segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Intercomunhão com Roma: O Elefante na Sala da Ortodoxia Brasileira


No que diz respeito a artigos recentemente publicados anunciando que alegadamente Sua Santidade, o Patriarca Ecumênico Bartolomeu acreditaria que é possível para os Católicos de Rito Bizantino (Uniatas) terem uma "união dupla", em outras palavras, plena comunhão com Roma e ao mesmo tempo com Constantinopla, o Patriarcado Ecumênico refuta tal sentença incorreta e afirma que ela jamais foi pronunciada. O Patriarca Ecumênico reitera sua posição de que uma união plena da fé é um pré-requisito para a comunhão sacramental.
No Patriarcado, 5 de julho de 2008
Do Secretário-Chefe do Santo Sínodo (Ênfase minha)
Fonte: http://www.ec-patr.org/docdisplay.php?lang=gr&id=952&tla=en


A expressão "elefante na sala" se refere a um problema que todo mundo sabe existir, mas sobre o qual ninguém fala porque ninguém sabe como lidar com ele. Como tirar ele dali sem quebrar nada? Como foi que ele parou ali? Como a coisa é insólita e a solução é complicada, melhor agir como se ele não existisse, ou até encontrando justificativas e racionalizações para ele continuar na sala, mesmo que esbarrando em tudo o tempo todo.

No meio ortodoxo brasileiro, a intercomunhão com Roma é esse elefante na sala. Todos sabem que é errado, e mesmo assim acontece de forma cotidiana, sem questionamento ou justificativa. Aos olhos e ouvidos dos fiéis, não é sequer algo que necessite de explicação, é o "normal" do dia-a-dia. O que soa "estranho" é exatamente a prática normal da Igreja Ortodoxa em todo o mundo, a de não comungar não-ortodoxos, ao ponto que alguns locais até se escandalizam ao ser-lhes sugeridos que é assim.

A maioria sabe que a intercomunhão com Roma é uma prática condenada pela igreja - até alguns de seus defensores. Mesmo assim, as pessoas se calam para não "criar confusão", para "não escandalizar" ou começam a cair naquilo que o bispo romano Fulton Sheen dizia: "Se você não praticar o que acredita, acabará acreditando no que pratica".

Mesmo entre os mais proeminentes defensores no meio ortodoxo por uma possível reunião da Sé Romana com a Igreja Católica Ortodoxa , a intercomunhão é um objetivo final, o resultado dos esforços e diálogos, e não um meio de obter a união. Como dizemos aqui no Brasil, intercomunhão antes de haver união seria como pôr "o carro na frente dos bois".

A resposta mais comum que se ouve, é que se trataria de um ato de "economia", de misericórdia, sugerindo que negar a comunhão a um romano que se aproxima do cálice ortodoxo seria um "radicalismo", adjetivo que poderia ser utilizado também contra o ortodoxo que deixasse de comungar em uma igreja romana. Infelizmente, por tal conceituação, até mesmo um dos maiores promotores dos diálogos com Roma, o Patriarca Ecumênico, seria um "radical".

"A união plena da fé é um pré-requisito para a comunhão sacramental". 

Como a nota do Patriarcado Ecumênico aponta, não faz sentido, e é até profano, imitar o sinal visível da união, sem que esteja presente a substância invisível dela, a comunhão plena de fé. A nota foi dada em resposta precisamente a um artigo que erroneamente sugeria que seria lícito aos católicos de rito bizantino unirem-se eucaristicamente tanto a Roma quanto a Constantinopla, o que levaria a poderem comungar em ambas as igrejas. A resposta do Primeiro-Entre-Iguais é sucinta, em primeiro lugar porque intercomunhão com Roma não é uma questão em debate, ambígua. É conhecimento elementar e comum: é algo que não deve ser feito antes que Roma comungue da fé ortodoxa e o Papa reconheça a autoridade do Sínodo. Em segundo lugar, a nota é breve para não ir além do devido limite de reiterar esse misericordioso ensino, falando em um âmbito diplomático global de coisas bem-sabidas no mundo ortodoxo e que devem ser ensinadas aos visitantes e catecúmenos num ambiente que potencialize o entendimento. Vale ressaltar que se a nota diz que a intercomunhão não é aceitável com católicos de rito bizantino que seguem o mesmo rito litúrgico que nós, quanto mais vale para os católicos latinos.

