Eu fico um pouco triste por ver que nossa sociedade entende o arrependimento como uma forma de fraqueza.
"Eu não me arrependo de nada" é um slogan de uma sociedade que morre de medo da dor de compreender seus próprios erros, que se acovarda perante a necessidade de reconhece-los publicamente, e se atemoriza diante do esforço para corrigir o que puder ser corrigido.
Só que sem arrependimento, inclusive dos erros que nos foram prazerosos, dos erros que nos ensinaram algo, dos erros que no fim "trouxeram coisas boas", sem sentirmos a dor aguda dos desvios mesmos quando estes nos beneficiaram de alguma forma, nossos olhos jamais verão a verdade, nosso caráter, personalidade e atitude jamais serão autênticos, porque ao invés de lermos a narrativa da nossa vida tal como ela se apresenta, impomos-lhe um sentido que consideramos mais digno e honrado, ou de alguma forma mais desejável.
Antes da vinda de Jesus Cristo - o Caminho, a Verdade e a Vida - tínhamos João Batista que bradava "Arrependei-vos! Endireitai os vossos caminhos!" O arrependimento, o reconhecimento do desperdício de tempo e energia de vida no que era errado, o reconhecimento de que até o que foi "bom para mim" é ruim quando não é harmônico com os caminhos do Senhor, e sentir dor com isso, é condição incontornável para amarmos e sermos amados de verdade.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
domingo, 6 de janeiro de 2013
Sobre Ser Feliz
Desde a época de João Batista até o presente, o Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam.
Mateus 11:12
Eu vim lançar fogo à terra, e que tenho eu a desejar se ele já está aceso?
Lucas 12:49
Porque nosso Deus é um fogo devorador.
Hebreus 12:29
Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.
Apocalipse 3:16
Existe uma felicidade "morna" e que é falsa. Trata-se de uma felicidade que alguns chamam de burguesa mas acomete também os pobres e os bilionários além da burguesia. É a felicidade da ausência de problemas, da "paz" que no trajeto do herói é uma das tentações que podem fazê-lo desviar-se da jornada heroica se ele não resistir. Não viemos ao mundo para uma vida de mais ou menos. Viemos para felicidade esfuziante, e para isso, às vezes, temos que abdicar do que é meramente "certo" no sentido de que não causa problemas, para até, se for o caso, comprar brigas e problemas em uma estrada mais gloriosa e brilhante.
Estava ouvindo uma das aulas do Seminário de Filosofia do Olavo de Carvalho e ele cita o Louis Lavelle que diz algo mais ou menos assim, que temos que nos afastar até do círculo das pessoas com quem cultivamos simpatias e empatias naturais para conviver com aquelas com quem teremos a oportunidade de realizar nossas verdadeiras vocações espirituais, ou seja, realizar a nós mesmos, nos tornarmos aquilo para que Deus nos criou. Podemos combinar isso com a primeira citação do Lavelle que o Olavo fez, sobre apenas em momentos isolados termos perfeita clareza do sentido de tudo na nossa vida e que de ordinário nossos sentimentos e visão se fecham para isso e somos envoltos novamente nas trevas. Manter a memória desses momentos, mesmo apesar do cinismo que diz que eles são ilusões, mesmo apesar da dor que nos causa não os termos conosco e nos seduz a racionalizarmos que podemos ficar sem dor se apenas desistirmos dessa felicidade esfuziante é um exercício constante, e que só pode ser realizado precisamente com aquelas tais pessoas com quem podemos realizar nossa vocação espiritual. A felicidade morna não se sustenta e necessariamente se desfaz, decaindo novamente no inferno como vemos na citação do Apocalipse acima. O "violento" é o que luta pelo Reino de Deus, a grande felicidade na nossa vida, para viver uma vida de fogo e intensidade. É necessário resistir à tentação da felicidade morna para conquistarmos a felicidade brilhante.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Asceticismo e a Sociedade Livre
por DYLAN PAHMAN
Na última sexta-feira tive a oportunidade de apresentar um trabalho na conferência anual do Instituto Sophia, no Union Theological Seminary. O tópico deste ano era "Casamento, Família, e Amor na Tradição Ortodoxa". O título do meu trabalho foi "O que constitui uma sociedade?" e focava, no contexto do casamento e da família, no desenvolvimento de uma resposta cristã ortodoxa para a questão. As respostas católico-romanas e neo-calvinistas, respectivamente subsidiariedade e esfera de soberania, embora não mutuamente exclusivas, recebem atenção frequente no PowerBlog, mas, até onde sei, nenhuma resposta ortodoxa foi claramente articulada, e por isso pode ser difícil saber onde começar. Estou convicto, porém. que, conforme o tópico da minha pesquisa, que uma resposta ortodoxa historicamente razoável para essa questão pode ser encontrada no conceito de asceticismo, corretamente entendido.
