forma equivocados que até para cada dia da semana invocam nomes de demónios, chamando-lhes dia de Marte, de Mercúrio, de Júpiter, de Vénus, de Saturno, que nunca fizeram dia algum, mas foram homens muito maus e criminosos entre as gentes dos Gregos.
[9] Ora, foi Deus omnipotente, quando fez o céu e a terra, quem criou então a luz; e foi para diferenciar as obras de Deus que esta foi posta a perfazer sete revoluções. De facto, na primeira, fez Deus a luz, que recebeu o nome de dia; na segunda, foi feito o firmamento do céu; na terceira, a terra foi separada do mar; na quarta, foram feitos o sol, a lua e as estrelas; na quinta, os quadrúpedes, os voláteis e os animais aquáticos; na sexta, foi plasmado o homem; ao sétimo dia, porém, depois de completado o mundo todo e o seu ornamento, deu-lhe Deus o nome de descanso. Uma Única e mesma luz, pois, que foi a primeira a ser criada nas obras de Deus, ao fazer a revolução sete vezes, para diferenciar as obras de Deus, recebeu o nome de se(pti)mana. Que loucura é, pois, essa que um homem baptizado na fé de Cristo não cultua o dia de domingo, em que Cristo ressuscitou, e afirma cultuar o dia de Júpiter, de Mercúrio, de Vénus e de Saturno, que não são senhores de qualquer dia, antes foram adúlteros, magos e iníquos e morreram com má reputação na sua pátria? Pelo contrário, como dissemos, sob o disfarce desses nomes é prestada honra e veneração a demónios, por homens estultos.
[10] De igual modo, um outro embuste se intrometeu em homens ignorantes dos campos para pensarem que o início do ano são as calendas de Janeiro, o que é uma falsidade total e completa. Na verdade, segundo diz a Escritura santa, o início do primeiro ano ocorreu a oito das calendas de Abril no equinócio. Assim, com efeito, se lê: e fez Deus a divisão entre a luz e as trevas. Ora, toda a divisão perfeita pressupõe igualdade, tal como acontece a oito das calendas de Abril em que o dia tem tantas horas como a noite. E por isso é falso que o começo do ano sejam as calendas de Janeiro.
[11] Já agora, que há que dizer, não sem mágoa, de um estultíssimo erro que leva a observarem os dias das lagartas e dos ratos e, se é que é permitido dizê-lo, leva um homem cristão a venerar ratos e lagartas em vez de Deus? Se com o resguardo de uma cuba ou de uma gaveta, não se lhes subtrai um pão ou um pano, de forma alguma, por lhes serem dedicados uns dias de festa, eles pouparão o que encontrarem. Sem razão, aliás, arranja esse pobre homem tais prognósticos, como o de que, por no começo do ano ter em tudo fartura e prosperidade, assim também lhe tocará todo o ano. Todas essas observâncias dos pagãos são maquinadas por estratagemas dos demónios. Mas ai daquele homem a quem Deus não for favorável e não houver dado abastança de pão e segurança de vida! Eis que estas vãs superstições vós as praticais quer às ocultas quer às claras. E nunca cessais de fazer estes sacrifícios dos demónios. Então, porque não vos proporcionam que tenhais sempre fartura, segurança e prosperidade? Porque é que, quando Deus se indigna, esses sacrifícios são inúteis para vos defenderem de gafanhotos, ratos e outras muitas atribulações que Deus vos manda na sua indignação?
[12] Não está claro para a vossa compreensão que os demónios vos mentem nessas vossas observâncias que em vão praticais e que vos enganam com os augúrios a que prestais atenção com tanta frequência? Na verdade, como diz Salomão em sua grande sabedoria: adivinhações e augúrios são coisas vãs; e quanto mais andar inquieto o homem com elas, tanto mais vive no engano o seu coração. Não lances neles o teu coração porque arruinaram a muitos. Eis que é a Escritura Sagrada que o diz, e é bem verdade assim, pois que os demónios tantas vezes persuadem os homens na sua infelicidade através do piar das aves que, por coisas frívolas e vãs perdem a fé de Cristo, e, sem se aperceberem, caem no abismo da sua morte. Não mandou Deus que o homem conhecesse o futuro, mas que, vivendo sempre no seu temor, esperasse d ‘Ele orientação e auxílio para a sua vida. Só a Deus pertence saber algo antes que isso aconteça; aos homens insensatos, porém, os demónios enganam-nos com diversos argumentos até os levarem a ofender a Deus e arrastarem consigo as almas deles para o inferno, como desde o início fizeram por inveja da sua parte, para o homem não entrar no reino dos céus, do qual eles foram expulsos.
