sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Intercomunhão com Roma III: O que precisaria mudar para poder haver intercomunhão?

Este artigo foi escrito a convite pelo Pe. Thomas Hopko, para uma conferência que ocorreu em Washington, D.C., em 2005, realizada pela Igreja Católica Romana, pelo Instituto Teológico de Woodstock e a Universidade de Georgetown sobre "o que os não-católicos exigiriam da Igreja de Roma e do Papa de Roma para entrar em comunhão sacramental com a Igreja Católica Romana".
Pe. Thomas Hopko

Notem que a conferência inteira é fundada no conhecimento elementar de que é errada a intercomunhão antes da união da fé, que todos estão cientes de que existem diferenças significativas das fés entre suas igrejas e Roma – inclusive entre a Igreja Católica Ortodoxa e a Igreja Católica Romana, e que portanto é necessário delinearmos quais as mudanças necessárias para que a intercomunhão seja possível.

Essa conferência contava ainda com várias igrejas não-romanas: episcopais, luteranos, metodistas, batistas, calvinistas, sociedade dos amigos, e quakers, além claro, dos ortodoxos. O Pe. Thomas Hopko fora convidado por ser teólogo, professor de teologia dogmática e reitor-emérito do Seminário Teológico Ortodoxo de S. Vladimir, tendo sido reitor entre os anos de 1992 e 2002.

Outras autoridades poderiam compilar listas um pouco diferentes de ações práticas requeridas para que ortodoxos e romanos pudessem tomar comunhão na igreja um do outro, entretanto nenhuma negaria que as diferenças correntemente existentes na fé, nas estruturas eclesiásticas e de autoridade episcopal são impendimentos sérios para a intercomunhão. De todo modo, fiquemos com a análise do Pe. Thomas Hopko. 



O que Roma Precisaria Fazer para restaurarmos a Comunhão Sacramental? 
 
Por Pe. Thomas Hopko (1939-2015+)
http://www.ancientfaith.com/podcasts/hopko/what_does_rome_need_to_do_part_2

Primeiro de tudo, acredito que os ortodoxos insistiriam – ou deveriam insistir – que o bispo de Roma confesse a fé ortodoxa preservada pela Igreja Católica através da história e ensine e defenda a verdadeira doutrina cristã. Isso significa que o Papa teria que fazer várias coisas específicas, principalmente, em minha opinião, as seguintes. Isto é o que creio que os ortodoxos pediriam: 

Primeiro, o bispo de Roma teria que confirmar o texto original do Símbolo de Fé Niceno-Constantinopolitano e defender seu uso em todas as igrejas, a começar com a sua própria. Pelo menos, caso por questões pastorais algumas igrejas recebessem a permissão de manter o filioque no seu Credo, o bispo de Roma teria que insistir que se explicasse o filioque de modo a deixar claro que o Espírito Santo “procede do Filho” apenas em relação a dispensação salvífica de Deus no mundo, em economia, por outras palavras, o Espírito Santo que procede eternamente do Pai é dado ao mundo através do Filho, para que se preserve o entendimento próprio das relações entre as Pessoas da Trindade. O Papa teria que garantir que nenhum cristão seria tentado a acreditar que o Espírito Santo procede em essência do Pai e do Filho juntamente, e certamente não “de ambos como de um – ab utroque sicut ab uno” a qual é uma posição tradicional da Igreja Romana a partir de uma época posterior, quando o filioque foi discutido entre o Oriente e o Ocidente. 

Em outras palavras, o Credo sem o filioque teria que ser subscrito. Se por alguma razão, em alguns lugares, a Igreja Romana mantivesse o filioque no Credo, teria que deixar claro aos que quisessem entender que isso não significa uma processão eterna do Espírito Santo desde o Pai e o Filho, e nem mesmo do Pai e do Filho “como que de um”; isso não seria aceitável pela Ortodoxia. 