Embora eu não vá reproduzir meu trabalho aqui, pretendo resumir brevemente dois de seus pontos fundamentais que podem ser de interesse geral. Primeiramente, o que é asceticismo? Em segundo lugar, como pode o asceticismo ser visto como um princípio organizacional da sociedade? Finalmente, tenciono explorar rapidamente a relevância deste princípio para uma sociedade livre, tema que vai além do escopo do meu trabalho.
Considerando a primeira questão, é muito importante reconhecer que existem muitas formas de asceticismo. A palavra vem do grego "askesis" e significa basicamente "exercício". Aplicada a nossas vidas espirituais, possui a conotação de recusar confortos para o corpo com o fim de treinar nossas almas através de oração, jejum, doação de esmolas, etc. Mais frequentemente, entretanto, as pessoas lembram apenas dos sentidos negativos quando escutam a palavra, como, por exemplo, o tipo de asceticismo que S. Paulo denuncia na Epístola aos Colossenses dizendo:
Se em Cristo estais mortos aos princípios deste mundo, por que ainda vos deixais impor proibições, como se vivêsseis no mundo?
Não pegues! Não proves! Não toques!,
proibições estas que se tornam perniciosas pelo uso que delas se faz, e que não passam de normas e doutrinas humanas.
Elas podem, sem dúvida, dar a impressão de sabedoria, enquanto exibem culto voluntário, de humildade e austeridade corporal. Mas não têm nenhum valor real, e só servem para satisfazer a carne.
Colossenses 2:20-23
O problema com este tipo de asceticismo era que ele confundia os meios com os fins. As disciplinas ascéticas (oração, jejum, esmolas, simplicidade, etc) não são um fim em si mesmas, não para o cristão ao menos. A atitude correta pode ser vista em muitos dos ditos dos pais do deserto, nos quais, por exemplo, eles criticam os que recusam hospitalidade em nome do jejum.
Ao invés, de acordo com S. Moisés, o Etíope, estas disciplinas "devem ser degraus de uma escada na qual o coração ascende ao perfeito amor". E de acordo com o Pe. George Florovsky, "o verdadeiro asceticismo é inspirado não pelo desdém, mas pelo desejo de transformação". O corpo não é visto como algo mau e que merece ser mal-tratado, mas como um instrumento para melhorarmos nossas almas, exercitando-nos nas virtudes e, em última instância, no amor. É o meio pelo qual mortificamos nossos membros na terra e colocamos nossas mentes nas coisas que são de cima (cf. Colossenses 3:1-11). Desta forma, o asceticismo cristão tem, na verdade, uma visão excepcionalmente elevada do corpo: ele não é mau, nem sem valor espiritualmente, mas essencial para nosso desenvolvimento espiritual.
Mas como pode o asceticismo, de ordinário associado exclusivamente com monges e místicos, ser um princípio social? Como escrevi em meu trabalho,
Podemos confirmar isto refletindo nos hábitos cotidianos da família. Não chamamos de disfuncional a família na qual as crianças podem comer sorvete no café-da-manhã, onde a família não passa nenhum tempo juntos voluntariamente, e a desobediência nunca é disciplinada? Não chamamos, com razão, de irresponsáveis os pais que abandonam seus filhos, recusando-se a sacrificarem-se para prover a eles, e que, ao invés, buscam uma existência egoísta? Famílias saudáveis, por outro lado, têm refeições juntas de acordo com as limitações dietéticas auto-impostas ("coma seus legumes, depois pode comer a sobremesa", por exemplo); eles compartilham espaços e tempo uns com os outros; os pais sacrificam seu tempo e desejos para trabalhar para prover para seus filhos; os filhos tem o dever de realizar tarefas domésticas para contribuir com a casa, e assim por diante. A sociedade simplesmente não "funciona" sem a auto-renúncia ascética.