Sua Eminência, bispo Kallistos Ware, ele mesmo um reconhecido apoiador do diálogo com Roma, escreveu um livro exclusivamente sobre o assunto, e que chama-se "Communion and Intercommunion". Uma das igrejas sob o Patriarcado de Constantinopla, a Igreja Grega de São Jorge, em Chicago, faz um resumo bastante claro da exposição da fé ortodoxa que o bispo Kallistos Ware escreveu em seu livro:
"A unidade da Igreja na Eucaristia não pode ser verdadeiramente manifesta e realizada a menos que estejam presentes, ao mesmo tempo, duas outras formas de unidade: unidade na fé, e unidade no bispo local. Essas três formas de unidades são complementares e interdependentes. Cada uma perde seu significado se divorciada das outras duas. A unidade eucarística, então, pressupõe, em primeiro lugar, a unidade na fé. Isso demonstra-se concretamente em cada Divina Liturgia pelo fato de que o Credo, a exposição da crença, é recitado pelos fiéis logo antes da recepção da Comunhão
Concernente a unidade no bispo, S. Inácio escreveu no início do século II, "Que ninguém pratique as coisas concernentes a Igreja sem o bispo". Ainda hoje, onde quer que o padre presida a Liturgia, ele o faz não por si mesmo, mas como delegado do bispo. É por isso que ele comemora o nome do seu bispo - não como um gesto de cortesia, mas como uma necessidade eclesiológica.
A eclesiologia eucarística implica, portanto, uma unidade tríplice: unidade eucarística, isto é a unidade em um pão e um cálice da Santa Comunhão; unidade dogmática, isto é, unidade em uma só fé; e unidade eclesial, isto é, unidade no bispo.
Portanto, a intercomunhão, ou o partilhamento dos sacramentos entre igrejas que não partilham da mesma fé e/ou bispo é virtualmente impossível. A Bíblia, os Pais da Igreja, e os Santos Cânones só conhecem duas alternativas: comunhão ou não-comunhão. É tudo ou nada. Admitir alguém à comunhão e aceitar a pessoa como membro da igreja são coisas idênticas. A igreja a que pertencemos é conhecida pelo local onde tomamos comunhão, ou onde somos admitidos na comunhão."
Fonte: http://stgeorgegoc.org/pastors-corner/communion-inter-communion

Estas afirmações são confirmadas no documento da Comissão Conjunta Internacional de Diálogo Teológico entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa: "Consequências Eclesiológicas e Canônicas da Natureza Sacramental da Igreja. Comunhão, Conciliaridade e Autoridade Eclesiástica" do encontro de 13 de outubro de 2007 em Ravena, o qual afirma:

"Portanto, assim como a comunhão nos sacramentos pressupõe comunhão na mesma fé (cfr. Documento de Bari, nn.29-33), também, para que haja plena comunhão eclesial, deve haver, entre nossas igrejas, recíproco reconhecimento das legislações canônicas nas suas legítimas diversidades"


Lembrando que esse trecho foi ali colocado para ressaltar que não existem ainda a comunhão na mesma fé, nem o "recíproco conhecimento das legislações canônicas nas suas legítimas diversidades", os quais são pré-requisitos para a comunhão eucarística.

Já o documento de Bari citado ali trata especificamente da questão sacramental. Escrito pela mesma Comissão, mas em 1987, após ressaltar a necessidade de não limitar a fé a repetição mecânica de chavões teológicos, diz: 

"Essa questão* deve ser levantada para evitar uma abordagem deficiente do problema da fé como condição para unidade. Essa questão, porém, não deve ser usada para obscurecer o fato de que a fé é de fato condição, e que não há comunhão sacramental sem comunhão na fé, tanto no sentido mais amplo da palavra, quanto no sentido da formulação dogmática".
* De que a fé é mais do que apego a slogans teológicos.

Fonte: http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/ch_orthodox_docs/rc_pc_chrstuni_doc_19870616_bari_en.html

O documento segue falando sobre a necessidade da união da fé e fazendo comparações de práticas sacramentais, mas sem entrar no mérito de se as igrejas católicas ortodoxa e romana possuem ou não fés diferentes, até porque a própria existência e necessidade de uma comissão de diálogo teológico é efeito e fruto da realidade dessas fés diferentes. Se as fés fossem as mesmas, não haveriam comissões para reunião e diálogos.

Lembremos também o exemplo prático dos hierarcas que subscrevem esses documentos: nas Liturgias e Missas realizadas durante tais encontros, embora membros de cada igreja assistam o ofício de seus colegas, eles *nunca* tomam a comunhão no ofício do outro, porque sabem que suas palavras são declarações de intenção para uma futura reunião de fé, mas não são uma declaração de união de fé. Que contradição haveria se, tendo acabado de dizer que a intercomunhão só pode ocorrer pela união de fé, eles não comungassem juntos depois de escrever o que alguns maus leitores parecem entender como uma confissão de fé conjunta.