[13] Foi também por esta razão que, quando Deus viu os homens na sua infelicidade de tal modo enganados pelo diabo e seus anjos maus que, esquecidos do seu Criador adoravam os demónios por Deus, enviou Ele o seu Filho, isto é, a sua Sabedoria e o seu Verbo, a fim de os retirar do engano diabólico para o culto do verdadeiro Deus. E como a divindade do Filho de Deus não podia ser vista pelos homens, tomou carne humana do seio da Virgem Maria, concebida não da união com um homem, mas do Espírito Santo. Tendo, pois, o Filho de Deus nascido em carne humana, escondendo por dentro a Deus invisível, enquanto por fora ficava visível o homem, pregou aos homens; ensinou-lhes que abandonassem os ídolos e as obras más, saíssem do poder do diabo e voltassem ao culto do seu Criador. Depois de ter completado o seu ensino, quis deixar-se morrer pelo género humano. Sofreu a morte voluntariamente, sem ser forçado; foi crucificado pelos judeus, a julgamento de Pôncio Pilatos, que, sendo originário do Ponto, naquela altura estava à frente da província da Síria; deposto da cruz, foi colocado num sepulcro; ao terceiro dia ressuscitou vivo dos mortos e durante quarenta dias conviveu com os seus doze discípulos, e, para demonstrar bem que era verdadeira a carne que tinha ressuscitado, comeu perante os seus discípulos depois da ressurreição. Passados, porém, quarenta dias, ordenou aos seus discípulos que anunciassem a todos os povos a ressurreição do Filho de Deus e os baptizassem em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, para remissão dos pecados, e ensinassem os que tivessem sido baptizados a afastarem-se das más acções, i.e., dos ídolos, de homicídio, de furtos, de perjúrio, de fornicação, e que aquilo que não queriam que lhes fizessem a eles não o fizessem aos outros. E depois de ter ensinado isto, à vista dos seus discípulos, subiu ao céu e aí está à direita do Pai, e daí, no final deste mundo, há-de vir com a mesma carne que levou consigo para o céu.
[14] Quando, porém, vier o fim deste mundo, todos os povos e todo o homem cuja origem procede dos primeiros seres humanos, isto é, de Adão e Eva, todos ressuscitarão tanto bons como maus; e todos hão de vir ante o tribunal de Cristo. E, nessa altura, aqueles que durante a sua vida foram bons fiéis serão separados dos maus e entrarão no reino de Deus com os santos anjos. E as almas deles ficarão, com a sua carne, no descanso eterno, para não morrerem mais. Aí já não haverá para eles nem fadiga nem dor nem tristeza, não haverá fome ou sede, nem calor ou frio, nem trevas ou noite, mas, viverão sempre na alegria e na abundância. Em luz e glória, serão semelhantes aos anjos de Deus, pois mereceram ter entrada naquele lugar de onde caiu o diabo com os anjos que a ele deram assentimento. Aí, pois, permanecem eternamente todos aqueles que ficaram fiéis a Deus. Com efeito, os que não tiveram fé ou os que não foram baptizados, ou por outro lado os que, tendo-o sido realmente, depois do baptismo de novo voltaram aos ídolos e a homicídios, ou a adultérios e augúrios ou a perjúrios e outras más acções e morreram sem penitência, todos os que assim forem encontrados serão condenados com o diabo, e com todos os demónios a quem cultuaram e cujas obras fizeram, e são metidos, com a sua carne, em fogo eterno, no inferno, onde um braseiro inextinguível está perpetuamente vivo e onde essa carne, já recebida da ressurreição, por entre gemidos, é atormentada eternamente. Deseja morrer de novo, para não sentir os castigos, mas não é permitido morrer, a fim de sofrer torturas eternas. Eis o que diz a lei, o que dizem os profetas, o que o Evangelho de Cristo, o que o Apóstolo e o que a Escritura Santa toda atestam, e é isto que nós agora vos resumimos ao mínimo e com termos simples. A vós, filhos caríssimos, a partir daqui pertence recordar o que por nós acaba de ser dito e, ou, agindo bem, esperar o repouso futuro no reino dos céus, ou (que isso não aconteça!), agindo mal, aguardar que haverá um fogo perpétuo. Com efeito, quer a vida eterna, quer a morte eterna são deixados ao arbítrio do homem. O que cada um escolher para si próprio, isso terá.
