quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Meus Dois Centavos Sobre o Capitalismo



Caro leitor,

abaixo você encontrará a tradução que fiz da transcrição de um dos programas de podcast do Prof. Dr. de Filosofia Clark Carlton. O professor Carlton dá aulas de história da filosofia, lógica e filosofia da religião na Tennessee Tech University. Você pode escutar os podcasts dele, em inglês, neste endereço:


Transcrição

Venham e pedi-me a prestação de contas, diz o Senhor. Embora vossos pecados sejam escarlates, eles serão brancos como a neve; embora sejam vermelhos carmim, serão como a lã. Se fordes obedientes e o quiserdes, comereis o fruto da terra.

Olá, e bem-vindos mais uma vez ao “Fé e Filosofia”. O assunto de hoje é “Meus Dois Centavos sobre o Capitalismo”. Irei retornar ao tópico da linguagem teológica nos podcasts futuros, e quando o fizer, quero dar um foco especial nas Escrituras e como devemos lê-las.

Mas hoje, quero fazer um pequeno desvio. Eu tenho me colocado em dia com vários dos últimos podcasts aqui na Ancient Faith Radio. E fiquei intrigado com uma série deles sobre o capitalismo. Sendo assim, enquanto o assunto ainda está fresco na minha cabeça, eu quero contribuir com meus dois centavos.
O que se segue não busca ser uma refutação do que quer que tenha sido dito por alguém aqui. Ao invés, meus comentários têm o objetivo de clarificar os termos e questões que têm sido levantados. A única crítica que tenho sobre as discussões anteriores é que houve uma falta de contexto histórico. Tentar definir os termos abstratamente, sem referência a seus desenvolvimentos históricos, irá inevitavelmente levar a distorções.

Basicamente, quero detonar com dois mitos que cercam o capitalismo, e daí meus dois centavos. O primeiro mito é que o capitalismo depende da propriedade privada e do livre-mercado. O segundo é que o progressismo e o socialismo são alternativas reais ao capitalismo.

Vamos começar com o primeiro mito, e isso com certeza vai levantar algumas sobrancelhas. Historicamente, o capitalismo tem se provado um inimigo da propriedade privada, não seu defensor. É, é, eu sei. Todos nós já ouvimos quem defina o capitalismo como posse privada de propriedade, em contraste com o socialismo que seria a posse pública do capital.

Mas esta definição é enganadora e pouco útil. As pessoas já possuíam propriedade privada por milênios antes do surgimento do capitalismo. Os romanos reconheciam a posse privada, assim como os gregos e os judeus. A propriedade privada não é uma invenção moderna. De fato, o republicanismo clássico dependia da posse privada da propriedade e, portanto, nas virtudes da classe de cidadãos proprietários.

Karl Marx recebeu bem e elogiou o capitalismo. Aposto como você não ouviu isso nas escolas públicas. Você diz, “Marx queria eliminar a propriedade privada”. E queria mesmo. Mas ele via o capitalismo como um estágio necessário no desenvolvimento sócio-econômico da humanidade – um desenvolvimento que, segundo ele acreditava, levaria inexoravelmente a uma utopia comunista.

Dito de outra forma, o capitalismo é essencial para a concentração da propriedade nas mãos de alguns poucos. Isto alcança duas coisas dentro da perspectiva comunista: acentua as desigualdades socioeconômicas até o ponto no qual o proletariado irá se erguer em revolução, e deixa a transição para o comunismo mais fácil porque apenas uns poucos são donos da propriedade.

Além disso, o capitalismo prospera apenas em mercados controlados, não em livre-mercados. Algumas das discussões nos podcasts focavam no capitalismo laissez-faire. Vamos deixar uma coisa clara. Tal coisa não existe. Nunca existiu. Nunca existirá. Capitalismo laissez-faire é uma fantasia libertária, e os libertários têm sido descritos, corretamente, como os utópicos da direita.

O capitalismo, da forma que se desenvolveu historicamente, não está fundamentado nas trocas do livre-mercado, mas na manipulação do mercado pelos governos para o benefício dos capitalistas – ou, pelo menos, de alguns capitalistas.