Em meu trabalho, clarifico: "É verdade, tal asceticismo pode ser considerado leve por qualquer padrão e não a corporificação perfeita do ideal, mas o princípio básico deve, mesmo assim, estar presente." Compreendido desta forma, não há sociedade que possa sobreviver sem algum grau de asceticismo.
Eu acho esta perspectiva particularmente adequada à tradição ortodoxa porque ainda existe uma expectativa de que todos pratiquem o asceticismo em certa medida. Quartas e sextas são dias de jejum, e os períodos do Advento e da Quaresma, entre outros, são épocas nas quais maior ênfase é dada, não apenas ao jejum, mas também à oração, esmolas, simplicidade, arrependimento, etc. O asceticismo intencional é ainda um elemento fundamental do ethos ortodoxo, e a tradição ortodoxa está cheia de sabedoria sobre o modo ascético de vida.
Tudo isto está bem e é bom, mas o que significa para uma sociedade livre? De acordo com Edmund Burke,
A sociedade não pode existir, a menos que um poder que controle a vontade e o apetite seja colocado em algum lugar, e quanto menos exista interiormente, mais dele existirá exteriormente. Está ordenado na constituição eterna das coisas, que homens de mentes intemperantes não podem ser livres. Suas paixões forjam seus próprios grilhões.
O asceticismo é historicamente o meio pelo qual os cristãos esmerilham-se, em cooperação com a Graça, para colocar um "poder que controle a vontade e o apetite". Quanto mais autodomínio as pessoas tiverem dentro de si, mais limitado o governo delas pode ser. Quanto mais austeras as próprias pessoas forem, mais terão para dar ao próximo, reduzindo a necessidade de assistência do governo. É assim que a austeridade no governo requer uma cultura de austeridade e generosidade.
Em nossa nação hoje em dia (o autor refere-se aos EUA), ambos são largamente necessários. Temos um problema com o débito que apenas se torna maior a cada dia, e uma parcela significativa disto é devido a termos realizado promessas às gerações futuras que não podemos realisticamente manter se nossas atitudes e práticas em relação a dívidas e déficits não mudarem. Estamos, ao mesmo tempo, prometendo às nossas crianças todo tipo de direitos, muitos dos quais louváveis e que valeriam preservar, mas os quais, postos todos ao mesmo tempo, são economicamente insustentáveis em nosso atual estado. Se quisermos que nosso governo torne-se mais austero em prol da responsabilidade fiscal - e devemos querer isso - então também temos que encorajar uma cultura mais ascética, na qual a austeridade é realizada por generosidade e amor, ou seja, o verdadeiro asceticismo. O asceticismo deve ser visto como um modo de vida, que mantém a sociedade coesa, e por meio do qual somos verdadeiramente livres. De outra forma, seremos prisioneiros de nossas paixões que "forjam nossos grilhões", e precisaremos apenas olhar no espelho para sabermos a quem devemos culpar.
Original em inglês: http://blog.acton.org/archives/46707-asceticism-and-the-free-society.html
domingo, 23 de dezembro de 2012
O Mistério do Natal
Com seu nascimento em uma humilde manjedoura, o Criador de Todas as Coisas, inicia a consumação do seu amoroso plano de salvação da humanidade. Descendo da Eternidade para o mundo físico, Jesus se torna um de nós, um ser de carne e histórico. E por que o Filho de Deus faria isto? Não poderia ele em sua onipotência realizar nossa Salvação sem submeter-se às dores da carne, sem os suores, as ingratidões, infâmias, traição e morte que viriam em seguida? Não é Deus o Senhor, cuja Palavra fez existir todo o universo e um mero sopro tornou um boneco de barro em uma criatura viva e inteligente à sua própria imagem e semelhança? Qual é o mistério da Encarnação do Filho de Deus no Natal?