[15] Vós, pois, homens crentes, que tivestes acesso ao baptismo, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, considerai que pacto fizestes com Deus nesse mesmo baptismo. Com efeito, quando cada um de vós deu o nome junto das fontes, por exemplo, Pedro ou João ou qualquer outro nome, foi-vos perguntado assim pelo sacerdote: «Como te chamas?» Respondeste ou tu, se já podias responder, ou, ao menos quem por ti testemunhou, quem estava a acolher-te da fonte, dizendo: «Chama-se João». E perguntou o sacerdote: «João, renuncias ao diabo e aos seus anjos, aos seus cultos e ídolos, a roubar e a enganar que são coisas dele, à fornicação e à embriaguez que vêm dele, e a todas as suas obras más?» E respondeste: «Renuncio». Depois desta renúncia ao diabo, de novo foste interrogado pelo sacerdote: «Crês em Deus Pai omnipotente?» respondeste: «Creio». «E em Jesus Cristo, seu único Filho, Senhor nosso, que nasceu, pelo Espírito Santo, da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado e sepultado, ao terceiro dia ressuscitou vivo dos mortos, subiu aos céus, está sentado à direita do Pai de onde há-de vir julgar os vivos e os mortos, crês?» E respondeste: «Creio». E de novo te foi perguntado: «Crês no Espírito Santo, na santa Igreja Católica, na remissão de todos os pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna?» E respondeste: «Creio». Eis, pois! Tende em conta que pacto fizestes com Deus no baptismo: prometestes renunciar ao diabo e aos seus anjos e a todas as suas obras más, e confessastes que acreditáveis no Pai e no Filho e no Espírito Santo e que esperáveis no fim dos séculos a ressurreição e a vida eterna.
[16] Eis qual o vosso penhor e confissão que se guarda junto de Deus! Como é que alguns de vós, que renunciaram ao demónio e aos seus anjos, e aos seus cultos e às suas obras más, agora voltam ao culto do diabo? Pois acender velinhas a pedras, a árvores e a fontes e pelas encruzilhadas, o que é isso senão culto ao diabo? Observar adivinhações, augúrios e dias dos ídolos, que outra coisa é senão cultuar o diabo? Observar Vulcanálias e Calendas, ornar mesas, pôr louros, fazer observância do pé e derramar grãos e vinho no fogo, sobre um tronco, ou atirar com pão para a fonte, que outra coisa é senão culto do diabo? As mulheres invocarem Minerva no tear, e observarem o dia de Vénus para o casamento, e atenderem ao dia em que se sai para viajar, que outra coisa é senão culto do diabo? Fazer encantamentos de ervas para malefícios e invocar os nomes dos demónios com encantamentos, que outra coisa é senão culto ao diabo? E há muito mais que seria demorado enumerar. Eis que tudo isto fazeis depois de renúncia ao diabo, após o baptismo, e, tornando ao culto dos demónios e às más acções da idolatria, já violastes a vossa fé e já rompestes com o pacto que fizestes com Deus. Deixastes de lado o sinal da cruz que recebestes no baptismo e apegais-vos a outros sinais do diabo, por aves e espirros e muitas outras coisas. Porque é que a mim, ou a qualquer outro cristão praticante, não faz mal um augúrio? Porque, onde tiver primazia o sinal da cruz, o sinal do diabo não é nada. Porque vos faz mal a vós? Porque desprezais o sinal da cruz e receais aquilo que vós próprios preparastes como sinal. Do mesmo modo pusestes de lado o encantamento sagrado que é o símbolo que no baptismo recebestes e que é Creio em Deus Pai omnipotente e a oração dominical, i. é, Pai nosso que estás nos céus, e atendes-vos a encantamentos e ensalmos do diabo. Quem quer que despreze o sinal da cruz de Cristo e volte a olhar para esses sinais, já perdeu o sinal da cruz que recebeu no baptismo. O mesmo se passa com aquele que se atém a outros sortilégios congeminados por magos e homens de mal; ao sortilégio do símbolo santo e da oração dominical que recebeu com a fé de Cristo, já o perdeu e calcou aos pés a fé de Cristo, pois não se pode cultuar ao mesmo tempo a Deus a ao diabo.