Primeiro de tudo, o capitalismo só pode existir onde a economia tenha sido monetarizada. Seria impossível em uma economia de escambo. Uma economia monetarizada, por sua vez, necessita de um sistema monetário de algum tipo, o que vai exigir um sistema bancário e, tão importante quanto, algum tipo de base governamental ou política para o dinheiro.

Desde o início, os capitalistas dependeram dos governos para beneficiá-los através de tributações monetárias e políticas comerciais. O capitalismo e o mercantilismo andam de mãos dadas. Os industriais do século XIX não ficaram podres de ricos pela manipulação do livre-mercado. Eles ficaram ricos graças a políticas monetárias federais, políticas tributárias, gastos públicos em coisas como linhas férreas, e altas tarifas que os protegiam da livre competição.

Francamente, é impossível ficar rico como os Vanderbilts ou os Rockfellers, ou mesmos os Bill Gates e Warren Buffets da vida, sem uma manipulação governamental gigantesca dos mercados – especialmente através de políticas monetárias e políticas de taxas. Algumas pessoas se tornam ricas com essas manipulações. Outras ficam pobres. Não tem nada a ver com a sobrevivência do mais adaptado, mas com quem você conhece ou quão bem você pode manipular o sistema a seu favor.

O que me traz ao segundo mito, que diz que o progressismo e o socialismo oferecem alternativas genuínas ao capitalismo. Se o capitalismo tratasse de propriedade privada e livre-mercados, então estas coisas seriam alternativas. Mas o capitalismo na verdade promove a concentração de riqueza e a socialização dos riscos da economia, enquanto o socialismo não passa de um lado diferente do mesmo sistema econômico corrupto.
Eu costumo dizer que os evangélicos constituem o grupo mais burro de eleitores nos EUA, porque você quase sempre pode contar que eles irão votar contra seus próprio interesses – basta que um político diga algo legal sobre Jesus e finja se opor ao aborto. Depois dos evangélicos, entretanto, eu colocaria os auto-proclamados progressistas, que realmente acreditam que apoiando coisas como regulamentação governamental e serviço universal de saúde, estão enfrentando a elite em nome dos pequenos e frágeis. Total e completo esterco de cavalo.

Vou dar um exemplo. Este ano o congresso americano concedeu ao FDA a competência de regular o tabaco – uma grande vitória para os consumidores e defensores da saúde contra as grandes e malvadas corporações, certo? Na verdade não. O que mudou o rumo das coisas foi que as grandes empresas deixaram de se opor à lei. Eles descobriram que as novas regulamentações iriam lhes dar uma vantagem competitiva contras as empresas de tabaco menores, já que as incontornáveis regulamentações da FDA seriam mais custosas para os pequenos produtores.

De fato, na maioria dos casos, a regulamentação governamental tende a beneficiar as grandes corporações e colocar grandes fardos nas pequenas empresas. Tudo isso pode ser percebido se estudarmos a história dos EUA. Ao contrário do que diz a mitologia do livro escolar, os primeiros colonizadores não eram minorias religiosas buscando a liberdade.

Tanto a Massachusetts Bay Company quanto a Virginia Company eram corporações visando lucros com acionistas na Inglaterra, e que estavam esperando uma admirável compensação por seus investimentos. Desde o início, entretanto, houve tensões entre os colonos e seus senhores corporativos. O que a maior parte das pessoas não se dá conta é que uma boa parte da legislação parlamentar, contra a qual os colonos reclamavam tanto, fora passada sob as ordens e para o benefício da Compania das Índias Orientais.
No fim do século XVIII, a Compania havia se tornado tão rica e poderosa – ela chegou a possuir exército e marinha próprios – que na prática o Parlamento e a Coroa estavam comprados e no seu bolso. Assim, quando os colonos reclamavam contra a tirania, era na verdade a tirania corporativa, embora manifesta através dos atos de um parlamento marionete.

Quando os colonos alcançaram a independência, dois caminhos distintos estavam à sua frente. Jefferson queria uma ruptura completa com o velho sistema mercantilista, capitalista. Ele imaginava uma república de repúblicas menores, baseada em uma vasta rede de propriedades privadas agrárias e pequenos negócios. Ele alertava contra as temíveis conseqüências se acionistas e banqueiros chegassem a ter a predominância. Ele acreditava que para os direitos de propriedade e a liberdade serem preservados, o poder político devia ser o mais descentralizado possível.