São documentos como esse que são usados para acusar de "legalista" precisamente quem, muitas vezes sem nem utilizar documento ou cânone algum, afirmam a tradição da Igreja de que podemos conviver em amor e fraternidade com nossos amigos de outras igrejas, e com eles vivenciar tudo que de fato temos em comum, especialmente a ética cristã em questões como o aborto, eutanásia, drogas, sexualidade, mas que a única coisa que não podemos fazer juntos é precisamente a comunhão eucarística. Não podemos ser aqueles que querem separar-se naquilo em que estamos unidos (questões éticas  e sociais) e profanar símbolos de união naquilo em que não estamos unidos (comunhão eucarística).

Não Chorar, Mas Limpar o Leite Derramado

Existe, porém, o problema do "fato consumado". A intercomunhão com Roma é um fato consumado na Ortodoxia brasileira, ao arrepio do amor aos catecúmenos em passar-lhes a tradição da Igreja ao invés de opiniões teológicas do nosso grupo, ao arrepio dos ensinos dos santos como S. Justino Popovich e S. Paisios, dos documentos dos diálogos intercristãos que reiteram que não existem condições para intercomunhão entre igrejas diferentes por semelhantes que sejam, dos cânones, das admoestações diretas de bispos e dos patriarcas como na nota inicial deste artigo, ao arrepio da misericórdia cristã para com ortodoxos e heterodoxos, mas acima de tudo pela suprema falta de caridade de colocar o nosso clero diante do dilema de ou parecerem "antipáticos" por terem que recusar comunhão a um romano que tenha chegado até o cálice por má-orientação, ou então cometerem o que sabem ser um desvio do terno ensino da Igreja, só para não escandalizar a comunidade que acha que a comunhão é um direito exigível de qualquer um que pertença a Ortodoxia ou Roma. 

Não é um problema fácil, nem rápido de resolver. Certamente não passa por retornar à prática ortodoxa da comunhão apenas para os ortodoxos de forma grosseira e antipática, sem dar explicações. Será um trabalho pelo menos de médio prazo, onde as pessoas primeiro devem ser educadas e informadas de que aceitar a comunhão ortodoxa (ou romana!) significa aceitar todo o ensino daquela igreja, aceitar a autoridade dos bispos daquela Igreja e que, a despeito das nossas muitas identidades e semelhanças, ainda somos igrejas diferentes e que as diferenças de crença sobre as relações das Pessoas e Energias de Deus e da ordem da Igreja são grandes, assim como as de autoridade episcopal ainda são bastante grandes e sérias, que apostolicidade não é pedigree passando "geneticamente" de um para outro pela mera imposição de mãos, mas também é fidelidade a fé ortodoxa, o que falta na Igreja Romana segundo os ortodoxos e falta na Igreja Ortodoxa segundo os romanos. Se a pessoa quer a comunhão ortodoxa, deve lembrar-se que ela é inseparável do batismo e/ou crisma ortodoxos, o mesmo valendo para a comunhão romana, que é inseparável do batismo e/ou crisma romanos. Querer um desses é querer todos.

Já o leigo que visita uma igreja que não é a sua, prática que aliás considero muito salutar, deve ter *respeito* pelo sacerdote e pela tradição daquela igreja não se colocando na fila da comunhão e se impondo ao sacerdote - em alguns casos até mesmo ao bispo - para receber uma comunhão que, se você quisesse de verdade, deveria ser complementada pelo batismo ou crisma naquela igreja. Quando você quer comunhão com uma igreja, tem que se entregar a ela por inteiro e não profanamente frequentar seus sacramentos como quem vai num supermercado pegar apenas o que lhe interessa.

Se já existem os problemas teológicos, consideremos também a questão ética e humana: comungar em uma igreja da qual não somos parte é um grande desrespeito para com essa igreja. Se a pessoa for tentada por um mal aconselhamento de um bom amigo, ou pior, até chamada pelo sacerdote ou bispo da outra igreja a comungar, sem pertencer a essa igreja, também não há cabimento em fazer escândalo ou ser ríspido. Agradeça com um sorriso, fazendo sinal que "dessa vez não, obrigado". Você *pode* e *deve* conjugar sua fidelidade com o respeito humano.

No caso dos ortodoxos que vivem onde não há nenhuma igreja ortodoxa, a prática ortodoxa não é de forma alguma passar a frequentar, ou pior, comungar, em uma igreja romana, mas montar um "cantinho dos ícones" e adotar uma regra de oração, com horários e dias determinados, se possível com orientação de um pai espiritual ortodoxo. E, mesmo que apenas uma vez por ano, peregrinar até a paróquia ortodoxa mais próxima para comungar lá, e apenas lá.