[17] Se, pois, filhos muito amados, compreendestes tudo isto que vos acabamos de dizer, se alguém reconhece que, depois de recebido o baptismo, fez estas coisas e rompeu com a fé de Cristo, não desespere de si nem diga no seu coração: «Como fiz tantas coisas más depois do baptismo, talvez Deus não me perdoe os meus pecados». Não duvides da misericórdia de Deus. Basta que tu, no teu coração, faças com Deus um pacto de nunca mais cultuar o que é próprio do demónio e não adorar nada a não ser o Deus do céu nem cometer homicídio nem adultério ou fornicação, não praticar furto e não fazer perjúrios. E quando tu de todo o coração prometeres isto a Deus e daí em diante não cometeres estes pecados, espera confiadamente o perdão de Deus, pois assim disse o Senhor pelo texto do Profeta: qualquer que seja o dia em que o pecador esquecer as suas iniquidades e praticar a justiça, também eu esquecerei todas as suas iniquidades. Deus, pois, espera por penitência. Esta é, porém, a verdadeira penitência: que o homem nunca mais cometa os erros que cometeu, mas peça indulgência para os pecados anteriores e se acautele quanto ao futuro para não voltar de novo a eles, mas, antes, pelo contrário, pratique boas obras e dê esmola aos pobres, restaure as forças ao estranho cansado e tudo quanto gostaria que lhe fosse feito a ele por outro ele o faça a outrem e o que não gostaria que lhe fizessem a ele não o faça a outrem, porque nesta palavra se cumprem os mandamentos de Deus.
[18] Por isso vos rogamos, irmãos muito queridos, que retenhais na memória estes preceitos que Deus, por nós, humílimos e exíguos, se digna dar-vos e penseis como haveis de salvar as vossas almas, de tal modo que não trateis unicamente das coisas transitórias, ainda que úteis, deste mundo, mas antes recordeis aquilo em que no símbolo prometestes acreditar, isto é, na ressurreição da carne e na vida eterna. Se, pois, acreditastes e continuais a acreditar que haverá ressurreição da carne e vida eterna no reino dos céus entre os anjos de Deus, como já acima vos dissemos, pensai o mais que puderdes nisso e não sempre na miséria do mundo. Preparai o vosso caminho com boas acções. Sede assíduos a orar a Deus, na igreja ou em locais dedicados aos santos. O dia do Senhor, que, por isso mesmo se chama domingo, dado que o Filho de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, nele ressuscitou dos mortos, não o desrespeiteis mas cultuai-o com reverência. Trabalho servil, i. é, cuidar do campo, do prado, da vinha, ao menos enquanto se trata de trabalho pesado, não o façais em dia de domingo, exceptuando apenas o que respeita aos afazeres da cozinha para satisfazer as necessidades do corpo e a necessidade de uma longa viagem. No dia do Senhor é permitido ir a sítios próximos, mas não para ocasiões de pecado, antes de boas acções, como seja, ir a locais santos, visitar um irmão ou amigo, assistir um doente ou levar um bom conselho a um atribulado ou ajuda para boa causa. É assim, pois, que convém que o homem cristão venere o dia do Senhor. Na verdade seria por demais iníquo e vergonhoso que aqueles que são pagãos e ignoram a fé de Cristo, porque prestam culto aos ídolos dos demónios, cultuem o dia de Júpiter ou de qualquer outro demónio, e se abstenham de trabalhos quando é sabido que nunca os demónios criaram qualquer dia ou ele lhes pertence e nós, que adoramos o verdadeiro Deus e cremos que o Filho de Deus ressuscitou dos mortos, quanto ao dia da sua ressurreição, ou seja, o domingo, não o respeitássemos minimamente! Não façais, pois, injúria à ressurreição do Senhor, mas homai-a e cultuai-a com reverência, pela esperança que temos relativamente a ela. Na verdade, assim como Ele, Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, que é a nossa cabeça, ao terceiro dia ressuscitou dos mortos na sua carne, assim também nós, que somos seus membros, esperamos vir a ressuscitar na nossa carne, no fim do mundo, a fim de cada qual receber ou o descanso eterno ou a pena eterna; consoante procedeu com o seu corpo neste século, assim receba.
[19] Eis como nós, tomando como testemunhas a Deus e os santos anjos que nos ouvem, pelo uso que agora fazemos da palavra, satisfazemos a nossa dívida para com a vossa caridade, e como, da riqueza do Senhor, tal como nos está preceituado, vos fazemos penhor. Cabe-vos a vós agora pensar e procurar como cada um a quanto recebeu irá apresentá-lo com juros quando o Senhor vier no dia de juízo. Rogamos, pois, à clemência do Senhor, que vos proteja de todo o mal e vos faça dignos companheiros dos seus santos anjos, no seu reino. Isso vos conceda Aquele que vive e reina pelos séculos dos séculos. Ámen.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Anúncio sobre Vassula Ryden pelo Patriarcado Ecumênico