Do outro lado do debate estava Alexander Hamilton. Ele queria reproduzir o mercantilismo inglês deste lado do Atlântico e derrotar os ingleses em seu próprio jogo. Ele imaginava os Estados Unidos como um furacão militar e econômico. Para se alcançar tal coisa, entretanto, tanto o poder político quanto o capital financeiro teriam que ser concentrados.

Pela primeira metade do século XIX, os jeffersonianos contiveram os hamiltonianos. Mas em 1860, tudo mudou. A eleição de Abraham Lincoln colocou os EUA solidamente no caminho de se tornar um império mercantilista, e temos pago o preço disso desde então.

Vou detonar um outro mito agora. O Partido Republicano não é, nem nunca foi um partido conservador. Ele foi fundado em 1850 por uma coalizão de elites corporativas e progressistas sociais, e continua assim até hoje. O programa republicano de um banco nacional, melhorias internas financiadas publicamente, e tarifas altamente protetoras criaram não apenas riqueza jamais vista nesse país, mas também criaram uma corrupção como jamais vista – tanto privada quanto governamental.

As reformas progressistas da primeira parte do século XX não foram um repúdio do capitalismo mercantil, mas apenas um realinhamento em posições diferentes. A regulamentação governamental se tornou o preço da larga generosidade do governo. Não nos esqueçamos que o republicano Teddy Roosevelt se tornou um dos fundadores do Partido Progressista.

Até 1931, o Partido Democrático ainda era o mais conservador dos dois partidos, mas isso mudou com a eleição de Franklin D. Roosevelt, cuja família, não esqueçamos, havia sido republicana. Reparem no programa democrata de 1932. É praticamente o oposto especular do que Roosevelt de fato executou no posto. A eleição de 1932 foi uma das grandes farças de todos os tempos.

Tudo isto explica, aliás, porque as políticas de Obama pouco diferem das de George Bush. Obama apoiou os planos de subsídios antes de ser eleito e seu governo deu continuidade às mesma políticas desastrosas de subsidiar bancos e desvalorizar os dólares nas contas bancárias de pessoas que realmente tem que trabalhar para viver. Nada mudou.

Para voltar à pergunta feita nos outros podcasts, seria o capitalismo compatível com o Cristianismo Ortodoxo? Bem, a resposta é não. Mas o progressismo não oferece uma alternativa real. O capitalismo é um sistema econômico modernista e o progressismo é um paleativo modernista – não uma alternativa.
A única alternativa real ao capitalismo é algo na linha do que Jefferson havia planejado, o que é parecido com a visão dos distributivistas católicos, tais como Belloc e Chesterton, e com a terceira via do economista protestante Wilhelm Röpke. O fundamento de um tal sistema é uma vasta rede propriedades privadas e governo descentralizado.

Quero salientar que a palavra grega ekonimia significa administração doméstica. Wall Street não é a economia. A economia é como você provê para si mesmo e para sua família e como você trata seus vizinhos no processo. Entretanto, tem se tornado cada vez mais difícil prover para nós mesmos quando nossas economias são desvalorizadas por políticas governamentais e nossas pequenas fazendas e negócios são regulamentados em cada centímetro para o benefício das grandes corporações.

Gostaria de concluir com alguns comentários concernentes ao protestante Wilhelm Röpke. Estes comentários foram feitos por Ralph Ansel, em um excelente artigo que ele escreveu:

Para um protestante que considerava a situação criada pela Reforma como de uma das grandes calamidades na história, ele devia ter dificuldades em encontrar seu lar religioso tanto no protestantismo contemporâneo, o qual em seu caos e falta de orientação está pior do que jamais esteve, ou no contemporâneo catolicismo pós-reforma. Tudo que ele pode fazer é reunir, em si mesmo, os elementos essências do cristianismo indiviso pré-reforma. E nisto, eu acho que estou na companhia de homens cuja boa-vontade, pelo menos, não é duvidável.

Nós sabemos, naturalmente, que o Cristianismo indiviso não necessita ser, de fato não pode ser, reunido porque ele já existe na Igreja Ortodoxa. Mas esta passagem é um lembrete de que a solução dos dilemas econômicos do homem moderno não estão no modernismo, mas na fé e vida de uma vez por todas entregue aos santos.