Também, o bispo de Roma, o Papa, teria que ensinar que o Pai e o Filho e o Espírito Santo são três pessoas ou hipóstases distintas e não simplesmente “relações subsistentes” dentro do Deus uno, o qual é identificado com a una natureza divina. Ele teria que insistir e garantir que o Verdadeiro e Um Deus da fé cristã não é a Santíssima Trindade entendida como um sujeito quase unipessoal que se revela como Pai, Filho e Espírito, o que, para o cristianismo tradicional, é inaceitável e de fato seria entendido como uma versão do modalismo, ou seja, que há um Deus, que é Pai, que é Filho e que é Espírito Santo – não! 

Há um que é o Pai, um que é o Filho, Um que é o Espírito Santo. Sua unidade é perfeita, Sua divindade é perfeita, mas a divindade do Filho e do Espírito deriva eternamente, antes da fundação do mundo, antes do tempo e do espaço, da Pessoa do Pai. O Pai comunica toda sua divindade ao Seu Filho desde toda a Eternidade e Deus, para os Cristãos, é tri-Pessoal, tri-hipostáticamente divindade, tri-hipostaticamente divino. 

O Papa também teria que insistir que os seres humanos podem ter comunhão real com Deus através das divinas ações e energias incriadas em relação com as criaturas, as quais vêm do Pai, através do Filho e no Espírito Santo. Esse pequeno parágrafo significa que o palamismo teria que ser aceito, pois foi conciliarmente recebido por todas as igrejas Ortodoxas, de que realmente existe uma distinção entre a essência e as energias de Deus: a Divinidade incogniscível e supra-essencial que é oculta, e as atividades de Deus nas quais nós criaturas realmente participamos através da revelação do Pai, através do Filho no Espírito Santo. 

O bispo de Roma, o Papa, teria que dizer oficialmente que a imaculada conceição da Mãe de Deus, Maria, desde seus pais, e a glorificação total de Maria em Cristo ressuscitado à direita do Pai, foi explicada de modo impróprio nas bulas papais que acompanharam originalmente os dogmas ex cathedra da Igreja Romana sobre esses dois artigos da fé. O papa precisaria explicar que a concepção de Maria por seus pais foi pura e santa, sem necessidade de que Deus aplique extraordinariamente “os méritos de Cristo” ao ato sexual de Joaquim e Ana para conceber sua filha com o fim de libertá-la “da mancha do pecado original”. O Papa também deveria deixar claro que Maria realmente morreu e não foi assunta corporalmente aos céus antes de aniquilar a morte com sua própria morte, por fé em seu Filho, Jesus Cristo. 

Eis o que quero dizer: a Igreja Ortodoxa afirma que Maria foi concebida imaculadamente de seus pais, Joaquim e Ana, mas isso não precisou de nenhum ato excepcional ou especial da parte de Deus para mantê-la livre da mancha do pecado original desde a concepção. Devemos notar que algumas igrejas Ortodoxas, que são bem anti-romanas, ainda têm uma versão deste ensinamento, e elas diriam que a mancha do pecado original foi retirada na Anunciação, e não na concepção de Joaquim e Ana. Em todo caso, deveria haver uma explicação da Imaculada Conceição, e da Dormição, da Assunção de Maria, corporalmente, à presença de Deus, que se conformasse com a prática litúrgica e com a doutrina Ortodoxa. 

Além disso, o Papa também deveria dizer oficialmente, afirmando de modo claro, que, embora haja uma purificação e limpeza do pecado no processo da morte humana, não há um estado ou condição de purgatório depois da morte onde o pecador paga a punição temporária que alegadamente ele deveria a Deus por seus pecados. O Papa cessaria também a prática de indulgências através das quais, através de certas atividades piedosas, os cristãos supostamente reduziriam os “dias” de sofrimento purgatorial para eles mesmos e para outros. 

Aqui, claro, isso significa que a alegoria dos pedágios da tradição Ortodoxa, a qual creio ser um ensino ortodoxo tradicional, não diz que os pecadores tem que ser punidos pelos pegados que cometeram na terra antes de morrer, nos 22 pedágios que foram formulados no segundo século em Constantinopla, mas que eles devem libertar-se das paixões e purificados delas com o fim de entrar no reino de Deus, e portanto a oração pelos mortos, rogando a misericórdia de Deus, assim como a graça de que as pessoas aceitem Cristo, e portanto libertas de seus pecados. Esse é que seria, creio, o entendimento que deveria ser compartilhado por Roma sobre essa questão. 