A Igreja Ortodoxa, seguindo estritamente o exemplo e o ensino luminosos dos Santos Apóstolos, o ensino dos Pais da Igreja que sucederam estes Apóstolos, e as decisões divinamente inspiradas dos Sínodos Ecumênicos, resguarda como uma pérola valiosa a fé da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica a qual é vivenciada por todos os cristãos através da participação nos Sacramentos e toda a vida espiritual do divinamente fundado corpo eclesiástico.

Portanto, são rejeitados sempre como uma inovação inaceitável, quaisquer movimentos ou tensões geradas, pessoais ou coletivas, em menosprezo ou ruptura com os dogmas da fé e vida cristã ortodoxa dentro da Igreja como único caminho para a salvação de nossas almas, especialmente as auto-proclamadas personalidades "supostamente carismáticas".

Neste espírito, e para a proteção benéfica da plenitude dos fiéis ortodoxos em face de uma perigosa confusão espiritual, ao não perceberem bem as questões nais quais há risco de ilusão, expulsamos da Igreja Mãe, Vasiliki Paraskevis Pentaki-Ryden, conhecida como "Vassula", e sua organização fundada sob o título "Verdadeira Vida em Deus"(True Life in God) que precipitada e frivolamente prega ensinos baseados no suposto "diálogo direto entre ela(Vassula) e o Fundador da Igreja, Jesus Cristo, Nosso Senhor"; assim como (expulsamos) os que foram conquistados por ela e os apoiadores do "Verdadeira Vida em Cristo", que escandaliza a mentalidade ortodoxa dos crentes piedosos,e se desvia voluntariamente dos ensinos da Igreja, dados por Deus.