Apenas a Ortodoxia é capaz de oferecer não apenas uma crítica da modernidade, mas de apontar-nos soluções reais. Não podemos dar o testemunho da verdade que o mundo precisa, porém, enquanto continuarmos a tentar contemporizar com sistemas econômicos e políticos que, por sua própria natureza, minam a fé que temos e a vida que buscamos levar.

E finalmente, que nosso Deus e Salvador, Jesus Cristo, através das interseções de Sto. Inocêncio do Alasca e do Abençoado Ancião Sofrônio Sakharov, tenha piedade de nós e nos conceda uma rica entrada em Seu Reino eterno.

domingo, 25 de outubro de 2009

São Serafim e São Francisco - A Palavra dos Santos


Caros leitores,

o trecho abaixo foi traduzido pelo amigo Felipe Ortiz. É de grande importância em tempos de ecumenismo, pois é um testemunho de como Deus vê a questão da união das comunidades cristãs. Trata-se de uma visão em sonho que uma fiel protestante teve e na qual um santo romano e um santo ortodoxo lhe trazem a palavra de Deus. E não quaisquer santos, mas São Francisco e São Serafim,  os santos que talvez sejam os mais venerados na era moderna respectivamente entre os latinos e na Santa Igreja. Meditemos sobre a palavra de Deus revelada a nossa irmã através de seus santos.

Em Cristo,
      Fabio.

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São Serafim e São Francisco
Introdução e tradução: Felipe Ortiz


Por mais improvável que pareça, o encontro entre o católico italiano Francisco de Assis (1181/2-1226) e o ortodoxo russo Serafim de Sarov (1754-1833) chegou a acontecer.

E sua testemunha, surpreendentemente, foi uma protestante devota, na França, por volta do ano de 1925.

O trecho abaixo faz parte do livro São Serafim de Sarov -- Biografia Espiritual, escrito por um dos grandes ascetas e missionários ortodoxos do séc. XX, o Arquimandrita Lázaro (Moore), inglês convertido à ortodoxia (1902-1992).

Este livro, publicado postumamente, é considerado uma das melhores biografias de São Serafim. Na minha edição, que é a primeira, o trecho que traduzo abaixo está nas p. 239 a 243.

Esse livro já está esgotado, mas felizmente está prestes a ser reeditado, com outro nome, numa edição que aliás parece que será muito bonita: http://anaphorapres s.com/music/ pre-release- sale/


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O evento que relatamos abaixo nos foi comunicado verbalmente em agosto de 1931 pelo Sr. K., que mais tarde o escreveu em uma carta dirigida a nós. É dessa carta que faremos uso aqui.

É de conhecimento geral que São Serafim sabia por experiência e disse mais de uma vez que o Cristianismo estava preservado em toda a sua plenitude e pureza na Igreja Ortodoxa. E o que é mais impressionante e convincente é sua própria sublime virtude e a abundância da graça que habitava nele com tal "poder" (Mc 9:1) que raramente se viu até nos santos antigos. É suficiente mencionar apenas a conversa de N. A. Motovilov com o santo (durante a qual ele se transfigurou miraculosamente, como o Senhor no Monte Tabor) para firmar, sem a menor dúvida, que a Ortodoxia ainda retém de fato a sua pureza, vitalidade, plenitude e perfeição originais. Mas citemos suas próprias palavras:

"Nós temos a fé ortodoxa, que não tem a mínima mácula."

"Rogo-vos e suplico-vos", disse ele em certa ocasião a alguns veterorritualistas, "ide à Igreja Greco-Russa. Ela está em toda a glória e poder de Deus. Ela é dirigida pelo Espírito Santo."

Isso também foi testemunhado por uma adepta de outra confissão. Aqui estão os fatos.

"Um amigo meu", escreve o Sr. K., "encaminhou-me uma carta escrita em francês na qual uma senhora alsaciana pede a ele para enviar-lhe alguma coisa sobre a Igreja Ortodoxa Russa -- um livro de orações ou algo do gênero. Se não me engano, foi no ano de 1925. Algo foi-lhe enviado como resposta à carta e, por algum tempo, a coisa ficou nisso.

"Em 1927, eu estava naquela localidade e tentei entrar em contato com ela; mas ela estava em viagem, nas férias de verão, e eu só pude conhecer a sua sogra, uma velha senhora de grande caridade cristã e pureza de coração.