O Papa deveria deixar claro que a crucificação de Cristo não foi um pagamento do débito de punição que os homens supostamente devem a Deus por seus pecados. O bispo de Roma iria ensinar, ao invés, com seus co-bispos do patriarcado ocidental, que o auto-sacrifício de Cristo ao Seu Pai foi o pagamento salvífico, redentor e reparador de uma dívida de amor perfeito, justiça, obediência, gratidão e glória perfeitas que os seres humanos devem a Deus, que Deus deve receber dos seres humanos para nossa salvação do pecado e libertação da morte e que agora, realmente obtivemos por causa da morte redentora, em total amor a Deus e a humanidade, de Jesus, o Cristo crucificado, que é o novo e último Adão. 

Em outras palavras, teria que haver uma explicação de porque a morte de Cristo na Cruz é reparadora, e a explicação não poderia ser que os humanos têm que ser punidos e Cristo recebe essa punição. Ao invés, é que os humanos precisam ser bons e santos e guardar a lei de Deus, o que apenas Cristo consegue fazer, e portanto pela fé nEle podemos ter nossos próprios pecados perdoados e nosso caminho para a restauração e o paraíso garantidos. 

O Papa teria que garantir a todos os cristãos que o bispo de Roma nunca fará ou ensinará nada de sua própria autoridade, por si mesmo, ou de si mesmo e sem o consenso da Igreja. “Ex sese et non ex consenso ecclesiae,” em latim. O bispo de Roma teria que prometer servir em sua presidência unicamente como porta-voz de todos os bispos em sucessão apostólica, que governam comunidades de crentes que os escolheram para servir como bispos, e cuja validade e legitimidade como bispos depende unicamente na sua fidelidade ao Evangelho e a fé de uma vez por toda entregue aos santos, em comunhão com seus predescessores no ofício arquisacerdotal e arquipastoral e um com o outro. 

Claro que isso significa que a doutrina da infalibilidade do papa, conforme formulada no Vaticano I e defendida no Vaticano II, teria que ser rejeitada ou radicalmente modificada para que os Ortodoxos ficassem comunhão com Roma. 

Creio também que em questões doutrinárias e morais não decididas – questões abertas, por assim dizer – o Papa de Roma teria que usar sua autoridade presidencial para garantir que todos, clero e leigos, seria encorajado a livremente apresentar seus argumentos concernentes ao ensino e prática cristã, conforme testemunhado nos documentos formais de testemunhos da fé e vida cristã, isto é, as escrituras canônicas (a Bíblia), as liturgias tradicionais, os concílios e cânones cristãos universalmente recebidos, e o testemunho e escritos dos santos canonizados – não por tudo que os santos tenham dito e feito, mas especificamente pelas razões que esses santos foram glorificados na Igreja e seu ensino foi aceito pela Igreja universal. 

Então, o dever do Papa é garantir que a devida atividade sinodal e conciliar ocorra entre os bispos e o povo com o fim de a Igreja alcançar uma decisão sobre questões doutrinais e morais. 

Finalmente, o Papa de Roma utilizaria sua autoridade presidencial para garantir um espírito de liberdade, abertura, respeito e amor nas e entre todas as igrejas e todos os Cristãos e, de fato, todos os seres humanos, de modo que o Espírito Santo, o único “Vigário de Cristo na terra”, possa nos relembrar o que Cristo disse e guia o povo até toda a verdade (Jo. 14:25, 16:13). O Papa seria dessa forma verdadeiramente o grande construtor de pontes, o pontifex maximus. 

O ponto é que o Papa garantiria, asseguraria, promoveria, defenderia e pastorearia um espírito de liberdade, abertura, respeito e amor entre todas as igrejas, cristãos e todo o povo, de modo que o Espírito Santo, que é o único “vigário de Cristo na terra”, possa trazer a lembrança do que Cristo disse, com atos, então, através de todo o corpo junto. 