Assim, convocamos todos os proponentes destas inovações inaceitáveis e os apoiadores que as mantêm, os quais a partir de agora não são mais aceitos na comunhão eclesiástica,  não somente a não estarem envolvidos no trabalho pastoral da sua Santa Metrópolis local, mas também a não pregarem os ensinos novos, para que se evitem as devidas sanções de acordo com os Santos Cânones.

Expressamos, finalmente, a profunda tristeza do Patriarcado Ecumênico a respeito dos atos de nove membros do clero da Igreja Ortodoxa - felizmente são poucos - que se descobriu estarem em diálogos com a dita "Vassula" e lhe concederam um "certificado de Ortodoxia".

No Patriarcado, 16 de março de 2011
do Secretário-Chefe do Santo e Sagrado Sínodo

Original: http://www.ec-patr.org/docdisplay.php?lang=gr&id=1306&tla=gr
Traduzido do inglês, no site: http://www.johnsanidopoulos.com/2011/03/announcement-on-vassula-ryden-by.html

sábado, 1 de janeiro de 2011

A Festa do Tempo

http://www.pravmir.com/article_1196.html

Igúmeno Simeão (Gagatik)
01 de Janeiro de 2011



Na véspera do ano novo, muitos meditam sobre o significado desta festa e sobre porque tantos amam esta data. Existem também alguns irmãos queridos que questionam porque os cristãos ortodoxos deveriam associar qualquer significado especial a esta data.

Desde minha ordenação, eu começo todo ano novo com as palavras: "Bendito é o Reino do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, agora e sempre e na era das eras". Este momento é sempre um dos mais bonitos que eu tenho.

E por que? Porque é belo glorificar o Reino da Santa Trindade no primeiro momento do ano. É por isso que esta festa religiosa é tão maravilhosa e bonita.

"Religiosa?" - alguns podem perguntar. Sim, precisamente uma festa religiosa. Temos esta festa em nosso Menaion, onde é chamada de "Início do Novo Ano". É comemorada de acordo com o Typikon, com a Grande Doxologia. Muitos poderiam dizer: "Mas esse é o início do Ano Novo Eclesiástico, no dia 01 de setembro". A questão é que a palavra "eclesiástico" não se encontra em lugar nenhum associada com este ofício: não está no Typikon, nem no Menaion, nem em nenhuma oração, em lugar nenhum. Eu acho que a palavra "eclesiástico" veio para os calendários de hoje por causa de um mal-entendido. O Ano Novo era celebrado no dia 01 de setembro porque era o início do Ano Novo no Império Romaico - o início do ano civil. A Igreja assinalou uma festa especial para o início deste ano novo secular e civil. Por que? A resposta a essa pergunta pode ser encontrada nos hinos do ofício do Ano Novo. A Igreja pede a Deus para abençoar o Ano Novo, para fazê-lo um ano da misericórdia de Deus, um ano de salvação.

Em outras palavras, a Igreja pede para Deus transfigurar o tempo físico, biológico e político em um tempo místico - um tempo que nos une à eternidade. A benção de Deus não é pedida sobre um "ano novo eclesiástico", isso não encontraremos no ofício festal. É precisamente o tempo normal de nossa vida que tem necessidade da benção de Deus, com o fim de transformá-lo no tempo de nossa salvação. Assim como abençoamos a água normal e assim como batizamos um corpo normal, os quais então deixam de ser normais se tornam santos, então, da mesma forma, não abençoamos um "ano eclesiástico", mas o próprio ano norma de nossa vida para fazê-lo santo.

É verdade que as pessoas hoje em dia sentem o Ano Novo de forma mais intensa.Isso se explica pelo fato de que o tempo para a pessoa moderna é dramático e trágico como nunca fora antes. Nunca antes a vida do ser humano foi tão sem sentido como hoje. Em todas as épocas anteriores, a vida de cada um estava relacionada de alguma forma com a eternidade. Quanto mais eternidade havia na vida diária, menos significado tinha o passar do tempo. Hoje a eternidade desapareceu da vida do homem, e apenas o tempo ficou. Provavelmente é por isso que celebramos o Ano Novo tão festivamente. Estamos tentando nos esconder do horror da aproximação inevitável de um fim sem sentido.

Em uma tal situação a Igreja deve ainda mais proclamar que existe algo além do tempo, e que nossa vida não é limitada por este tempo. É por isso que é tão importante, e também tão belo, iniciar o Ano Novo com a glorificação e a benção do Reino eterno da Santa Trindade.