"Ela me contou que sua família pertencia a uma antiga e nobre linhagem da Alsácia, os N.N.s, e que eles eram protestantes. Devo dizer que naquele distrito da Alsácia os aldeões são de religião mista: metade são católicos romanos e a outra metade protestantes. Eles compartilham a mesma igreja, na qual celebram seus ofícios em revezamento. Nos fundos da igreja há um altar católico com imagens e todos os demais apetrechos. Quando os protestantes celebram um culto, eles puxam uma cortina em frente ao altar católico, deslizam sua mesa até o meio e rezam. Recentemente tem havido um movimento entre os protestantes da Alsácia a favor da veneração dos santos. Isso aconteceu depois da publicação do livro de Sabatier sobre Francisco de Assis. Apesar de protestante, ele se deixou cativar pelo modo de vida desse santo depois de uma visita a Assis. A família de meus amigos também caiu sob os encantos deste livro. Embora tivessem permanecido no protestantismo, eles ainda assim se sentiam insatisfeitos; particularmente, empenhavam-se pela restauração dos sacramentos e da veneração dos santos. Além disso, foi típico deles que, quando o pastor realizou a sua cerimônia de casamento, eles pediram-lhe para não puxar a cortina sobre o altar católico, a fim de que pudessem pelo menos ver as imagens dos santos. Seu coração procurava a Verdadeira Igreja.

"Certa vez, a jovem esposa estava doente, sentada no jardim, lendo uma vida de Francisco de Assis. O jardim estava em plena floração. O silêncio do campo a envolvia. Enquanto lia o livro, ela caiu num sono leve.

"'Eu mesma não sei como foi que aconteceu', ela me disse mais tarde. 'De repente eu vi o próprio Francisco vindo em minha direção e, com ele, um velhinho semelhante a um patriarca, recurvado mas radiante', disse ela, indicando dessa forma a velhice e a aparência venerável dele. Ele estava todo de branco. Ela se apavorou, mas eles chegaram bem perto dela e Francisco disse: 'Minha filha, tu buscas a verdadeira Igreja. Ela está ali, onde ele está. Ela apoia todos e não exige o apoio de ninguém.'

"O ancião branco permaneceu calado e apenas sorriu em aprovação às palavras de Francisco. A visão terminou. A mulher como que tornou a si. E de algum modo ocorreu-lhe o pensamento: 'Isso tem ligação com a Igreja Russa.' E a paz desceu à sua alma. Depois dessa visão, foi escrita aquela carta a que me referi no começo.

"Dois meses mais tarde, eu estava de novo em sua casa, e dessa vez fiquei sabendo de mais um detalhe através da própria vidente. Eles haviam contratado um empregado russo. Quando ela entrou no quarto dele para ver se ele estava acomodado confortavelmente, ela viu ali um pequeno ícone e reconheceu nele o ancião a quem havia visto, durante seu sono leve, com Francisco. Perplexa e alarmada, ela perguntou: 'Quem é ele, esse velhinho?'

"'São Serafim, nosso santo ortodoxo', respondeu o empregado. Então ela compreendeu o significado das palavras de Francisco sobre a verdade estar na Igreja Ortodoxa."

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O "Deus" do Futebol


O "Deus" do Futebol
© Rev. Bispo Hierotheos, Metropolita de Lepanto e S. Vlassios
Tradução © Fabio Lins Leite


Deus e o futebol, de Alireza Nosrati, Irã

  O mês de junho foi marcado pela copa do mundo que ocorreu no Japão e na Coréia. Muitas pessoas assistiram aos jogos entre as seleções por muitas horas ao dia e sabiam tudo a respeito dos jogos.

  O que me impressionou foi uma "oração" escrita por um "padre" anglicano chamado Fletcher na véspera do jogo decisivo entre a Inglaterra e o Brasil. A oração foi transmitida pela BBC de acordo com o jornal "Eleftherotypia" de 22 de june de 2002. A oração era a seguinte:

"Ergue-te ó Senhor e impede que o Brasil nos domine. Espalha o terror sobre eles, Senhor. Ergue-te e estende a Tua mão para suprimir a força de Rivaldo e Ronaldo. Faz descer sobre Ronaldinho a confusão e, ó Senhor Todo-Poderoso, se isto não funcionar também, pelo menos nos garanta um gol no último minuto, mesmo que de uma posição ruim. Socorre-nos, Senhor, para alcançarmos as finais, mesmo que ocorram em um domingo e ninguém vá a Igreja!".