A resposta, meus caros, é que realmente Deus não estava e não está forçado por nenhuma necessidade ou imperativo para realizar o que fez e ainda faz hoje em dia, pois nada há maior do que Ele. Sendo assim, em absoluta liberdade para fazer outra coisa que não nos salvar, ou realizar a salvação sem dor alguma para si, Deus escolhe encarnar-se como um de nós, exclusivamente por amor. Os ensinos, o que aprendemos do exemplo, tudo isso, por importante que seja, é secundário em face da experiência intensa do amor de Deus por nós, iluminando nossos corações e almas. Deus não veio apenas para ensinar, apenas para profetizar, apenas para educar. Veio para amar. Amar os que iriam amá-lo de volta, amar os que não o compreenderiam, amar até os que iriam odiá-lo. De fato, diz-nos a Santa Escritura que Ele já nos amava quando nós o odiávamos. E odiamos a Deus quando queremos fazer as coisas a nossa maneira, quando queremos que Ele apenas subscreva a nossa vontade como se fosse um mordomo dos nossos desejos. Mas Ele nos ama primeiramente, mesmo assim, pois o Amor verdadeiro não ama virtudes, qualidades, histórias, que nada mais são que abstrações, por belas que sejam. Ama pessoas concretas, seres humanos inteiros, ama-os mais que às suas virtudes e a despeito de seus defeitos.
O Amor de Deus é o amor verdadeiro. Não é um sentimento. Não se satisfaz em sentir amor, não é uma história romântica que montada na cabeça fica aguardando as pessoas que melhor vão interpretar os papéis pré-determinados no roteiro imaginado e que, por vezes, tentamos fazer acontecer "na marra". Não é a expectativa de um bem-estar ou de conforto. O Verdadeiro Amor, como vemos no nascimento de Cristo é união, presença intensa, doação, pois ali a natureza humana e a natureza divina unem-se, sem mistura e sem perder suas peculiaridades, na pessoa de Jesus Cristo, o Qual, por isto, é chamado de completamente Deus e completamente Homem, dupla natureza que representamos com os dois dedos dobrados durante o sinal da Cruz.
Mencionei antes que o Amor verdadeiro não acontece "na marra", por mera força do querer através de ações impositivas. Deus é onipotente, porém Ele não nos obriga, nem mesmo a vivenciarmos seu Amor se não quisermos, muito menos nos força a amar outras pessoas. Sabemos disso através de outra consumação da perfeição, esta perfeição já relativa e humana, que é a presença doce, humilde e majestosa da jovem Maria, Nossa Senhora, a Teotókos. Maria ali representa toda a humanidade. Deus não a força a participar de seu plano. Deus não aparece impondo-se em toda Seu poder infinito. Ao contrário, Ele envia um amigo, um anjo, para levar à Maria um pedido: "Eu gostaria de fazer isto, por amor de todos vocês. Você me permite?" Vejam, amigos que é o "Senhor dos Exércitos", o Criador, Deus Poderoso, Luz do Mundo, Primeiro e Último, Rei das Nações, Senhor da Glória,o Sol Nascente, O Senhor dos mortos e dos vivos, O Eterno forte e poderoso, o Eterno poderoso na batalha, O Sol da justiça, O justo juiz dos vivos e dos mortos, que, diante de uma moça de 14 ou 15 anos, gentilmente pede-lhe permissão de executar a Salvação de todo o universo, simplesmente porque todo ato de amor começa com uma escolha em liberdade. Para a realização do amor, da união de Deus com a Humanidade, o "sim" livremente escolhido é a porta de entrada. Assim como pelo "não" de Eva toda a humanidade caiu, pelo "sim" de Maria todos nós fomos salvos. É o Inimigo quem tenta enredar suas vítimas com palavras e atos envolventes, forçando situações e sentimentos. É este Inimigo que busca que sua vontade e desejos realizem-se "na marra". Isto não é amor. O Amor começa com o "sim" de Maria, cresce na união, na presença, na participação na vida do amado, como Jesus participou da nossa vida, comendo, bebendo, crescendo, trabalhando, suando, ferindo-se, conhecendo nossas alegrias e nossas dores. E consuma-se, como veremos mais tarde, na entrega total da vida, novamente voluntária e por livre escolha como Jesus fez na Cruz, transfigurando assim, a própria escuridão da morte em Vida ressuscitada, luminosa e eterna.