Normalmente, é um pecado não frequentar a comunhão se estiver preparado e houver uma igreja acessível. Mas, por economia, não se utiliza o mesmo rigor no caso de uma pessoa que more em um local sem igrejas. Inclusive, se for realmente inviável, Deus não terá sua falta em conta de pecado. Isso sim é que é economia, e não desvirtuar a pessoa para uma prática não ortodoxa. De nossa parte, se queremos ajudar essas pessoas, temos que providenciar traduções de regras de oração feitas para pessoas que não tem acesso a liturgia e facilitar e baratear o acesso a ícones, incensos e demais objetos de devoção doméstica.

Akrivia (Regra seguida de forma rigorosa)Comungar sempre que preparado através da oração, jejum e confissão. 
Economia (Flexibilização da regra em face de circunstâncias de exceção)
Na falta de paróquias ortodoxas acessíveis, regra de oração doméstica e peregrinação quando possível a uma igreja ortodoxa mais próxima. Assim como em outros casos similarmente excepcionais, a não participação no sacramento não é tida em conta de pecado simplesmente porque está além das possibilidades do fiel fazê-lo. Em caso de morte sem nenhum padre ortodoxo para ministrar os sacramentos, temos algo similar aos catecúmenos que morriam nas arenas sem receber o batismo. Seu martírio era considerado seu batizado, mas nenhum deles pediria o batismo de um sacerdote ariano ou nestoriano que estivesse ali do lado. Da mesma forma, na falta de um sacerdote ortodoxo para ministrar o sacramento e diante da morte imediata e de um desejo sincero pelo sacramento, Deus certamente terá a pessoa em conta como se o tivesse recebido em vida.
Desvio (Abandono ou distorção da regra)Na falta de igrejas ortodoxas ou sacerdotes ortodoxos intercomunhão com Roma ou outras heterodoxias. Roma emitiu unilateralmente uma permissão de que seus fiéis, no caso excepcional de falta de acesso a uma igreja romana, possam comungar em igrejas ortodoxas. A Igreja Ortodoxa, por outro lado, como mostra esta série de artigos, jamais assinou algum acordo ou produziu algum testemunho de que ela concordava com isso ou que dava permissão a romanos de comungarem nela. Ao contrário, a intercomunhão é reiteradamente denunciada como o pecado que é quando praticada antes da união das igrejas.



Quanto aos romanos que se aproximam do cálice, uma comunidade que venha ao longo dos anos sendo bem informada na prática ortodoxa do respeito à própria comunhão e à comunhão das outras igrejas, será a melhor educadora desses bem-vindos visitantes. As expectativas deles são geradas pelo que eles ouvem dos seus amigos e parentes ortodoxos, o que por sua vez depende o que eles (que somos nós) fazemos e aplicamos na nossa vida.

Posso garantir, por minha própria experiência com catecúmenos e muitas orientações que dei ao longo dos anos que 1) ninguém desiste de tornar-se ortodoxo por causa das explicações acima. Não precisamos sacrificar a verdade para manter as pessoas na igreja; 2) a pessoa se torna um ortodoxo mais firme na fé, aprende a respeitar e até a crescer espiritualmente com o que há de bom nas igrejas heterodoxas (e é muita coisa!), trabalhando com elas naquilo que de fato temos em comum (ética por exemplo) quando necessário, sem desrespeitar as outras igrejas, nem a sua própria; 3) pessoas que amam pertencer a igreja romana agradecem por alguém ter-lhes explicado a diferença, evitando assim que sem querer, abandonassem a igreja de sua fé. E continuam visitando a igreja ortodoxa mesmo assim. 

Para finalizar, acrescento que a maioria que pratica intercomunhão o faz simplesmente porque "sempre foi assim" aqui no Brasil. Não existe uma substancial revolta contra o ensino da Igreja, ou algum tipo de má-intenção. Quando muito, uma compreensão bastante "abrasileirada" do conceito de economia e misericórdia, onde a nossa tendência natural a sermos inclusivos, fraternais e adaptáveis acaba por nos levar ao excesso de zelo para não escandalizar as pessoas. 

Aos que temem que afirmar tais divergências são um problema para o esforço do retorno de Roma à comunhão Ortodoxa, concluo como iniciei, com as palavras de Sua Santidade Patriarca Ecumênico Bartolomeu:

"Até mesmo a descoberta de discordâncias nos impele à busca da concordância".

Pronunciamento de Sua Santidade Patriarca Ecumênico Bartolomeu à Delegação da Igreja de Roma na Festa Tronal do Patriarcado Ecumênico, Fanar, 30 de novembr de 2012

Ao que reitero: é apenas tendo clara consciência de como e onde estamos separados, e expressando isso  de forma sincera e respeitosa em atos, é que haverá qualquer esperança de reunião.

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