  De acordo com o "Eleftheros Typos" de 21 de junho de 2002, a oração ainda continha frases como "faça com que as traves deles sejam semelhantes... a corredores de aeroportos e seu goleiro pequeno como uma formiga". E o jornal comentou: "Piedade!"

  A primeira vista, o conteúdo desta oração nos faz dar gargalhadas e cria a impressão que não deve se deve levar esse tipo de coisa a sério. Entretanto, o assunto também possui alguns aspectos interessantes.

  Para muitas pessoas, o futebol é uma religião, um culto. Muitas das expressões utilizadas são retiradas da religião. O torcedores sentam-se e seus "deuses", os jogadores, competem como em um embate de deuses no campo por Vitória. Já que o futebol é considerado por muitos como um novo culto, há nele certamente seu próprio deus, o deus do futebol. Eles oram para este deus inexistente. De fato, existem expressões como "a lei do futebol", "a bola pune", "jogador mágico"(N.T.1).

  Lemos no "Kathimerini": "Então testemunhamos este ano os iluminados do Ocidente quebrarem facilmente o recorde de superstições: um, o técnico da Itália, deixa cair ritualmente um pouco de água benta dada a ele por sua irmã freira; outro (o técnico da Espanha) beija apaixonada e secretamente (para não ser flagrado pelas ansiosas câmeras blasfemas) uma pequena imagem em sua bolsa, provavelmente de São José Goleador. Mas a medalha de ouro da superstição vai para os ingleses, que por muitos anos já vem idolatrando Becham como se fosse o décimo-terceiro apóstolo, e é por isto que construiram para ele uma estátua na praça Trafalgar, para adorá-lo sob sua sombra e orar." "Os fãs de todos os times respeitam os costumes das superstições - eles se benzem, murmuram hocus-pocus, cruzam os dedos e oram a Allah.

  Mas qualquer que seja sua religião ou seu deus do futebol, no final das contas, continuam fiéias a sua doutrina de auto-idolatria" (30/06/2002, p.4). Depois da vitória do Brasil, surgiram as machetes: no alemão German Bild "Deus é brasileiro"; no francês Equipe: "Brasil pela Eternidade"; no Washington Post: "Um Carnaval Divino de Vitórias". A conquista da Copa do Mundo pelo Brasil foi uma oportunidade para a glorificação da religião do futebol" (Eleftherotypia, Tuesday 2-7-2002).

  Voltando a oração do "padre" anglicano, deixem-me destacar que ela revela uma outra realidade também e que é que nós estragamos mesmo os momentos mais sagrados em nossas vidas. A oração é a mais santa comunicação com Deus, é uma "relação entre o homem e Deus". Mas nós pervertemos até mesmo este fato santo. Fazemos preces similares a esta quando pedimos a Deus para nos ajudar com nossos objetivos mesquinhos e com nossas piores paixões humanas, para ter sucesso profissional, para atrair a atenção ou o interesse, para multiplicar nosso dinheiro, para ver alguém "pagar" por algo, para satisfazer nossas ambições e prazeres imorais e ilegais.

  Temos que entender que a oração deve ser feita principalmente para a terapia da nossa alma. Não podemos utilizar o nome de Deus para questões fúteis. De outro modo enganamos não a Deus, mas a nós mesmos.

(Nota do Tradutor: Estas são expressões típicas do grego que o autor menciona. No Brasil são diferentes, mas não há de se negar que as nossas também traem uma paixão excessiva pelo que não passa de um jogo.)

domingo, 30 de agosto de 2009

Maria no Antigo Testamento



10 Ouve, filha, e olha, e inclina os teus ouvidos; esquece-te do teu povo e da casa do teu pai.
11 Então o rei se afeiçoará da tua formosura, pois ele é teu Senhor; adora-o.
12 E a filha de Tiro estará ali com presentes; os ricos do povo suplicarão o teu favor.
13 A filha do rei é toda ilustre lá dentro; o seu vestido é entretecido de ouro.
14 Levá-la-ão ao rei com vestidos bordados; as virgens que a acompanham a trarão a ti.
15 Com alegria e regozijo as trarão; elas entrarão no palácio do rei.
16 Em lugar de teus pais estarão teus filhos; deles farás príncipes sobre toda a terra.
17 Farei lembrado o teu nome de geração em geração; por isso os povos te louvarão eternamente.