Digamos sim com Maria para a vontade de Deus em nossas vidas, para que Cristo Deus, nasça na manjedoura de nossos corações, iluminando os animais que ali habitam e representam nossos instintos; iluminando São José, ancião protetor da jovem menina e que representa a fé, a honradez e nossas virtudes; recebendo a visita dos pastores que representam a humildade; recebendo a visita dos anjos e que representam a graça de Deus; e a visita dos Reis Magos, que representam a sabedoria, a inteligência, a riqueza e o poder que se curvam em adoração obediente perante o Menino Deus.
Digamos sim com Maria para a vontade de Deus em nossas vidas, para que Cristo Deus, nasça na manjedoura de nossos corações, iluminando os animais que ali habitam e representam nossos instintos; iluminando São José, ancião protetor da jovem menina e que representa a fé, a honradez e nossas virtudes; recebendo a visita dos pastores que representam a humildade; recebendo a visita dos anjos e que representam a graça de Deus; e a visita dos Reis Magos, que representam a sabedoria, a inteligência, a riqueza e o poder que se curvam em adoração obediente perante o Menino Deus.
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domingo, 9 de dezembro de 2012
A Transfiguração da Criatividade
A transfiguração da criatividade não é apenas uma espera ou prelúdio da transfiguração vindoura; é em si mesma sua precedência, seu início real. E pela força desta criatividade, dentro das fronteiras da história, o supra-histórico é alcançado, quer dizer, aquilo que ultrapassa estas fronteiras da história. Isto aplica-se em primeiro lugar à alma do homem, e realiza-se mais vividamente na adoração divina, prementemente na adoração Eucarística, na qual o tempo misteriosamente dissolve-se na eternidade. Mas, de certa forma, isto também se aplica a toda criatividade do homem.
O resultado é uma certa justificação por um tipo de indiferença às coisas terrenas que não podem e não devem possuir dimensões eternas, e que, por consequência são "vãs" e "fúteis" na perspectiva escatológica. Nisto encontra-se a antinomia fundamental da atitude cristã para com a história e a cultura. Pois o Cristianismo é essencialmente histórico, e a história lhe é um process
o sagrado. E, ao mesmo tempo, o Cristianismo pronuncia um julgamento (uma condenação), sobre a história, é em si mesmo uma abolição da história. Pois a plenitude será alcançada na abolição de toda história, através do fim do tempo. Não como resultado de uma sequência de gerações, mas através da restauração de tudo o que morreu.
Tudo isso implica na abolição de toda cultura - pelo menos em tudo que nela há de histórico - não, porém, por rusticidade ou incultura, pois, se assim fosse, significaria uma perda de energia espiritual. A cultura é abolida pelo amor de algo maior e mais alto "que não pode ser contido por orlas terrenas". Portanto a cidade "terrena" perde seu significado pois "buscamos a que está por vir". Pois o Cristianismo é "boa nova" e uma expectativa do fim, consumação e recapitulação, anastasis e apokatastasis.
Pe. George Florovsky em "Asceticism and Culture in the Later Eastern Church (Fragments)"
Tudo isso implica na abolição de toda cultura - pelo menos em tudo que nela há de histórico - não, porém, por rusticidade ou incultura, pois, se assim fosse, significaria uma perda de energia espiritual. A cultura é abolida pelo amor de algo maior e mais alto "que não pode ser contido por orlas terrenas". Portanto a cidade "terrena" perde seu significado pois "buscamos a que está por vir". Pois o Cristianismo é "boa nova" e uma expectativa do fim, consumação e recapitulação, anastasis e apokatastasis.
Pe. George Florovsky em "Asceticism and Culture in the Later Eastern Church (Fragments)"
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Patriarca Bartolomeu I sobre o Filioque
Patriarca Ecumênico:
"Com o Filioque, novas cacadoxias, cismas e heresias foram criadas"
Fonte: "Orthodox Press" - 5/11/2010
http://www.oodegr.com/english/papismos/filioque_cacodoxies.htm
O Patriarca Ecumênico Bartolomeu realizou uma visita oficial e pacífica ao Patriarca da Romênia.