Continuo agora falando da Liturgia. Para que o Papa de Roma possa exercitar sua “presidência em amor” entre as igrejas e a liderança cristã no mundo, sua igreja, a Igreja de Roma, teria que dar o exemplo de uma correta adoração cristã. Também isso significaria para os ortodoxos algumas coisas bem específicas. Primeiro de tudo, creio, o bispo de Roma teria que insistir que, exceto por razões pastorais extraordinárias, o batismo deve ser feito por imersão na água em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. 

E ele também afirmaria que os recém-batizados fossem imediatamente crismados com o selo do dom do Espírito Santo e trazidos à comunhão com Cristo por participação na Santa Eucaristia. Isso inclui os infantes que entram na vida sacramental da Igreja por virtude da fé dos adultos que cuidam deles. A prática de uma ação posterior com o bispo impondo suas mãos para confirmar a fé do batizado – que hoje é chamada de Crisma - poderia ser permitida em igrejas que desejassem continuar com essa prática piedosa por razões de costumes. 

Sobre a participação na Santa Eucaristia, o papa também deveria insistir que os fiéis recebam a Santa Comunhão dos Dons – isto é, o pão e o vinho – que são oferecidos na Liturgia Eucarística que estão celebrando. Os fiéis não receberiam a Comunhão em Liturgias Eucarísticas a partir de Dons que são guardados exclusivamente para os que estão incapacitados de participar na Liturgia por boas razões (normalmente doença ou enfermidade, ou porque estão envolvidos em serviços ao próximo e portanto perdem a Liturgia da Igreja). 

O ponto aqui é que não tem como você ter a Missa e comungar o povo com o sacramento de reserva que é mantido no cibório do altar. O pão tem que ser oferecido e consagrado e erguido no altar da Liturgia para a comunhão do povo presente, que participa junto da Liturgia. 

O ponto seguinte é que o Papa também teria que garantir que os fiéis também participem do vinho consagrado, o sangue de Cristo, durante a Santa Comunhão. Como isso será feito na prática pode variar em diferentes igrejas, mas deve ser feito sem exceção. Quanto ao pão, biscoitos não fermentados poderiam ser usados por razões pastorais em igrejas com essa prática pastoral, mas o papa afirmar o pão fermentado, o artos, como normativo para a Eucaristia Cristã. 

O Papa deveria insistir na celebração da Santa Eucaristia com os salmos, leituras das Escrituras e sermões exegéticos de acordo com as práticas eclesiásticas locais como forma normativa de culto conjunto para cristãos no domingo e nas festas litúrgicas de Igreja. Ele, com seus colegas bispos, proibiria celebrações eucarísticas privadas para celebrar intenções particulares e para fins pietísticos particulares, políticos ou ideológicos. Ele apoiaria a celebração também das orações das horas: vésperas, completas, matinas e horas – nas igrejas. Ele restauraria a prática de ter o celebrante sacerdotal voltado para o altar – em outras palavras, voltado para o Oriente – junto com os fiéis durante as orações e ofertas Eucarísticas na Divina Liturgia. Ele também consideraria resgatar a antiga prática ascética e penitencial de proibir a celebração da Santa Eucaristia em igrejas cristãs nos dias da semana da Grande Quaresma, exceto na festa da Anunciação. 

Os ortodoxos defenderiam que mudanças estruturais e administrativas devem ocorrer se o Papa de Roma quiser ser aceito e reconhecido como o bispo que exerce sua presidência em amor entre as igrejas, sendo o bispo da Igreja de Roma, igreja que preside em amor – não o homem, mas a Igreja tem a presidência em amor – e que o bispo dessa igreja, o Papa de Roma, serviria como o líder mundial do Cristianismo. 