Salmo 45

46 A minha alma engrandece ao Senhor,
47 E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador;
48 Porque atentou na baixeza de sua serva; Pois eis que desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada,
49 Porque me fez grandes coisas o Poderoso; E santo é seu nome.
50 E a sua misericórdia é de geração em geração Sobre os que o temem.
51 Com o seu braço agiu valorosamente; Dissipou os soberbos no pensamento de seus corações.
52 Depôs dos tronos os poderosos, E elevou os humildes.
53 Encheu de bens os famintos, E despediu vazios os ricos.
54 Auxiliou a Israel seu servo, Recordando-se da sua misericórdia;
55 Como falou a nossos pais, Para com Abraão e a sua posteridade, para sempre.

S. Lucas 1

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Protestante Alemão Converte-se à Igreja ortodoxa no Monte Athos


No último sábado, 8/8/2009, no Santo Monastério de Dohiariou, na Santa Montanha, em uma atmosfera de devoção, o alemão Dominik Weiel, 40 anos, geólogo, renunciou ao Protestantismo e abraçou a Ortodoxia, recebendo o nome batismal de Michael (Miguel).

Miguel conheceu o Monte Athos e a Ortodoxia por via wireless através da rádio-comunicação com um irmão rádio-amador, o Pe. Apollo SV2ASP/A, iniciada em 1991. O experiente rádio-amador alemão DL5EBE, ainda universitário, quando escutou pela primeira vez o ainda inexperiente monge agiorita chamando por um sinal fraco, comunicou-se com ele e lhe ofereceu ajuda. Esta foi sua primeira oportunidade de ir até Athos, encontrar o monge e montar a rádio. A visita se tornou um marco em sua vida. Ele encontrou com o Ancião Gregório, abade do monastério, e os irmãos, os quais ele amou e continuou a visitar, e sempre participando do programa completo do local.

Quando completou seus estudos superiores, ele foi empregado por uma empresa de petróleo alemã com atividades por todo o mundo. Por muitos anos ele tem trabalhado em Moscou, e por causa disto, muitos anos se passaram desde sua última visita a Athos. Entretanto, a despeito disto, ele não deixou de se comunicar. Durante todo este tempo, ele lutou consigo mesmo a respeito da conversão e finalmente decidiu ser batizado, se dirigindo, por isso a Athos.

Durante este período ele estava cheio de trabalho e os dias se passavam com grande ansiedade para ser batizado. Finalmente, na Sexta, o ancião perguntou-lhe "você deseja ser batizado?" "Seria um enorme prazer", ele respondeu e seu rosto ficou iluminado. Então, nós convidamos o Sr. Stavro Pomaki, Oficial da Aeronáutica, rádio-amador e filho espiritual do monastério, o qual, apesar de longe de casa, alegremente concordou em se tornar padrinho de Michael.

Pouco tempo depois tudo estava pronto e na manhã de sábado após a Divina Liturgia, ele recebeu o santo batismo no porto de nosso monastério, na presença de toda a irmandade e de peregrinos e finalmente, com grande felicidade, retornou para seu trabalho.


Vamos orar para que o Arcanjo Miguel, o protetor de nosso Monastério, cujo nome foi dado por nosso Ancião, apóie o novo irmão na difícil jornada de sua vida e suas lutas cotidianas.

História original no site Impantokratoros:

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O Julgamento Moral

por São Pedro de Damasco


S. Pedro de Damasco descreve o Julgamento Moral no IV volume da Filokalia, p. 256:



"Como poderíamos alcançar o que quer que fosse sem julgamento moral? Ele nasce do nous, e constitui o meio-termo entre a esperteza - isto é, a astúcia excessiva - e a inconsequência. A esperteza puxa o julgamento moral na direção do engodo e da trapaça, e fere a alma de quem a possui e de tantos quantos puder.