Durante sua visita, ele participou e dirigiu-se ao Santo Sínodo do Patriarcado da Romênia.
Durante sua fala, e depois de referir-se às relações do Patriarcado Ecumênico com o Patriarcado da Romênia, ele disse o seguinte entre outras coisas:
"O Santo Primeiro Sínodo Ecumênico de Niceia da Betânia foi convocado, como sabemos, com o propósito de confrontar a horrenda e blasfema heresia do Arianismo.
O território de Wallachia havia sido igualmente afligido pela calamidade ariana, e mesmo dois bispos da Wallachia - Ursacius e Valens - tinham aceito a heresia e se tornado lobos selvagens ao invés de pastores. Mas felizmente, existiam de fato bons pastores - como existiam em toda a Igreja, que permaneceram vigilantes pelo rebanho das ovelhas racionais de Cristo - e firmes defensores da fé Ortodoxa. Entre eles estava o Bispo Teófilos de Dakia, que foi um dos 318 Santos Pais do 1o. Sínodo Ecumênico e um dos signatários de suas decisões. Subsequentemente, a Igreja romena acrescentou razões para comemorar festivamente o aniversário conduzido.
Os 318 Pais não eram meros bispos ou clérigos. Eram verdadeiros portadores-de-Deus; eles tinham Cristo habitando em seus corações e o Espírito Santo completava sua existência. Eles haviam transcendido o estágio da catarse (purificação), já haviam subjugado todas as paixões repreensíveis e tinham recebido a iluminação divina, que lhes deu o potencial de discernir entre a verdade e a falsidade; entre a luz e as trevas, entre a vontade divina e a vontade do astucioso. Eles foram ricamente agraciados com os frutos do Espírito, "toda bondade, justiça e verdade"(Ef. 5:9). Eles já eram portadores-de-Deus. Era precisamente neste detalhe que eles diferiam de Ário e de todos os hereges, que queriam fazer teologia sem os pre-requisitos da santidade pessoal e que inevitavelmente naufragavam nas obscuras profundezas da ilusão, tagarelando sobre assuntos divinos e não teologando.
Quando Atanásio, o Grande, falou, ele pronunciou as palavras de Deus, O Qual habitava em seu coração. É por isso que o termo "homoousios" (consubstancial) não foi algo inventado por ele, mas uma informação inerrante dada pelo Espírito Santo. Quando Santo Espiridião realizou o milagre com o fragmento de cerâmica, foi o Deus Triuno Quem interviu. Quando São Nicolau confrontou a blasfêmia de Ário de forma veemente e militante, era o próprio Deus quem estalava a chibata da ira de Seu, normalmente desapaixonado, bispo.
É nas pessoas dos Pais que constituíram o Santíssimo Sínodo Patrístico, que temos o exemplo perenial da Teologia inerrante e do precioso arquétipo de um genuíno pai e professor. O 1o Santo Sínodo escreveu - caros irmãos - o primeiro Símbolo da Fé, o qual foi mais tarde completo pelo 2o Santo Sínodo Ecumênico de Constantinopla em 381, com seus 5 últimos artigos. Ambos os santos sínodos serviram ao mais sagrado e nobre propósito na vida dos Cristãos, que não é outro senão a unidade, a concordância na paz da Igreja.
Através de sua determinação dogmática, a qual está sucintamente cristalizada no Símbolo sagrado, eles delinearam o "básico" da fé ortodoxa, cuja transgressão coloca o que ousa perpetrá-la, fora do corpo da Igreja.
No Fanarion, no antigo hall de conferência de nosso Santo e Sagrado Sínodo do Patriarcado Ecumênico, entre outros temas representados, está artisticamente inscrito em nossas quatro paredes o Credo Niceno-Constantinopolitano, o qual claramente denota - na semelhança com um círculo de fogo - aquele "básico" que ninguém pode pensar em ignorar ou contornar.
Bastou, muito tempo depois, a adição de uma única palavra, o conhecido "filioque" para criar novas cacadoxias e cismas e heresias, as quais, até hoje aprisionam a cristandade ocidental longe do Oriente Ortodoxo.