Um “colégio de cardeais” constituído de homens de todo o mundo, e designado pelo papa e tendo ministérios nominais em Roma, simplesmente não existiria mais. Em outras palavras, não seriam cardeais apontados pelo papa que elegeriam o próximo papa, mas seriam os líderes das igrejas ortodoxas afirmando e confirmando o que a própria Igreja Romana fez ao eleger seu próprio bispo. Assim a eleição seria pela Igreja de Roma, a confirmação seria pelos primazes das outras igrejas regionais da Terra. 

O Papa não selecionaria nem designaria os bispos em quaisquer igrejas, como ele faz hoje. Ele iria, ao invés, confirmá-los em seus ministérios, e poderia fazê-lo até de alguma maneira formal, já que cada bispo é chamado a confirmar seus irmãos com quem ele exerce o episcopado uno in solidum. Essa é uma referência a S. Cipriano de Cartago, que disse, “Episcopatus unus est, o espicopado é um e todos os bispos o exercem in solidum, juntos em unidade”. 

O Papa certamente teria o direito e o dever de questionar a escolha do candidato para o episcopado, especialmente de uma presidência regional (isso significa os primazes das igrejas locais) que ele considere inadequados ou indignos da cátedra. Ele pode até ter a oportunidade de avaliar os candidatos e oferecer sua opinião antes que a eleição ocorra, especialmente a de um bispo presidente de uma igreja territorial. Mas o papa faria isso como qualquer outro bispo ou primaz de uma igreja regional. Ele não teria o direito ou o poder de interferir nas questões internas de qualquer igreja ou diocese, além das suas próprias. 

O Papa, o bispo de Roma, iria designer comissões e departamentos compostos por homens e mulheres competentes vindos de todas as igrejas em comunhão com Roma para assisti-lo em suas atividades como líder mundial e principal porta-voz da Cristandade. Ele também organizaria encontros regulares dos primazes das igrejas do mundo para apoiá-lo na sua missão global como o líder universal da Igreja Cristã na terra. O Papa teria uma comissão para tratar da doutrina da igreja, a doutrina cristã, e do pensamento teológico nas várias igrejas do mundo, mas não haveria nenhum departamento com a autoridade de tomar ação disciplinadora em questões doutrinais, as quais, quando necessárias, seriam tratadas pelo bispo local. Os bispos da Igreja, e não uma equipe de teólogos em Roma, designados pelo papa e falando em seu nome – é que constituiriam o magistério formal da Igreja. Obviamente, isso significa que estamos falando do fim do Santo Ofício, e mesmo da Cúria, de que haja corpos conciliares em Roma, vivendo lá, representando todas as igrejas do mundo e trabalhando juntos nessas áreas. 

Cada bispo supervisionaria os membros de seu rebanho. Ele teria que prestar especial atenção aos membros intelectuais, carismáticos e ativistas da sua igreja, e teria que exercitar orientação, direcionamento e disciplina pastorais adequadas. O bispo local proibiria a Santa Comunhão para membros que neguem as doutrinas e/ou práticas cristãs que ele e seus irmãos-bispos, com o papa Romano como seu líder, são chamados e consagrados para proclamar e defender. 

Caso um bispo seja acusado de ensinar doutrinas falsas (heresias) ou de se envolver em comportamento imoral, ou de permitir que aqueles sob seus cuidados o façam, ele deve ser julgado pelo sínodo de bispos ao qual ele pertence, isto é, o sínodo regional que irá discipliná-lo ou depô-lo. Em outras palavras, ele não seria julgado diretamente pelo Vaticano ou Roma; a questão será tratada pelo sínodo a que pertence, mesmo que ele seja o presidente do mesmo. Se for culpado do mal-feito, seu próprio sínodo irá discipliná-lo ou depô-lo. Se ele quiser apelar seu caso, ele pode buscar o bispo que exerce a presidência entre as igrejas da sua região, e como último recurso, ele pode apelar ao bispo de Roma, como o mais alto presidente da Igreja, o tribunal de última instância por assim dizer. 