A falta de pensamento, por outro lado, torna a pessoa obtusa e trivial, e não permite que o nous se concentre nos assuntos divinos ou no que quer que seja de proveito para a alma da pessoa ou de outros. A primeira é como uma montanha, a segunda como uma ravina.

O homem de julgamento moral, então, é aquele que viaja pela planície que existe entre estes dois. Mas aquele que se desvia de tal trilha ou cai na ravina ou tenta escalar as alturas e, não encontro modo de fazê-lo, projeta-se de cabeça na ravina e não é capaz de sair dela, pois recusa-se a renunciar ao pico da montanha e através do arrependimento retornar a trilha do julgamento moral. Mas a pessoa que caiu na ravina clama com humildade por Aquele que pode guiá-lo de volta para a estrada real da virtude.


O homem de julgamento moral, entretanto, nem se eleva arrogantemente com o fim de prejudicar os outros, nem se rebaixa tolamente apenas para ser prejudicado por alguém. Escolhendo o caminho do meio, se apega a ele com a ajuda de Cristo, Nosso Senhor; a quem seja dada toda Glória e domínio por todas as eras. Amém."


Ou seja, o julgamento moral cristão *tem* algo de esperteza e astúcia. O que S. Pedro explana de forma mais longa é apenas que devemos ter tanto "a mansidão da pomba" quanto a "malícia da serpente".

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Teologias Ortodoxa e Escolástica

Diálogo entre um teólogo escolástico e um teólogo ortodoxo
via MYSTAGOGY de John Sanidopoulos em 02/08/09

Uma refutação ortodoxa do Fundamento da Teologia Ocidental conforme Exposta por Tomás de Aquino.

Versão Simplificada (O = Ortodoxo; E = Escolástico)



O. - Deus é imutável?

E. – É.

O. – Deus é pura simplicidade (actus purus)?

E. – Sim.

O. - A pura simplicidade de Deus serve para proteger a imutabilidade de Deus?

E. – Serve.

O -- Se Deus é pura simplicidade sem nenhuma complexidade, então você diria que não há potencialidade em Deus?

E. – Com certeza.

O. – Se não há potencialidade em Deus, então as divinas essência, existência e energia são idênticas?

E. – São.

O. – Se as divinas essência, existência e energia são idênticas, então Deu está apenas em um permanente estado de atividade (energia)?

E. – Está.

O. – Então você concordaria que se Deus está em estado de plena atividade, isso se dá por necessidade?

E. – Sim.

O. – E não há distinção entre a ação e poder de Deus de Sua essência?

E. – Não, Deus é pura energia.

O. – Você distingue as energias de Deus dos atos de Deus?

E. – Não, eles são ambos o mesmo trabalho criado de Deus.



No seu próprio núcleo, a teologia Ortodoxa difere da teologia Escolástica. Os Pais Gregos claramente ensinam que Deus não é actus purus, mas possui muitas energias e poderes (potencialidades) os quais estão intrissicamente unidos, nem separados nem confundindo-se uns com os outros dentro da incorruptível, inconcebível e intrissicamente simples essência da una divindade trina. A imutabilidade de Deus não tem necessidade de ser protegida pelo actus purus. Não há necessidade de actus purus. Ao contrário, ela é protegida pela incompreensível e incomunicável essência de Deus.


Aquino mistura a energia divina na essência divina como se fosse uma necessidade. A Igreja ortodoxa consideraria uma blasfêmia que Deus tivesse que agir por imposição de uma necessidade, pois Deus permanece em Sua essência e ali as três hipóstases. Deus não é Ser regulado por Sua energia, mas Ele mesmo regula Sua energia. Deus não é pura energia, mas o energizador.


Os Pais da Igreja ensinam que Deus é o energizador, e energia é a atividade incriada de Deus, e o trabalho realizado (ou criatura) é o ato de Deus. O Ocidente, entretanto, não distingue a energia de Deus dos atos (trabalhos) de Deus. A energia de Deus é melhor traduzida como atividade do que como ato. O ato terminado, realmente, é criado, mas a atividade em si é incriada. A atividade é também conhecida como graça, e se é incriada então é divina.


Inferir graça criada (energia) em Deus é uma heresia o que logicamente leva ao completo ateísmo e/ou mitologia grega. De acordo com os Pais da Igreja, a energia criada sempre indica uma natureza criada; uma energia incriada indica uma essência incriada.