Como observado muito inteligentemente por um teólogo contemporâneo, o Símbolo é um estandarte espiritual, e estandartes têm a missão de unir pessoas de grupos de pensamentos afins, sob ideais comuns. Nós, portanto, que reverentemente cremos em Cristo, nos encontramos sob o estandarte do sagrado Símbolo Niceno-Constantinopolitano que proclama em alto e bom som Quem é o Deus Vivo, Sua Providência por amor de nós, qual é a verdadeira Igreja e qual é a esperança daqueles que crêem.
Nos tempos antigos, o Certificado de Batismo emitido por certas províncias do Patriarcado Ecumênico costumavam ter impressas em circuferência à volta do documento, todo o Sìmbolo, que atuava como conveniente lembrança para o batizado, sobre a verdade salvífica.
E é esta fé salvífica e precisa que somos chamados, nos dias presentes, a preservar sem adulterações e sem danos como um item valioso, assim como devemos vivê-lo em nossas práticas diárias, seguindo nos passos dos Pais Portadores-de-Deus e todos os Santos ao longo dos tempos."
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
A Igreja Ortodoxa e a Imaculada Conceição
Nesta entrevista, Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico de Constantinopla, comenta o dogma latino da Imaculada Conceição.
Entrevistador:
A Igreja Católica celebra neste ano o aniversário de 150 anos da proclamação do dogma da Imaculada Conceição. Como a tradição cristã bizantina e oriental celebram a Concepção de Maria e sua completa e imaculada santidade?
Bartolomeu I:
A Igreja Católica considerou ser necessário instituir um novo dogma para a Cristandade mil e oitocentos anos depois da aparição do Cristianismo, porque ela aceitou um entendimento do pecado original – equivocada para nós Ortodoxos – segundo o qual o pecado original transmite uma mácula moral ou um responsabilidade legal aos descedentes de Adão, ao invés da abordagem reconhecida como correta pela fé Ortodoxa de que o pecado transmite a herança da corrupção, causada pela humanidade ter separado-se da graça incriada de Deus, o que o fez viver espiritualmente e na carne. A humanidade, moldada da imagem de Deus, com a possibilidade e o destino de ser semelhante a Deus ao escolher livremente o amor a Ele e a obediência aos Seus mandamentos, pode, mesmo depois da queda de Adão e Eva, tornar-se amiga de Deus em intenção; então Deus nos santifica, assim como santificou muitos dos progenitores antes de Cristo, mesmo que a plena realização do resgate da corrupção, isto é, sua salvação, tenha sido atingida depois da encarnação de Cristo e através dEle.
Consequentemente, de acordo com a fé ortodoxa, Maria, a Santíssima Mãe de Deus não foi concebida isenta da corrupção do pecado original, mas amou a Deus acima de todas as coisas e obedeceu a seus mandamentos, assim recebendo a santificação de Deus através de Jesus Cristo que encarnou-se a partir dela. Ela O obedeceu como uma dos fiéis e se dirigiu a Ele com a confiança de uma mãe. A santidade e a pureza dela não foram maculadas pela corrupção, que ela recebeu do pecado original como todo ser humano, precisamente porque ela renasceu em Cristo como todos os santos, santificada acima de todos os santos.
Sua restituição à condição anterior à da Queda não aconteceu necessariamente no momento da concepção. Acreditamos que aconteceu depois, como consequência nela do progresso da ação da graça divina incriada, na visitação do Espírito Santo, que causou a concepção do Senhor nela, purificando-a de toda mácula.
Como já dito, o pecado original manifesta-se nos descendentes de Adão e Eva como corrupção, e não como responsabilidade legal ou mácula moral. O pecado trouxe corrupção hereditária e não uma responsabilidade legal hereditária, ou uma mácula moral hereditária. Consequentemente, a Panaguia foi vítima da corrupção hereditária, como toda a humanidade, mas com seu amor por Deus e com sua pureza – compreendida como uma dedicação imperturbável e sem hesitação no amor por Deus – ele conseguiu, pela graça de Deus, santificar-se em Cristo e tornar-se digna de ser a casa de Deus, como Deus deseja que todos nós seres humanos sejamos. Portanto, nós na Igreja Ortodoxa honramos a Toda-Santa Mãe de Deus acima de todos os santos, embora não aceitemos o novo dogma da sua Imaculada Conceição.
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