O Papa não teria poder de tomar decisões jurídicas ou jurisdicionais autoritativas, mas exerceria o ministério de intercessão e reconciliação. O mesmo direito de apelação às presidências regionais e mesmo ao bispo de Roma estaria, naturalmente, disponível a todo membro da igreja, clero ou leigo, que fosse acusado de ensino errado ou algum mal-feito. 

O bispo de Roma também deixaria de ser um chefe de estado oficial. Como líder global do Cristianismo, entretanto, ele teria que viver em um lugar com o mínimo de riscos de interferências governamentais e políticas em seu ministério. E isso é muito importante para os ortodoxos, cujos bispos estão sempre sofrendo algum tipo de controle ou tentativa de controle por parte dos países em que vivem. Então diríamos que seria bom se ele não fosse um chefe de estado e vivesse em um lugar com riscos mínimos de interferência governamental e política no seu ministério. O local onde o Papa viveria, e onde as comissões intereclesiásticas e departamentos também estariam localizados, seriam governados por um leigo, designado pela Igreja Romana. Os chefes de estado se relacionariam com o papa apenas enquanto bispo e líder espiritual, e não como chefe de estado. Em outras palavras, ainda existiria um lugar como a Cidade do Vaticano, mas seu líder político e secular seria um leigo, escolhido pela Igreja. Não seria o Papa, que teria uma função especificamente eclesiástica, espiritual, pastoral e doutrinal. 

Como líder dos cristãos do mundo, o papa viajaria bastante. Ele tiraria o máximo proveito dos meios de transporte e comunicação contemporâneos. Ele dominaria a mídia eletrônica para servir seu ministério em proclamar o Evangelho de Cristo, propagando a fé cristã, promovendo o comportamento ético, protegendo os direitos humanos e buscando a justiça e a paz para todos os povos. Ele seria o servo da unidade entre todos os seres humanos, e o primeiro de todos os seus irmãos cristão, não como um episcopus espiscoporum singular (essa é uma expressão de S. Cipriano), não como um bispo de outros bispos, pois não existe um bispo de bispos, como foi decretado no Concílio de Cartago no terceiro século, mas como um igual a todos os bispos. Ele não seria um bispo de bispos, mas seria o primeiro bispo, aquele que o Papa S. Gregório Magno chamou de servus servorum Dei, o servo dos servos de Deus, entre todos os bispos cristãos do mundo. 

Agora, grande boa-vontade, energia e tempo seriam necessários para remodelar o papado para que o Papa de Roma se tornasse o líder mundial do Cristianismo como o bispo cuja igreja preside em amor entre todas as igrejas católicas do mundo que preservam e ensinam a fé ortodoxa. Como papas recentes insistiram, um arrependimento radical também seria necessário, começando por Roma, cujo chamado como primeira entre as igrejas cristãs é de dar o exemplo. 

Certamente também as igrejas ortodoxas deveriam sujeitar-se a muitas mudanças humildantes nas suas atitudes, estrutura e comportamento para entrar em comunhão sacramental com a Igreja Romana e reconhecer sua presidência entre as igrejas na pessoa do papa, seu bispo. Mudanças tremendas também deveriam acontecer na Ortodoxia. 

Os ortodoxos certamente teriam que superar suas querelas internas, a despeito e contra privilégios e poderes eclesiásticos, porque os bispos ortodoxos de hoje mal podem concordar onde devem sentar-se em uma mesa se realizassem um concílio. É um escândalo, de verdade. E os ortodoxos teriam que candidamente admitir suas contribuições pecaminosas para as divisões e falta de união cristãs ao longo da história, e se arrepender sinceramente dessas coisas. Também teriam que abandonar todo desejo e exigência de que outras igrejas se arrependam publicamente de seus erros e pecados passados. Eles teria que estar dispostos a permitir que Deus coloque tudo no passado e no esquecimento pelo amor da realização da reconciliação e reunião dos cristãos no tempo presente. 

Aqui devemos mencionar também a prática de termos igrejas organizadas de acordo com etnias e culturas, como gregos, russos, sírios. Isso teria que ser radicalmente alterado, para ser entendido de forma apropriada. 

Em outras palavras, os ortodoxos teriam que sacrificar tudo exceto a própria fé por amor de construir um futuro comum com cristãos que estejam dispostos e capazes de fazê-lo com eles sob a liderança de um Papa Ortodoxo de Roma. O que precisamos é um Papa Ortodoxo de Roma. Como os católicos romanos e os protestantes, os ortodoxos teriam que estar dispostos a morrer com Cristo para si mesmos em seus interesses pessoais, culturais, étnicos, eclesiásticos e políticos por amor de uma plena unidade com todos que desejam ser salvos pelo Senhor crucificado e dentro da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, a qual é, de acordo com as Escrituras, o Corpo de Cristo, a plenitude dele que completa tudo em todos (Ef. 1:23). A Igreja que é “casa de Deus”, a Igreja do Deus Vivo, o pilar e sustentáculo da Verdade (I Tim 3:15) 

Com a firme convicção de que com Deus todas as coisas são possíveis, podemos ousar imaginar, talvez até fantasiar, com uma unidade global dos cristãos na fé que foi de uma vez por todas entregue aos santos sob a presidência de Igreja Ortodoxa de Roma. 

Era isso que tinha para dizer nesse artigo e o apresento para discussão sobre o que nós ortodoxos gostaríamos de ver na Igreja de Roma ou que precisaríamos ver para poder haver comunhão sacramental. 

Que Deus abençoe nosso caminho, o Deus para Quem todas as coisas são possíveis.

Veja o artigo anterior na série aqui: http://vidaortodoxa.blogspot.com/2015/08/intercomunhao-com-roma-ii-relacao.html

Um comentário:

Israel Castro disse...

Respeito profundamente as posições do padre Thomas, mas o venerável sacerdote exagerou um pouco em alguns pontos. A questão do dogma trinitário poderia estar ausente dessa explanação. A Igreja Católica jamais defendeu a doutrina modalista. Não há um só documento oficial da Sé Apostólica que expresse tal doutrina. Em suas liturgias e em seus catecismos a Igreja Católica historicamente defendeu a fé na Trindade enquanto três pessoas distintas e consubstanciais. Ao mesmo tempo, algumas diferenças apontadas dizem respeito à práxis litúrgica e não à substância da Fé. Um exemplo disso é a questão do santo crisma. Católicos e ortodoxos professam exatamente a mesma fé em relação a este sacramento, distinguem-se entre si apenas quanto à administração do mesmo. Enquanto os ortodoxos administram esse sacramento no momento do batismo, os católicos de rito latino o fazem em momento posterior. Trata-se aqui de tradições diferentes, mas firmadas numa única fé. O mesmo se aplica à questão do tipo de pão empregado na Eucaristia ou ao modo como este sacramento é administrado. Quanto ao dogma da assunção da Virgem Maria, é preciso destacar que sua formulação não afirma que Maria não experimentou a morte. Para ser mais preciso, não chega a entrar nesse tema, mas limita-se a afirmar que a Mão de Deus ao término de sua peregrinação terrestre foi glorificada nos céus. Mesmo as tradições soteriológicas, das duas Igrejas, quando examinadas com cuidado, revelam-se muito mais complementares do que divergentes. Muito mais impactante do que tais diferenças é o fato extraordinário dessas duas grandes Igrejas, mesmo após mil anos de separação, terem conservado substancialmente a mesma fé. Isso é, sem dúvida,s prova de que foram conduzidas pelo mesmo Espírito. O mesmo se aplica às Igrejas em comunhão com o antigo patriarcado de Alexandria, separadas de Roma e Constantinopla desde meados do quinto século. Uma futura união das Igrejas não passará por um processo de assimilação. Não é necessário que a riqueza de uma tradição seja abandonada em favor de outra. As Igrejas sob a jurisdição romana deverão preservar sua tradições e seus cânones. O mesmo deve acontecer em relação às Igrejas Ortodoxas, as quais deverão conservar sua independência eclesiástica e seu patrimônio espiritual milenar. Sem absorção e sem submissão. Apenas comunhão.